Praxis Magica


Imagem: estatueta de argila. Louvre E27145b. © Marie-Lan Nguyen/Wikimedia Commons. Estatueta associada a um feitiço de amor na Antiguidade romana.



O termo magia – ou a prática da magia cerimonial – vem ganhando popularidade desde o período do Renascimento, que inaugurou uma nova etapa na história da magia. Quando me refiro a história da magia, falo da tradição hermética de mistérios: é impossível falar da história ou mesmo da arte da magia fora do contexto do que se conveniou chamar de hermetismo. O período da Renascença marcou a introdução na Europa de antigas escrituras perdidas, atribuídas a magos conhecidos ou personificações divinas. Um exemplo foi a tradução do Corpus Hermeticum feita por Marcílio Ficino (1433-1944), o que pareceu o ponta pé inicial do renascimento moderno da magia. Até aquele momento, a magia manteve-se reservada, senão preservada, por círculos bem secretos e fechados de magos, principalmente árabes. No entanto, como o Mundo Antigo helenizado possibilitou o intercurso de culturas formando a gênese da tradição hermética como movimento histórico, as cruzadas que representaram o maior embate entre cristãos e muçulmanos também foram responsáveis por reintroduzir na Europa o conhecimento esquecido da magia, apagado da história ocidental após a expansão do cristianismo.


Esse renascer da magia parece ter tomado pleno vigor com o advento do Iluminismo e a propagação do ponto de vista (ou paradigma) cientificista/materialista. Mas a influencia iluminista na tradição mágica ou hermética teria uma consequência grave: a magia perdera toda sua beleza e riqueza ao ser influenciada pelo pensamento cartesiano científico. Nos termos aristotélicos, a magia perdeu seu pneuma. A Ordem Hermética da Aurora Dourada marcou o ápice do pensamento mágico aliado ao paradigma cientificista moderno. Claro, de modo bem discreto e moderado, pois a Ordem mantinha uma aura mística rosacruciana, aliando astrologia, alquimia, geomancia, tarot e maçonaria dentro de uma estrutura daquilo que ficou conhecido como qabalah hermética moderna. Mas foi somente com Aleister Crowley (1875-1947) que a magia uniu-se completamente ao ponto de vista cientificista, rompendo completamente com a visão animista da realidade em detrimento do idealismo científico niilista.[1] Crowley chegou a chamar o seu sistema de teurgia cética,[2] como oposta radical da teurgia clássica neoplatônica que depende, para seu exercício, da visão animada da realidade.[3]


Após o advento da Ordem Hermética da Aurora Dourada e seu mais proeminente membro, Aleister Crowley, que dela foi expulso e a partir de então configurou seu próprio sistema sobre os escombros da antiga Ordem, sendo reconhecido como o pai da magia moderna, a maioria das tradições espirituais e ordens que se desenvolveram seguiram uma interpretação idealista e enfaticamente psiúrgica da magia, aliada ao pensamento científico moderno.


E isso constitui um problema!


Quando um jovem impetuoso começa a se lançar no estudo da Arte dos Sábios, o que ele encontra é uma miríade de possibilidades. São inúmeros trabalhos entre monografias e livros publicados e distribuídos gratuitamente na internet. Além disso, há novas possibilidades: o You Tube está cheio de magistas desenvolvendo vídeos e existem milhares de grupos no Facebook e WhatsApp onde todo esse material, mais o convívio com outros magistas praticantes, especialistas de alto ou menor grau, possibilita aquisição rápida de informações. Embora isso seja ótimo por uma perspectiva, pois hoje é possível carregar no celular uma biblioteca completa de magia, por outro lado a formação do magista sem sido deixada de lado. O resultado é uma leva de magistas medíocres com um conhecimento pífio da Arte, indisciplinados e de mente fragmentada, quer dizer, sem controle ou foco. Se por um lado a magia perdeu seu encanto ao se aliar ao pensamento científico moderno, por outro lado isso também possibilitou uma superficialidade indiscriminada nos magistas modernos. No entanto, os mais sérios têm caído na real, despertado para o fato de que a magia moderna é uma fantasia, carece de vida e é rica em temas pífios. Então dois são os pontos essenciais no início da jornada:

