REFLEXÕES

Mural de Opúsculos de Meditação

1/8/2020: O CRUZEIRO NA QUIMBANDA - Fernando de Ligório

Como um adendo as últimas reflexões sobre os Reinos da Quimbanda (entradas de 17/6/2020 e 11/7/2020), respectivamente o Reino dos Cruzeiros e o Reino das Almas, a presente reflexão foi extraída de uma instrução da O.N.Q.

    Na feitiçaria tradicional brasileira o cruzeiro é um dos símbolos mais importantes, porque ele representa a meta da deificação da alma, a marcha do desenvolvimento espiritual. Ao feiticeiro-kimbanda o Cruzeiro, portanto, é um símbolo do destino de sua alma, e que desperta no seu interior o calor ígneo do fogo serpentino; e seu significado fundamental na tradição de Quimbanda e dar direção às almas. Diferente da encruzilhada (que se trata do entrecruzamento de planos e vibrações), o cruzeiro dá passagem e direção às almas. Por outro lado o cruzeiro, assim como a encruzilhada, representa um portal de acesso ao mundo espiritual, permitindo a comunicação e o acesso entre planos.

   No Séc. XVI, quando as feiticeiras condenadas pelo Santo Ofício de Portugal foram exiladas em nossa terra, o Brasil também importou um intricado ritual católico ibérico de direcionamento das almas, a Encomendação das Almas.

A procissão das almas ou pelas almas faz parte de um devocionário masculino, típico das áreas rurais mais remotas. Entrou em extremo desuso ao longo das últimas décadas do século XIX e hoje é mais uma peça folclórica do que uma verdadeira devoção. A procissão poderia acontecer nas segundas-feiras, dia das almas ou nas sextas-feiras, dia de penitências e de muito misticismo para o imaginário católico popular. Ela consiste em um grupo masculino que percorre as ruas e as estradas dos povoados do interior, vestidos de túnicas brancas e cobertos por capuzes branco em forma de cone, com orifícios para os olhos. Ao longo do caminho, vão se lamentando entre rituais de flagelação e suplícios. Tocam matracas, campas e tambores. Cantam hinos populares de devoção às almas do purgatório e rezam pedindo a Deus e aos santos a libertação das almas sofredoras. As vozes são soturnas e cavernosas e a presença ou o olhar de crianças ou de mulheres é expressamente proibido, sob pena de serem assombrados. Param diante das igrejas, dos cruzeiros e dos cemitérios, onde cantam mementos e ladainhas, além de se flagelarem. Aqueles que os ouvem, devem se manter por traz das portas e janelas que permanecem fechadas. Carregam ainda uma cruz penitencial, velas e archotes. Param diante das antigas caixas das almas e repetem todo o ritual a cada parada. A procissão terminava ao surgirem os primeiros raios de sol.[1]

O ritual da Encomendação das Almas deveria começar e terminar no Cruzeiro das Almas.[2] Uma procissão iniciava-se e na sua condução era erguido um grande cruzeiro. Além disso, cada um dos aderentes carregava consigo uma cruz e uma vela acesa na mão. O ritual trata-se de encomendar, rezar e direcionar (ou conduzir) as almas ao seu descanso derradeiro. O ritual de Encomendação das Almas é um rito de cunho religioso composto de cantos lamentosos, geralmente de caráter lúgubre, através dos quais os participantes rezam pelas almas de seus familiares já falecidos ou pelas almas de muitos outros tipos de mortos que consideram ainda necessitar de orações, como por exemplo, as almas do purgatório, as almas de determinado cemitério, as almas dos afogados e vários outros necessitados.[3] A feitiçaria tradicional brasileira resgata e preserva este arcano mágico e considera que os espíritos do cruzeiro (ou do Reino dos Cruzeiros), seus guardiões, são os julgadores, condutores e direcionadores das almas humanas.

   Os cruzeiros são também considerados antenas ou faróis que aglutinam almas no seu entorno. Na tradição do Santo Daime, por exemplo, os cruzeiros erguidos na frente das igrejas (céus) têm a função i. servirem como portais de acesso a corrente espiritual do Santo Daime; ii. aglutinadores de almas para que estas não atrapalhem as sessões e despachos do Daime e; iii. proteção espiritual. Essas três funções estabelecidas na doutrina do Santo Daime ao cruzeiro são, no entanto, universais.[4] Elas permanecem com este mesmo simbolismo e significado dentro de diversas tradições espirituais ocidentais, como a católica (que alimenta o Santo Daime) e a Quimbanda. Na feitiçaria tradicional brasileira os cruzeiros são estabelecidos na frente dos templos ou terreiros. Como um portal, o cruzeiro serve de conexão e acesso a todos os Reinos e quarenta e nove Povos de Exus e Pombagiras; como um vórtice ou zona de poder, o cruzeiro trata-se de um axis mundi que conecta o plano material ao plano espiritual, libertando as almas (vivas e mortas) dos grilhões espirituais; como aglutinadores de almas, o cruzeiro perfila e direciona os Eguns dos templos e terreiros que trabalham sob a égide dos Poderosos Mortos; como tronqueira de proteção, o cruzeiro impede a passagem de inimigos e zombeteiros de todos os tipos, porque seus espíritos, feiticeiros extremamente territorialistas e agressivos, são implacáveis julgadores e direcionadores de todas as almas que se apresentam no terreiro, sejam vivas ou mortas, inimigas ou amigas. Como tal, atuam como filtros mágicos que bloqueiam e descarregam energias nocivas que chegam até os templos ou terreiros, seja na forma de demanda (ácida/alcalina) ou trazidas pelos adeptos que frequentam o local, purificando-os. E este é outro trabalho do cruzeiro, a purificação das forças densas trazidas/deixadas pelos adeptos e também pelos Exus e Pombagiras no curso das incorporações.

   Quando estabelecido em um templo ou terreiro de Quimbanda, o cruzeiro age como um regulador de frequência, alinhando o veículo pneumático dos adeptos a força e corrente espiritual da casa, aplacando seu impacto na alma dos feiticeiros em treinamento. No curso do desenvolvimento mediúnico é comum que os adeptos tenham inúmeros tipos de desconfortos fisiológicos, emocionais e mentais. Isso ocorre porque seus veículos pneumáticos ainda não suportam as poderosas cargas de energia dos Exus e Pombagiras. O cruzeiro erigido no templo ou terreiro de Quimbanda, portanto, diminui esse impacto energético regulando a frequência espiritual dos adeptos e da casa. Nesse caminho, cada feiticeiro-kimbanda deve desenvolver uma alquimia espiritual íntima em conexão com os mestres e guardiões do cruzeiro da casa em que trabalha, pois estes o auxiliarão no refinamento de sua alma e no galgar dos graus iniciáticos do cruzeiro, caso tenha comprometimento verdadeiro com a expansão dos Reinos de V.S. o Maioral. Como julgadores e punidores, os mestres e guardiões do cruzeiro também podem interferir no desenvolvimento espiritual dos adeptos, impedindo a conexão com o Exu Tutelar devido a falhas de caráter ou mistificação do culto.

   Além disso, o cruzeiro também age como uma bateria cósmica, pois ele concentra muito àṣẹ (força mágica). Então ele é utilizado – da mesma maneira que se usa uma chave para abrir um portal de acesso – como um vórtice de poder para concentração/aquisição de força, magnetismo, opulência, fartura, prosperidade e saúde. Quando erigidos em um templo ou terreiro de Quimbanda, os cruzeiros atuam distintamente dos diversos cruzeiros encontrados nos sub-reinos, que dão acesso e passagem a diversos tipos de almas; eles são os Cruzeiros de Exu e como tal dão acesso somente àquelas almas aceitas por V.S. o Maioral.

   Cruzeiros também são símbolos de cura e resgate espiritual da ancestralidade na feitiçaria tradicional brasileira. Erguidos na frente dos templos e terreiros de Quimbanda ou erigidos nos altares particulares das almas na casa dos adeptos, através dos cruzeiros é possível conectar-se a espiritualidade ancestral pessoal, trabalhando a cura na alma de antepassados e a cura ancestral do próprio DNA. Os cruzeiros são poderosos talismãs, portanto, de cura e proteção espiritual. No Altar das Almas, que preserva a memória dos ancestrais de cada adepto, uma cruz é erigida como símbolo do regate ancestral.

   Os cruzeiros estão intimamente conectados a espiritualidade ocidental e brasileira. Eles começaram a delimitar o perímetro espiritual quando a Igreja começou ergue-los na conquista de novas terras selvagens e zonas de poder de adoração e veneração pagã. A presença do cruzeiro nestes locais, na crença popular difundida, os santificava, purificava e protegia. Em seguida todo processo de urbanização era tipificado pelo estabelecimento de um cruzeiro como marco de desenvolvimento social e espiritual. Como delimitadores, os cruzeiros começaram a estabelecer limiares espirituais entre o Reino das Almas e as cidades construídas, daí seu estabelecimento em cemitérios demarcando a área do campo santo. Em um tempo anterior, na Antiguidade Clássica grega, essa delimitação limiar entre o Reino das Almas e a pólis que surgia marcou uma importante transição no trato com os mortos, doravante enterrados do lado de fora dos muros da cidade, com severas sanções aos ritos fúnebres. Não se tratava de uma nova prática católica, mas de uma revisão simbólica de métodos antigos já há muito praticado pelos gregos. Nesse processo cristalizou-se no imaginário cultural brasileiro a ideia de que os cruzeiros marcam limiares espirituais através dos quais é possível ter acesso as almas e ao mundo espiritual (que na Quimbanda identificamos como os Reinos e os quarenta e nove Povos).

   Os cruzeiros na tradição de Quimbanda são compreendidos como vórtices de poder e conexão com o mundo espiritual; eles dão passagem a todos os Reinos de Quimbanda e os Povos de Exus e Pombagiras. Como portais e vias de acesso, eles exigem códigos espirituais que permitam a penetração em diferentes zonas de poder. Estes códigos de acesso são os distintos trabalhos (feitiços etc.) oferecidos nos cruzeiros.

   E fazendo uma conexão com arcanos mágicos antigos, cruzeiros também são considerados delimitadores naturais, quer dizer, não estabelecidos pelo homem, mas forjados pelo próprio Espírito da Natureza, o Diabo (V.S. O Maioral). Vulcões e árvores são, por exemplo, considerados tipos naturais de cruzeiros. Tanto os vulcões como determinados tipos de árvores têm sido considerados pontos de força para conexão com o mundo espiritual, e ambos são símbolos e a morada de Exus e Pombagiras.

NOTAS:

[1] MAD Teixeira, A Morte e o Culto aos Mortos nas Tradições Populares de Rondônia. Saber Científico, v. 2, n. 2, p. 1–36, 2009.

[2] Embora no Brasil houvesse adaptações para o inicio e fechamento do ritual.

[3] Vinícius Eufrásio de Oliveira, «Cantá pras Almas»: A Reza Cantada do Ritual de Encomendação das Almas. Tese de Pós-Graduação em Música, UFMG, 2017.

[4] Um ritual importante do Santo Daime, a Entrega dos Trabalhos, tem seu clímax quando todos os membros da igreja fecham o ano litúrgico entregando todo o trabalho espiritual que realizaram nos pés do cruzeiro, que se faz firmando uma vela branca acesa como oferenda.

22/7/2020: QUIMBANDA SALOMÔNICA - Fernando de Ligório

Como um reflexo natural dos tempos que vivemos, anomalias teológicas diversas têm nascido por toda parte. Não seria diferente dentro do movimento ou tradição que se conveniou chamar de Quimbanda. A anomalia mais recente é a Quimbanda Salomônica ou Quimbanda cruzada com magia salomônica. Neste tipo de prática, além de serem subservientes aos demônios listados no Ars Goetia, Exus e Pombagiras também são regidos pela autoridade de um anel mágico. É tanta bobagem, falta de senso crítico e orientação intelectual que, inicialmente, dá nojo de se ver...

   Assim como toda Quimbanda é cipriânica, porque contém o elemento Faustino que caracteriza a tradição (e já teci amplos argumentos que elucidam a questão), em certa medida toda Quimbanda também é salomônica, porque ela herda ou incorpora elementos essenciais presentes na tradição salomônica. Um exemplo notório é o papel de Beelzebuth na Quimbanda e cujo elemento teológico central pode ser rastreado ao Testamento de Salomão, um texto pseudoepigráfico que apareceu por volta dos Sécs. I e II d.C. Embora Beelzebuth tenha entrado na vida dos cristãos através das passagens dos evangelhos de Lucas (11:15-22) e Mateus (12:24-29) como arconte dos daimones (ou demônios), é de o Testamento de Salomão que a Quimbanda herda sua posição ontológica como anjo caído (influência direta de O Livro de Enoque), exarca, rei e regente dos demônios do ar, da terra e do submundo. Então sua condição de Maioral na Quimbanda, Chefe Império dos Exus e dos Reinos, trata-se de uma herança salomônica, dentre várias que existem na tradição de Quimbanda.

   Por este motivo trata-se de um non sense tentar reinventar a roda, trazendo para Quimbanda uma metalinguagem judiaco-cristã através de uma metodologia pueril baseada no Ars Goetia. A Quimbanda tem seus métodos próprios desenvolvidos a partir das correntes mágicas, filosóficas e religiosas que a alimentam, não aceitando qualquer cosmovisão escatológica judaico-cristã em seus métodos.

16/7/2020: UMBANDA & QUIMBANDA - Fernando de Ligório

Em três vídeos hoje publicados no canal do Alan Barbieri foram tecidas ideias que conectam diretamente a Umbanda e a Quimbanda. Um desserviço e forçação total de barra! É um fato incontestável que a espiritualidade que alimenta a Umbanda é distinta daquela que alimenta a Quimbanda. Como demonstrado com detalhes no texto A Tradição de Quimbanda, a espiritualidade que alimenta a Umbanda é composta por espíritos que em vida aceitaram a catequese cristã. O veio filosófico e religioso da Umbanda é o cristianismo católico e o espiritismo kardecista. A espiritualidade que alimenta a Quimbanda é composta por espíritos que em vida não aceitaram e se rebelaram contra a catequese cristã; a espiritualidade de Quimbanda é, portanto, adversária as ideias, religiosidade e filosofia cristista que está na Umbanda.​

   Tentar resgatar a conexão embanda-kimbanda africana tentando fazer entender que a Quimbanda e Umbanda estão juntas desde o início e não deveriam ter se separado é uma falácia fantasiosa e, no mínimo, desrespeitosa à tradição de Quimbanda. Vamos lembrar: as técnicas essenciais que a Quimbanda utiliza no culto vieram do Candomblé! Não existe o feitio de assentamentos na Umbanda como àqueles oriundos da cultura nagô-yorubá, amplamente utilizados na maioria das casas ou templos de Quimbanda. É muito mais correto – e seria muito mais honesto – dizer que a Quimbanda está conectada ou deriva do Candomblé. O próprio entrevistado do programa de três episódios se diz representante de uma Quimbanda derivada do Candomblé! São os primeiros sacerdotes de Quimbanda que começaram a cortar para os Exus e Pombagiras. O que a Umbanda fez foi se apossar da Quimbanda – como de Exu – e dizer que se não fosse ela o Culto de Exu não existiria.

   Exu, no entanto, é de Quimbanda, não de Umbanda. Se você é umbandista e trata Exus da maneira como umbandistas tratam, ao se apresentar diante de um Tatá, receberá instruções imediatas para interromper tudo, porque o que a Umbanda ensina sobre Culto de Exu são desfundamentos. Como já frisei aqui no site outras vezes, umbandistas costumam dar Paratudo para Exu; aí para-tudo mesmo... Para Exu, para a vida, para a prosperidade etc.

   A Quimbanda é um culto brasileiro de feitiçaria tradicional; ele foi formado a partir de uma confluência de tradições mágicas, religiosas e filosóficas. A conexão embanda-kimbanda africana e Umbanda-Quimbanda brasileira é incorreta para fins de elucidação histórica, até porque a Quimbanda do Brasil só é praticada no Brasil, não existindo Culto de Exus e Pombagiras na África, em lugar nenhum. Exu (não confundir com Eṣu Òrìṣà) é do Brasil, a Quimbanda é brasileira.

11/7/2020: REINOS & HIERARQUIAS DE EXUS NA QUIMBANDA #7 - Fernando de Ligório

O Reino das Almas é um norte espiritual! Desde tempos imemoriais o homem tem se preocupado com o destino de sua alma. Essa preocupação esteve no cerne da busca espiritual de muitos povos e culturas da Antiguidade, porque a preocupação com o destino da alma norteava todos os feitos que o homem empreendia em vida. A maneira como o homem vivia e morria definia a grandeza de sua alma no pós-vida, se louvada na memória dos vivos ou se esquecida por eles. Essa crença do Mundo Antigo sobreviveu aos tempos e se faz presente hoje na tradição de Quimbanda: a maneira como vive e morre o feiticeiro-kimbanda define se ele será ou não aceito como Exu ou Pombagira na grande Legião de V.S. o Maioral. Para tal, as ações do feiticeiro-kimbanda são norteadas pela aplicação precisa da força e da honra.

   É neste reino que estão os espíritos que encaminham todas as almas ao seu destino derradeiro. Todas às almas que acabam por deixar a grande legião dos vivos, seja na condição em que estiverem, são recebidas pelos espíritos deste reino e devidamente encaminhadas. Os pontos de força dos espíritos do Reino das Almas são os lugares elevados, montes e colinas onde se construíam antigos cemitérios,[1] picos, cordilheiras e desfiladeiros,[2] hospitais, necrotérios, capelas funerárias, igrejas, marcos de chacina (seja por guerra ou por crimes), velórios,[3] centros de espiritismo e terreiros. Como os espíritos deste reino são profundos conhecedores da natureza do homem, eles trabalham sobre as emoções e sentimentos humanos, podendo levar a loucura ou trazendo plena lucidez sobre as emoções e o controle das mesmas. E como são os condutores das almas desencarnadas, também operam como seus algozes, acorrentando, escravizando as almas nos meandros obscuros e sinistros deste reino.

   Exus e Pombagiras do Reino das Almas são, portanto, poderosos condutores do despertar espiritual ou cruéis perseguidores das almas perdidas e fracas. São eles que reconhecem o brilho do Ovo Negro de Luz na alma dos feiticeiros-kimbanda encaminhando-as aos domínios do Chefe Império o Maioral de Quimbanda. Por esse motivo, os espíritos deste reino são convocados para auxiliar no desenvolvimento pessoal (físico, emocional, mental) e espiritual dos feiticeiros-kimbanda, assim como aterrorizar seus inimigos.

   Os Sete Povos ou Falanges originais que constituem o Reino das Almas são:

1. Almas do Mato

2. Almas da Calunga Pequena

3. Almas de Calunga Grande

4. Almas de Velórios

5. Almas dos Hospitais

6. Almas das Igrejas (e templos)

7. Almas do Cativeiro

Outras listagens de Povos que têm aparecido na literatura popular da Quimbanda além dos Sete Povos originais são:

8.  Almas da Lomba

9.  Almas do Oriente

10. Almas de Guerras

11. Almas de Chacinas

12. Almas de Lira

13. Almas das Montanhas

Almas do Mato

Chefes de Legião: Exu Pimenta e Pombagira Rainha das Matas (ou Pombagira Maria Pimenta). Os pontos de força são os cemitérios nas matas (indígenas), covas diversas ou onde morreram pessoas vítimas do Espírito da Natureza, perdidas nas florestas e matas.​ Este Povo de Quimbanda é híbrido, relacionando-se diretamente com o Povo dos Cemitérios de Mata na Makaia.

Almas da Calunga Pequena

Chefes de Legião: Exu Tatá Caveira e Pombagira Maria Tatá Caveira. Os pontos de força são os Cruzeiros das Almas dentro dos cemitérios.

Almas da Calunga Grande

Chefes de Legião: Exu Maré e Pombagira da Praia. Os pontos de força são os Cruzeiros de Praia, os Cruzeiros de Mar e as areias de praias próximas ao mar.

Almas dos Velórios

Chefes de Legião: Exu Marabá e Pombagira Rainha das Almas. Os pontos de força são as portas onde são realizados velórios e nas valas dos cemitérios.

Almas dos Hospitais

Chefes de Legião: Exu Curador e Pombagira das Almas. Os pontos de força são as portas e capelas dos hospitais.

Almas das Igrejas e Templos

Chefes de Legião: Exu Nove Luzes e Pombagira Alteza. Os pontos de força são as portas das igrejas ou qualquer templo de adoração e louvor religioso.

Almas do Cativeiro

Chefes de Legião: Exu Pemba e Pombagira das Almas. Os pontos de força são os locais onde as almas são feitas cativas, respondendo sob altares diversos, nas raízes das arvores dos cemitérios, no pé do Cruzeiro das Almas e demais Cruzeiros, portas de delegacia, presídios e penitenciárias, masmorras antigas em castelos e igrejas.

Almas da Lomba

Chefes de Legião: Exu Sete Lombas e Pombagira Maria Mulambo das Sete Lombas. Os pontos de força são as cruzes ou placas de identificação nas lombas dos cemitérios.

Almas do Oriente

Chefes de Legião: Exu Sete Poeiras e Pombagira Sete Poeiras. Os espíritos que compõem esse Povo são exímios instrutores espirituais, convocados para o desenvolvimento espiritual dos feiticeiros-kimbanda. São seres de grandeza e profundidade espiritual que trabalham pela evolução dos adeptos. Os pontos de força são os mirantes, praias (ou ilhas) inabitáveis, desertos, jardins nos entornos de bibliotecas, escolas e universidades, museus, estátuas e obeliscos públicos. As oferendas a este Povo de Quimbanda sempre deve ser oferecida na direção do Oriente.

Almas de Guerras

Chefes de Legião: Exu Sete Candeeiros e Pombagira Maria Quitéria. Esse Povo de Quimbanda atende onde guerreiros de todas as épocas morreram no campo de batalha. Os pontos de força são as áreas abertas e descampadas onde se travaram batalhas e ocorreram mortes em massa.

Almas de Chacinas

Chefes de Legião: Exu Lorde da Morte e Pombagira das Almas. Esse Povo de Quimbanda atende onde almas inocentes (ou criminosas) morreram assassinadas em chacinas. É um Povo híbrido que interage diretamente com o Povo dos Caveiras na Calunga Pequena. Os pontos de força são os marcos públicos onde ocorreram (ou são lembradas) essas mortes, presídios e cadeias.

Almas de Lira

Chefes de Legião: Exu Sete Facadas e Pombagira Maria Navalha. Esse é um Povo de Quimbanda híbrido de interação entre o Reino das Almas e o Reino da Lira. Os espíritos desse Povo atendem onde almas foram assassinadas em boates, bares e cabarés. Por conta disso os pontos de força são nas portas de boates, bares e cabarés. Eles também atendem nas praças de Lira, onde interagem diretamente com o Povo das Almas de Chacina.

Almas das Montanhas

Chefes de Legião: Exu Sete Montanhas e Pombagira Sete Montanhas. Este Povo de Quimbanda atende onde almas perdidas morreram acidentalmente nos picos das montanhas. Os pontos de força são os picos e vales montanhosos.

NOTAS:

[1] O homem da Antiguidade temia que sua alma ficasse cativa no submundo; por conta disso, uma das alternativas que ele encontrou foi construir cemitérios em lugares elevados, próximos aos éteres superiores, para que sua alma ficasse longe do submundo e mais próxima dos planos de luz e perfeição. É interessante notar que na feitiçaria dos papiros gregos um falcão é deificado para que, como um paredros (espírito tutelar), pudesse abraçar a alma do feiticeiro no pós-vida e levá-la aos éteres superiores.

[2] Em antigas crenças xamânicas, a alma no pós-vida deveria transcender o grande desfiladeiro; acreditava-se também que a alma deveria buscar subir ao alto de montanhas e picos na sua busca pela imortalidade.

[3] No momento da morte um estresse elétrico ocorre nos planos internos (alguns poderiam dizer na Luz Astral) e um portal para o Reino das Almas é aberto. É por esse portal que as almas são encaminhadas ao Cruzeiro das Almas, de onde são direcionadas ao seu destino derradeiro.

9/7/2020: POMBAGIRA & BABALON - A MULHER ESCARLATE & A SACERDOTISA DE QUIMBANDA #1 - Fernando de Ligório

* Texto retirado de uma entrevista que em breve será publicada no blog Pelotas Oculta.

É possível traçar um paralelo entre a Mulher Escarlate, Babalon e a Pombagira na Quimbanda?

   Sim, é perfeitamente possível. Na verdade o tema merece um tomo de muitas páginas porque para falar sobre essa relação profundamente é necessário passar por muitas camadas de construção mitológica e imaginária que envolve as culturas do Oriente Médio e Mediterrâneo na Antiguidade clássica e tardia, da África e da Europa na Idade Média. E muito embora thelemitas e feiticeiros-kimbanda ortodoxos não consigam construir uma ponte entre Pombagira e Babalon, ela existe para aqueles que veem na clara luz a conexão entre a Quimbanda e os Cultos de Mistérios do passado: Pombagira é um portal para convocação de todas as deusas que assumiram a máscara deífica do Adversário e suas virtudes sombrias: Lilith, Asherah, Astarte, Ishtar, Hécate, Babalon etc. e, no Brasil, a Pombagira.

   Pombagira na Quimbanda condensa, agrega e aglutina toda corrente de feitiçaria das yá-mi Oshorongá, as mães ancestrais da cultura nagô-yorubá; a magia das antigas deusas negras da Babilônia, Fenícia e culturas diversas do Oriente Médio; as deusas do Mediterrâneo e Europa convocadas por bruxas e feiticeiras. E herdando traços da feitiçaria ibérica, Pombagira tem uma relação próxima com o Diabo, sendo considerada sua esposa e companheira, incorporando a imagem tradicional da feiticeira que tem pacto e é acompanhada pelo Diabo. Com todas essas camadas de construções mitológicas é fácil traçar um paralelo entre Pombagira e Babalon, a sacerdotisa da Quimbanda e a mulher escarlate de Thelema.

   Na famigerada e fantasiosa obra de Aluízio Fontenelle, Exu, o autor diz: Exu Pomba Gira [...] é quase idêntica ao símbolo que representa a encarnação do mal, o qual é denominado de «o Bode do Sabbat – Baphomet de Mendes». A imagem construída do Diabo a partir do glifo de Baphomet poderia receber o nome de legião, uma vez que é o conjunto híbrido de inúmeros glifos, totens primitivos e símbolos da Grande Creatrix, particularmente a deusa fenícia Asherah. A saia ou cinto vermelho na cintura das Sacerdotisas de Quimbanda é uma assinatura da Deusa Asherah (Qutesh), a deusa-protótipo de Pombagira nos mistérios antigos. É possível encontrar conexões entre a feitiçaria da Quimbanda com a feitiçaria dos povos da Antiguidade clássica nos debruçando sobre todas essas camadas de mitos.

   Assim como a Pombagira na Quimbanda, a Babalon em Thelema também aglutina toda essa torrente ou fluxo mágico das antigas deusas negras adoradas nas diversas culturas da Antiguidade pré-cristã no Oriente Médio, Mediterrâneo e Europa. Sua fórmula mágica é a escarlate! Por que escarlate? O termo Mulher Escarlate ou Prostituta da Babilônia é derivado de O Livro das Revelações. A cor escarlate desde tempos imemoriais tem sido associada à imortalidade. Esta era a cor da vestimenta cerimonial dos antigos sacerdotes e sacerdotisas fenícias e babilônias. Esta é a cor do sacrifício a Grande Creatrix, a cor do sacramento lunar desprovido de herança ancestral espiritual: O melhor sangue é da lua, mensalmente: em seguida o sangue fresco de uma criança, ou destilando da hoste do céu: em seguida de inimigos; em seguida do sacerdote ou dos adoradores: finalmente de alguma besta. (AL vel Legis, III:24-6.) Escarlate é uma cor vibrante,[1] ¾ vermelho e ¼ laranja. Essas cores têm conexões herméticas: laranja e vermelho são as cores associadas a Hod e Geburah, ambas no Pilar da Mão Esquerda na Árvore da Vida. Acima de Hod e Geburah, no ápice do Pilar da Mão Esquerda, está Binah, o Grande Mar, associada a Babalon como a Deusa Mãe Primordial. Abaixo de Geburah e Hod está Malkuth, o Reino da Filha, a avātar da Deusa, conhecida como Mulher Escarlate. No Pilar da Mão Esquerda, a vibração ou fluxo é descendente, em direção à materialização. Incorporar Babalon e assumir toda sua herança espiritual é uma ação natural de toda mulher no período do catamênio. Toda sacerdotisa de Thelema, portanto, busca absorver as virtudes babalônicas da Deusa Primordial para tornar-se uma avātar de sua força e de sua grandeza. Da mesma maneira, na Quimbanda as sacerdotisas procuram absorver as virtudes de suas Pombagiras, atuando também como avātares encarnadas de Exu-Mulher. Babalon e Pombagira, suas sacerdotisas e filhas, compartilham de inúmeros aspectos (ou virtudes), uma delas sendo a liberdade, outra o poder da vontade. Mulheres livres e de vontade própria. Essa força, no entanto, é temida por homens que desconhecem o seu papel, o da Besta (que podemos comparar a Exu como encarnação do poder fálico e do bestialismo atávico).

   O Ofício da Mulher Escarlate, quer dizer, atuar como avātar de Babalon, e o Ofício da Sacerdotisa de Quimbanda, atuar como avātar da força de Pombagira, exige uma ruptura total com as programações crististas da sociedade. Este trabalho, o da mulher cingida pela espada, começa com uma carnificina interior onde toneladas de programações culturais judaico-cristãs são retiradas das camadas mais profundas da mente inconsciente.

   Nos acompanhe aqui no site a séria de reflexões comparando Babalon, Pombagira e as antigas deusas negras adoradas pelo homem.

NOTA:

[1] Posteriormente, o escarlate foi identificado com pecado e traição no Velho Testamento. É interessante notar que na tradição espiritual do Santo Daime, a cor vermelha é desapropriada para rituais, principalmente àqueles em que o sacramento é produzido: os Rituais de Feitio. Em algumas Igrejas, mulheres menstruadas são desaconselhadas a participarem das sessões de cura, pois se entende que neste período elas estão contaminadas e carregam consigo a semente do pecado original. É possível ver essa mesma ignorância espiritual nas casas de Umbanda, no Candomblé e, infelizmente, na Quimbanda também. O sangue menstrual é dotado de uma força espiritual desconhecida a maioria das pessoas, uma rajada brilhante de energia que atrai inúmeras criaturas espirituais, como moscas são atraídas a luz. A sacerdotisa menstruada torna-se um portal de acesso às forças espirituais, principalmente àquelas conectadas a Lua, a terra e a escuridão.

28/6/2020: REINOS & HIERARQUIAS DE EXUS NA QUIMBANDA #6 - Fernando de Ligório

A Calunga Pequena, o Reino dos Cemitérios, é a necrópole da tradição de Quimbanda, o campo santo ou terra sagrada dos ancestrais, morada da legião dos mortos. O Reino dos Cemitérios se localiza e forma a tênue separação entre o reino dos vivos e o reino dos mortos. Os espíritos dessa zona de poder regem, portanto, a força (ou virtude/espírito) da morte, física ou espiritual. Aonde existe a presença da morte ali se encontra um Exu de Calunga Pequena. Por conta de sua natureza saturnina, eles também regem o espírito do tempo, das lembranças (memórias) humanas, da nostalgia, dos medos profundos, do desespero, das guerras, das pragas e epidemias, da desgraça, das angustias, sofrimentos, ressentimentos e do fim dos ciclos. Essa densa e pesada virtude saturnina dos Exus e Pombagiras do Reino da Calunga Pequena pode levar a loucura, obsessão e paranoia, de inimigos ou de seus próprios adeptos, caso não tomem cuidado. Por outro lado, a seus feiticeiros são profundos cuidadores e zeladores, agentes de cura, brilho e poder pessoal.

   Culturalmente, simbolicamente e espiritualmente, quem sabe, é da Calunga que vem a tradição de Quimbanda. Esse termo, calunga, era utilizado para denominar no Brasil colonial os escravos fugidos que se agrupavam nos quilombos. Estes, no entanto, não recebiam apenas escravos revoltados, mas índios e feiticeiras exiladas. É desse cruzamento de cosmovisões que vamos buscar a gênese do Culto de Exu no seu primeiro momento.[1]

   Das culturas bantu e yorubá a Quimbanda recebeu o conceito de Calunga Pequena como uma zona de poder auspiciosa onde se busca por conhecimento, sabedoria e magnetismo (brilho) pessoal. Os cemitérios, portanto, são os pontos de força onde os feiticeiros-kimbanda vão buscar sabedoria ancestral, força e poder pessoal. No texto A Alquimia Negra do Culto de Exu, foi demonstrado que o veículo pneumático da alma ou corpo astral (na denominação moderna) se alimenta das virtudes que entra em contato. Os feiticeiros-kimbanda são saturados com as virtudes necromânticas dos cemitérios. As virtudes e os mistérios dos cemitérios vestem-se com os símbolos negros e macabros da morte, dificilmente aceitáveis a um adepto do caminho da mão direita, mas familiares a qualquer buscador e sendeiro do caminha da mão esquerda.

   Os adeptos de Exus e Pombagiras do Reino dos Cemitérios costumam assentar o Espírito da Morte e com ele comungam de tratos, alianças e pactos. O Reino da Calunga Pequena oferece, portanto, o Culto a Morte (Ars Moriendi). O termo calunga está diretamente associado à morte, portanto. Na tradição de Quimbanda a Calunga Pequena é a morada das almas dos mortos, mas o Reino da Calunga Grande (praias) também é no sentido de que a calunga foi considerada pelos negros escravizados o divisor entre a sua terra natal e o solo brasileiro. No curso de transição pelo mar em navios negreiros, muitas almas pereceram no caminho. Então o mar também é uma morada dos mortos. Além dos negros escravos que foram enviados ao Brasil, muitas outras almas perecem em naufrágios diversos. O mar agrupa muitas almas e o Reino da Calunga Grande é o local para contatá-las. Na cultura de várias nações e povos de tempos imemoriais, autoridades importantes das comunidades eram cremadas em embarcações enviadas ao mar. Na Índia os campos de cremação são nas margens dos rios; a cultura hindu entende que na margem dos rios as almas encontrarão seu destino até o reino dos mortos. No próximo capítulo, quando nos debruçarmos sobre as atribuições herméticas de cada um dos Sete Reinos, veremos a Calunga Grande como a fonte de toda a vida.

   Os Sete Povos ou Falanges originais que constituem o Reino da Calunga Pequena são:

1. Porteira

2. Lixeira

3. Lomba

4. Catacumba

5. Encruzilhadas

6. Buraco

7. Cruzeiro das Almas

Outras listagens de Povos que têm aparecido na literatura popular da Quimbanda além dos Sete Povos originais são:

8.   Fornos

9.   Tumbas

10. Cemitério de Mata

11. Caveiras

12. Covas

13. Campa

14. Mirongas

15. Trevas

Porteira

Chefes de Legião: Exu Sete Porteiras e Pombagira Sete Porteiras. Os pontos de força são o lado de fora das porteiras ou portões dos cemitérios.

Lixeira

Chefes de Legião: Exu do Lixo e Pombagira da Lixeira. Os pontos de força são as lixeiras dentro dos cemitérios onde são despachados trapos velhos dos mortos, restos de flores e velas destinadas aos mortos, restos de oferendas e diversos despachos.

Lomba

Chefes de Legião: Exu Corcunda (ou Exu Tatá Caveira) e Pombagira da Lomba (ou Pombagira Maria Tatá Caveira). Os pontos de força são as lombas (montes de terra) que cobrem as covas de chão.

Catacumba

Chefes de Legião: Exu Sete Catacumbas e Pombagira Maria Padilha das Sete Catacumbas. Os pontos de força dessa Legião são todas as covas, buracos e sepulturas no subsolo, construídas em cemitérios subterrâneos como àqueles abaixo de antigas igrejas, o que em verdade era a fonte de poder por trás delas.

Encruzilhadas

Chefes de Legião: Exu Capa Preta e Pombagira Rainha das Sete Encruzilhadas. Os pontos de força são as diversas encruzilhadas dentro dos cemitérios, incluindo aquelas que separam as sepulturas, covas e lombas.

Buraco

Chefes de Legião: Exu Sete Buracos e Pombagira Sete Buracos. Os pontos de força são os buracos para indigentes (os mortos sem nome) nos cemitérios e as gavetas de ossos.

Cruzeiro das Almas

Chefes de Falange: Exu Tranca-Ruas das Almas e Pombagira Maria Padilha das Almas. Os pontos de força são os Cruzeiros encontrados dentro dos cemitérios.

Fornos

Chefes de Falange: Exu Brasa e Pombagira do Forno. Os pontos de força são os locais para crematórios.

Tumbas

Chefes de Falange: Exu Sete Tumbas e Pombagira da Calunga. Os pontos de força são os montes de pedra que cobrem a cova dos mortos, encontrados em cemitérios indígenas e de povos antigos; também, as sepulturas de concreto dos cemitérios urbanos.

Cemitério de Mata

Chefes de Legião: Exu Pimenta e Pombagira Rainha das Matas (ou Pombagira Maria Pimenta). Os pontos de força são os cemitérios nas matas (indígenas), covas diversas ou onde morreram pessoas vítimas do Espírito da Natureza, perdidas nas florestas e matas.

Caveiras

Chefes de Legião: Exu Caveira e Pombagira Rosa Caveira. Os pontos de força são o lado de dentro das porteiras ou portões dos cemitérios. Mas essa Legião recebe oferendas também nas encruzilhadas dentro dos cemitérios ou no Cruzeiro das Almas.

Covas

Chefes de Legião: Exu Sete Covas e Pombagira Maria das Covas. Os pontos de força são todas as covas mais simples dentro do cemitério.

Campa

Chefes de Legião: Exu Sete Campas e Pombagira das Sepulturas. Os pontos de força são todos os tampões ou lajes por sobre as sepulturas.

Mirongas

Chefes de Legião: Exu Malê (ou Exu Mironga) e Pombagira das Sete Mirongas. Os pontos de força são as direções do espaço dentro do cemitério.

Trevas

Chefes de Legião: Exu Rei das Trevas e Pombagira Rainha do Inferno. Os pontos de força são as sombras (noturnas) das sepulturas, mausoléus e cruzes dentro dos cemitérios.

NOTA:

[1] Veja o capítulo A Tradição de Quimbanda.

20/6/2020: REINOS & HIERARQUIAS DE EXUS NA QUIMBANDA #5 - Fernando de Ligório

Todos os Sete Reinos de Quimbanda constituem o corpo de V.S. o Maioral de Quimbanda. Ele é o Trono de onde surgem os Sete Reinos e os Povos de Exu e Pombagira. Idealizado na imagem da Deusa Baphomet, V.S. o Maioral é o Útero, buraco ou fenda da Terra de onde vêm as deidades cultuadas na Quimbanda.[1] Como tal ele incorpora o Espírito da Natureza, o próprio Diabo. De todos os Sete Reinos de Quimbanda, o Reino das Matas (Makaia) é o que melhor ilustra a ideia do corpo de V.S. o Maioral como o Espírito da Natureza e a miríade de espíritos que nela habitam. Os espíritos da Makaia são arredios, selvagens, ágeis, vorazes, mas também reservados, comportamento típico dos predadores que vivem nas profundezas escuras das matas. Ao mesmo tempo são sábios e guias, convocados como orientadores porque carregam a sabedoria e o conhecimento da Natureza, bem como a lembrança do homem que se adéqua a ela através das eras, por isso são apaziguadores de situações difíceis. Exus e Pombagiras de Makaia têm influência espiritual sobre todo tipo de plantas, ervas, flores, sementes diversas e a própria Terra. Por conta disso eles também são convocados para trazer fartura, abundância, prosperidade e abertura de caminhos. Eles atuam, portanto, em campos, florestas, matas fechadas, montanhas etc., todos os locais com vegetação abundante, picos e colinas, descampados e área rural. Os espíritos da Makaia são alquimistas que manipulam com eficiência e habilidade as operações dos três reinos primordiais: mineral, vegetal e animal.

   É na Makaia que vive uma das legiões mais poderosas e temidas da Quimbanda, o Povo de Ganga. Todos os feiticeiros das correntes mágicas, filosóficas e religiosas que alimentaram a Quimbanda estão trabalhando como Exus e Pombagiras dessa Legião: xamãs ameríndios, feiticeiros (ngangas) africanos, bruxas e magos europeus, caçadores e guerreiros aborígenes. O trabalho espiritual com os espíritos da Makaia desperta os poderes atávicos do inconsciente dos adeptos, dotando-os com a virtude da coragem e da impetuosidade. Os feiticeiros-kimbanda que trabalham com Exus e Pombagiras do Reino das Matas costumam operar magicamente trajados com peles, penas e ossos de animais, convocando a imagem do xamã primordial; costumam ter vida reservada e distante dos grandes centros, preferindo morar imersos na comunhão com a Natureza e não ostentam luxo. Sob a orientação de seus guias, feiticeiros do Reino da Makaia são hábeis manipuladores dos elementos, confeccionando pós, filtros e poções poderosas para diversos fins. Os espíritos da Makaia também são conhecedores de todo tipo de guerra e da morte. Por conta disso podem se apresentar como animais selvagens e assassinos, não se curvando diante de qualquer batalha.

   Assim como o Reino da Calunga Pequena (cemitérios), o Reino da Makaia contém um lado sombrio capaz de drenar, vampirizar e matar os incautos que nele ousam penetrar. No Reino das Matas é preciso ter conhecimento; um homem perdido na floresta cai vítima do Espírito da Natureza. É preciso conhecer as ciladas e as armadilhas que o Reino das Matas contém. Por conta disso, os feiticeiros-kimbanda conectados ao trabalho com o Reino da Makaia veneram as virtudes sombrias e obscuras das matas, tanto para se fortificarem para os inúmeros campos de batalha da vida, quanto para levarem seus inimigos a loucura e a morte. O reino das Matas ensina a seus adeptos a serem fortes e a sutil e profunda alquimia do solve et coagula. O Reino das Matas é, assim, um tipo de Calunga Pequena. Além do fato de existirem inúmeros cemitérios nas matas e também inúmeras almas que faleceram perdidas e vítimas do Espírito da Natureza, matas e cemitérios contêm a virtude escorpiônica do putrefactio alquímico.

   Os Sete Povos ou Falanges originais que constituem o Reino da Makaia são:

1. Montanhas

2. Rios

3. Cemitérios

4. Ganga

5. Campina

6. Encruzilhadas

7. Animais de Poder

Outras listagens de Povos que têm aparecido na literatura popular da Quimbanda além dos Sete Povos originais são:

8.   Arvores

9.   Parques

10. Mata de Praia

11. Flores

13. Raízes/Sementeiras

14. Pedreiras

15. Serras

16. Minas/Cavernas

Como podemos ver muitos dos Povos acima também podem ser alocados dentro de outros Povos. Vamos explorá-los.

Montanhas

Chefes de Legião: Exu Sete Montanhas e Pombagira Sete Montanhas. Os pontos de força são é o cume das montanhas ou de platôs elevados.

Rios

Chefes de Legião: Exu dos Rios e Pombagira dos Rios. Os pontos de força são os rios e mangues diversos nas matas.

Cemitérios

Chefes de Legião: Exu Pimenta e Pombagira Rainha das Matas. Os pontos de força são os cemitérios nas matas (indígenas), covas diversas ou onde morreram pessoas vítimas do Espírito da Natureza, perdidas nas florestas e matas.

Ganga

Chefes de Legião: Exu Ganga e Pombagira Rainha das Matas. Os pontos de força dessa Legião são todos os locais sagrados nas matas aonde foram erigidos totens para cultos de deuses e espíritos diversos, ou aonde xamãs e feiticeiros executaram magias diversas. Via de regra, Exus e Pombagiras dessa Legião atuam em qualquer lugar nas matas e têm acesso a todos os outros Reinos da Quimbanda.

Campina

Chefes de Legião: Exu das Campinas e Pombagira da Mata. Os pontos de força são os diversos pastos e áreas de vegetação rasteira; terrenos pouco acidentados perto de rios e matas onde é possível cultivar e erigir acampamentos, fazendas ou vilarejos.

Encruzilhadas

Chefes de Legião: Exu Corre Gira e Pombagira Rainha das Matas. Os pontos de força são as encruzilhadas no meio das matas; pequenos caminhos e trilhas que se cruzam nas florestas e matas.

Animais de Poder

Chefes de Legião: Exu Pantera Negra e Pombagira Pantera Negra. O Povo dos Animais de Poder também é um dos mais poderosos da Quimbanda, pois eles aglutinam todas as falanges de Exus e Pombagiras que carregam as virtudes dos animais. Dentro deste Povo dos Animais de Poder está a Legião dos Panteras (Exu Pantera Negra e Pombagira Pantera Negra), a Legião dos Cobras (Exu Cobra e Pombagira das Cobras), Legião dos Morcegos (Exu Morcego e Pombagira Morcego) etc. Por conta disso os pontos de força são nas diversas áreas das matas; para o Povo Cobra, por exemplo, em buracos e fendas na terra e entre pedras; para o Povo Pantera na margem dos rios e nos pés das árvores. Assim como o Povo Ganga, os Exus e Pombagiras da grande Legião dos Animais de Poder também têm penetração em todos os Sete Reinos da Quimbanda.

Árvores

Chefes de Legião: Exu Mangueira e Pombagira das Matas. Desde períodos imemoriais as árvores têm sido eleitas como totens mágicos de conexão espiritual e ancestral. Sua forma esguia têm despertado no homem a ideia de conexão entre o mundo físico e o mundo espiritual, uma forma de eixo que conecta ambas as realidades. Como no eixo de uma roda está conectado seu raio, ao redor de árvores se aglutinam uma miríade de espíritos diversos. Por essa razão as árvores também são um local adequado para oferendar os espíritos da Quimbanda.

Parques

Chefes de Legião: Exu Morcego (também conhecido como Exu Sombra)[2] e Pombagira morcego. Os pontos de força são os diversos parques urbanos destinados a preservação da fauna e da flora. Alguns parques urbanos costumam receber espetáculos diversos de música e teatro, quando cruzam linha com os Exus e Pombagira do Reino da Lira. É interessante notar que nos parques habitam espíritos antigos que superaram através dos tempos a urbanização da Natureza, geralmente arredios a presença humana. São ótimas zona de poder para o acesso ao Reino das Matas e ao Reino da Lira, portanto.

Mata de Praia

Chefes de Legião: Exu das Matas e Pombagira das Matas. Os pontos de força são as matas costeiras e que também margeiam rios e mangues.

Flores

Chefes de Legião: Exu Cheiro e Pombagira Rosa vermelha. Os pontos de força são quaisquer lugares onde existam flores: velórios, covas e sepulturas, jardins diversos, públicos ou domésticos.

Raízes

Chefes de Legião: Exu Arranca Toco e Pombagira das Matas. Os pontos de força são as diversas raízes a mostra de árvores nas matas e também nos centros urbanos.

Pedreiras

Chefes de Legião: Exu Pedra Negra e Pombagira da Rocha. Os pontos de força são as pedreiras diversas e grandes montanhas rochosas.

Serras

Chefes de Legião: Exu Serra Negra e Pombagira das Matas. Os pontos de força são terrenos com depressões profundas e cordilheiras elevadas. São zonas de poder que concentram muitas mortes devido ao descuido humano com as ciladas e perigos que apresentam.

Minas/Cavernas

Chefes de Legião: Exu Sete Pedras e Pombagira Sete Pedreiras. Os pontos de força são as cavernas naturais e as minas criadas pela ação do homem para coleta de pedras, metais e carvão.   

   Existe um segredo ensinado somente a adeptos iniciados, com o qual termino a descrição do Reino da Makaia, pois se trata de um mistério conectado a ele. Exus e Pombagiras são compreendidos como almas deificadas, quer dizer, espíritos de ancestrais divinizados que passaram pela encarnação na Legião dos Vivos e mereceram por mérito, força e honra trabalharem após a morte como Exus e Pombagiras. No entanto, espíritos diversos como geniis-loci (as entidades guardiãs de zonas de poder), elementais, encantados e forças da natureza etc., todos são chamados de exus (com letra minúscula) na tradição de Quimbanda. Através dos Exus Tutelares, portanto, os feiticeiros-kimbanda têm acesso aos exus diversos da Natureza para operações magísticas.

NOTAS:

[1] O que convoca a lembrança do culto a deusa Asherah. V.S. o Maioral de Quimbanda é um portal para deidades antigas adoradas pelo homem em tempos remotos da Antiguidade. Interessante notar que em meu trabalho anterior com a Ordem da Estrela & Serpente, de inclinação thelêmica draco-tifoniana, Asherah, a deusa adorada em totens na forma de hastes dentro e fora de cavernas na Antiguidade clássica, venerada como o Espírito da Terra, era alocada em Kether na Árvore da Vida. Distinta da Corrente 93 tradicional (solar), a Corrente 93 Draco-Tifoniana é lunar; sua orientação é a Terra (Malkuth) e sua conexão é com as Estrelas (planetas, constelações etc.). Nessa tradição lunar thelêmica o Sagrado Anjo Guardião não é um Anjo de Deus, mas o Sátiro da Terra, um Bode.

[2] Via de regra, todo Exu do Povo dos Animais de Poder é um tipo de Exu Sombra, pela virtude de se camuflar/ocultar na escuridão.

17/6/2020: REINOS & HIERARQUIAS DE EXUS NA QUIMBANDA #4 - Fernando de Ligório

O Reino dos Cruzeiros está intimamente conectado ao Reino das Encruzilhadas. Se as Encruzilhadas são as vias de acesso entre mundos, entre os Sete Reinos ou entre a dimensão física (profana) e a dimensão espiritual, são os Cruzeiros que permitem o livre acesso das forças que passam pelas Encruzilhadas. Os Cruzeiros são os portais entre mundos que se encontram nos entrecruzamentos vibracionais, concedendo ou não acesso aos espíritos que transladam de um Reino ao outro, de uma dimensão a outra. Por representarem os portais, as tronqueiras de guardianias entre mundos, os Exus e Pombagiras do Reino dos Cruzeiros são os guardiões par excellence da Quimbanda, situados nas tronqueiras dos terreiros ou portais dos templos do Culto de Exu.

   Encruzilhadas e Cruzeiros são Reinos distintos, no entanto, são pertencentes à mesma zona de poder, considerados faixas de vibração diferentes dentro de um mesmo ponto de força. Por conta disso um se torna extensão do outro. Se são das Encruzilhadas que todas as forças têm seu início, são nos Cruzeiros que os caminhos são trilhados. Sob um olhar mais profundo e uma comunhão mais refinada com os Reinos das Encruzilhadas e dos Cruzeiros, perceba que se toda via de acesso (encruzilhada) tem um portal (Cruzeiro) que estabelece o livre acesso entre mundos, todo limiar, locais de passagem, encruzilhadas, portões e portas são locais ou zonas de poder adequadas a convocação de Exus, Pombagiras e diversas criaturas espirituais, principalmente àquelas que são limiares. Para os feiticeiros-kimbanda atentos, nenhuma porta é só uma porta, nenhuma passagem ou ponte é só uma passagem ou ponte, mas pontos de ingresso e egresso de espíritos e o local onde é possível se comunicar com eles.

   Os Cruzeiros são ainda brilhantes faróis que congregam Eguns de todas as partes, verdadeiras pilhas cósmicas através das quais é possível conjurar hordas inteiras de Eguns para trabalhos diversos de feitiçaria.

   Os Sete Povos ou Falanges originais que constituem o Reino dos Cruzeiros são: 

1. Cruzeiro de Rua

2. Cruzeiro de Lira

3. Cruzeiro de Mata

4. Cruzeiro das Almas

5. Cruzeiro de Cemitério

6. Cruzeiro de Praia

7. Cruzeiro de Estrada 

Outras listagens de Povos que têm aparecido na literatura popular da Quimbanda além dos Sete Povos originais são: 

8.   Cruzeiro de Lomba

9.   Cruzeiro de Praça

10. Cruzeiro de Espaço

11. Cruzeiro do Mar 

Cruzeiro de Rua

Chefes de Legião: Exu Tranca Tudo e Pombagira dos Sete Cruzeiros. Os pontos de força são os Cruzeiros que se encontram nas ruas, avenidas e encruzilhadas das cidades. 

Cruzeiro de Lira

Chefes de Legião: Exu Sete Cruzeiros e Pombagira dos Sete Cruzeiros. Os pontos de força são os Cruzeiros onde gradativamente se construiu ao redor áreas de comércios de todos os tipos, bebidas, drogas, prostituição, alimentação, instituições financeiras etc. 

Cruzeiro de Mata

Chefes de Falanges: Exu Mangueira e Pombagira da Figueira. Os pontos de força são os Cruzeiros erguidos em matas, marcando o local de holocaustos, antigos santuários pagãos de adoração ou sepulturas. 

Cruzeiro das Almas

Chefes de Falange: Exu Tranca-Ruas das Almas e Pombagira Maria Padilha das Almas. Os pontos de força são os Cruzeiros encontrados dentro das igrejas e dos cemitérios. 

Cruzeiro do Cemitério

Chefes de Falange: Exu Kaminaloá e Pombagira Maria Mulambo do Cruzeiro. Os pontos de Força são os Cruzeiros sobre as sepulturas nos cemitérios. 

Cruzeiro de Praia

Chefes de Legião: Exu Meia Noite e Pombagira dos Sete Cruzeiros. Os pontos de força são os Cruzeiros erguidos em praias, a beira de rios, pedreiras e mata costeira. 

Cruzeiro de Estrada

Chefes de Legião: Exu Sete Cruzes e Pombagira dos Sete Cruzes. Os pontos de força são os Cruzeiros erguidos nas estradas em detrimento de mortes por acidentes de carro. 

Cruzeiro de Lomba

Chefes de Legião: Exu Sete Campas e Pombagira dos Sete Cruzeiros. Os pontos de força são os Cruzeiros de encostas, barrancos e lombadas. 

Cruzeiro de Praça

Chefes de Legião: Exu Kirombó e Pombagira dos Sete Cruzeiros. Os pontos de força são os Cruzeiros erguidos em praças no perímetro urbano. 

Cruzeiro do Espaço

Chefes de Legião: Exu Sete Portas e Pombagira Sete Portas. O ponto de força é a constelação do Cruzeiro do Sul ou Crux do Sul, que orientou muitas almas negras da mãe África ao destino do Brasil; por esse motivo este Cruzeiro Espacial e o Povo Estrela, a Falange de Exus e Poimbagiras a ele conectados, são importantes condutores de almas perdidas, que precisam de orientação e norte espiritual. 

Cruzeiro de Mar

Chefes de Legião: Exu Calunga e Pombagira calunga. Os pontos de força são os faróis de ilhas que guiam e orientam embarcações no mar. Estes Cruzeiros de Luz são agregadores de almas que morrem em naufrágios.

16/6/2020: REINOS & HIERARQUIAS DE EXUS NA QUIMBANDA #3 - Fernando de Ligório

Os livros tradicionais e populares de Quimbanda que tratam dos temas relacionados aos Sete Reinos sempre iniciam descrevendo o Reino das Encruzilhadas, pois ele é a via de acesso mais utilizada na Quimbanda, através da qual é possível alcançar ou acessar todos os Reinos.[1] Por conta disso os rituais da Quimbanda costumam se iniciar com pontos cantados louvando a grandeza do Chefe Império V.S. o Maioral de Quimbanda, o reino e os Exus da Encruzilhada.

   Como vimos anteriormente, os Povos ou Falanges de Exus e Pombagiras delimitam áreas de atuação próprias a sua tônica vibratória, chefiados por Cabeças ou Chefes de Legião, os quais escolhem os Exus para trabalharem nas suas áreas específicas.

Reino das Encruzilhadas

Desde tempos imemoriais feiticeiros e magos têm elegido as Encruzilhadas como vias de acesso ao mundo espiritual. Da magia greco-egípcia dos papiros na Antiguidade a tradição dos grimórios na Idade Média, a Encruzilhada – e a partir dela as quatro direções do espaço – tem sido eleita como um local adequado a comunicação com os espíritos. Isso ocorre porque toda encruzilhada é um entrecruzamento vibracional onde uma via de acesso é aberta aos reinos espirituais. É neste contexto que os Sete Reinos são faixas de vibração espiritual no plano astral. Nas Encruzilhadas o feiticeiro tem acesso a todos os Povos (Falanges) de Exus e Pombagiras no Sete Reinos. Um exemplo: Exus de Makaia são devidamente convocados nas matas; Exus de Calunga Pequena são devidamente convocados nos cemitérios; no entanto, quando convocados adequadamente, eles respondem em qualquer Encruzilhada, caso não seja possível convocá-los em suas respectivas zonas de poder. É nas Encruzilhadas que os espíritos, vivos, mortos ou criaturas diversas da Natureza, são encaminhados ao seu destino derradeiro. A cada escolha estamos no centro de uma encruzilhada na meditação profunda que definirá nossos caminhos; cabe a nós, segundo nossos desejos ou sabedoria, conduzir-nos ao nosso destino com o auxílio do Exu que nos guia. Por fornecer uma via de acesso ao mundo espiritual, as Encruzilhadas têm sido escolhidas como locais adequados a Cruzeiros e monumentos em geral, delimitando o local de encontro entre o profano e o sagrado.

   O Exu da feitiçaria tradicional brasileira recebeu por herança hereditária muitas das virtudes possuídas pelo Èṣù Òrìṣà da cultura yorubá (nagô). Uma dessas virtudes herdadas tem o epíteto de Senhor dos Caminhos, porque nos contos mitológicos Èṣù abre e fecha os caminhos de todos nós, pois ele controla todo o fluxo e refluxo de energias que passam pelas Encruzilhadas. Por conta dessa herança mágico-cultural, Exu na Quimbanda é o Senhor dos Entrecruzamentos Vibracionais que manipula as forças que passam pelas encruzilhadas, o que inclui a gerência do destino de seus Adeptos.

   Sendo Èṣù o eixo de toda comunicação, controlador e ordenados de todos os caminhos e de tudo o que existe, o Exu na Quimbanda herda a virtude de representante, guardião e senhor de todas as encruzilhadas, o intermediário par excellence entre os homens e os espíritos diversos na Natureza.

   O Reino das Encruzilhadas, portanto, é um dos pontos de força mais poderosos, importantes e mais utilizados pelos feiticeiros-kimbanda, pois é através das Encruzilhadas que os Exus e Pombagiras têm acesso a qualquer lugar ou zona de poder nos Sete Reinos de Quimbanda. A partir da Encruzilhada Exu vai a qualquer lugar.

   A Quimbanda utiliza o Reino das Encruzilhadas como vias de acesso espiritual, possibilitando o ingresso e egresso de forças por todos os Sete Reinos. Os Exus e Pombagiras de Encruzilhada são poderosos espíritos vencedores de demanda e conselheiros espirituais. São entidades responsáveis pelo rompimento de toda estagnação; elas abrem vias de acesso (entrecruzamentos vibracionais) que possibilitam expansão, progresso e crescimento. Os espíritos deste Reino são melhor oferendados nas Encruzilhadas e seus filhos devem agradá-los para poderem ter sempre seus caminhos abertos em direção ao progresso e crescimento, secular e espiritual.

   Os Sete Povos ou Falanges originais que constituem o Reino das Encruzilhadas são:

1. Encruzilhadas de Rua

2. Encruzilhadas de Lira

3. Encruzilhadas de Trilhos

4. Encruzilhadas de Matas

5. Encruzilhadas de Cemitérios

6. Encruzilhadas de Praias

7. Encruzilhadas de Estradas

Outras listagens de Povos que têm aparecido na literatura popular da Quimbanda além dos Sete Povos originais são:

8.   Encruzilhadas de Lomba

9.   Encruzilhadas de Praça

10. Encruzilhadas de Espaço

Embora essa classificação supra qualquer senso prático, uma análise da Natureza poderia incluir outros Povos de Quimbanda; a tradição como menciono no início do capítulo, tem se expandindo e o Império de V.S. o Maioral tem se ampliado. Outras classificações podem ser inseridas dentro da classificação tradicional. Por exemplo, Encruzilhadas de Campina ou de Montanha podem estar dentro do Povo das Encruzilhadas de Mata. Dessa forma, na medida em que o adepto interage e se comunica com os Povos do Reino das Encruzilhadas, sua percepção do Reino vai se ampliando, bem como suas técnicas de comunicação se refinando. O que segue é uma breve descrição dos Povos de Quimbanda no Reino das Encruzilhadas.

Encruzilhadas de Rua

Chefes de Legião: Exu Tranca-Ruas e Pombagira Maria de Padilha. Os pontos de força são encruzilhadas diversas, abertas ou fechadas, nos perímetros urbanos.

Encruzilhadas de Lira

Chefes de Legião: Exu Sete Encruzilhadas e Pombagira Sete Encruzilhadas. Os pontos de força são as encruzilhadas próximas aos comércios em geral, casas de prostituição (cabarés), boates e bares noturnos, pontos de tráfico de drogas, bancos e casas de agiotagem.

Encruzilhadas de Trilhos

Chefes de Legião: Exu Marabô e Pombagira Maria dos Trilhos. Os pontos de força são as encruzilhadas e vias de passagem em trilhos de trem.

Encruzilhadas de Matas

Chefes de Legião: Exu Tiriri e Pombagira Boca da Mata. Os pontos de força são as pequenas encruzilhadas de trilhas no meio das matas e vielas ou caminhos que conduzem ao coração delas.

Encruzilhadas de Cemitérios

Chefes de Legião: Exu Capa Preta das Encruzilhadas e Pombagira das Sete Encruzilhadas. Os pontos de força são as encruzilhadas dentro dos cemitérios, não apenas nas ruas, mas nas vias entre as covas e catacumbas.

Encruzilhadas de Praias

Chefes de Legião: Tranca-Ruas de Embaré e Pombagira da Praia. Os pontos de força são as ruas ou caminhos que desembocam nas praias, nas pedras e escarpas que dividem as ondas do mar, nas pontes que cruzam os rios.

Encruzilhadas de Estradas

Chefes de Legião: Exu Sete Estradas e Pombagira Cigana da Estrada. Os pontos de força são as encruzilhadas e entroncamentos em estradas de alto fluxo e velocidade, bem como estadas de chão em áreas rurais.

Encruzilhadas de Lomba

Chefes de Legião: Exu Sete Lombas e Pombagira das Almas. Os pontos de força são as encruzilhadas de encostas, ladeiras e lombadas.

Encruzilhadas de Praça

Chefes de Legião: Exu Quebra Galho e Pombagira Quebra Galho. Os pontos de força são as encruzilhadas dentro das praças ou no entorno delas.

Encruzilhadas de Espaço

Chefes de Legião: Exu Sete Gargalhadas e Pombagira Sete Gargalhadas. Os pontos de força são os feixes de vibração energética, ctonianas, telúricas ou aéreas que se cruzam no subsolo, nos reinos da Natureza e no espaço. Os Marcos construídos para demarcação de meridianos e paralelos são também pontos de força para o Povo do Espaço (ou Povo Estrela), além das encruzilhadas em grandes descampados onde é possível estar completamente sob a regência de planetas ou constelações zodiacais.

NOTAS:

[1] No próximo capítulo, dando sequência a discussão dos Reinos de Quimbanda com suas conexões (ou atribuições) planetárias e zodiacais, a sequência dos Reinos será listada em acordo a uma linha de raciocínio hermética, que muda completamente a ordem listada neste capítulo, servindo ainda como pano de fundo para as consultas oraculares através dos Cauris dos Exus, o jogo de búzios da Quimbanda.

11/6/2020: REINOS & HIERARQUIAS DE EXUS NA QUIMBANDA #2 - Fernando de Ligório

Antes de continuarmos a mapear os Povos de Exus e Pombagiras nos Reinos da Quimbanda, vamos buscar na história da magia a origem da hierarquia espiritual assumida pelos Poderosos Mortos.

   Em seu De Mysteriis, a parte da descrição dos deuses, arcontes, anjos, daimones, heróis e almas purificadas, Jâmblico também tece comentários sobre uma classe de espíritos irracionais, descrevendo-os como uma classe de seres entre todos os outros que nos circundam, desprovidos de juízo, razão ou julgamento, aos quais se atribui um só poder na distribuição de incumbências prescritas para toda entidade em cada parte do universo [...].[1] Existem certas classes de poderes nos cosmos [que são] limitados, desprovidos de julgamento e altamente irracionais, e que são capazes de receberem e obedecerem ordens racionais de outros, mas não têm entendimento de si mesmos e não sabem distinguir entre o verdadeiro e o falso, o que é possível e o que não é [na vida secular]. É uma classe de espíritos agitados, são assustadores quando abordados, extremamente arredios e vorazes por causa disso. O que me parece é que em sua natureza eles são levados pela aparência e são influenciados por outras coisas através de uma imaginação tola e instável.[2]

   Jâmblico fala de uma classe de espíritos bem conhecidos em diversas tradições. Estes espíritos estão muito próximos da natureza humana, sendo influenciados pela mente e imaginação do homem. Na tradição dos grimórios medievais eles são os demônios descritos e classificados hierarquicamente. Na tradição dos grimórios os demônios são:

1. Atribuídos a uma função específica; nos grimórios, demônios costumam ter apenas uma ou duas funções. Um demônio que atenda a uma demanda luxuriosa não pode atender alguém com problemas judiciais.

2. Capazes de responder e obedecer às ordens e instruções do mago. Diferente de deuses e anjos, demônios dos grimórios respondem diretamente ao mago.

3. Desconhecedores do que é falso ou verdadeiro, eles são acusados de mentir ao mago, que deve tomar cuidado. E é porque os demônios desconhecem o que é falso ou verdadeiro que os magos podem conjurá-los clamando ter a autoridade de Deus, de um mago falecido ou diabo pessoal (o espírito tutelar).

4. Assustadores quando abordados, extremamente arredios e vorazes por causa disso, para utilizar a descrição de Jâmblico; assim são apresentados os demônios dos grimórios quando conjurados pelos magos, que são aconselhados a tratá-los com punição e a pena de serem lançados as profundezas do inferno. Esse tipo de tratamento também é encontrado nos Papiros Mágicos Gregos, quando o feiticeiro ameaça o Sol de interromper o seu curso natural ou ameaça algum espírito de acusá-lo perante um deus.

5. São levados pela aparência, o que justifica o uso pelos magos medievais de regalias e aparatos cerimoniais protegidos por nomes divinos como coroas, anéis, robes, espadas etc., fazendo crer aos demônios que não se tratam de tolos, mas autoridades imbuídas de poder divino.

Jâmblico conclui dizendo que essa classe de espíritos arredios que na Idade Média tornaram-se os demônios dos grimórios, são influenciados por outras coisas através de uma imaginação tola e instável. Então podemos inferir que desde a Antiguidade o modus operandi de tratamento e comunicação com estes espíritos, distintos de outras classes de criaturas espirituais, já havia sido mapeado. Quando falamos de demônios, portanto, a análise de Jâmblico parece ser a mais congruente e coerente na história da demonologia, pois ela explica a teoria por trás das técnicas de evocação encontradas nos grimórios da Idade Média. Este modus operandi a partir das conclusões de Jâmblico está presente nos Papiros Mágicos Gregos (muito embora não tratem da convocação de demônios como compreendidos na escatologia cristã), no Hygomanteia, na Chaves de Salomão e em diversos grimórios modernos. E é interessante notar que Jâmblico está muito distante das interpretações escatológicas cristãs acerca do contato com os demônios e o perigo de danação no inferno e a condenação da alma. É a partir da interpretação de Jâmblico que faz sentido o tipo de tratamento agressivo com o qual o mago salomônico medieval estabelecia comunicação com os demônios; a uma entidade de imaginação tola e instável é fácil convencê-la de que irá ficar cativa dentro de uma garrafa ou urna de contenção.

   Embora o modus operandi para se convocar os demônios dos grimórios possa ser rastreado até os Papiros Mágicos Gregos, eles mesmos não. Os demônios dos grimórios têm pouco ou quase nada em comum com os daimones dos papiros. Mas alguns dos demônios listados no Hygromanteia aparecem em O Testamento de Salomão, datado entre os Sécs. I e II de nossa era. Inferimos que a classe de espíritos que Jâmblico descreve já era mapeada e classificada bem antes de suas conclusões.

   Na tradição dos grimórios os demônios eram classificados e registrados. Dois grimórios muito bem conhecidos por fazerem esse tipo de classificação e organização são o Livro da Magia Sagrada de Abramelin, o Mago e o Lemegeton. Na Magia de Abramelin os quatro Príncipes maiorais são Lúcifer, Satã, Leviathan, Belial e estes, por sua vez, comandam nove sub-príncipes, dentre os quais estão uma deidade ctônica grega, a deusa Kore, e quatro demônios-reis, Paimon, Óriens, Ariton e Amaimon), regendo 416 espíritos serviçais. O Lemegeton, por outro lado, é um grimório constituído por quatro livros, cada um contendo a sua própria classificação de demônios em escala hierárquica. Esse tipo de classificação, dentre muitos motivos, geográficos, sociais etc., serve de amparo à técnica de se conjurar um espírito com a autoridade de outro superior a ele, amplamente empregada nos papiros gregos. Em outras palavras, a hierarquização dos espíritos está conectada a fórmula mágica pela qual eles são convocados.

Muito pouco tem sido dito sobre a herança que a Quimbanda traz da tradição dos grimórios medievais. Alguns pontos abaixo auxiliarão a elucidar essa questão definitivamente.

1. Saber o nome do espírito confere ao mago poder sobre ele: essa gnose é tão antiga quanto à própria história da magia. Conhecer o nome de um espírito confere ao mago a capacidade de convocá-lo e direcioná-lo a cumprir o que o mago solicita. Na tradição de Quimbanda, o adepto deve conhecer bem o nome dos Exus e Pombagiras, suas cantigas (pontos cantados), suas assinaturas espirituais (pontos riscados) e suas zonas de atuação. Através deste conhecimento é possível convocar Exus ou Pombagiras nos seus respectivos pontos de força.

2. A intervenção do espírito tutelar: uma técnica de convocação comum encontrada na magia greco-egípcia dos papiros, na teurgia neoplatônica, no Hygromanteia e no Testamento de Salomão é conjuração de uma criatura espiritual menor em nome de uma superior. Na feitiçaria dos papiros daimones diversos eram convocados em nome do paredros, o daimon assistente; na teurgia neoplatônica daimones eram conjurados em nome do daimon pessoal; na magia de Abramelin demônios eram controlados pela intervenção do Sagrado Anjo Guardião; na tradição salomônica demônios eram convocados através do diabo pessoal. A ideia é ter autoridade sobre criaturas menores através do poder do espírito tutelar ou outra força superior; nos papiros daimones também eram conjurados em nome da autoridade de deuses; na tradição dos grimórios demônios eram convocados em nome dos arcanjos e da autoridade de Deus conferida ao mago. Na tradição de Quimbanda essa técnica está presente na relação que o adepto estabelece com seu Exu Tutelar que, via de regra tem espíritos menores, Eguns diversos, trabalhando como servidores. Na Quimbanda Exu abre linha! Isso significa que qualquer criatura da Natureza pode ser conjurada em nome e pelo poder do Exu Tutelar.

3. Invocação hierarquizada: o Hygromanteia baseia toda sua técnica de invocação na hierarquia dos espíritos, estabelecendo uma ordenação dos espíritos superiores aos espíritos inferiores. Nesse caminho, forças planetárias, arcanjos e anjos são invocados antes da convocação do espírito menor. Nos rituais de Quimbanda, conhecidos como giras, pontos cantados diversos a V.S. o Maioral, Reis, Rainhas e demais Chefes de Falange são entoados pelos adeptos antes do ponto do Exu que se quer trabalhar. A ideia é saudar primeiro V.S. o Maioral de Quimbanda, demais Exus da casa/templo até a convocação do Exu de trabalho do ritual.

4. Símbolos, assinaturas e selos: símbolos têm sido usados para se comunicar com os espíritos desde a idade mais remota da magia. Na teurgia neoplatônica, símbolos (sunthēmata) são portais noéticos de comunicação com os deuses; na tradição dos grimórios estes símbolos são apresentados na forma de diagramas geométricos (pantáculos) e assinaturas (sigilos). Esse tipo de comunicação com os espíritos através de símbolos também está presente na Quimbanda através da ciência dos pontos riscados.

Um tomo completo poderia ser escrito comparando as técnicas utilizadas na Quimbanda para comunicação com espíritos e que são encontradas em tradições diversas desde a Antiguidade e antes. O fenômeno da incorporação, por exemplo, está presente nos cultos de mistérios da tradição greco-egípcia da magia, mas esteve ausente da tradição dos grimórios. A técnica da incorporação, portanto, veio até a Quimbanda diretamente através da cultura kimbundo-bantu. O Corte ou sacrifício propiciatório as deidades da Quimbanda, bem como oferendas diversas a elas, também estão presentes nas tradições antigas como a teurgia e feitiçaria dos papiros, mas também estiveram ausentes da tradição dos grimórios salomônicos. Como as culturas africanas preservaram, desenvolveram e refinaram estas técnicas, é delas que a Quimbanda recebe essa influência.

   Voltando a questão da hierarquia dos espíritos. Quando pensamos na organização hierárquica dos demônios em suas diversas classificações medievais, Reis, Príncipes, Condes, Duques etc., devemos levar em consideração que eles têm uma regência ilusória quando contrastada a regência de criaturas espirituais mais elevadas, segundo as concepções dos demonólogos medievais. Dessa forma, os demônios regem apenas o reino da geração ou os níveis subterrâneos do inferno, distintos dos seres celestiais que regem o reino dos céus. É por isso que os demônios recebem os títulos da nobreza terrena, não os títulos da nobreza divina. Embora autores como Stephen Skinner tivessem se esforçado para comparar esses títulos de nobreza terrena a forças planetárias, em verdade eles não representam ou descrevem qualquer poder além daquele da atuação dos espíritos em espaços delimitados. Os títulos hierárquicos dos demônios descrevem e espelham uma ação social, no entanto de organização espiritual dentro de seus respectivos domínios. Isso significa que tais títulos servem mais para delimitar a área de ação dos espíritos do que descrever qualquer de suas virtudes ou poderes. Isso está em plena harmonia com a hierarquia dos Exus e Pombagiras na Quimbanda. A hierarquia dos Exus e Pombagiras não reflete a capacidade de atuação ou os poderes deles, muito menos determina graus de importância ou subserviência. Ao contrário disso, estabelece limites para sua atuação nos Sete Reinos de Quimbanda e entre seus respectivos Povos ou Falanges. Então, onde se encerra um campo de atuação de determinado Exu, imediatamente se inicia outro campo de atuação de outro Exu. Assim, Exus e Pombagiras Reis e Rainhas têm um campo de atuação maior do que Exus e Pombagiras Chefes de Falange. Isso pode ser visto nas classificações dos quatro demônios reis nos grimórios em que eles aparecem, tendo uma área de atuação muito maior do que os demônios os quais eles regem. Em diversos grimórios, por exemplo, o Rei dos espíritos aéreos tem autoridade sobre todos os espíritos aéreos e tal autoridade não transgride os limites de outros reinos elementais. Quando falamos de Reis no contexto dos demônios medievais, estamos lidando com forças estritamente elementais,[3] telúricas, conectadas ao reino da geração. Os ministros abaixo dos Reis transmitem sua regência a todos os espíritos menores e abaixo na ordem hierárquica.

   A tradição dos grimórios também apresenta espíritos infernais distribuídos em ordem hierárquica, com Príncipes como Lúcifer, Belial, Satã ou Asmodeus regendo uma legião de demônios menores. Em alguns grimórios os quatro demônios reis são listados abaixo da regência destes príncipes maiorais do inferno ou conectados a eles, mas na maioria das vezes eles são tratados separadamente, com variações distintas, hora também listados e conectados a forças planetárias e arcanjos no reino dos céus. Isso é interessante de se notar, pois demonstra que os quatro demônios reis não estão na região do inferno (subterrânea) ou na região celestial, mas entre eles, na região elemental.[4] O que inferimos de toda essa classificação hierárquica é que ela diz mais sobre as zonas de poder ou pontos de força de atuação dos espíritos do que descreve suas virtudes ou poderes. No caso dos quatro demônios reis, eles são Reis porque regem sobre todas as operações dos reinos elementais. Isso é consistente com a posição dos Reis e Rainhas que regem os Sete Reinos de Quimbanda: sua autoridade se estende a todos os Povos através dos Chefes de Falange que os regem. Então o que podemos observar é que a ideia de hierarquia espiritual contida nos grimórios, fundamentalmente aquela associada aos demônios, foi 100% aproveitada na Quimbanda na distribuição dos Exus e Pombagiras nos Povos em seus respectivos Reinos.

   Tendo brevemente explicado que a hierarquia dos Exus e Pombagiras está conectada as suas zonas de poder e não a qualquer descrição de seus poderes ou virtudes, e que essa ideia deriva dos grimórios e demonologia medieval, podemos passar aos Povos ou Falanges dos Sete Reinos de Quimbanda.

NOTAS:

[1] Jâmblico, De Mysteriis, IV.1.182.

[2] Jâmblico, De Mysteriis, IV.5.246.

[3] Em um sentido mais técnico, que trataremos em outra oportunidade, é mais correto ou coerente dizer que os demônios reis estão ou são melhores associados às direções do espaço do que aos reinos elementais. Para fins de melhor compreensão e associação com a Quimbanda, didaticamente a forma como aqui o tema é apresentado servirá.

[4] Mais precisamente as direções do espaço.

9/6/2020: REINOS & HIERARQUIAS DE EXUS NA QUIMBANDA #1 - Fernando de Ligório

Os Reinos de Quimbanda, tecnicamente, são as zonas de poder de atuação dos Exus e Pombagiras, organizados hierarquicamente em Povos ou Falanges. Na cosmovisão da Quimbanda, estes Reinos ou zonas de poder são fracionados em número de sete, cobrindo toda região sub-lunar[1] e constituindo a totalidade da Natureza. A criação e organização dos Sete Reinos de Quimbanda e seus respectivos Povos distribuídos em escala hierárquica recebe influência da estrutura tribal e monárquica da cultura kimbundo-bantu e da demonologia europeia medieval.[2] Na construção deste Grande Reinado, a cada um dos Sete Reinos de Quimbanda foram atribuídos Sete Povos ou Falanges, em acordo ao arcano de mistério do Septenário Hermético.[3] Com o tempo a Quimbanda foi agregando mais Exus e Pombagiras e novos Povos e Falanges foram sendo associados aos Sete Reinos. A Quimbanda, o Império de V.S. Maioral, está ampliando suas fronteiras.

   Cada um dos Sete Reinos de Quimbanda contêm profundos mistérios iniciáticos. Sondá-los em sua inteireza constitui o trabalho de uma vida dedicada à comunhão com o Espírito selvagem da Natureza, a Fonte genetriz de todos os Reinos e Povos de Quimbanda personificada na imagem da deusa Baphomet, V.S. o Maioral.[4]

   Algumas interpretações fazem parecer que os Reinos da Quimbanda são zonas de poder dentro do que se conveniou chamar de plano astral. Um feiticeiro-kimbanda, de cosmovisão animista, não costuma ver diferença entre o plano físico e o plano astral (espiritual); ambos os planos se entrelaçam. Operando sobre o plano físico energia vital é movimentada, manipulada, projetada e o plano espiritual é influenciado. Essa é à base de toda genuína feitiçaria. Nesse caminho, os Sete Reinos de Quimbanda são as zonas de poder físicas através do qual é possível acessar as virtudes de certos tipos de espíritos que operam sob a mesma vibração espiritual, os Povos de Exus e Pombagiras.

   Seguindo o padrão da demonologia europeia, os Reinos de Quimbanda são governados por Exus e Pombagiras distribuídos em ordem hierárquica: cada um dos Sete Reinos possui dois governantes, Rei e Rainha; cada Povo ou Falange nos seus respectivos Reinos também é governado por Exus e Pombagiras Chefes de Falange. Assim, tradicionalmente temos os Sete Reinos:

1. Reino das Encruzilhadas, governado por Exu Rei das Sete Encruzilhadas e Pombagira Rainha das Sete Encruzilhadas.

2. Reino dos Cruzeiros, governado por Exu Rei dos Sete Cruzeiros e Pombagira Rainha dos Sete Cruzeiros.

3. Reino das Matas, governado por Exu Rei das Matas e Pombagira Rainha das Matas.

4. Reino da Calunga Pequena (cemitério), governado por Exu Rei da Calunga[5] e Pombagira Rainha da Calunga.[6]

5. Reino das Almas, governado por Exu Rei das Almas[7] e Pombagira Rainha das Almas.

6. Reino da Lira, governado por Exu Rei das Sete Liras e Pombagira Rainha das Sete Liras.[8]

7. Reino da Calunga Grande (praia), governado por Exu Rei das Praias e Pombagira Rainha das Praias.

Todos estes Reis e Rainhas dos Sete Reinos de Quimbanda têm pontos de força especiais a sua convocação:

1. O Exu Rei das Sete Encruzilhadas e a Pombagira Rainha das Sete Encruzilhadas podem ser convocados em qualquer tipo de encruzilhada.[9]

2. O Exu Rei dos Sete Cruzeiros e Pombagira Rainha dos Sete Cruzeiros respondem em todos os locais de cruzamento e passagem de pessoas, portas, portões, ruas que seguem encruzilhadas e no Cruzeiro das Almas de igrejas e cemitérios.

3. O Exu Rei das Matas e Pombagira Rainha das Matas são convocados em todos os pontos de força onde existem matas, florestas, montanhas, campinas e bosques na Natureza.

4. O Exu Rei da Calunga e Pombagira Rainha da Calunga atendem dentro dos cemitérios.

5. O Exu Rei das Almas e Pombagira Rainha das Almas podem ser convocados em locais altos, colinas onde no passado eram sepultados os mortos, em hospitais, necrotérios, capelas funerárias e igrejas.

6. O Exu Rei das Sete Liras e Pombagira Rainha das Sete Liras respondem nos prostíbulos, na porta de bares, cassinos e comércios em geral, em praças e locais ao ar livre de circulação de pessoas.

7. O Exu Rei das Praias e Pombagira Rainha das Praias são convocados nas areias e dunas ao redor de mares e rios, pedreiras e minas d’água, e em todos os lugares que margeiam rios, cachoeiras, represas e mares. Todo o local próximo a águas salgadas e doces.

Para compreendermos a classificação hierárquica dos Exus e Pombagiras na Quimbanda, vamos retroceder um pouco no tempo até Jâmblico, à verdadeira fonte por trás das conclusões dos demonólogos cristãos na Idade Média e que influenciaram a feitiçaria tradicional brasileira. Até aqui o leitor já percebeu que a ponte estabelecida entre a Quimbanda e os cultos de mistérios da Antiguidade, a feitiçaria dos papiros gregos, a teurgia neoplatônica etc., serve de medida para identificar na Quimbanda os elementos que a conectam a Tradição Ocidental de Mistérios. Como observado em O Espírito de São Cipriano,[10] toda a riqueza da feitiçaria e espiritualidade dos cultos de mistérios da Antiguidade foi trazida a Quimbanda através da corrente mágica da tradição cipriânica da magia. O mito de São Cipriano, sua busca e encontro com o Diabo, é contemporâneo a teurgia de Jâmblico e a feitiçaria dos papiros gregos, contendo muitos elementos de ambos.

NOTAS:

[1] Quer dizer, a faixa ou éter de vibração abaixo da Lua, habitada por criaturas espirituais aéreas, telúricas, aquáticas e ctônicas.

[2] A demonologia medieval desenvolvida pelos anacoretas e demonólogos cristãos da qual a hierarquia de Exus e Pombagiras na Quimbanda se baseia tem uma fonte muito mais antiga precisa: as classificações de Jâmblico em De Mysteriis. Veja abaixo.

[3] O Septenário Hermético da Quimbanda envolve os três reinos (mineral, vegetal e animal) e os quatro elementos (fogo, ar, água e terra). Ao Septenário Hermético da Quimbanda são atribuídas virtudes planetárias diversas, pedras, folhas, metais, animais, etapas alquímicas etc. Isso alinha a Quimbanda a Tradição Ocidental de Mistérios.

[4] Na feitiçaria europeia tradicional (popular/ibérica/cipriânica), o Diabo, Deus das Feiticeiras, o Espírito da Natureza. Nesse ponto de nosso estudo está claro que V.S. o Maioral de Quimbanda foi inspirado na imagem popular do Diabo, sendo esta terminologia criada pelos inquisidores do Santo Ofício; no entanto, essa inspiração carrega secretamente uma brisa hermética da Tradição Ocidental de Mistérios, projetando o Diabo como o Bode do Sabbath ou Atu XV do Tarot personificado na imagem do Baphomet de Eliphas Levi.

[5] Exu Rei do Cemitério.

[6] Pombagira Rainha do Cemitério.

[7] Exu Omulu.

[8] Rainha das Marias ou Rainha do Candomblé (dança).

[9] Algumas interpretações sustentam que Exu Rei das Sete Encruzilhadas é convocado em encruzilhadas abertas de Exu (em X); Pombagira Rainha das Sete Encruzilhadas é convocada em encruzilhadas fechadas de Pombagira (em T). Em nossa tradição entendemos que todos os pontos de força na Natureza são zonas de poder de congruência masculina e feminina, positiva e negativa, quer dizer, de harmonia e equilíbrio entre as forças, o que é regulado pela própria Natureza, o corpo de V.S. o Maioral de Quimbanda. É o tipo ou qualidade de energia que se quer manipular que define a diferença entre os pontos de força na Natureza. Por exemplo, encruzilhadas abertas são boas para trabalhos de abertura de caminhos; encruzilhadas fechadas são melhores para trabalhos de fechamento de caminhos.

[10] Livro ainda em fase de construção.

27/5/2020: DIVINAÇÃO, ORÁCULO & TEURGIA NA QUIMBANDA - Fernando de Ligório

Eu estou sempre destacando a depreciação, a calúnia e a alcunha pejorativa de baixa magia ou culto de aprisionamento e parasitismo que a tradição de Quimbanda é anunciada em círculos ocultistas modernos neo-herméticos. Meu trabalho consiste em demonstrar que diferente disso, a feitiçaria tradicional brasileira trata-se de uma prática inserida no grupo de tradições e cultos de mistérios do Ocidente, contendo os mesmos elementos divinizantes da teurgia e religião greco-romana, caldeia e egípcia. Oráculos e outros tipos de divinação inspirada eram aspectos fundamentais e muitas vezes centrais nas religiões teúrgicas do passado. Para os filósofos da Antiguidade, a racionalidade reflexiva superior estava diretamente associada a revelação oracular. Para Jâmblico, que pode ser considerada a inspiração mais prístina de um teurgo, o oráculo é um símbolo (sunthēmata) dos deuses e uma ferramenta da contemplação filosófica, gnose e iniciação. Jâmblico propôs a divinação oracular como o elemento central ou ápice teúrgico do ritual, o componente essencial a união mística com o divino. O oráculo, teurgicamente definido, é a pronúncia divinamente inspirada de uma fonte sobrenatural, uma deidade, obtido por meio do ritual.

   Como uma ferramenta teúrgica, o oráculo é tanto o jogo (búzios, ossos, cartas/baralho, tarot, runas etc.) quanto a capacidade de receber revelações, inspirações divinas ou a mensagens canalizadas através da mediunidade de um adepto no fenômeno da incorporação. O termo divinação é mais adequado que adivinhação. Como um culto teúrgico, a Quimbanda é um culto de divinização ou o trabalho de deificação da alma. Deificar a alma é divinizá-la. A divinização oracular, portanto, é um exercício de comunicação e conexão com o sagrado. Na Quimbanda a prática fundamental a divinização da alma é o conhecimento e a conversação com os Exus e Pombagiras, a interação simbiótica entre os pneumas do feiticeiro e do Exu. A divinação oracular através do jogo de búzios, ossos, baralho cigano (cartas) ou o tarot refina a conexão divinatória entre o adepto e os Poderosos Mortos, mestres e guias da humanidade, os Exus e Pombagiras.

   Na tradição de Quimbanda, portanto, o jogo é uma ferramenta oracular de teurgia e o desenvolvimento iniciático do adepto no culto está associado diretamente a sua interação e conexão com o oráculo, da iniciação a maestria. Em nossa casa, o oráculo de desenvolvimento são os Cauris dos Exus. Outras casas transmitem o oráculo com ossos ou o baralho cigano etc. Seja como for, qualquer iniciação em boa e legítima Quimbanda deve transmitir uma gnose oracular, pois se trata de ferramenta teúrgica fundamental a deificação da alma. Não há nada de novo na Quimbanda; ela detém os mesmos métodos e ferramentas teúrgicas dos cultos de mistérios do passado.

   Por último, resta dizer que tradições de Cabala Crioula como a Quimbanda ou o Candomblé têm muito mais ferramentas místicas e mágicas a oferecer para um trabalho sério de deificação da alma do que lojas maçônicas regulares e suas contendazinhas com lojas irregulares, ou classificações fantasiosas sobre tradições de esquerda e direita.

24/5/2020: EXU SETE PORTAS & O POVO ESTRELA NA QUIMBANDA - Fernando de Ligório

Muita incompreensão ainda é lançada sobre a Quimbanda, como se ela fosse o reduto de entidades torpes, de pouca ou quase nenhuma sabedoria. Isso está longe da verdade. Na Quimbanda, Exu é o Senhor do Archote, como o Eremita (Atu IX) do Tarot, que com sua luz ilumina a ignorância espiritual de seus tutelados. A diferença arquetípica é apenas uma: Exu é o Archote da Luz ou Chama Negra da Alma. Para os desconhecedores dos Caminhos de Exu, os espíritos que se apresentam na Quimbanda são de uma classe involuída que trabalha em socorro de sua própria evolução. Isso está longe de ser verdade! Exu é mestre, guia espiritual e orientador do destino de seus adeptos. Exu não busca evolução; pelo contrário, ele conquistou em vida, devido à honra e força que adquiriu, o posto de Exu nas Falanges de V.S. Maioral de Quimbanda.

   Como estamos estudando no texto Os Sete Reinos de Quimbanda: Pontos de Força & Congruências Planetárias, os Reinos dos Exus e Pombagiras na Quimbanda estão conectados ao Povo Estrela: O trabalho de atuação vibracional dos Exus e Pombagiras ocorre por meio de faixas vibratórias divididas na escala de sete, conectando zonas de poder terrestres e forças planetárias. Essas zonas de poder terrestres são o que chamamos na feitiçaria tradicional brasileira de Reinos da Quimbanda. Através do trabalho com as zonas de poder dos Povos de Exu e Pombagira é possível acessar as criaturas espirituais das estrelas: os planetas e as constelações. Nessa nota, vamos explorar o tema através do Reino dos Cruzeiros, entendidos na feitiçaria tradicional brasileira como portais ou vórtices de vibração que aglutinam todo tipo de almas (não deificadas).

   Na condição de portais, eles dão acesso de entrada e saída a espíritos diversos que se movimentam nos planos espirituais, por esse motivo o Reino dos Cruzeiros também está diretamente associado ao Reino das Encruzilhadas. Os feiticeiros da Antiguidade perceberam que os Cruzeiros eram portais ativos para o reino dos mortos, associando-os as virtudes planetárias de Marte e Saturno. Como vórtices de vibração, os Cruzeiros são pontos de força que aglutinam diversos tipos de Eguns, evitando que eles fiquem perdidos pelos meandros obscuros do plano astral atormentando a vida daqueles encarnados na grande legião dos vivos. No texto mencionado acima eu escrevi: As legiões de Exus e Pombagiras, 49 no total, são distribuídas em povos nas suas respectivas zonas de poder. [...] Como a Quimbanda Luciferiana opera com o arcando de mistério do septenário hermético, somente Sete Povos Sagrados de Exus e Pombagiras são atribuídos a cada Reino de Quimbanda, alguns com legiões híbridas, outros não.

   Uma das Legiões híbridas de Exus e Pombagiras no Reino dos Cruzeiros são os Exus e Pombagiras do Cruzeiro do Espaço. O Cruzeiro do Espaço não está associado a nenhuma zona de poder física, mas a constelação do Cruzeiro do Sul ou a Cruz do Espaço, muito importante entre os tupis-guaranis (pré-colônia) e os navegantes quinhentistas dos Sécs. XV e XVI. Os tupis-guaranis (xamãs e indígenas em geral) têm profundo conhecimento acerca de seu ambiente, geografia, plantas, animais e estrelas nomeadas pelos seus ancestrais. A ancestralidade espiritual da Quimbanda está intimamente associada a uma miscigenação mágico cultural entre a cultura tupi-guarani (xamanismo ameríndio), a cultura bantu/yorubá (xamanismo africano) e a feitiçaria ibérica, herdando deste caldeirão mágico concepções religiosas, mágicas e herméticas. Por isso não difícil associar matérias/técnicas como goécia e astrologia a tradição de Quimbanda, embora poucos tenham a condição de fazê-lo. A Cruz do Espaço foi orientadora do destino de muitos navegantes na época da descoberta das Américas. Por esse motivo a constelação do Cruzeiro do Sul é uma poderosa zona de poder que concentra a alma dos mortos a deriva nos éteres celestes. Devido à presença e o brilho de uma nebulosa próxima, a Cruz do Espaço é considerada um portal de ingresso e egresso de criaturas espirituais obscuras que residem para além dos ciclos do tempo e espaço.

   O guardião deste portal é o Exu Sete Portas, que permite seu fluxo de espíritos, seu ingresso e egresso, e comanda uma horda de almas perdidas nos éteres celestes, trabalhadores de sua causa. Em auxílio aos seus adeptos feiticeiros-kimbanda, Exu Sete Portas garante seus caminhos abertos e o acesso aos desejos que almejam conquistar. Como um aglutinador de almas perdidas, sua virtude é a da receptividade, garantindo que todas as portas estejam abertas aos seus feiticeiros. Com o auxílio de Exu Sete Portas é possível acessar o povo estrela da Constelação do Cruzeiro do Sul, garantindo sua ajuda na realização dos desejos almejados. Com essa característica, Exu Sete Portas tem sido convocado para o estabelecimento de acordos de todos os tipos, admissão a colegiados e instituições, demissões, destruição e arrombamentos (físicos e espirituais). Na Quimbanda Exu abre linha de trabalho.

20/5/2020: A FEITIÇARIA TRADICIONAL BRASILEIRA - Fernando de Ligório

Por meio da influência cipriânica da magia (feitiçaria ibérica popular), a tradição de Quimbanda ou feitiçaria tradicional brasileira é uma herdeira genuína do Culto do Diabo. Durante a Idade Média e Moderna, os inquisidores do Santo Ofício, treinados pelos manuais de demonologia que se espalhavam pela Europa, procuravam pelos vestígios de três crimes contra a fé cristã: o Pacto com o Diabo, a Marca do Diabo e a participação no Sabbath das Bruxas. Estes três crimes contra a fé cristã sobreviveram na tradição de Quimbanda e formam um tripé de sustentação.

   O Pacto com o Diabo: A ideia de pacto com espíritos ou de pacto com o diabo como desenvolvida desde que os mitos de Fausto e Mefistófeles começaram a se espalhar pela tradição oculta está associada à doutrina do espírito tutelar, presente também na tradição cipriânica da magia (feitiçaria ibérica popular) e na tradição salomônica. Fausto teria, após uma série de invocações, assinado um pacto com Mefistófeles que, a partir daquele momento, tornou-se seu espírito tutelar, um diabo pessoal. São Cipriano, assim como Fausto era um mago poderoso do imaginário popular e também teria aprendido magia diretamente de sua associação com um diabo pessoal. Essa ideia de associação íntima com um espírito tutelar é consistentemente desenvolvida nos papiros gregos na relação que o feiticeiro deve construir com o paredros. Soldo: o poder que Salomão possuía, assim como as figuras míticas de Fausto e São Cipriano, bem como outros grandes magos da Antiguidade clássica e tardia como Simão o Mago, provinha diretamente de sua associação e pacto com espíritos, melhor dizendo, conhecimento e conversação com eles. O pacto com espíritos como o conhecemos hoje é o Conhecimento & Conversação com o Espírito Tutelar, o daimon (ou demônio) pessoal que nos acompanha na jornada magística. Fazer um Pacto com Diabo, em essência e desde os primórdios da magia, trata-se de obter um espírito tutelar. Essa ideia está presente na feitiçaria tradicional brasileira no pacto que o feiticeiro-kimbanda estabelece com seu Exu Tutelar no curso do Ritual de Iniciação.

   A meta de todo feiticeiro como ilustrado romanticamente nos mitos de Fausto e São Cipriano é o Conhecimento & a Conversação com o Espírito Tutelar na intenção de receber dele instrução secreta de feitiçaria, obtenção de sabedoria oculta e poderes magísticos. Tudo isso o Diabo pode prover! A Confessio Cypriani narra os poderes adquiridos por São Cipriano através de sua relação com o Diabo. Afundar navios, fazer água aparecer no deserto, ter controle sobre correntes aéreas etc. são atos dignos de personagens como Moisés e Salomão; mesmo sendo eles fictícios, ilustram a busca fundamental do feiticeiro. Fausto, imerso em uma lúgubre floresta à noite, quando encontrou um «caminho cruzado», invocou em nome do «Príncipe dos Diabos» o seu diabo pessoal, Mefistófeles, e com ele estabeleceu um pacto e adquiriu conhecimento arcano secreto. Por «caminho cruzado» entenda encruzilhada; por «Príncipe dos Diabos» entenda V.S. Maioral. Reside aí no mito faustino a construção da hierarquia espiritual e que sobreviveu na tradição de Quimbanda no ordenamento em falanges os Exus e Pombagiras, as Hordas de V.S. Maioral. É Maioral que «libera» o Exu Tutelar ao feiticeiro-kimbanda, uma herança hierárquica observada na tradição salomônica (e por extensão na magia de Abramelin), na teurgia clássica neoplatônica e feitiçaria popular europeia. Maioral é para um feiticeiro-kimbanda o que o Espírito da Natureza (o Diabo) era para as feiticeiras ibéricas exiladas no Brasil. Maioral foi um título dado ao Diabo como Regente do Inferno no Séc. XVI pelos inquisidores do Santo Ofício.

   A Marca do Diabo: A marca do diabo atestava, portanto, que existia uma forma de comunicação oculta entre as bruxas e o Diabo. A literatura mágica e os autos da Inquisição trazem histórias e relatos de feiticeiras que mantinham conexões com forças diabólicas, diabos pessoais (diabretes), os quais eram alimentados diariamente com sangue delas através do dedo mindinho ou outra parte do corpo. A marca do diabo era a cicatriz que a feiticeira carregava por alimentar seu diabo pessoal. No Ritual de Iniciação, o feiticeiro-kimbanda ganha a Marca do Diabo: pequenos cortes que recebem – e portanto selam o compromisso – o sangue do animal sacrificado, compartilhado entre o feiticeiro e o Exu Tutelar. O sangue retirado desses cortes é introduzido diretamente no assentamento do Exu Tutelar. Como uma genuína herança da feitiçaria ibérica e da tradição dos grimórios modernos, o Pacto estabelecido entre o feiticeiro e seu Exu é de sangue.

   O Sabbath das Bruxas: O sabbath ou a festa das bruxas era a suposta adoração romântica do Diabo na calada da noite em florestas sinistras. O encontro noturno esperava-se ocorrer à meia noite, quando o Diabo em pessoa apareceria para as feiticeiras em uma festa orgástica. Embora nos autos da Inquisição não conste nenhum relato de feiticeiras flagradas adorando o Diabo em festas e bacanais, há relatos de testemunhos, muitas vezes tecidos pelas próprias bruxas, da realização do sabbath. Na tradição de Quimbanda, o Sabbath das Bruxas são as Giras que ocorrem na Hora Grande, a partir da meia noite, quando Maioral vem autorizar a presença dos Exus e Pombagiras.

   O exercício da feitiçaria tradicional brasileira, a Quimbanda, envolve um aprofundamento em círculos cada vez mais concêntricos de obscuridade. Quanto mais fundo nos lançamos ao perigoso entrecruzamento de forças nos Reinos da Quimbanda, mais a compreensão de sua sabedoria se torna densa, obscura e sinistra. O véu que esconde toda essa sabedoria arcana, sinistra e obscura é um folclore confuso, no entanto, vertiginosamente dinâmico e criativo.

   Kobá Maioral é Rei!

17/5/2020: A ALQUIMIA ESPIRITUAL DO CULTO DE EXU (Parte #3) - Fernando de Ligório

Continuando nossas reflexões sobre a alquimia espiritual do Culto de Exu, hoje vamos explorar um pouco dos Cauris dos Exus, quer dizer, o jogo de búzios da Quimbanda e os Sete Reinos das Falanges e Hordas de Exus e Pombagiras. Eu tenho explorado o tema nos vlogs (entradas de 13 e 15/5/2020) e cheguei a tecer alguns comentários em Redes Sociais, os quais reproduzo abaixo:

Os Búzios de Exu ou Cauris dos Exus é um oráculo de comunicação com os Poderosos Mortos. Este oráculo é transmitindo no momento da iniciação e a ele também e destinado o sangue do sacrifício propiciatório.

   Diferente do Èrìndìnlógún associado ao culto aos Òrìṣàs, os Cauris dos Exus é um oráculo destinado somente a comunicação com os Poderosos Mortos, os Exus e Pombagiras da Quimbanda.

   O jogo possui uma tecnologia oracular de 5, 7, 9 e 16 búzios e foi desenvolvido pelos primeiros Tatás de Quimbanda Tradicional, tronco de Quimbanda oriundo das tradições de Candomblé.

   Nos Cauris dos Exus, quer dizer, o jogo de búzios do Culto de Exu, a Quimbanda, a tecnologia oracular de 9 búzios (signos ou contas) é feminina, usada pelas feiticeiras-kimbanda em sessões oraculares.

   Associados diretamente ao Culto das Pombagiras, os nove Cauris dos Exus conformam um oráculo conectando diretamente aos mistérios e arcanos da sagrada espiritualidade feminina, os poderes generativos do útero, do ventre e da vulva.

   Os 9 Cauris dos Exus na Quimbanda formam um intrigado oráculo de bruxas e feiticeiras que rastreiam todos os Reinos e Povos da Quimbanda nas diversas áreas de atuação dos Exus e Pombagiras nas questões espirituais e seculares do homem. O oráculo é utilizado sobre uma cesta de búzios na conformação de um ventre, profundo e na forma circular.     

O jogo de búzios do Culto de Exu começou a ser formulado pelos primeiros Tatás de Quimbanda Tradicional no Brasil e ficou conhecido como Cauris dos Exus através de uma tecnologia oracular que emprega 5, 7, 9 e 16 signos (contas/búzios). O popular jogo de confirmação de 4 búzios na Quimbanda na verdade é uma herança do Érìndìlógún. O verdadeiro jogo de confirmação com búzios na Quimbanda é composto de 5 búzios, quatro abertos (representando a palavra dos Exus e Pombagiras) e 1 fechado, representando o Bará (desempatador/última palavra).

   Dependendo da fundamentação do oraculista, o jogo de confirmação de 5 búzios vai para muito além de respostas simples como sim, não ou talvez. Devidamente treinado os 5 búzios podem ser utilizados em consultas que envolvem todas as áreas da vida: amor, trabalho, espiritualidade etc. Isso significa que o verdadeiro jogo de confirmação de Exu não se trata apenas para a comunicação pessoal entre o feiticeiro e o Exu Tutelar, mas também para atendimentos oraculares. E diferente do Érìndìlógún, que mapeia toda alma e sua periferia sem que o consulente diga uma única palavra, os Cauris dos Exus são considerados um Pronto Socorro Espiritual, respondendo dúvidas fundamentais e apontando caminhos (ebós, magias diversas e aconselhamento de Exu ou Pombagira).

   O jogo com 7 búzios mapeia os problemas dentro dos Sete Reinos de Quimbanda. Os Sete Reinos nos Cauris dos Exus são dispostos em uma forma alquímica. Normalmente, o Primeiro Reino a ser estudado/saudado/cantado tem sido o Reino das Encruzilhadas pelo fato delas representarem o acesso a todos os outros Reinos da Quimbanda. Isso é correto, mas nos Cauris dos Exus, o Primeiro Reino é a Calunga Grande (o Reino das Praias), de onde a vida brota e, portanto, opera com a virtude do início, do princípio de tudo. O Sétimo Reino sendo a Calunga Pequena (cemitérios), operando com a virtude do fim, da morte. Então, seguindo essa fórmula alquímica, a qual nos debruçaremos em outras reflexões, temos: 1. Calunga Grande; 2. Almas; 3. Cruzeiros; 4. Encruzilhadas; 5. Lira; 6. Matas e; 7. Calunga Pequena. Através do jogo de 7 búzios é possível mover-se pelos Reinos da Quimbanda, acessar seus respectivos Povos e operar neles com os Exus e Pombagiras.

   Como temos estudado nessas reflexões, constitui uma alquimia na alma o conhecimento e a conversação com o Exu Tutelar. O jogo de búzios, os Cauris dos Exus, constitui portanto, uma ferramenta especial no processo de refinamento alquímico com o Exu Tutelar. Existe dois jogos especiais com 3 e 4 búzios para trabalho espiritual de alquimia da alma. O jogo de 3 búzios, por exemplo, se conecta as três cores da Quimbanda: vermelho, preto e branco, representando os três reinos (mineral, animal e vegetal) ou a constituição do átomo: prótons, nêutrons e elétrons. O jogo com 4 búzios está conectado aos Quatro Elementos. Nos Cauris dos Exus nós chamamos esses dois jogos, com 3 e 4 búzios, de o Jogo de Maioral. Efetivamente, na Quimbanda Luciferiana (e apenas nela) os Cauris dos Exus são a Boca de Maioral através dos Reinos e Povos de Exus e Pombagiras.

12/5/2020: A ALQUIMIA ESPIRITUAL DO CULTO DE EXU (Parte #2) - Fernando de Ligório

Nas reflexões anteriores, Quimbanda não trata a Cabeça (entrada de 22/4/2020) e A Alquimia Espiritual do Culto de Exu (entrada de 10/5/2020), discutimos alguns pontos sobre a alquimia espiritual no conhecimento e conversação com o Exu Tutelar. Na reflexão de hoje vamos nos aprofundar mais um pouco.

   Ficou claro que na Quimbanda não existe o trato do Orí como praticado no Culto aos Òrìṣàs. O Orí é um elemento central para deificação da alma no Culto aos Òrìṣàs e como tal, não ganha destaque na tradição de Quimbanda. Na tradição de Quimbanda é o conhecimento e a conversação com os Exus e Pombagiras o mecanismo fundamental para deificação da alma. Para continuarmos nosso aprofundamento, vou tecer mais algumas considerações.

   Grosso modo, o Orí é a própria existência humana e como tal, a primeira divindade a ser cultuada, a cabeça. O Orí é a manifestação do homem e não há nada que se faça na terra sem a permissão do Orí, senhor do destino. Não se faz nada sem que a cabeça permita e saiba. Se na Quimbanda nós cultuamos Exus e Pombagiras, almas ancestrais divinizadas, os irunmalés* (almas ancestrais enterradas na terra), por consequência estamos cultuando Orí, pois os convocamos para nos ajudar nos caminhos da existência humana.

   O ritual de alimentar a cabeça, portanto, não existe na tradição da Quimbanda como no Culto aos Òrìṣàs; na Quimbanda, de outro modo, no conhecimento e conversação com o Exu Tutelar, trata-se do Orí por extensão. Um exemplo prático: se o Exu Tutelar pede uma oferenda na encruzilhada para a abertura do caminho sobre uma decisão importante a ser tomada, o ato de despachar a oferenda alimenta a terra na intenção da terra devolver essa oferenda na forma de abertura de caminhos para a tomada da decisão. O ato de decidir, de conduzir ao destino escolhido, está dos domínios de Orí. Então é possível perceber que na alquimia sutil produzida pelo conhecimento e conversação com o Exu Tutelar também se cultua o Orí.

   Ihuwa, por outro lado, é o comportamento adequado, o caráter a ser desenvolvido no caminho, que está atrelado ao destino a ser seguido. Na Quimbanda, Exu é o guia do destino e senhor dos caminhos do feiticeiro. Ao cultuar Exu pedindo-lhe encaminhamento ou desenvolvimento espiritual (comportamento adequado e caráter) no caminho para o cumprimento do destino, por extensão cultua-se o Orí.

   Outro exemplo prático: se o adepto está com problemas de mediunidade que atrapalham a incorporação do Exu Tutelar, este pode recomendar um banho propiciatório (quer dizer, um banho preparado, consagrado e rezado na força do Exu) para abertura ou desenvolvimento mediúnico. Este banho vai na cabeça, equalizando o Orí do feiticeiro com o Orí do Exu.

   Em outras palavras, o conhecimento e a conversação com o Exu Tutelar na Quimbanda trata-se de um culto ao Orí.

   Na Quimbanda Luciferiana existe o conceito filosófico e teosófico de Lúcifer, que substitui a ideia de Orí. Como o Portador da Luz (lux + ferres) ou Aquele que Ilumina (lux + ferros) na morfologia latina ou o Condutor da Luz (eosforos) na morfologia grega, Lúcifer é aquele que ilumina os caminhos do adepto, conduzindo-o a realização de seu destino. Ele é aquele que inflama a aspiração alquímica na alma do feiticeiro-kimbanda, conduzindo-o ao caminho da Gnose. O fogo que Lúcifer desperta é de duas vias, interna e externa. Na via interna ele nos conduz a sabedoria, na via externa ele desperta o espírito opositor (satânico) contra as amarras escravocratas da cultura ocidental moderna. No processo de deificação na Quimbanda Luciferiana, ele é o Archote libertador da alma, conduzindo-a a libertação das amarras que a prendem na matéria.

[* Nota]: Irunmalés são todos os moradores do Orún, todos os encantados da natureza; também os Exus e Pombagiras, os Odus, os Babá Egúns e as Iyamís.

10/5/2020: A ALQUIMIA ESPIRITUAL DO CULTO DE EXU - Fernando de Ligório

Em uma reflexão anterior, Quimbanda não trata a Cabeça (entrada de 22/4/2020), eu salientei que a feitiçaria tradicional brasileira (a Quimbanda), diferente do Culto aos Òrìṣàs (Iṣeṣe Lagba e Candomblés diversos), não trata a cabeça (Orí). Na tradição do Culto aos Òrìṣàs, tratar do Orí é uma prática fundamental a deificação da alma. Na Quimbanda, no entanto, Exu é Rei. Isso significa que no momento da iniciação, o Exu Tutelar do adepto assume sua coroa para conduzir todo o seu processo evolutivo. Na postagem anterior, quando disse a frase Exu é corpo, não cabeça, eu a utilizei – fazendo uso de um conhecimento da cultura yorubá – para fazer entender que no Culto de Exu não há tratamento de Orí. Também salientei anteriormente que: na tradição de Quimbanda, a feitiçaria tradicional brasileira, o método de deificação da alma não é o tratamento da cabeça, mas 1. o conhecimento e conversação com os Poderosos Mortos, através do qual o adepto refina sua alma e; 2. por meio do sacrifício propiciatório aos Poderosos Mortos.

   Na iniciação na tradição de Quimbanda, quando o Exu Tutelar assume a condução do Destino do adepto, sua coroa, inicia-se um poderoso processo de alquimia espiritual. A ignição deste processo é o primeiro sacrifício propiciatório feito ao Exu Tutelar dentro de seu assentamento. O selamento do compromisso alquímico-espiritual de ambos ocorre no rito das marcas iniciáticas, quando gotas do sangue do adepto também são derramadas dentro do assentamento. Neste momento cria-se uma aliança, um Pacto com o Diabo.

   A palavra Diabo usada aqui é, como os leitores deste site já se familiarizaram, romântica. A Quimbanda, os Exus e Pombagiras, herdam da feitiçaria ibérica e demonologia europeia sua iconografia diabólica, bem como a ideia ou posição teosófica e filosófica de opositora e adversária aos cultos escravocratas, fundamentalmente o cristianismo.

   O Exu Tutelar através da chancela iniciática da Cerimônia de Iniciação passa a zelar pela evolução e deificação da alma do feiticeiro-kimbanda. Inicia-se um profundo processo de purificação e transformação espiritual onde medos infundados são eliminados através de uma alquimia predatória, transformando o adepto em um predador de si mesmo, de suas fobias internas, traumas, psicoses, vícios e hábitos nocivos. A maior parte de nosso lixo interior vem de um estilo de vida consumista, exteriorizado e deslumbrado. Exu nos faz lembrar de nós mesmos direcionando nosso olhar para dentro na intenção de enfrentarmos e devorarmos nossas mazelas interiores, o lixo que carregamos guardado sob o tapete de nossas consciências. Exu exerce uma qualidade mercurial de movimento e velocidade, rompendo a estagnação preguiçosa com a qual dirigimos nossas mentes, emoções e ações. O estilo de vida degradante, alucinante e terrivelmente consumista da cultura moderna ocidental nos torna fracos, mansos e débeis; somos presas de nossa obscuridade interior. A boa Quimbanda se opõe a isso.

   Na escuridão da Cáfua/Templo, quando o caldeirão arde em chamas frente ao Diabo Pessoal, o feiticeiro-kimbanda se lança de encontro a sua ignorância espiritual. Trata-se de um processo meditativo no Culto de Exu onde se apanha em casa para não apanhar na rua, frase que indica o doloroso processo escorpiônico de transformação e transmutação alquímica do lixo interior.

   Em nossa boa Quimbanda o adepto se esforça em uma disciplina espiritual que envolve dhyāna (meditação) e samādhi (conjunção) com as forças e poderes de Exu na intenção de promover a alquimia interior e deificação da alma. A conquista desta prática é o envolvimento da capa de Exu, que transforma toda estrutura e composição da alma do feiticeiro-kimbanda.

   Nós entendemos que a boa Quimbanda é mística e mágica, diferente de outras linhas que observam e destacam somente o valor mágico da tradição. Nós entendemos a Quimbanda como uma genuína tradição iniciática que leva o feiticeiro da obscuridade e ignorância interior ao estado de maestria desperta da Luz de Lúcifer. Portanto, em nosso trabalho misticismo (alquimia e transformação da alma) e magia (taumaturgia na Natureza) caminham de mãos dadas.

   Tornar-se um feiticeiro-kimbanda, portanto, é sair da condição de presa de si mesmo para a condição de predador si mesmo. Como presa de si mesmo há uma constante condição de escravidão e servidão. Essa servidão interior se estende ao exterior, tornando homens e mulheres em pessoas doentes, vulneráveis e fracas desprovidas de honra. Ao tornar-se um predador de si mesmo, o homem deixa de ser cativo e dependente de seus vícios, medos e ansiedades. Exu é Rei! No seu reinado ele nos ensina a desenvolver a Força e a Honra que capacitará as nossas almas serem admitidas as Legiões de V.S. Maioral de Quimbanda.

   Como uma tradição opositora, existe na Quimbanda um constante estado de guerra interna e externa. A guerra interna consiste em vencer a nossa fraqueza, escravidão e ignorância interior; a guerra externa consiste em vencer a condição de presa social, a deriva nos mares de nossa cultura moderna ocidental, deixando de sermos cordeiros para nos tornarmos Lobos da alcateia de Maioral.

   Força & Honra!

4/5/2020: ASTROLOGIA E SEU DEMÔNIO PESSOAL - Fernando de Ligório

Muitos praticantes de magia tradicional salomônica com foco na arte da goécia têm dificuldades em saber identificar qual o demônio tem mais afinidade consigo mesmos para obterem sucesso em sua prática. Por falta de magos competentes dispostos a ensinar, muitos praticantes são levados ao erro por selecionarem aleatoriamente demônios da goécia, observando somente as suas especialidades e não a afinidade entre o demônio e o praticante; no entanto, é exatamente isso que proporciona resultados eficazes nas evocações mágicas da goécia: a afinidade entre o mago e o demônio. Esse é um dos motivos, também, porque alguns praticantes têm resultados eficientes com alguns demônios e outros não. Esse é o segredo da goécia: conjurar um demônio que tem melhor afinidade consigo mesmo, com sua personalidade e características pessoais, não a escolha aleatória de demônios. Por meio da configuração do céu no momento de seu nascimento, é possível descobrir quais as hierarquias demoníacas (Reis, Duques, Presidentes etc.) e qual o demônio pessoal mais próximo de você. Dessa maneira, conjurando os demônios que têm mais afinidade com você, será possível obter êxito mais facilmente em um curto espaço de tempo.

   Se deseja descobrir qual o demônio da goécia tem mais afinidade com você através da astrologia eu ofereço esse serviço: estudar a configuração do céu na data de seu nascimento e descobrir o seu diabo pessoal. Entre em contato por WhatsApp: 24 9 9264 7825.

3/5/2020: EXU QUE NASCE IRRADIADO POR DEMÔNIO - Fernando de Ligório

Existem seguimentos de Quimbanda que trabalham com a ideia de Exus já nascerem irradiados por demônios. Essa doutrina como tenho demonstrado, vai à contra mão de uma fórmula mágica presente em tradições arcanas do passado e transmitida a tradição de Quimbanda, o que a alinha congruentemente com estas tradições antigas. A feitiçaria tradicional brasileira que conhecemos pelo nome de Quimbanda não se trata de uma tradição a parte ou isolada da Tradição Ocidental de Mistérios; muito pelo contrário! Como uma genuína arte de feitiçaria alinhada e afiliada a Tradição Ocidental de Mistérios, a Quimbanda agrega e dá continuidade a fórmulas mágicas universais e que foram praticadas por magos e feiticeiros desde tempos imemoriais. Não há nada de novo na Quimbanda: ela repete os mesmos exercícios e práticas dos magos e feiticeiros de tradições mais antigas.

   Uma das fórmulas mágicas universais que está dentro da Quimbanda e que a conecta com as tradições mais arcanas do passado é o Conhecimento & Conversação com o Espírito Tutelar. Como escrevi em A Herança da Feitiçaria Ibérica na Quimbanda:

Na Antiguidade, travar contato com um espírito tutelar, receber dele instrução mágica e a condição de salvar a alma do cativeiro do Hades, tratava-se do arcano mágico par excellence. Essa era a meta de todo feiticeiro e mago do passado.

Na aba de Artigos aqui no Site Filosofia Oculta (entrada de 3/5/2020), apresentando o texto disponível para download As Origens da Tradição Salomônica, destaquei:

Um dos arcanos perdidos da tradição salomônica, pelo menos desconhecido a maioria dos adeptos brasileiros desta arte, é o conhecimento e conversação com o diabo pessoal; os demônios conjurados e imprecados pelo mago salomônico têm a função de servi-lo como familiares e servidores.

A tradição salomônica é inaugurada com um texto fundamental chamado de O Testamento de Salomão. Neste escrito, que data dos primeiros séculos de nossa era, Salomão se apossa do demônio Ornias e faz dele um espírito familiar. Através de Ornias Salomão tem acesso a uma legião de demônios e torna-se capaz de conjurá-los a vontade para todos os fins. Essa técnica de magia, se apoderar de um espírito e torná-lo um familiar assistente foi repassada a um segundo texto fundamental da tradição salomônica, o Tratado Mágico de Salomão. Todos os grimórios salomônicos posteriores até o Lemegeton replicaram essa fórmula mágica, fundamental ao exercício proficiente de todos eles. A goécia (feitiçaria grega na Antiguidade e salomônica na Idade Média) se baseia nisso! Em meu livro Daemonium (No. 1) eu destaquei:

A arca de bronze é usada para tornar os demônios cativos e familiares, já o triângulo da arte serve para colocar o demônio em prontidão, uma atitude interna apropriada a servir e trabalhar sob as ordens do mago. Tecnicamente a arca deve ser utilizada antes do triângulo da arte e isso é algo que você não encontrará nos livros modernos que tratam do assunto, mas está em perfeita harmonia com a visão da feitiçaria dos grimórios. O exemplo abaixo ilustrará de forma mais efetiva:

   Imagine que a arca de bronze é um grande curral onde o fazendeiro (mago) coloca os cavalos bravos (daimones) do campo (corpo de Deus) que estavam livres na natureza. O fazendeiro vai lá no ambiente dos cavalos bravos, o campo, e os laça, levando-os a força para dentro do curral. Uma vez dentro do curral, os cavalos bravos são açoitados, amansados, adestrados, treinados e alimentados. Depois que o fazendeiro treinou, adestrou, alimentou e tornou submissos os cavalos do curral, então ele irá selecionar um dentre eles e levará para fora do curral, onde colocará nele uma cela e arreio (o triângulo da arte) e o montará, comando-o a seguir um curso adequado e apropriado aos fins do fazendeiro.

   A arca de bronze, portanto, serve para tornar os daimones [i.e. os demônios] da natureza que não possuem pactos com os homens submissos ao mago que, através do triângulo da arte, os comandará a fazerem a sua vontade. E é por isso que essa goécia ensinada na magia moderna trata-se só de psicurgia e efetivamente não funciona, é a arte dos tolos. Antes de confinar um demônio no triângulo da arte, ele deve ser preparado dentro da arca de bronze. A arca de bronze é o equivalente a lâmpada para aprisionar os djinns dos mulçumanos ou o baú (caixa preta) da feitiçaria crioula.

Dessa forma, como um pano de fundo que subjaz a tradição salomônica medieval e dos grimórios modernos, assim como a Magia Sagrada de Abramelin, inúmeros feitiços encontrados nos Papiros Mágicos Gregos e a doutrina do daimon pessoal na teurgia clássica neoplatônica, está a fórmula mágica do contato com o Espírito Tutelar.

   A Magia Sagrada de Abramelin merece um pequenino destaque aqui. Como demonstrei no artigo A Goécia de Abramelin, disponível para download aqui no Site Filosofia Oculta na aba de Artigos (entrada de 4/4/2020), essa fórmula mágica subjaz toda a temática do exercício místico que a magia de Abramelin exige como requerimento para se contatar o Sagrado Anjo Guardião. Embora mascarada por uma cosmovisão neoplatônica-cristã-rosacruciana com metalinguagem judaica, a técnica de magia que subjaz todo o sistema é pagã: obtém-se auxílio de uma criatura espiritual, o Sagrado Anjo Guardião, para conjurar espíritos (demônios) diversos do Corpo de Deus para todo tipo de causa.

   Na tradição de Quimbanda, como tenho enfaticamente destacado, essa fórmula mágica universal está presente no conhecimento e conversação com o Exu Tutelar. Ao ser iniciado na Quimbanda, o adepto forja conexões espirituais com uma alma ancestral divinizada, seu Exu Tutelar. Como destaquei no texto Os Poderosos Mortos: Exus & Pombagiras nas Tradições Mágico-Culturais do Mundo, também disponível para download na aba de Artigos (entrada de 3/4/2020), Exus são almas deificadas, no mesmo nível que as almas deificadas de outras tradições, como os Santos da Igreja Católica. Assim como os Santos católicos, os Exus têm domínio sobre criaturas menores (espíritos diversos, Eguns e demônios) da Natureza. É um non sense a ideia, portanto, que i. Exu nasce irradiado por qualquer demônio e; ii. conjurar qualquer demônio para irradiar mais força e poder ao Exu. Trata-se de uma doutrina irracional, descabida, estúpida e terrivelmente equivocada!

   Eu fiz questão de neste opúsculo de reflexão destacar a tradição salomônica porque essa ideia de cruzar Exus com demônios vem dela, via o Grimorium Verum, um grimório tardio e moderno do Séc. XVIII que bebe de fontes salomônicas. Você, o leitor, poderia argumentar que, já que na tradição salomônica os demônios são conjurados como espíritos familiares e já que essa fórmula mágica universal também está na Quimbanda, qual o problema cruzar/sincretizar Exus e demônios? Pelo simples e óbvio fato de que a assinatura astral de um Exu é distinta da assinatura astral de um demônio. Seus pneumas não são os mesmos. Se esse sincretismo fosse possível, então os Santos católicos também poderiam ser cruzados com demônios, os Heróis e Almas Purificadas da teurgia grega poderiam ser cruzados livremente com daimones (ou kakodaimones), os Chefes Secretos da tradição thelêmica poderiam ser sincretizados com criaturas diversas do Corpo de Deus etc.

   Então o que é possível fazer? Como já expliquei anteriormente, feiticeiros-kimbanda que têm fetiche por demônios escatológicos judaico-cristãos como aqueles setenta e dois listados no Lemegeton, podem conjurá-los com a permissão, o poder e a autoridade espiritual do Exu Tutelar. Não são os demônios que irradiam força e poder aos Exus, como já destaquei, mas são os Exus que controlam os poderes dos demônios.

   Assim, no contexto da genuína e boa Quimbanda, primeiro o Exu nasce na ocasião da iniciação, cresce e se fortifica e, no momento apropriado, abre linha, conjurando outras criaturas espirituais, até demônios da Natureza. Por Natureza entenda os Sete Reinos de Quimbanda.

   Isso é importante que você saiba: qualquer criatura espiritual da Natureza, os Sete Reinos da Quimbanda, pode ser conjurada pelos poderes e pela autoridade espiritual de Exu e Pombagira, demônios, Eguns diversos e, em alguns casos, até Quiumbas!

1/5/2020: MAGIA CERIMONIAL EUROPÉIA - Fernando de Ligório

A tradição dos grimórios, também conhecida pelo epíteto de feitiçaria dos grimórios, é o desenvolvimento da feitiçaria que primeiro se manifestou ou foi elaborada nos Papiros Mágicos Gregos. Em verdade, podemos classificar a feitiçaria dos papiros e dos grimórios como duas genuínas tentativas – uma na Antiguidade e outra na Idade Média – de sistematização da magia. Essa é a raiz do que se generalizou conhecer como magia cerimonial europeia.

   Uma característica da feitiçaria encontrada nos papiros gregos e que foi continuada na feitiçaria dos grimórios é a natureza pessoal, individual e solitária que seu exercício exige. Os papiros da Antiguidade tardia e os grimórios da Idade Média eram blocos de notas pessoais dos feiticeiros, o diário mágico deles. Um papiro, um grimório, trata-se em verdade de um livro pessoal de segredos mágicos. Por este motivo encontramos versões distintas de um mesmo papiro ou grimório, porque estes eram constantemente alterados pelas mãos de seus praticantes.

   Dessa forma, sendo a magia cerimonial europeia o ápice das tradições de feitiçaria dos papiros e dos grimórios, podemos inferir que se trata de uma tradição baseada em livros, não em linhas de sucessão discipular. Isso significa que no contexto da magia cerimonial não é exigido que um feiticeiro tenha um mestre iniciador. Os feiticeiros dos papiros e dos grimórios eram lobos solitários intrépidos que se lançavam em práticas mágicas apenas com o conhecimento que adquiriam estudando e colocando em prática a feitiçaria descrita nestes blocos do notas ou diários mágicos de feiticeiros que se preocuparam em perpetuar a tradição através de suas anotações pessoais. Assim, o que se espera de um mago cerimonial é a coragem para ser, antes de tudo, um autodidata: i. aprender com seus esforços em tentativas diversas de erros e acertos; ii. aprender diretamente com os espíritos conjurados e tornados familiares e servidores. Dessa tradição nasceram inúmeros temas populares entre os ocultistas modernos: o Pacto com o Diabo, o Conhecimento & Conversação com o Sagrado Anjo Guardião etc.

   Duas eram as preocupações desses feiticeiros dos papiros e dos grimórios: i. manter secreto o seu exercício de feitiçaria, pois eles corriam risco de morte caso fossem descobertos; ii. adquirir conhecimento magístico e de artes liberais através do contato com espíritos. De fato, não há registro de que um feiticeiro dos grimórios tenha aprendido outra língua, matemática ou astrologia com os espíritos, mas essa era uma crença genuína da época devido à escassez de material de estudo ou mesmo condições adequadas de aprendizado destas artes.

   É um non sense, portanto, exigir de um mago cerimonial iniciação em magia cerimonial. Desde o fim da Idade Média sociedades secretas têm surgido para agregar estes lobos solitários dentro de sistemas de magia estruturalmente formulados. Embora estas sociedades tenham seu valor genuíno, em verdade não é necessário participar delas para se tornar um mago cerimonial. Não há problema nenhum também em participar delas. Isso é escolha pessoal. Nesse caminho é um non sense oferecer diplomas com permissão de exercício da magia cerimonial ou mesmo magia tradicional salomônica, que também faz parte da tradição de feitiçaria dos grimórios e será objeto de estudo da próxima reflexão.

   Um mago cerimonial, portanto, é um lobo solitário, um autodidata que se esforça em aprender as matérias tradicionais da arte e tenta empregá-las no seu exercício pessoal de magia.

25/4/2020: EXU CAVEIRA - LIBERTADOR & APRISIONADOR DE VICIADOS - Fernando de Ligório

O espírito Exu Caveira está associado a um profundo processo de alquimia e transformação espiritual. No tarot, duas lâminas podem ser associadas a este processo de alquimia espiritual: o Atu IX (Eremita) e o Atu XIII (Morte). Exu Caveira leva seus adeptos feiticeiros-kimbanda a interiorização silenciosa do Eremita e a transformação escorpiônica da Morte. Duas palavras, portanto, estão associadas a Exu Caveira: Silêncio e Transmutação, representadas ou refletidas na imagem da caveira. Poucos compreendem a dinâmica entre o Culto de Exu e os Atus de Tahuti (tarot), mas Exu percorre todos os Caminhos da Árvore da Vida e da Morte. A caveira, diferente da iconografia negativa que ganhou na Idade das Trevas, é um símbolo de transcendência e poder na tradição da magia, pois reflete a libertação de inúmeros claustros psíquicos e psicológicos que nos submetemos deliberadamente no curso da vida. Sua medicina é a da Morte; essa Morte, no entanto, é o processo alquímico de transmutação espiritual, quando superamos medos, apegos e a ignorância interior na conquista de uma alma deificada. A Morte é um espírito! Ela rege não apenas o fim da existência material do corpo físico, mas também o fim de todos os ciclos que experimentamos em vida. Exu Caveira incorpora essa função transformadora e aterrorizante. Seus adeptos são fortes guerreiros estrategistas e a presença de Exu Caveira exige sempre o julgamento, a condenação, a dor, a morte e a transmutação que ocorre como resultado deste processo.

   Romanticamente, o Povo dos Caveiras são a Polícia dos planos espirituais nos Reinos da Quimbanda; a Falange de Exu Caveira é a Força Armada do Povo dos Caveiras, a própria milícia da morte, criada para aniquilar e dizimar completamente seus inimigos. Os espíritos que compõem a Legião de Exu Caveira também são carcereiros obstinados no Reino da Calunga Pequena, aprisionando almas sofredoras e de profunda ignorância espiritual, torturadas por vícios e apegos diversos, as quais são utilizadas em seus ataques mágicos. Por conta disso, os adeptos de Exu Caveira lhe solicitam libertação da ignorância espiritual, dos vícios e dos apegos através da morte silenciosa que sua medicina oferece. Os adeptos de Quimbanda viciados em álcool e drogas, hedonistas inescrupulosos e falastrões mentirosos, incapazes de se libertarem da ignorância espiritual, são arrebanhados pelo Povo dos Caveiras para serem drenados e esgotados até a obsessão da loucura.

22/4/2020: QUIMBANDA NÃO TRATA A CABEÇA - Fernando de Ligório

Os leitores e seguidores deste site têm acompanhado nossas últimas discussões no vlogGoécia na Quimbanda (entrada de 18/04/2020) e Sagrado Anjo Guardião na Quimbanda (entrada de 21/04/2020), bem como a entrada de ontem aqui no mural de reflexões (21/04/2020): O Orí Yorubá não é o Sagrado Anjo Guardião. Eu esclareci que o Orí (Òrìṣà pessoal) da cultura yorubá não é o Sagrado Anjo Guardião, mas em uma linguagem moderna, o Eu Superior e em uma linguagem platônica, alma intelectual. O Sagrado Anjo Guardião moderno está mais próximo a ideia de Eledá na cultura yorubá, quer dizer, o Òrìṣà de frente ou de cabeça.

   No meio dessa discussão, onde pessoalmente condeno o uso da Invocação do Não-Nascido da magia cerimônial (e thelêmica) modernas nos rituais de Quimbanda, sendo este o Eu Superior, o Orí ou Òrìṣà pessoal, fui acusado de forçar a barra levando para dentro da Quimbanda a filosofia de thelema, o platonismo e neoplatonismo etc. Veja a insensatez aqui: se eu condeno o uso da invocação do Não-Nascido na Quimbanda, como posso eu levar para dentro da Quimbanda thelema? O sujeito que diz isso só pode: 1. ter feito um pacto com espírito da burrice; 2. trata-se de um analfabeto funcional, incapaz de distinguir sincretismo com estudo comparado de tradições; ou 3. é um mal intencionado que distorce o que digo para fins egoístas e pessoais. O que eu faço é construir uma ponte entre a Quimbanda e as religiões e cultos de mistérios da Antiguidade. Se pretendo provar que a Quimbanda é uma genuína tradição de iniciação, somente comparando-a a outras tradições genuínas é que poderemos enxergar sua profundidade. Eu desafio a qualquer um provar onde é que eu levo essas tradições para prática da Quimbanda. Eu as utilizo para traduzir conceitos, ideias e práticas espirituais da Quimbanda somente para demonstrar seu escopo universal. O meu culto é o de Exu.

   Na Quimbanda, repetindo, não tratamos a cabeça, porque Exu é corpo (veja entrada anterior). Essa invocação, neste caso, seria adequada a tradições de cabala crioula que tratam da cabeça:  Iṣeṣe Lagba, Candomblé, Umbanda etc. Não há trabalhos para a Coroa na Quimbanda. Caso um feiticeiro-kimbanda queira tratar sua cabeça, ele irá recorrer a estes cultos citados acima ou, caso seja um ocultista intrépido, através da própria magia cerimonial ou outra tradição de mistérios, como a teurgia clássica. Nada impede que um feiticeiro trate de sua cabeça, contanto que não o faça dentro da Quimbanda, levando para ela elementos que deturpam e profanam o Culto de Exu, como a metalinguagem judaico-cristã. Usar ritos como este do Não-Nascido ou a metalinguagem judaico-cristã em rituais de Quimbanda é um completo non sense. Veja nessa direção: se a Quimbanda foi fundada, criada ou estabelecida ao redor da ideia de oposição ao status quo, as tradições escravocratas eurocentristas, fundamentalmente o cristianismo romano, como assim usar a metalinguagem judaico-cristã dentro de um rito de Quimbanda?  

   Eu também não estou dizendo com isso que o feiticeiro-kimbanda não deva cruzar linha. Exu dá caminho! No vlog Goécia na Quimbanda eu cito um exemplo em como se trabalhar com um demônio mercurial em uma encruzilhada. Neste vlog eu esclareço que é o Exu que tem autoridade e controle dos poderes do demônio, e não o Não-Nascido, o  Orí (Òrìṣà pessoal). O demônio é convocado, imprecado e direcionado a agir através do Exu Tutelar do feiticeiro, sem a necessidade de uso da metalinguagem judaico-cristã. Essa é uma fórmula mágica universal, usada em todas as tradições e cultos de mistério da Antiguidade, como tenho demonstrado em vídeos, artigos e livros.

   Isso é deveras importante saber: na tradição de Quimbanda, a feitiçaria tradicional brasileira, o método de deificação da alma não é o tratamento da cabeça, mas 1. o conhecimento e conversação com os Poderosos Mortos, através do qual o adepto refina sua alma e; 2. por meio do sacrifício propiciatório aos Poderosos Mortos, onde animais são imolados cerimonialmente e deificados diante de Exu. Vou forçar a barra aqui então, fazendo uma ponte entre a teurgia e goécia da cabala criola e a teurgia e goécia gregas:

   A Quimbanda está para goécia assim como o Iṣeṣe Lagba está para teurgia. O que diferencia um feiticeiro grego de um teurgo é o treinamento do Logos, o exercício da filosofia; o que diferencia um feiticeiro-kimbanda de um adepto de Iṣeṣe Lagba é a preocupação com o Orí. A Quimbanda é independente do culto aos Òrìṣàs, tem seu método próprio de deificação da alma. O que o professor Fernando sugere? Não seja idiota, cuide do corpo e da cabeça, dentro dos seus respectivos lugares.

21/4/2020: O ORÍ YORUBÁ NÃO É O SAGRADO ANJO GUARDIÃO - Fernando de Ligório

Depois dos dois últimos vlogsGoécia na Quimbanda (entrada de 18/04/2020) e Sagrado Anjo Guardião na Quimbanda (entrada de 21/04/2020), uma antiga questão veio a tona por parte de um seguidor que disse: 

Olá, salve suas forças. Bem , sob minha ótica o grande Agente Mágico espiritual é conceituado e entendido como o Orí. O Orí é a Divindade principal ,tutelar e individual de todos os seres. Cada um, tem a sua Orí. Desta forma sendo a Quimbanda um culto a Ancestralidade brasileira que abarca todo o arcabouço de culturas formadora de nossas tradições, não concordo quando o senhor afirma que a "oração do não nascido" seja patética, e muito menos seja "patética" quando incorporada a um culto de Quimbanda . Se o senhor se refere como sendo patética a confusão entre Eu Superior a Anjo Guardião, particularmente, eu não opino pois essa discussão não é o foco. Um Orí forte torna o Feiticeiro, Mago, Umbandista , Candomblés, Babalawo , muito poderoso, quiçá invencível.

Essa é uma ótima questão e dúvida antiga que discutimos amplamente com os alunos da extinta Sociedade da Estrela & Serpente, ordem thelêmica outrora liderada por mim.

   O agente mágico-espiritual que ele cita e equipara ao Orí da cultura yorubá, nos meus escritos e vídeos é o espírito tutelar, um espírito que todo mago ou feiticeiro, desde os primórdios da tradição da magia, almeja conectar-se para obter conhecimento (gnose) de magia, poderes efetivamente taumatúrgicos, e instrução espiritual. Eu venho desenvolvendo o tema em vídeos e livros, meu objeto de estudo há mais de vinte anos. Este espírito tutelar trata-se de uma entidade objetiva, quer dizer, apartada da consciência humana. O Orí na cultura yorubá trata-se de um Òrìṣà pessoal, interior a consciência, não uma entidade objetiva, fora da consciência. Àjàlá morí morí mo yo. Álá forí kòn E àgó fi rí mi, quer dizer, Ajalá fez o meu Orí, me germinou e fez crescer. Alá que segura e mantém a minha cabeça. Isso significa que somos o resultado dos pensamentos, ideias e o próprio conceito do Orí. O Orí, portanto, não pode ser o espírito tutelar do qual os magos e feiticeiros de todas as tradições genuinamente mágicas do passado buscavam, pois este trata-se de um agente externo, por isso uso o termo agente, no sentido que vem de fora. Efetivamente a ideia de Orí está mais alinhada ao conceito de Eu Superior.

   Nestes vlogs eu critiquei a prática de se usar a invocação moderna do Não-Nascido dentro da Quimbanda porque ela, segundo seu próprio criador, Aleister Crowley, trata-se da invocação do Eu Superior, quer dizer, a consciência superior do próprio adepto. Infelizmente, Crowley conectou por quase toda sua vida o agente externo, o Sagrado Anjo Guardião, ao Eu Superior, tendo reconhecido seu erro só no fim da vida. Mas o uso atual dessa invocação por alguns feiticeiros na Quimbanda está conectado a inserção da goécia moderna dentro dos ritos de Quimbanda, onde supostamente o Não-Nascido confere poderes e autoridade espiritual sobre os demônios. No entanto, essa ideia é um non sense, pois a fórmula mágica tradicional trata-se de conjurar um agente externo, o espírito tutelar, para fazer isso, não o aspecto superior da consciência do mago. Consegue perceber a sutileza do engano? Tradicionalmente não é o Não-Nascido que confere autoridade e poder ao mago, mas o Espirito Tutelar que na recessão neoplatônica-cristã-rosacruciana foi chamado de Sagrado Anjo Guardião.

   Veja bem: Exu (e também Eṣù Òrìṣà) é corpo, não cabeça! Na Quimbanda não trabalhamos com a ideia da cabeça tratada como no Culto aos Òrìṣàs (Iṣeṣe Lagba). Introduzir a invocação do Não-Nascido, quer dizer, a invocação do Òrìṣà pessoal dentro de um ritual de Quimbanda parece ser algo non sense, porque não faz parte do Culto de Exu tratar a cabeça.

   Está correto, um Orí poderoso torna qualquer magoumbandistacandomblecista etc. mais magnético e poderoso. Na tradição da magia cerimonial moderna muita atenção é dada ao aspecto superior da consciência; os genuínos cultos aos Òrìṣàs, o Candomblé brasileiro e a Umbanda, são tradições que se preocupam com a cabeça tratada. Dentro do contexto destas tradições brasileira também está presente a ideia do Sagrado Anjo Guardião, cuja invocação/oração costuma-se conectar ao Orí; mas mesmo nessas tradições há uma distinção entre Orí e Sagrado Anjo Guardião; não se tratam da mesma entidade, mas têm funções muito distintas. A Mãe Kina, por exemplo, minha feitora de Candomblé, reconhece que o Orí não é o Sagrado Anjo Guardião, um é dentro, o outro é fora, ela diz.

20/4/2020: EXU LORDE DA MORTE - Fernando de Ligório

Exu Lorde da Morte é um necromante e sob o seu domínio estão aquelas almas desencarnadas aflitas e sofredoras apegadas a existência material, a superficialidade secular com bens materiais, status, poder e riqueza. Para aprisionar estas almas decadentes e sofredoras, Exu Lorde da Morte cria para elas um falso ambiente de luxo, riqueza e ostentação, esgotando-as completamente. É como um Conde Drácula que aprisiona suas vítimas e se alimenta delas por um longo período de tempo. Trata-se de uma punição pela condição espiritual em que desencarnaram. Essas almas são utilizadas por Exu Lorde da Morte para drenar e vampirizar suas vítimas, débeis incautos que pensam que a existência se limita a posses e a riqueza material. Exu Lorde da Morte é do Povo dos Caveiras. Sua forma foi lhe dada pelo próprio Exu Caveira e sua zona de poder é o Reino da Calunga Pequena, onde tem autoridade para resolver inúmeras questões/demandas. A Morte é Serena! Assim se apresenta Exu Lorde da Morte, de forma educada, calma e tranquila, diferente de outros Exus da Linha dos Caveiras, daí ele ser um Lorde. Mestre do equilíbrio dinâmico entre apego e desapego, de Omolu Rei ele recebeu dois tridentes, um vitalizador e outro desvitalizador, com os quais ele livra seus adeptos feiticeiros-kimbanda da inércia material ou aprisiona almas com uma poderosa força escravista. O seu robe é negro, o qual recebeu de presente de Exu Veludo na intenção de ocultar seus atos de necromancia. Exu Lorde da Morte se apresenta com uma foice também, arma de poder que representa seus poderes sobre os fluxos da Morte. Seus adeptos o convocam para livrarem-se de apegos materiais e a falsas crenças escravistas, pois da Morte nasce a Liberdade.

19/4/2020: MARIA MULAMBO - Fernando de Ligório

Maria Mulambo é uma poderosa feiticeira e uma das Pombagiras mais ativas na tradição da Quimbanda. Se há uma Pombagira que espelha o empoderamento feminino, esta é Maria Mulambo, uma guerreira que resistiu a inúmeras provações encarnada na leigião dos vivos, tendo superado todas elas. Em vida teve acesso aos arcanos da feitiçaria por meio de uma decrépita feiticeira, que lhe iniciou nos mistérios do caldeirão sob a luz do luar e a marcou com os símbolos da magia. Tendo se tornado hábil na arte da magia, Maria Mulambo enfeitiçava incautos, incitando, corrompendo e destruindo inimigos. Aos seus adeptos feiticeiros-kimbanda, Maria Mulambo oferece a medicina da purificação dos lixos que carregam, sejam produzidos pelos próprios adeptos na forma de medos, melancolia, pensamentos negativos, depressivos e destrutivos, vícios ou aqueles lançados sobre eles na forma de olho grande, inveja e magia negra. Maria Mulambo tem uma relação próxima com o Povo do Lixo no Reino da Lira; onde há um lixão, bolsões de lixo ou na área de lixo de uma casa ou Chão de Quimbanda, ali é um ponto de força para convocar Maria Mulambo. Por esse motivo, seus adeptos a convocam para purificar-lhes de todo lixo que carregam internamente; de outra forma, em um Templo ou Chão de Quimbanda, Maria Mulambo atua limpando e purificando os Filhos da Casa, o lixo que levam e depositam no Templo. Prostíbulos populares para homens de renda baixa também são pontos de força de Maria Mulambo, pois além do ambiente degradante, sujo e denso, as pessoas que ali frequentam levam e carregam grande carga de lixo energético. Áreas de reciclagem de lixo ou albergues para sem-teto e andarilhos também são pontos de força de Maria Mulambo. Onde forças espirituais imundas têm abrigo, ali é um local de atuação de Maria Mulambo.

18/4/2020: TRANCA-RUAS DE EMBARÉ - Fernando de Ligório

O espírito «Tranca-Ruas» tem muitas «faces» ou «funções» dentro dos Reinos da Quimbanda. Tranca-Ruas de Embaré trata-se do Tranca-Ruas «curando as enfermidades» de seus adeptos feiticeiros-kimbanda pela vibração purificatória das águas do mar, sejam elas enfermidades da alma, da mente, das emoções ou do corpo e suas zonas de poder são os Reinos da Encruzilhada, da Calunga Grande, fundamentalmente as praias e enseadas, bem como da Lira de cidades litorâneas. Exu Tranca-Ruas em todas as «funções» opera uma profunda alquimia na alma de seus adeptos. Os feiticeiros-kimbanda que trabalham com Tranca-Ruas de Embaré atuam melhor em regiões portuárias, onde têm acesso a vibração ideal dele, seja na praia ou no comércio, através do qual buscam «requinte», «sofisticação», «poder aquisitivo» por comércio e negócios em geral, «estudo/desenvolvimento pessoal» e um trabalho sacerdotal que envolva um «grupo», a construção de uma «família espiritual». Em sua manifestação mediúnica Tranca-Ruas de Embaré apresenta-se culto, sério, centrado e eloquente, no entanto, às vezes malandro e brincalhão, refletindo sua atuação híbrida nos Reinos da Calunga Grande e Lira, dependendo das inclinações de seus adeptos. Os espíritos que compõem a falange de Tranca-Ruas de Embarté estão envolvidos com as forças espirituais que regem o comércio, o requinte e fineza da nobreza e realeza, bem como da cura através do poder das águas do mar. A atuação de Tranca-Ruas de Embaré envolve uma alquimia sutil que resulta da combinação das forças espirituais dos Reinos da Lira e da Calunga Grande. Ao adepto feiticeiro-kimbanda alinhado com a Lei de Tranca-Ruas de Embaré, isso leva a evolução espiritual e material; os adeptos displicentes, por outro lado, podem ser literalmente «afogados» nos mares da vida, acorrentados a vícios diversos.

17/4/2020: POMBAGIRA CIGANA DAS SETE SAIAS - Fernando de Ligório

A Pombagira Cigana das Sete Saias é uma hábil oraculista. Seus adeptos-feiticeiros-kimbanda quando incorporados, podem oracular com qualquer coisa: búzios, tarot, ossos, palitos de fósforos ou de dentes, tampas de garrafa, cartas etc. Quando irradiados por Cigana das Sete Saias, adquirem profunda capacidade oracular. O poder magnético de Pombagira Cigana das Sete Saias é um poderoso encantamento de beleza e harmonia; encantadoramente bela e atraente, com sua dança ela atrai homens aos seus domínios, como uma sereia que atrai incaltos ao fundo do mar. De sua magia, de sua beleza e de seu beijo vem certa medida de Morte, porque seu magnetismo seduz, corrompe, corrói e destrói, por esse motivo ela é convocada para desunir casais e estruturas corrompidas e estagnadas. A faca na sua perna tanto talha e separa os inimigos, quanto protege seus adeptos. Sua zona de poder é o Reino da Lira. O Povo Cigano é uma das Legiões de Exus e Pombagiras mais ativas no Reino da Lira, principalmente na área do comércio. A magia dos ciganos está históricamente conecada a cultura egípcia e vêdica, embora eles estivessem espalhados por todo Oriente Médio, Mediterrâneo e Europa Ocidental e Oriental, bebendo das fontes mágicas da Pérsia, da Fenícia ou Assíria, Sicília, Grécia, Armênia, Penísula Ibérica etc. É difícil traçar uma só origem para magia dos ciganos, e por serem exímios forjadores, têm conexões ancestrais diretas aos Tubal-Caim. A vibração magnética de Pombagira Cigana das Sete Saias é qliphótica, desvitalizante; por esse motivo pode ser associada ao Reino das Qliphoth na Árvore da Morte, a sedutora Qlipha de Lilith.

16/4/2020: MESTRE PANTERA NEGRA - Fernando de Ligório

Exu Pantera Negra é um poderoso xamã da mata escura, conhecedor das artes mágicas e alquimista das plantas e ervas de poder. Em seu ataque mágico Mestre Pantegra é rápido, mas silencioso; certeiro e agressivo, carregando a virtude e o poder das presas e garras para separar a carne dos ossos de suas vítimas, e a virtude da pele da pantera negra, seu totem, para ocultar-se nas sombras. Tamanho é seu poder de cura e magia que Mestre Pantera é considerado o «Exu das causas impossíveis». Exu Pantera Negra é o Chefe da Legião dos Panteras no Reino das Matas (Makaia), uma linha de caboclos feiticeiros, curandeiros, caçadores e guerreiros. Ser membro da Falange do Pantera é uma honrarina nos Reinos de Exu. «Pantera Negra» não é o nome de um Exu, mas um título de honra, força, poder e nobreza. Mestre Pantera se apresenta nas giras de magia como um homem sério, centrado, arredio e de pouca conversa, no entanto, quando necessário se manifesta com força e disposto a luta, com um apurado senso de justiça. Exu Pantera Negra «abre linha», quer dizer, dá acesso a seus adeptos feiticeiros-kimbanda a outras linhas de trabalho magístico, quando necessário no desenvolvimento mágico-espiritual. Como um feiticeiro do Reino das Matas, Mestre Pantera é ágil na abertura de caminhos, quebra de demandas e desobsessão espiritual.

14/4/2020: OS DAIMONES GREGOS & OS EXUS DE QUIMBANDA - Fernando de Ligório

Pergunta enviada de um seguidor do You Tube: Professor Fernando, por muito tempo o senhor praticou Goécia e esteve envolvido com teurgia, quer dizer, o Sr. deve ter bastante experiência com daimones. A pergunta é: agora que o Sr. está se envolvendo com Quimbanda, quem são mais poderosos, os daimones da Goécia ou os Exus e Pombagiras da Quimbanda? Os Exus e Pombagiras são daimones?

   Olá [...], bom dia. Grato por escrever. Para te responder eu inicio com um parágrafo retirado da nova edição do DAEMONIUM, ainda em processo de construção: Como vimos em nosso estudo, a palavra daimon evoluiu com o tempo. Ela aparece primeiro na Ilíada e na Odisseia de Homero como referência aos próprios deuses do Olimpo. Em Hesíodo os daimones aparecem como a alma dos homens que haviam vivido na era dourada da humanidade, responsáveis por distribuir as riquezas pelo mundo. O daimon como distribuidor de coisas boas ou ruins está em acordo com a origem etimológica da palavra. Nesse contexto, Zeus seria o grande daimon, por distribuir todas as coisas boas, mas também ruins, a humanidade. O interessante é que em Hesíodo os daimones passam a ser criaturas espirituais intermediárias entre os homens e os deuses, além de terem a conotação de almas de mortos. Platão reforça a ideia dos daimones como criaturas espirituais intermediárias e distribuidoras de riquezas, destacando Eros como o grande daimon. No fim da Antiguidade a palavra daimon já era utilizada como sinônimo de espírito, indicando qualquer agente espiritual, não importando a diferença. Mortos, criaturas da natureza e deuses, todos eram chamados de daimones. Herdando concepções de Plotino, Jâmblico destaca o valor do daimon pessoal, ideia fundamental por trás do conceito medieval e moderno de Sagrado Anjo Guardião. É somente na Septuaginta, i.e. o Velho Testamento traduzido para o grego koiné no Séc. III d.C. pela primeira vez, que a palavra daimon aparece de forma pejorativa, designando os deuses adorados por outras nações. É a partir da Septuaginta que os termos daimon (demônio) e anjo começam a ter o significado que hoje conhecemos e usamos.

   Não há como fazer comparações seguras entre os daimones gregos e os Exus e Pombagiras da Quimbanda. Para começar lhe corrigindo é melhor dizer daimones gregos do que daimones da goécia, afinal, na goécia da magia salomônica tradicional não há trato com daimones, mas a convocação e constrição de demônios. A cosmovisão salomônica é cristã; a interpretação salomônica de demônios é aquela elaborada na reforma teológica de São Tomás de Aquino (1225-1274), uma interpretação distinta daquela adotada pelas bruxas da feitiçaria popular européia. A magia salomônica tradicional é erudita, portanto restrita o acesso de pessoas sem erudição e mínima educação. Os magos salomônicos eram eruditos, muitas vezes clérigos ou educados por sacerdotes e filósofos cristãos. A feitiçaria popular européia era praticada por bruxas de pouca ou nenhuma educação e erudição. Estas feiticeiras adaptavam a magia salomônica a sua realidade, tornando-a mais acessível como encontramos nas edições de O Livro de São Cipriano, onde a estrita disciplina salomônica para se comunicar com espíritos é completamente dissolvida.  Enquanto que para os magos salomônicos os demônios se tratavam de criaturas perniciosamente diabólicas, para as bruxas e feiticeiras da tradição popular eles eram auxiliadores mágicos, os chamados espíritos familiares. Nesse tipo de feitiçaria faustina-cipriânica popular, as feiticeiras buscavam por estabelecer pacto e alianças com o Diabo Pessoal. É a feitiçaria ibérica e não a magia salomônica erudita que influenciou a formação do Culto de Exu no Brasil em seu primeiro momento. Essa ideia do espírito tutelar na feitiçaria ibérica, por outro lado, está associada a ideia do daimon na Antiguidade.  É no contexto da feitiçaria, teurgia e religião grega e romana da Antiguidade clássica e tardia que encontramos o melhor entendimento dos daimones. Apuleio de Madura, Porfírio de Tiro (233-305 d.C.) e Jâmblico de Cácis (245-325) estão entre os filósofos mais destacados no estudo da natureza e ação dos daimones. As interpretações de Porfírio e Jâmblico são objeto de estudo na nova edição do DAEMONIUM.

   A goécia, tecnicamente, é um tipo de prática que, originalmente na tradição grega da magia, tratava-se do trato com a alma dos mortos apenas. De modo geral na tradição grega a goécia é sinônimo de feitiçaria. Como vimos na última edição do DAEMONIUMgoécia era compreendida por um tipo inferior de prática mágica, contrapondo-se a teurgia, cujo exercício exigia saber filosófico.

   Considerando esse aspecto técnico da feitiçaria tradicional grega, a goécia, podemos dizer que a tradição de Quimbanda é um tipo de goécia brasileira. Na Antiguidade tardia daimones incluíam variadas classes de espíritos, inclusive almas dos mortos. Na Quimbanda os Exus e Pombagiras são almas dos mortos deificadas. O que incluiria eles na categoria de daimones, os paredoi dos Papiros Mágicos Gregos, mas é incorreto dizer isso, haja visto que são culturas bem distintas. É mais fácil e correto dizer que Exus e Pombagiras compartilham com os daimones gregos características em comum como aquela de servirem de agentes comunicadores entre os homens e os deuses.

   Quem são mais poderosos: daimones gregos ou Exus e Pombagiras?

   Eu convoco a memória de Jâmblico que diz serem tolos os que adoram deuses de outras culturas. Para um grego, certamente, lidar com daimones e tirar deles maior proveito e eficácia magística é muito melhor do que tratar com Exus e Pombagiras, criaturas espirituais de uma cultura completamente diferente da grega. Para um feiticeiro brasileiro, maior proveito e eficácia magística ele terá ao lidar com Exus e Pombagiras. Então para nós brasileiros os Exus e Pombagiras são muito mais poderosos, pois fazem parte de nossa ancestralidade.

   A tradição de Quimbanda desde sua gênese é carregada de influências espirituais advindas de outras tradições. Na sua formação temos a iconografia diabólica da demonologia européia; o xamanismo ameríndio ancestral pré-colônia; a feitiçaria ibérica (que inclui influências da magia salomônica tradicional, grimórios medievais diversos e a magia popular da Península-Ibérica); a cultura yorubá e finalmente, o modus operandi da religião e cultura kimbundo-bantu. Esses são os elementos que compõem fundamentalmente a formação do Culto de Exu na tradição da Quimbanda Brasileira nos seus diversos seguimentos.

   Desde a sua gênese a magia cerimonial européia está na tradição de Quimbanda. Os Reinos da Quimbanda podem ser relacionados as virtudes planetárias. O Reino das Encruzilhadas tem profunda relação/conexão com as virtudes planetárias de Mercúrio. Ao feiticeiro-kimbanda com conhecimento de magia cerimonial, está claro que rituais de magia ou entregas no Reino das Encruzilhadas são operações mágicas mercuriais. Sabendo disso, com a orientação de seu Exu Tutelar, ele pode relacionar o trabalho de Exus e Pombagiras no Reino das Encruzilhadas a espíritos mercuriais, olímpicos ou demônios. Via de regra, com conhecimento e fundamentação lúcida-luciferiana, o zodíaco, as mansões da Lua, a alquimia e a astrologia podem ser utilizadas dentro da teurgia e goécia da Quimbanda.

9/4/2020: MARIA DE PADILHA - Fernando de Ligório

É uma tradição na feitiçaria universal reverenciar aqueles ancestrais que valorosamente conquistaram ou galgaram uma posição espiritual após a morte. Isso não é diferente na tradição da Quimbanda. Os espíritos que assistem a Quimbanda são Poderosos Mortos, almas deificadas de antigos feiticeiros, magos, bruxos, místicos e alquimistas que receberam a alcunha de Exus e Pombagiras. Diferente do que comumente é conhecido e aceito, eles são Mestres Espirituais. Humberto Maggi ilustra bem essa questão no início de sua obra, Maria de Padilha: Queen of the Souls (Hadean Press, 2015):

É de grande importância para entender a feitiçaria de Maria de Padilha o fato, relatado pela história, que ela foi coroada após sua morte. Mistérios necromânticos da Era Clássica nos dizem que uma vida memorável, assim como as circunstâncias da morte, podem estabelecer duas categorias especiais de mortos, os heróis e os sem descanso. Ambos podem ser de grande ajuda ao feiticeiro. Heróis podem ser venerados para bençãos e proteção, e informação secreta pode ser obtida pelo processo de incubação - dormir no santuário [dedicado ao] herói. Os [mortos] sem descanso podem ser invocados para todo tipo de trabalho mágico, de amarrações para adquirir favores de juízes a vencer uma corrida de cavalos.

No livro Segredos Espirituais da Quimbanda, capítulo Os Poderosos Mortos (disponível em inglês, russo  e português nesse site), eu tratei desse tema com detalhes: que Exus e Pombagiras não são demônios ou criaturas malignas, mas mestres iluminados da mesma envergadura espiritual dos santos católicos, mestres ascensionados da Teosofia, chefes secretos da tradição thelêmica etc. Maria de Padilha é uma poderosa feiticeira que conquistou seu lugar de destaque entre as falanges de Pombagira.

   Maria de Padilha é uma Pombagira singular. Ao avaliar os inúmeros feitiços em que constam o seu nome é possível ver a clara influência cipriânica da feitiçaria ibérica que ela leva aos Reinos da Quimbanda. Se há um espírito na Quimbanda que espelha nitidamente a influência de São Cipriano (Cipriano Feiticeiro e a feitiçaria ibérica ou a corrente espiritual de O Livro de São Cipriano), é Maria de Padilha. Outros espíritos como Exu Meia Noite ou Exu Tranca-Ruas, que em vida estiveram envolvidos com a cultura e magia popular européia, também espelham a magia cipriânica ibérica em suas ações magísticas. Além de ter aprendido a goécia dos grimórios salomônicos, a dita magia negra européia, Maria de Padilha também esteve envolvida com o culto aos Ngangas da cultura kimbanda BaCongo quando esteve escondida em Angola. Os Ngangas são espíritos dos mortos, antigos ancestrais de xamãs, magos e feiticeiros cultuados na cultura bantu-kimbanda da África. Dessa maneira, Maria de Padilha traz aos Reinos da Quimbanda a herança da feitiçaria popular européia, onde esteve associada diretamente a Satanás, Lúcifer e Beelzebuth, associada diretamente ao culto bantu africano, miscigenando a necromancia europeia e africana.

    Por conta de sua extraordinária trajetória em vida, após a sua morte Maria de Padilha foi considerada a Grande Feiticeira pelos bruxos e feiticeiros ibéricos, sendo procurada, requisitada, convocada e invocada para resolução de inúmeros problemas amorosos e sentimentais. Considerada a própria Mulher do Diabo, Pombagira Maria de Padilha espelha e expressa a mulher livre e é seguro dizer, cruzando linhas, que ela é uma verdadeira Sacerdotisa de Afrodite. Em vida ela tomou as rédias e deu cabo do destino que projetou para si mesma. Maria de Padilha é expressão de mulher liberta, empoderada. Uma das mulheres mais poderosas na Europa em seu tempo, nos Reinos da Quimbanda ela ganhou o comando de uma Legião ou Quadrilha de espíritos femininos que levam o seu nome, poderosas feiticeiras necromantes. Adorada na bruxaria como uma deusa, Maria de Padilha chegou ao Brasil com as bruxas exiladas pela Inquisição de Portugal, que trouxeram livros de encantamentos e conjuros da feitiçaria ibérica, fundamentalmente O Livro de São Cipriano. Em solo brasileiro, esse material alimentou a feitiçaria tradicional brasileira que se iniciava dentro de um caldeirão fervilhante de influências mágico-religiosas.

   Maria de Padilha é a Guardiã da Quimbanda e a Rainha do Inferno devido a sua importância e grandeza nos Reinos da Quimbanda; orientadora do Culto de Exu Mulher na Quimbanda, ela recebe e instrui todos os espíritos que passam a compor a sua Banda. Na tradição de Quimbanda, Maria de Padilha é expressão última do Sagrado Feminino.

   Saravá suas Forças Pombagira.

   Laroyê Exu é Mojubá.

   Aluoandê.

2/4/2020: A INFLUÊNCIA BANTU NA QUIMBANDA - Fernando de Ligório

Como todos estão acompanhando, tenho produzido um trabalho de pesquisa extenso e profundo sobre a gênese da tradição de Quimbanda nos dois momentos do Culto de Exu no Brasil. Boa parte dessa pesquisa tenho atualizado no texto A Tradição de Quimbanda, disponível aqui no site. É somente na eclosão das tentativas de organização do chão africano no Brasil através dos movimentos mágico-culturais dos candomblés e calundus baianos, da cabula capixaba e da macumba carioca que é possível inferir a profundidade e extensão da influência da cultura kimbundo-bantu na tradição de Quimbanda. No dia-a-dia do culto, na transmissão oral de fundamentos e memória ancestral, pode ser difícil enxergar essa influência: não só o modus operandi da Quimbanda é norteado pela religião bantu, mas fundamentações peculiares da metafísica e cosmovisão também. Eu gostaria de abordar um aspecto bem prático (senão pragmático) para o entendimento disso.

   Um feiticeiro-kimbanda não mensura suas ações magísticas pelas lentes opacas da moral, da ética e dos bons costumes. A Quimbanda vai à contramão disso! Um feiticeiro-kimbanda mensura suas ações magísticas em quantitativos energéticos. Dessa maneira, um feiticeiro bem sucedido na vida é aquele que manipula com eficiência uma quantidade considerável de energia vital; por outro lado, um feiticeiro-kimbanda mal sucedido na vida tem pouca eficiência na manipulação dela. Trata-se de um consenso comum essa verdade na tradição de Quimbanda. Essa ideia, no entanto, vem da cultura kimbundu-banto.

   Na religião bantu o poder do sacerdote (kimbanda) é mensurado por sua capacidade em manipular a energia vital de forma benigna (para garantir a ordem cósmica e social) ou maligna (para desestruturar a ordem cósmica e social). A ordem cósmica e social por sua vez são interdependentes, ambas dependentes das relações (pactos, alianças e compromissos) que os homens estabelecem com os ancestrais divinizados e antepassados do culto. Tudo depende da harmonia das relações estabelecidas com os espíritos. Não há uma distinção entre homens e espíritos; ambos participam de uma só comunidade. Assim, relações espirituais negligentes produzem esgotamento energético através de um processo de vampirização e, ao contrario, relações harmoniosas garantem um fluxo abundante de energia vital. Para os bantus a magia é fruto direto da comunicação com os espíritos – uma ideia universal na tradição da magia – e dela depende a harmonia ou anarquia total do cosmos e da sociedade (comunidade). Dessa forma, o culto diligente aos ancestrais divinizados e aos antepassados para os bantus garante a continuidade da organização da comunidade e o fortalecimento da energia vital dela (mais fartura e saúde para todos).

   Por conta disso, a notoriedade de um sacerdote (kimbanda) depende de sua capacidade em, através de sua feitiçaria, manter a harmonia e a prosperidade da comunidade. Dessa notoriedade nasce a confiança da comunidade de que o kimbanda tem uma comunicação profunda com os ancestrais divinizados e antepassados da religião, mantendo com eles laços fortes e efetivos, responsáveis pelo bem-estar, harmonia e abundância de todos. É neste sentido que um kimbanda trata-se de um agente social. Um sacerdote que deixa a comunidade cair vítima da voracidade dos espíritos, sejam àqueles da comunidade ou outros enviados pelo ataque de feiticeiros, criando com isso uma desestruturação social, têm sua notoriedade manchada. O status social de um kimbanda está conectado, portanto, a sua capacidade de conhecer e manipular a energia vital, se beneficiando ele mesmo, em primeiro lugar, dela.

   Na cultura kimbundo-bantu o mundo é concebido como energia, não como matéria; tudo é força mágica e disso depende toda a cosmovisão kimbundu-bantu. Essa força mágica é transmitida dos espíritos diretamente aos homens, todos os homens. Mas apenas alguns poucos, os kimbandas, têm a capacidade de manipular tal força com eficiência. Nesse entendimento, os bantus compreendem que existe uma conexão tênue entre os três reinos primordiais (mineral, vegetal e animal), o reino dos homens e o reino divino, todos interligados por uma extensa rede energética. A energia vital, portanto, pode aumentar ou diminuir em acordo a dinâmica entre todos esses reinos, de modo que um pode enfraquecer o outro. É sabendo disso que um kimbanda conquista o domínio e torna-se capaz de manipular essa força mágica.

   Toda herança desse entendimento está presente na tradição de Quimbanda, não nos termos idênticos a cultura kimbundo-bantu, mas como pano de fundo da compreensão que o feiticeiro-kimbanda tem da arte da feitiçaria e seu exercício.

29/3/2020: A FACA & O CORTE - A TEURGIA NA QUIMBANDA - Fernando de Ligório

Nessa segunda edição do Daemonium eu me proponho a uma tarefa difícil: demonstrar que a Quimbanda é uma genuína tradição brasileira de mistérios. Para isso eu construo uma ponte entre a feitiçaria da Quimbanda e seu sistema de iniciação com a goécia (feitiçaria) e teurgia da Antiguidade. A Quimbanda inclui ou herda a essência pura da goécia e teurgia presente na Antiguidade clássica e tardia. Como vimos na última edição do Daemonium, as técnicas de feitiçaria e teurgia são universais, mudando pouca coisa de cultura para cultura. O corte e a oferenda que um feiticeiro-kimbanda faz as deidades da tradição, os Exus e Pombagiras, o teurgo e sacerdote dos deuses também fazia na Antiguidade. Procedimentos semelhantes, objetivos idênticos: celebrar a potencia dos espíritos e clamar por sua intervenção entre nós, purificando e sutilizando a alma, e auxiliando nas demandas da vida secular. Como veremos nessa edição, o corte ou sacrifício animal era o eixo da teurgia na Antiguidade e permaneceu o mesmo eixo da teurgia que existe dentro da Quimbanda. Essa abordagem pode ser impactante aos tradicionalistas; no entanto, sob um olhar mais profundo, sob uma atenção mais cuidadosa, a Quimbanda encerra todos os arcanos e mistérios da goécia e teurgia universais.

   Na teurgia, a ciência do corte é o eixo do culto porque é do sacrifício que todos os outros fenômenos teúrgicos rituais ocorrem: divinação através de oráculos, divinação por incorporação mediúnica, purificação, ascensão da alma, consagrações, imantações etc. O corte é o elemento fundamental que dá a ignição no processo teúrgico. Na tradição da Quimbanda não é diferente: a ciência do corte é o eixo da feitiçaria tradicional brasileira. Dessa maneira, a prática da feitiçaria tradicional brasileira está em direta harmonia e conexão com a prática da teurgia como compreendida na Antiguidade tardia. Nas religiões pré-cristãs da Antiguidade o sacrifício de um animal consagrado e santificado para a teurgia tratava-se de um ofício sagrado. O sangue carrega a essência da vida que alimentava as deidades. Por meio do sangue sacrifical se estreitam os laços entre os homens e os deuses, entre as almas encarnadas e seus ancestrais; buscava-se através do sangue por proteção espiritual e cura das mazelas do corpo e da mente; o sangue do sacrifício era uma oferenda que glorificava as deidades, seus poderes, e através dele era esperado receber as virtudes e bênçãos dos deuses e ancestrais. Como o sangue está estreitamente conectado a fertilidade e continuidade da vida, o sacrifício era o ato teúrgico de se doar a vida para receber dos deuses a própria vida na forma de renovação espiritual em nossa jornada encarnados na matéria. Além disso, acreditava-se que o sacrifício libertava a alma do animal de seu cativeiro no reino da geração, o que garantia a continuação de sua existência no pós morte: todo animal sacrificado torna-se um espírito de alma deificada. Isso tem implicações profundas e um grande impacto na carreira magística/teúrgica, pois que estes espíritos podem auxiliar o mago em sua jornada. Este arcano iniciático do passado está presente, por exemplo, nos Papiros Mágicos Gregos. Na feitiçaria dos papiros um falcão é deificado através de um sacrifício teúrgico, responsável por torná-lo um paredros, um espírito tutelar.

   A ciência do corte ou sacrifício magístico-sacerdotal de deificação animal é a ferramenta fundamental de trabalho mágico da feitiçaria tradicional brasileira. Trata-se de uma ciência porque por meio dela o feiticeiro-kimbanda purifica e deífica sua alma. O corte não apenas alimenta as entidades, mas também produz uma poderosa alquimia na alma do feiticeiro. O primeiro sacrifício realizado pelo feiticeiro é fundamental para iniciar este processo alquímico na alma, assim como aproximá-lo definitivamente de seu Exu Tutelar que o acompanhará em sua jornada espiritual. Isso está em direta sincronia com a teurgia do neoplatonismo baixo ou tardio.

27/3/2020: FEITIÇARIA ARS NIGRA - Fernando de Ligório

Feitiçaria Ars Nigra é o nome que dei ao meu exercício pessoal de feitiçaria tradicional brasileira: a tradição de Quimbanda ou Culto de Exu. Este termo, Ars Nigra, deve ser entendido como sinônimo para as artes negras de feitiçaria e envolve o conhecimento e conversação com os espíritos dos mortos na posição de deidades tutelares e, através deles, espíritos da natureza de todos os tipos, do reino da geração aos éteres superiores. Trata-se de um culto religioso teúrgico e sacerdotal que envolve sacrifícios propiciatórios aos espíritos através da imolação de aves, caprinos, bovinos e répteis.

   Na Tradição Oculta o termo Artes Negras faz referência a matérias como feitiçaria, demonologia, astrologia, alquimia, tradição dos grimórios, o Culto do Diabo e a necromância. Todas essas matérias influenciam profundamente minha interpretação e exercício de Quimbanda. Pouca ou quase nenhuma atenção tem sido dada na tradição moderna da magia ao aspecto mais importante da iniciação nos arcanos da Arte dos Sábios: a necromancia. Este termo, necromancia, tem sido tratado com desrespeito e desdém por essas tradições modernas. Seja por ignorância, medo ou incompetência, os magos modernos têm evitado o contato com os ancestrais, os espíritos dos mortos que compõem nossa egrégora pessoal. Na Antiguidade até a Idade Média, muito respeito era conferido ao culto aos ancestrais, pois dele vem as raízes mágicas que provêm força mágica as ações magísticas dos magos e feiticeiros. As tradições de cabala crioula não só guardaram como um relicário reluzente a veneração dos mortos divinizados, elas também refinaram e aperfeiçoaram o culto.

    A Quimbanda Ars Nigra vem de dois troncos de Quimbanda: a Quimbanda Tradicional de Tatá Antônio Alves de Rosado, o Antônio Kaminaloa, e a Quimbanda Luciferiana de seu discípulo, o Tatá Carlos Meira.

    Para falar sobre o meu exercício pessoal de Quimbanda, Feitiçaria Ars Nigra, é preciso contextualizar o que se conveniou chamar de Linhas de Quimbanda. Na última entrada do meu Diário de um Feiticeiro (26/3/2020), disponível nesse site, eu fiz uma breve introdução ao tema. Partindo dali, continuamos por aqui.

   A noção umbandista de Linhas de Quimbanda (Malei, Almas, Caveiras, Nagô, Mossorubi, Caboclos e Mista) não está presente, de fato, na Quimbanda. Trata-se de uma construção umbandista para equilíbrio e harmonia do cosmos segundo a cosmovisão desta doutrina. É mais correto dizer que as Linhas de Quimbanda são os Sete Reinos de atuação dos espíritos e todos os povos que os compõem. O que os umbandistas classificaram como Linhas de Quimbanda são, de fato, os diversos seguimentos de Quimbanda a partir de três troncos originais: a Quimbanda Tradicional, a Quimbanda Luciferiana e a Quimbanda Cruzada.

   Como expus no texto sobre a Tradição de Quimbanda, a Linha Tradicional são todos os seguimentos que nasceram diretamente do Candomblé, entre o fim do primeiro momento e o início do segundo momento do Culto de Exu no Brasil. A Quimbanda Tradicional nasce dos primeiros sacerdotes de Candomblé que deixaram de sacrificar animais para Orixás e passaram a fazê-lo para os Exus e Pombagiras. A Quimbanda Tradicional deve muito ao Candomblé (Nagô, Angola, Batuque etc.) e a Macumba Carioca.

   A Linha Cruzada são os seguimentos de Quimbanda que nasceram diretamente da Umbanda. Estes seguimentos utilizam muito da cosmivisão umbandista associada ao Culto de Exu, construindo uma Umbanda de Esquerda: sacerdotes de Umbanda que começaram a sacrificar para os Exus e Pombagiras. A Quimbanda Cruzada deve muito ao Candomblé, a Cabula e a Macumba.

   A Linha Luciferiana é híbrida: ela vem dos mestres de Quimbanda Tradicional que decidiram adotar alguns dos conceitos inaugurados na obra de Aluízio Fontenelle, Exu, como a Trindade do Oposto, Culto aos Maiorais etc. Esse é o seguimento de Quimbanda que mais ganha adeptos e cresce no Brasil, porque ao longo do tempo vem refinando a gnose luciferiana associada ao Culto de Exu. Os seguimentos Kimbanda Malei, Corrente LTJ49 e Ars Nigra estão associados a essa linha híbrida de Quimbanda.

16/3/2020: EXU DE UMBANDA & EXU DE QUIMBANDA - Fernando de Ligório

Existem muitas diferenças entre os Exus que trabalham na linha de Umbanda e àqueles que se apresentam entre as Legiões da Quimbanda; no entanto, no imaginário popular Exu de Umbanda e de Quimbanda são tudo a mesma coisa, quando não são. Não se trata de uma linha tênue enxergada só por alguns mais cuidadosos; pelo contrário, há um abismo, um verdadeiro precipício que os separam e não há pontes que possam ser erigidas pelo homem para tentar uni-los. Mas alguns homens, confusos e teimosos, têm tentado e falhado construir essa ponte. O ritual de iniciação na tradição de Quimbanda e as obrigações que se seguem a ele, por outro lado, destrói completamente essas pontes imaginárias. Na nota de hoje vamos nos debruçar um pouco sobre essa questão.

   Ponto 1: os Exus que se apresentam na Quimbanda possuem um laço de ancestralidade com os seus adeptos; os Exus da Umbanda não. A Umbanda é alicerçada sobre o tripé kardecista da paz, do amor e da caridade. A Lei de Umbanda, portanto, obriga a todos os espíritos que se apresentam, Preto-Velhos, Caboclos, Crianças, Ciganos, Boiadeiros, Marinheiros, Mestres do Oriente, Exus etc., por obrigação espiritual, a missão de atender irrestritamente qualquer pessoa que os busquem. Essas entidades que se apresentam na Umbanda agem segundo os princípios e ordens de leis e seres divinos superiores, pois é a obrigação deles servir a manutenção divina do cosmos. Por conta disso não existe uma conexão ancestral entre o médium de Umbanda e as entidades que ele dá passagem. Em uma sessão de Umbanda é comum ver um adepto dar passagem a inúmeras entidades. As entidades não trabalham para o médium, mas para o bem comum e social da comunidade, pois através desse trabalho elas podem evoluir espiritualmente. Através do trabalho de doação, as entidades adquirem méritos espirituais e ganham honrarias por isso.

   Na Quimbanda é muito diferente! As entidades que se manifestam na Quimbanda têm um laço de ancestralidade com seus adeptos. A Quimbanda preserva a cosmovisão da cultura kimbundu-bantu de culto a ancestralidade onde as entidades que se apresentam têm laços espirituais ou familiares com os adeptos. Os Ngangas mantinham conhecimento e conversação com os espíritos familiares e ancestrais da comunidade. Essa conexão só ocorria através do ritual de iniciação. Se não há iniciação, não há conexão! Isso significa que determinados Exus e Pombagiras só incorporam em determinados adeptos. Diferente dos Exus da Umbanda, os Exus da Quimbanda não precisam evoluir. Eles, ao se tornarem Exus e Pombagiras, título de honra dado a almas verdadeiramente deificadas, são mestres e guias da humanidade. Inúmeros cultos produziram mestres espirituais que adquiriram a honra de se tornarem mestres divinizados; e na tradição de Quimbanda, de desfrutarem a vida na terra no pós-morte através do fenômeno da incorporação. A Igreja produziu os santos; a teurgia clássica neoplatônica produziu as almas purificadas que podiam voltar quando quisessem ao reino da geração e governavam o cosmos junto aos deuses; as tradições modernas também: thelema produziu os chefes secretos; a Ordem Hermética da Aurora Dourada produziu os adeptos dos planos internos; a teosofia os mestres ascencionados etc. Na Quimbanda Exus e Pombagiras são mestres e guias espirituais divinizados que desfrutam temporariamente do reino da geração na incorporação e que trabalham em benefício de seus adeptos. Cada adepto de Quimbanda possui, dessa forma, seu Diabo Pessoal: um Exu Tutelar que o orienta, guia e o protege. Um adepto de Quimbanda não dá passagem a uma miríade de espíritos; ele dá passagem somente a um, dois ou poucos Exus, que têm com ele conexão espiritual ancestral.

