OS PERIGOS DA GOÉCIA

Atualizado: 4 de Set de 2019



Por Fernando Ligório



[Texto escrito em resposta a um aluno do Curso de Filosofia Oculta.]



> Professor Fernando de Ligório, baseado nos estudos

> da Lição e das cartas enviadas gostaria de saber se

> a prática da Goécia oferece perigos reais e como

> venho de cultos de matriz africana, posso dizer

> que os daimones são equivalentes aos exus?


A resposta as suas indagações poderiam encher pelo menos trinta páginas ou bem mais. Vou tentar ser o mais breve possível.


A goécia oferece perigos reais? Sim, oferece, mas não de maneira depreciativa como muitos propõem ou ensinam por aí ou até mesmo como Agrippa fez questão de fazer parecer, influenciado pela tradição cristã e as ideias de Santo Agostinho. Em primeiro lugar, a goécia exige uma cosmovisão animista para ser executada com eficiência, um tipo de consciência daemônica que capacite o mago a estabelecer o conhecimento & conversação com os daimones (demônios). Não é possível praticar goécia efetivamente tendo dúvidas, por mínimas que sejam, na existência de entidade objetivas. O segundo ponto é que, para os magos que desenvolveram essa consciência daemônica, típica de xamãs e praticantes de Cabala Crioula, o contato com daimones diversos é algo muito natural e com o tempo não é necessário uma intricada tecnologia mágica ou armadilhas de espíritos para contata-los. Qualquer mago animista que desenvolve suas capacidades paranormais adquire conhecimento & conversação facilmente com espíritos menores (daimones | demônios) e espíritos maiores (anjos | arcanjos | deuses etc.).


A goécia salomônica exige toda uma tecnologia mágica que capacite o mago a estabelecer o conhecimento & conversação com os daimones. Daí a necessidade de um círculo mágico e de proteção e o ambiente adequado para agrilhoar os daimones, seja no triângulo da arte, na mesa de evocação, na bola de cristal ou arca de bronze (também conhecida como vaso de latão). E embora muitos por aí ensinem que todos estes ambientes adequados podem ser substituídos ou trocados uns pelos outros, trata-se de um equívoco. Quer dizer, a magia do triângulo da arte não é, nem de longe, a mesma magia da arca de bronze; da mesma forma, a magia da bola de cristal não é, nem de longe, a mesma magia da tábua de evocação. Confundir tudo isso como somente um tipo de magia é muito amadorismo. Existem fórmulas mágicas distintas a serem empregadas em cada uma dessas armadilhas de espírito.


O perigo real e imediato Jâmblico já havia alertado em De Mysteriis:


[O contato com os] daimones pesa no corpo e castiga-o com doenças, arrasta a Alma para o reino da natureza, e também não remove dos corpos a sensibilidade nascida com os corpos, detém nessa região [sub-lunar] aqueles que estavam correndo em direção ao fogo e não liberta dos laços do destino.

É por isso que os hebreus desde a Antiguidade condenavam o contato com essas criaturas menores, classificadas sob tipos diversos: mortos, elementais, espíritos das florestas (encantados) etc. Você conhece algum chefe de choupana de Cabala Crioula com uma boa saúde, tendo você a experiência em Kimbanda que possui? E note que a citação acima de Jâmblico está em harmonia com a crença na Kimbanda de que após a morte um kimbandeiro supostamente tornar-se-ia um Exu, devido a sua influência daemônica. Isso é tão verdadeiro que já havia sido dito na Bhagavadgītā (IX:25):


Aqueles que adoram os semideuses nascerão entre os semideuses; aqueles que adoram os ancestrais irão ter com os ancestrais; aqueles que adoram os fantasmas e espíritos nascerão entre tais seres; e aqueles que Me adoram viverão comigo.

E aqui caímos na segunda indagação: os daimones são ou podem ser comparados a Exus? Nós não podemos dizer que Exus são os daimones da goécia salomônica, mas podemos dizer que Exus entram dentro da classificação de daimones. Da mesma maneira que os daimones atuam como mensageiros entre os deuses e os homens, os Exus atuam como mensageiros dos Orixás. Dessa maneira, assim como os daimones têm uma função demiúrgica, os Exus também têm.


Mas você poderá ter noção dessa distinção ao iniciar suas operações com os grimórios. Essa prática, aliada ao seu extenso conhecimento de Cabala Crioula, lhe capacitará a distinguir, por exemplo, entre a energeia (atividade), dunamis (poder) e ousia (essência) dos diversos espíritos dos grimórios e os Exus da Kimbanda. Você notará que os Exus se parecem muito com os espíritos dos Livros Ocultos de Moisés, mas não se parecem nada com os espíritos do Grimorium Verum. Só com anos de prática com essas entidades do corpo de Deus é que vem a verdadeira distinção entre elas.


Espero ter ajudado.


Paz & Luz e que Deus esteja com você.


Fernando Ligório



O tema deste texto você pode consultar no livro DAEMONIUM. Trata-se de um jornal de pesquisas sobre a tradição da magia e a Arte dos Magi do Curso de Filosofia Oculta, um seminário on-line permanente na internet ministrado pelo Professor Fernando de Ligório sobre magia na Antiguidade, feitiçaria dos Papiros Mágicos Gregos, Teurgia Neoplatônica com ênfase na Escola de Jâmblico, Magia Tradicional Salomônica e tradição dos grimórios. O jornal abordará também a magia cipriânica, a tradição da magia popular e pajelança cabocla, xamanismo e cabala crioula.


Os magos da magia moderna estão condenados ao fracasso, não por falta de capacidade ou talento, mas por inconsistência do próprio sistema. Aleister Crowley é conhecido como o pai da magia moderna. E muito embora muitos discordem, ele assim o é porque a sua definição de magia influenciou todos os magistas da tradição moderna da magia. Na visão de Crowley a magia se trata das projeções das forças da mente ou como ele nomeia, a vontade para mudar a estrutura da realidade, quer dizer, causar taumaturgia na natureza. Quando ele assim o faz, determina que a magia trata-se de uma ação humana, dependente exclusiva das intenções do mago. No entanto, isso não é magia de fato. Como iremos explorar nos textos selecionados para essa edição, qualquer definição válida de magia envolve o tráfego com criaturas espirituais, espíritos diversos do Corpo de Deus. Isso significa que é por meio dos espíritos de todas as coisas que a magia opera. Estes espíritos, daimones de todos os tipos, foram chamados de demônios na recessão escatológica cristã. Assim, a partir de Aleister Crowley a vontade humana passou a determinar a natureza da magia, não os espíritos ou como postularia Agrippa, as virtudes de todas as coisas.


Então o que Crowley fez foi tentar reinventar a roda ressignificando a magia segundo suas concepções particulares e visão de mundo idealista. Como Papus (1865-1916) já havia