Para aprender magia e exercitá-la como os magos da Antiguidade, é necessário redescobrir a visão animada da realidade, quer dizer, começar a olhar o mundo a partir de uma perspectiva animista. A magia hermética greco-egípcia opera fundamentalmente através de demônios,[4] criaturas espirituais de inúmeras naturezas: mortos, encantados de todos os tipos, o diabo pessoal[5] etc. Assim como no passado, o início da jornada é um treinamento pessoal. Para se tornar um mago, é necessário empreender um esforço sobrenatural na construção dos fundamentos internos que lhe possibilitarão exercer a magia. Esse treinamento tem o objetivo de despertar suas capacidades paranormais, fundamentais ao exercício da magia. Concentração, visualização, magnetismo pessoal, poder de vontade, divinação etc. dependem de um árduo treinamento físico, mental e emocional. Sem isso é muito difícil conquistar resultados poderosos na magia. Esse treinamento espiritual magístico, no entanto, depende de condições adequadas para ser colocado em prática. Isso tem sido um problema para o magista moderno completamente inserido no estilo de vida tecnológico do mundo de hoje. A condição mais adequada, essencialmente fundamental e preciosa do treinamento mágico é: isolamento total. Poucos são os magistas que podem se isolar completamente hoje. Por isso muitos têm participado de retiros mágicos com seus professores. Nesses retiros há uma oportunidade singela do aluno estar mais próximo do professor, aprendendo diretamente com ele na prática. O treinamento mais adequado é esse: o professor ensinando o aluno dentro de uma estrutura de conhecimento que o possibilite transformar-se completamente. Uma associação íntima e familiar.


Se você está no início da jornada na Arte dos Sábios, desde agora esteja consciente que por trás do corpo de conhecimento produzido pelos magos da Renascença e Iluminismo até os dias de hoje, no que se conveniou chamar de magia moderna, existe um sistema de prática mágica que é a gênese da magia cerimonial como a entendemos. A parte deste sistema que lida diretamente com a magia cerimonial são uma coleção de papiros que ficaram conhecidos como Papiros Mágicos Gregos. Trata-se de uma coleção de textos altamente sincréticos que unem em seu exercício mágico as técnicas da magia como praticada na Grécia, Roma, Egito e Pérsia, mais o Cristianismo Copta e o Gnosticismo. Essas técnicas de magia greco-egípcia, como ficaram conhecidas, utilizam basicamente uma fusão de feitiços e encantamentos com a convocação de demônios diversos (goēteia).


O que realmente deu consistência a magia cerimonial medieval elucidada por Agrippa e sistematizada nos grimórios foi a união da tradição judaica-cristã e suas hierarquias angelicais as invocações e métodos greco-egípcios que, nos dias de hoje, parecem tipicamente inspirados na Cabala Crioula.[6] Foram os magos da Antiguidade que inspiraram toda prática da magia cerimonial como a conhecemos nos dias de hoje, herdeira de Agrippa e dos grimórios medievais. Essa sistematização está completamente distribuída nos papiros e nos oferece uma prática consistente destinada a conquistas espirituais e sucesso material através de invocações e evocações.


Esse material antigo tem sido considerado de difícil acesso devido às técnicas fetichistas rudimentares da época e complicadas de serem colocadas em prática nos dias de hoje, pelo menos esta é uma opinião corrente que aparece aqui e ali. Como colocar esse abundante material dos papiros gregos em prática se nós perdemos as chaves de acesso à feitiçaria mais antiga na tradição do que se conveniou chamar de magia cerimonial européia? Para nós, brasileiros, a resposta está nas tradições africanas que não só preservaram as chaves de acesso, mas também as refinaram. Esse livro parte da premissa que é possível ao mago cerimonialista resgatar essas chaves de acesso através das religiões de matriz africana como a Qimbanda.


Ao praticante de magia cerimonial a feitiçaria da Quimbanda enriquece seu exercício de magia. Na magia cerimonial moderna inúmeras chaves de acesso foram desgraçadamente perdidas, chaves essas preservadas e refinadas pela Quimbanda. Depois da iniciação na Quimbanda o exercício da magia cerimonial nunca mais será o mesmo. É uma dúvida recorrente se a Quimbanda agrega ou não a magia cerimonial. A Quimbanda turbina a magia cerimonial, seja ela hermética, dos grimórios tradicionais ou do paganismo moderno.


Os magos cerimoniais tradicionais têm utilizado adagas, punhais, facas e espadas de brinquedo, sem fio ou potencial de morte, compradas em lojas de souvenirs. O mago cerimonial que também é um kimbanda resgata para sua prática o poder da faca e do sacrifício animal. É uma faca com poder de morte e que já se alimentou de inúmeras vidas que tem o poder necessário para amedontrar demônios malignos de todos os tipos. Quando um anjo ou demônio saturnino é convocado pelo poder de um bode rezado, consagrado e sacrificado sua atuação energética é mais intensa e voraz. A principal arma mágica dos magos, teurgos e feiticeiros da Antiguidade era a faca, porque ela carrega o poder de separar a vida da morte e como tal, se tratava uma extenção do movimento de separação que o Logos promove através da razão.[7]


De igual modo, a prática das oferendas também esteve ausente das convensões modernas de magia cerimonial. As tradições de cabalá crioula oferecem conhecimento profundo de sacrifícios e combinações energéticas através dos inúmeros itens das oferendas. Todo esse conhecimento pode ser utilizado para melhorar a prática de magia cerimonial, amplificando seus resultados.