   Ponto 2: alicerçada sobre dogmas kardecistas, a Umbanda além de acreditar no evolucionismo darwinista dos espíritos, também acredita na reencarnação como um ciclo de sucessivas vidas, mortes e renascimentos. A Quimbanda não segue este dogma kardecista; os Exus e Pombagiras na Quimbanda, diferente daqueles da Umbanda, não tiveram inúmeras vidas encarnados na terra; apenas uma, como feiticeiros ou sacerdotes do culto. Um espírito da Quimbanda, vamos supor, Tatá Caveira, não relataria uma vida como Proclo no Egito. Na cosmovisão da Quimbanda, o ancestral divinizado trata-se de uma alma deificada que pelo mérito de sua evolução e maestria espiritual forjados em vida desfruta do reino da geração por meio de seu médium e trabalha exclusivamente para o bem dele.

   Se na tua iniciação de Quimbanda te batizarem na Umbanda, tome muito cuidado, pois teu iniciador pode estar te enganando ou deve ter sido enganado.

15/3/2020: O DIABO PESSOAL - Fernando de Ligório

Esse é um dos temas explorados no Volume II do DAEMONIUM, em breve disponível. Diferente da ideia moderna de Sagrado Anjo Guardião, um agente divino colocado por Deus à disposição de todas as almas encarnadas, um anjo que guarda e encaminha o destino de cada um, o diabo pessoal é um espírito da Natureza que na escatologia cristã ganhou o nome de Diabo devido a sua selvageria bestial, também presente nas profundezas de cada um de nós. O tema ganhou fama nas obras de inclinação Faustina como o mito de São Cipriano e a própria tradição salomônica. Foi na Europa da Idade Média e Modernidade que essa cultura ganhou fôlego extra na perseguição católica/protestante contra as bruxas e feiticeiras, caçadas e condenadas por estabelecerem relações com o Diabo através de pactos, compromissos e alianças; esse Diabo ao qual as bruxas e feiticeiras mantinham comunicação aparecia como diabo pessoal, um espírito tutelar que garantia a autoridade da bruxa sobre espíritos familiares diversos, os diabretes. Como temos estudado no Curso de Filosofia Oculta, o conhecimento & conversação com o Gênio ou Espírito Tutelar é tão antigo como a idade do homem e está presente na magia desde os primórdios. A cultura do diabo pessoal foi continuada na tradição de Quimbanda na relação estabelecida entre os adeptos e os Exus. Na mitologia da Quimbanda é Maioral o Diabo que como a Natureza, representa a totalidade dos Reinos da Quimbanda, de onde todos os Exus e Pombagiras vêm. É Maioral que libera a cada adepto de Quimbanda seu Exu ou diabo pessoal.

13/3/2020: QUIMBANDA & A VISÃO POSITIVA DO UNIVERSO - Fernando de Ligório

Hoje eu recebi um livreto sobre a tradição de Quimbanda chamado O Livro Negro da Quimbanda (Parzifal Publicações, 2016). Com 115 páginas, li o livreto todo em uma tarde. Com muitas informações correntes, quer dizer, encontradas na grande maioria de livros populares sobre Quimbanda, seu diferencial é que os autores pretendem fazer uma aproximação entre a tradição de Quimbanda e o gnosticismo do Séc. II d.C. O gnosticismo propõe uma imagem negativa da realidade: o mundo é desprezível e como tal, idealmente não deveria existir. Bom, eu não concordo com essa visão gnóstica, muito menos a conecto a visão de mundo de um feiticeiro-kimbanda. Um feiticeiro-kimbanda, respeitando a natureza da própria tradição kimbundu-bantu, tem uma visão positiva do universo, não negativa, porque sangue, afinal de contas, é vida. Em postagens anteriores venho estabelecendo uma ponte entre a tradição de Quimbanda, a feitiçaria tradicional brasileira e os cultos de mistérios da Antiguidade clássica e tardia, assim como os autores do livro também o fazem. Como missão pessoal minha proposta é demonstrar que a Quimbanda trata-se de uma genuína e independente tradição de iniciação e mistérios do caminho da mão esquerda. Para fazer um contraponto as ideias dos autores do livro citado acima, na postagem de hoje vamos nos debruçar sobre visão positiva do universo compartilhada pelas escolas e tradições de mão esquerda, principalmente o tantra vāmācāra e a tradição de Quimbanda.

   A cultura tântrica em seu escopo filosófico, histórico e cultural nasce como um movimento de revolta e insubordinação a tradição védica dos sacerdotes brâmanes. A Quimbanda, do mesmo modo, alimentada por uma ancestralidade perseguida, açoitada e escravizada no processo de diáspora, também nasce como um movimento de revolta e insubordinação dos Exus e Pombagiras contra as entidades – eurocentristas/elitizadas/superiores – dos Orixás, Caboclos e Preto-Velhos da Umbanda. Em seu segundo momento, após a década de cinquenta e a disseminação das ideias de Aluízio Fontenelle sobre os Exus e Pombagiras entre os umbandistas, a Quimbanda existia apenas como um aspecto cosmológico próprio da cosmovisão umbandista. Quimbanda era a parte do fim da sessão onde convocava-se Exus e Pombagiras para limpeza do ambiente astral dos terreiros de Umbanda e, mesmo assim, subordinada as entidades superiores, prefigurava magia negra, como estabelecido por Fontenelle e sumariamente aceito pela comunidade umbandista.

   Na década que se seguiu, os anos sessenta, Exus e Pombagiras se revoltaram dentro da Cáfua, arrombaram a porta e invadiram o salão. Se antes consideradas entidades inferiores que não podiam ser cultuadas em zonas de poder como a praia/mar, dedicada a Iemanjá, daquele momento em diante a eles foram erigidos templos e sua presença se espalhou por todos os Sete Reinos: a tradição de Quimbanda ganhou independência, forma religiosa particular, rituais e sistema de crenças próprios, cosmovisão e identidade. A partir dessa independência a Quimbanda deixa de participar dos domínios negativos do cosmos umbandista, reabilitando as condenáveis práticas de feitiçaria da Macumba carioca, da qual ela recebe influência em seu primeiro momento no início do Séc. XIX.

   A cultura do tantra inaugurou uma nova e universal prática espiritual: ela aceita tudo e a todos, sem discriminar classes (ou castas) e etnias, colocando lado a lado sentados em círculo todos os indivíduos da sociedade, marginais e dignitários; algo inédito na cultura medieval da Índia. O tantra propõe uma visão positiva da realidade onde o marginal e o profano transcendem suas particularidades decadentes e tornam-se objetos sagrados dignos de veneração. Se antes a existência mundana no olhar védico era desprovida de significado espiritual - como também propõem os gnósticos -, com o tantra ela passa a ser o único meio de espiritualidade possível. O mesmo ocorre na Quimbanda, pois Exus e Pombagiras sacralizam a existência mundana. Assim como no tantra, praticar a Quimbanda espiritualiza as dimensões humanas: política, sociocultural, filosófica, estética etc. Com sua visão positiva do sexo, do álcool, da malandragem, do fumo, da música e da festa, o feiticeiro-kimbanda tem a oportunidade de sacralizar o mundo profano e fazer dele um veículo de transformação espiritual. Neste caminho a Quimbanda e o tantra vāmācāra compartilham visões idênticas da realidade.

   Exus e Pombagiras de Quimbanda são almas deificadas muito próximas da natureza humana. Por esse motivo existe na tradição de Quimbanda muitas festividades conectadas aos Exus e Pombagiras, onde é possível interagir com eles em um contexto distinto do formalmente religioso, quer dizer, a atividade profana. Finalizo essa postagem com uma citação de Diana Brown, americana que fez um extensivo trabalho de pesquisa sobre a Umbanda e a Quimbanda: Aqui está a quintessência de todas as práticas mais temidas e desprezadas pelos umbandistas: a ostentação aberta da moral, bem como os rituais bárbaros e «primitivos» [...]. Em um contexto de extrema pobreza [...] isso constitui sem dúvida uma afirmação simbólica de desafio e revolta contra as classes superiores, ao sistema político e à Igreja como formas de opressão. [...] Em seu sentido mais amplo os Exus parecem garantir a autonomia e o poder ao indivíduo de possuir e conquistar seus interesses particulares, em contraposição ao que estabelecem os códigos morais do Estado, da sociedade civil e da família.

12/3/2020: EXU NÃO É QUALQUER ALMA DESENCARNADA - Fernando de Ligório

Diferente do que postulam alguns autores de Quimbanda, os Exus da tradição não são qualquer ou todo tipo de alma desencarnada insatisfeita com o status quo da sociedade e cultura atual. Em O Livro Negro da Quimbanda (Parzifal Publicações, 2016), os autores escrevem: Os Exus (Catiços) representam os tipos sociais que não aceitaram as normas impostas pela sociedade e pelas religiões convencionais, eles são o lado marginal e caótico da civilização e quando morrem, são lembrados como a figura de Exu. (p. 15)

   Uma infelicidade essa afirmação. Então vamos supor que qualquer pessoa, feiticeiro-kimbanda ou não, que lute contra as normas sociais vigentes torna-se Exu de Quimbanda após o desencarne? Isso significa, por exemplo, que logo Marcia Tiburi estará entre as falanges de Pombagiras só por desafiar o status quo social? Duvido muito que só isso basta para ela, eu, você ou qualquer um tornar-se um Exu ou Pombagira após o desencarne. O título de Exu ou Pombagira não é dado a qualquer Egun desencarnado. Exus e Pombagiras são mestres e guias da humanidade, entidades espirituais de alma deificada, antigos sacerdotes do Culto de Exu no Brasil. É por isso que muitos dizem, com razão, que a grande maioria de Exus e Pombagiras que se apresentam são Quiumbas ou Eguns disfarçados, pelo simples fato de que não é qualquer alma que é admitida aos Reinos e Falanges de Quimbanda como Exu ou Pombagira.

   A tradição de Quimbanda no Brasil, como disse no texto deste Site, desenvolveu sua própria doutrina soteriológica de progressão e deificação da alma. Apenas os sacerdotes e feiticeiros da tradição que conseguiram, por meio de disciplina pessoal e dos recursos teúrgicos do culto, deificar a alma, é que são aceitos na Legião de Vossa Santidade o Maioral de Quimbanda. Maioral é o trono (ou útero) de onde os Reinos e as Legiões provêm. Sacerdotes e feiticeiros que não conseguiram por esforço pessoal e as ferramentas teúrgicas do culto deificar as suas almas, tornam-se no máximo Quiumbas, almas penadas detentoras do conhecimento arcano da feitiçaria.

11/3/2020: GOÉCIA NA QUIMBANDA - Fernando de Ligório

A Quimbanda é uma genuína Tradição de Feitiçaria Brasileira, formada e fundamentada dentro de um caldeirão mágico no qual convergiram a tradição xamânica ameríndia (culto aos encantados da cultura tupí-guarani), a feitiçaria tradicional europeia (tradição ibérica/cipriânica/salomônica), a cultura religiosa kimbundo BaCongo, a cultura yorubá e, recentemente, a tradição do satanismo/luciferianismo gnóstico. A palavra kimbanda é traduzida como mago, curandeiro ou feiticeiro. Um kimbanda é, originalmente, um xamã africano, um homem que se comunica com espíritos da natureza (Nkisis) e dos mortos (Ngangas). Muito embora a tradição de Quimbanda no Brasil tenha se distanciado de suas raízes, o termo feiticeiro-kimbanda é utilizado para se referir a um homem que se dedica ao sacerdócio da feitiçaria e culto aos Poderosos Mortos, Exus e Pombagiras. O feiticeiro-kimbanda é um xamã brasileiro moderno, quer dizer, dos tempos atuais.

   O termo goécia é grego e traduzia-se na Antiguidade Clássica genericamente como feitiçaria. Originalmente, tratava-se de uma arte para lidar com os espíritos dos mortos que viviam no submundo e que na Quimbanda são conhecidos como Eguns, o povo do buraco. E como na Antiguidade média e tardia até a Idade Média costumava-se associar convocações de mortos as convocações de demônios, somando as perseguições cristãs contra os pagãos que perdurou por todo esse período, não tardou para o termo ser pejorativamente classificado como baixa magia, magia negra e condenado a marginalidade também por todo esse período.

   Não é difícil, ou pelo menos não deveria ser, associar a goécia grega (Antiguidade) ou salomônica (Antiguidade/Idade Média) a Quimbanda, uma vez que estas artes estão presentes e também fundamentam sua origem. A Quimbanda é a Goécia Brasileira, uma genuína arte de feitiçaria nascida de nossa terra pela expansão dos Reinos de Maioral. O Culto de Exu é um culto aos Poderosos Mortos (almas deificadas) e de entidades ancestrais diversas conectadas aos Reinos da Quimbanda e todos os espíritos que neles habitam. Isso é goécia; isso é feitiçaria; isso é um tipo de xamanismo. Quanto mais aborígene e xamânica a abordagem da Quimbanda, mais próxima de sua essência ela está. Salubrizar a Quimbanda é drenar dela suas forças.

9/3/2020: A INDEPENDÊNCIA DO EXU DE QUIMBANDA - Fernando de Ligório

A ideia umbandista solidificada por Fontenelle de que a Quimbanda trata-se de magia negra e arte diabólica foi aceita na comunidade da cabala crioula brasileira como uma semente jogada em solo fértil. Seguindo a ideia eurocentrista elitizada e escravocrata de que Exus são deidades menores e Caboclos e Preto-Velhos deidades maiores, estes foram relegados ao fim das sessões, apenas para fazer a limpeza da casa após as giras. Cultuados separadamente em Cáfuas ou apenas nas Tronqueiras, Exus e Pombagiras pejorativamente foram taxados de espíritos involuídos que, com o auxílio dos médiuns, encontravam redenção e evolução. Trata-se de um non sense absurdo que contraria as raízes kibundu-banto da própria tradição de Umbanda. A cultura kimbundu-bantu não vê o processo de reencarnação como os kardecistas – e umbandistas – propõem; após o processo de morte, a alma do feiticeiro permanece com a família espiritual da comunidade, participando do mundo temporariamente junto aos vivos através do fenômeno da incorporação. Não existe a ideia de evolução de espíritos após a morte; ao participar da família espiritual da comunidade, a alma ganha o status de mestre espiritual, um guia ancestral da comunidade. Ele não precisa passar por nenhum processo de evolução. Essa concepção de evolução dos espíritos foi baseada nas ideias de Charles Darwin (1809-1862) na época do frenesi cientificista que invadiu campos religiosos por toda parte no Séc. XIX. Se no espiritismo Allan Kardec importou essa ideia de Darwin, no ocultismo Helena Blavatsky (1831-18991) fez o mesmo através da Sociedade Teosófica. Cosmovisões distintas entrelaçadas em um Frankenstein espiritual.

   Foi somente com o Sr. Exu Rei das Sete Encruzilhadas e sua feiticeira, a Mãe Ieda do Ogum, que os Exus e Pombagiras arrombaram as portas da Cáfua e ganharam independência de culto: a tradição da Quimbanda.

   Com a Mãe Ieda do Ogum e seu Exu Tutelar, o Sr. Rei das Sete Encruzilhadas, a Quimbanda deixa de ser pejorativamente taxada de culto de magia negra e ganha destaque como tradição de mistérios, oferecendo a oportunidade de desenvolvimento espiritual através da Lei de Exu. Pelos olhos da Umbanda, a Quimbanda trata-se apenas de uma ferramenta de trabalho; pelos olhos da própria Quimbanda, trata-se de um culto genuinamente iniciático de progressão e evolução espiritual. Exu de Quimbanda é Guia, Instrutor, Orientador e Encaminhador dos feiticeiros e adeptos. A Quimbanda como tradição de mistérios iniciou-se de fato no Brasil através do Sr. Exu Rei das Sete Encruzilhadas e sua médium, a Mãe Ieda do Ogum, quando os Exus e Pombagiras tornaram-se independentes da Umbanda. Essa é a verdadeira matriz do Culto de Exu no Brasil.

   Como uma genuína tradição de mão esquerda, a resposta que a Quimbanda dá é que o que é marginalizado e degradado pode ser sacralizado e santificado. Já dizia o Kulā-ṇarva-tantra que atinge-se o céu pelos caminhos que levam ao inferno.

7/3/2020: EXU ABRE LINHA - Fernando de Ligório

Foi somente e um segundo momento na formação do Culto de Exu no Brasil na década de cinquenta que o satanismo, o luciferianismo e a magia cerimonial medieval/moderna foram sincretizadas com a Quimbanda através da obra de um autor umbandista: Exu, de Aluizio Fontenelle. Nesta obra Fontenelle conecta Maioral aos três chefes da hierarquia infernal de um grimório do Séc. XVIII conhecido como Grimorium Verum, onde os Exus foram relacionados a demônios. A partir desta obra eclodiram inúmeros seguimentos de Quimbanda. Todo e qualquer seguimento que se baseie nessa ideia de Exus associados a demônios e Maioral associado a hierarquia infernal é, portanto, de inclinação satanista e luciferiana, não importa a nomenclatura de culto adotada. Seguindo típicas manifestações de cultos na Tradição Ocidental de Mistérios, podemos dizer que este seguimento de Quimbanda se iniciou a partir de um livro, não tendo raízes históricas reais, como o primeiro grupo de Quimbanda organizado no Brasil que iniciou-se com o Sr. Exu Rei das Sete Encruzilhadas e sua feiticeira, a Mãe Ieda do Ogum na década de sessenta.

   Nesse seguimento satanista e luciferiano pós-Fontenelle e depois dele José Maria Bittencourt nas décadas de setenta e oitenta através da obra No Reino dos Exus, há um ditado que diz: Exu abre Linha. Através do Guia Espiritual, o Exu Tutelar, o feiticeiro-kimbanda tem acesso as forças planetárias na forma dos Espíritos Olímpicos ou espíritos malignos, os demônios (daimones). Os Reinos da Quimbanda nessa visão moderna são diretamente associados as virtudes planetárias: Reino das Almas (Lua), Reino do Cemitério (Marte), Reino da Lira (Sol), Reino das Matas (Júpiter), Reino do Mar/Praia (Vênus), Reino das Encruzilhadas (Mercúrio), Reino dos Cruzeiros (Saturno). Estas zonas de poder abrem acesso aos feiticeiros-kimbanda com conhecimento de magia cerimonial para convocação das forças planetárias, edificando a ponte entre a feitiçaria tradicional brasileira e a magia cerimonial europeia.

5/3/2020: COIRAMA: REVELE O OCULTO - Priscila Pesci

A coirama «Kalanchoe pinnata» também conhecida como «folha-santa», «folha-da-fortuna», «erva-da-costa», «saião» e «diabinho» é uma planta mágico-medicinal proveniente da África, de fácil cultivo e utilizada pelos povos aborígenes para diversas finalidades. Por causa de suas propriedades (virtudes) mágicas, na feitiçaria tradicional brasileira ela é utilizada em feitiços diversos, banhos, lavagens de chão e defumações. Cada um desses nomes populares revela as ações magísticas dessa planta. Por exemplo:

  1. Como «folha-da-fortuna» ela é utilizada em ritos mágicos (feitiços, banhos etc.) para multiplicação, fartura, crescimento e prosperidade;

   2. Como «folha-santa» ela é utilizada para o alívio terapêutico de vários males seja por chás, infusões, bolsões etc. para o alívio de coqueluche, bronquite, asma e diversas infecções do trato respiratório; uso externo para tratamento de queimaduras, dermatoses, contusões, cortes, dermatites, calos e catapora; coceiras sem motivo aparente; azia, gastrite, úlcera e desconfortos estomacais ou abdominais; dores de cabeça e enxaqueca; disenteria e diarreia; cólicas e distúrbios menstruais; equilibrar o diabetes; eliminar ou reduzir cálculos renais; inflamações em geral; febre; hematomas internos e ossos quebrados; epilepsia; dores de dente e de ouvido; infecções oculares e conjuntivite; flatulência e gases; distúrbios linfáticos; artrite; linfomas; uretrites; insuficiência renal ou pedra nos rins; prisão de ventre; pé de atleta; tosses intermitentes; tuberculose, gripes e resfriados; nervosismo, ansiedade e depressão; nefrites e náuseas.

  3. Como «diabinho» a virtude magica da coirama é expelir o que está oculto: a. terapeuticamente, sobre um furúnculo, espinha ou infecção com pus a coirama «expurga» ou «puxa» para fora da pele o elemento infeccioso; b. em feitiços de ex-votos (cabeça de cera) ela é utilizada para «retirar» uma ideia, fixação ou obsessão da mente de alguém, bem como revelar tramas e segredos ocultos.

  A ação magística da coirama tanto vitaliza quanto desvitaliza, dependendo da habilidade e conhecimento do feiticeiro.

4/3/2020: EXU: GUIA & MESTRE DA HUMANIDADE - Fernando de Ligório

Na tradição de Quimbanda, a feitiçaria tradicional brasileira, Exu não se trata de uma criatura involuída em busca de redenção e evolução. Diferente disso, Exu na Quimbanda é um Mestre e Guia Espiritual que trabalha pela evolução e pelo bem-estar de seu adepto/médium. A conexão entre o Exu e seu feiticeiro-kimbanda é ancestral, por isso ele é o «Exu Pessoal» ou «Exu Tutelar», orientador dos caminhos, condutor do Destino. Essa é uma herança da cultura kimbundo BaCongo, onde os Ngangas (almas de antigos xamãs, magos, sacerdotes e feiticeiros bantus) mantinham relações ancestrais e familiares com a comunidade. A conexão dos Ngangas com a comunidade, bem como a conexão entre um feiticeiro-kimbanda e seu Exu Tutelar, ocorre através do Rito de Iniciação. A cerimônia de iniciação na tradição de Quimbanda, portanto, conecta o adepto a seu Guia Espiritual. Por meio desta conexão mágico-espiritual, o Exu Tutelar passa a zelar pelo Destino, a evolução espiritual e o bem-estar físico, emocional e mental do feiticeiro-kimbanda.

   Toda iniciação na tradição de Quimbanda dá nascimento ao Exu do adepto, que deve ser assentado pelo mestre iniciador. Sem assentamento de Exu não existe iniciação real na Quimbanda. Apenas o adepto com o Exu Pronto pode operar o nascimento de outro Exu dentro da família espiritual, pois ele passou pela cerimônia do Aprontamento. Dali em diante ele pode assentar outros Exus, nascidos por suas mãos, pois na tradição de Quimbanda ninguém dá aquilo que não tem.

3/3/2020: QUIMBANDA: FEITIÇARIA TRADICIONAL BRASILEIRA Fernando de Ligório

O Culto de Exu no Brasil, a Quimbanda, trata-se de uma genuína «feitiçaria tradicional brasileira», desenvolvida desde o período colonial dentro de um intricado sincretismo entre as culturas kimbundo-bantu (Ngangas e Tatás) e de nagô-iorubá (Exu Orixá/Imalé) da África, a cultura tupí-guaraní (pajés e encantados), a feitiçaria ibérica (tradição cipriânica-salomônica popular) e o catolicismo. A essa miscigenação mágico-cultural, em tempos modernos a esse caldeirão foram agregadas as tradições satanista/luciferiana e demonologia europeia.

   Este caldeirão mágico de sincretismo cultural e religioso fervilhou desde o período colonial até o fim do Séc. XIX, quando eclodiram os primeiros grupos urbanos de «macumba». Este termo, «macumba», vem de «ma-kiumba» que significa «espíritos da noite» e designa entidades convocadas na escuridão noturna, almas deificadas (ancestrais/eguns) de antigos sacerdotes, magos, xamãs e curandeiros alquimistas do culto. É deste movimento urbano da macumba que nasceram as tradições espirituais afro-brasileiras modernas em busca de identidade própria e independência, originando a Umbanda/Quimbanda, o Santo Daime/Umbandaime e outros seguimentos.

   Exus e Pombagiras de Quimbanda são, portanto, ancestrais espirituais de um sistema de feitiçaria brasileiro que converge os Ngangas e Tatás kimbundo-bantu e o Exu Orixá nagô-iorubá. A Gnose do Culto de Exu no Brasil, portanto, depende dessa convergência sincrética entre essas duas culturas mágico-espirituais.

   Cada um de nós nascidos no Brasil carregamos, portanto, essa ancestralidade espiritual. Isso significa que desde o nascimento temos conosco um casal de Exu e Pombagira, às vezes até mais. Tratam-se de Mestres Espirituais que nos acompanham e nos auxiliam na jornada da encarnação, nos orientando e zelando pela nossa alma. A feitiçaria tradicional brasileira é uma arte que desperta o homem para seus guias, os Exus e Pombagiras. Cultuá-los, render-lhes adoração através de oferendas e sacrifícios, cria alianças e pactos com eles. Em acordo a herança kibundu-bantu, o melhor meio de comunicação com os ancestrais é o sacrifício propiciatório. Imolar um animal cerimonialmente em honra aos Poderosos Mortos trata-se de uma ação teúrgica-sacerdotal que estreita a comunicação com eles. Desde tempos imemoriais, o sacrifício propiciatório tem sido uma ferramenta teúrgica para comunicação com o mundo espiritual.

FERNANDO DE LIGÓRIO

Fernando de Ligório é um hermetista praticante, escritor interessado em Teurgia Neoplatônica, Tradição Salomônica e dos Grimórios, Magia na Antiguidade, Cabala Crioula (Quimbanda), Feitiçaria, Bruxaria e Magia Negra (Caminho da Mão esquerda), Filosofia, Yoga, Tantra, Āyurveda e Xamanismo. Fernando de Ligório se interessa em preservar a Tradição Ocidental de Mistérios (ou Tradição Oculta da Magia) através de seus cursos, palestras, assessoria espiritual e consultas.

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