Demônios diversos, anjos e deuses podem receber assentamentos de poder e receptáculos de força com uma intricada tecnologia que combina pedras, raízes, favas, pós, metais, partes de animais e sangue, tudo alinhado as foças astrais (planetas, estrelas etc.).


Táta Nganga Kimbanda Kamuxinzela

Frater Set-Apehpeh, 246 ∵ 7°=4°



NOTAS: [1] Cabe ainda dizer que toda a doutrina de Crowley foi amplamente baseada no niilismo do qual Nietzsche (1844-1900) é um dos maiores expoentes. Em sua igreja, a Ecclesia Gnostica Catholica, Nietzsche é considerado um santo. Ora, se o próprio Nietzsche não conseguiu levar a cabo as premissas que concebeu para si mesmo e para o futuro da humanidade, como ele mesmo diz: O homem moderno crê experimentalmente ora neste, ora naquele valor; para depois abandoná-lo; o círculo de valores superados e abandonados está sempre se ampliando; cada vez mais é possível perceber o vazio e a pobreza de valores; o movimento é irrefreável [...]. A história que estou relatando é a dos dois próximos séculos. Vê-se que basear um sistema nas ideias de Nietzsche é começar mal. As ideias que nasceram nos movimentos renascentistas e iluministas se desenvolveram completamente nos dias de hoje, acometendo a humanidade uma síndrome niilista de proporções catastróficas. A essência do niilismo é a desvalorização de todos os valores que outrora foram fundamentais para a fundação da cultura ocidental. O niilismo pressupõe que não exista uma verdade suprema, que não exista uma constituição absoluta de qualquer coisa. Ele desvaloriza completamente o primeiro princípio, quer dizer, Deus, o ser, o belo, o bem e a verdade. Isso não parece transmitir completamente o paradigma moderno da magia, principalmente na criancinha do Séc. XXI, a magia do caos? É inquestionável, não podemos negar que no final das contas Nietzsche parece sim ter se tornado àquele profeta do niilismo como ele gostaria de ser, coroando o império do cientificismo, do pensamento cartesiano e racionalista. Sobre esse tema, veja Giovanni Reale, O Saber dos Antigos: terapia para os tempos atuais. (Loyola, 2014). Veja também Robert Anton Wilson, A Nova Inquisição: Racionalismo Irracional e a Fortaleza da Ciência. (Madras, 2004). [2] Veja Aleister Crowley, The Equinox, Vol. I, No. 2. Veja também Frater IAO131, Naturalistic Occultism: An Introduction to Scientific Illuminism. [3] Crowleu parece muito ambíguo em sua discussão sobre animismo em Magia em Teoria & Prática, Cap. XIV, Parte II. Ao acusar os magistas medievais de aplicarem um método sem nenhuma cientificidade no exercício da goécia, acusando-os de animistas, ele os compara e valoriza as feiticeiras que criavam imagens de cera para suas vítimas, batizando-as e consagrando-as com os elementos corretos e pertinentes; ele ainda as exalta por colocar seus feitiços em contato direto com as vítimas. Toda essa prática é animista, a bruxaria é animista. Mas aqui Crowley reconhece um método científico. [4] Como vimos no volume anterior, a palavra daimon (origem da palavra demônio) sofreu enorme transformação no curso do tempo. Foi somente na Septuaginta que o termo daimon (demônio) passou a ter a conotação maléfica que hoje conhecemos. Doravante eu uso o termo demônio (assim como entendemos o grego daimon hoje) como sinônimo para criaturas espirituais diversas. Quando eu quiser frisar o aspecto negativo e maléfico do termo, irei me referir como demônio maligno. [5] Neste caso específico, me referindo ao espírito tutelar ou assistente, posso utilizar o termo diabo pessoal ao invés de demônio pessoal. [6] Termo utilizado para toda sabedoria mágica que vem da África, incluindo as tradições nascidas da diáspora. [7] Veja Patrick Dunn, The Practical Art of Divine Magic. LlewellynWorldwide, 2015.





Este texto é parte do livro em preparo Daemonium Vol. II. Um projeto pessoal de disseminação da Arte dos Sábios através da história: Magia na Antiguidade, Teurgia Neoplatônica com ênfase em Jâmblico, a feitiçaria dos Papiros Mágicos Gregos, Magia Salomônica Tradicional, Tradição Cipriânica e Faustina medievais, a Escola de Agrippa e a própria tradição hermética de mistérios. O jornal aborda também a magia popular brasileira e pajelança cabocla, xamanismo e Quimbanda, tradição a qual o presente autor é um táta-nganga.

42 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo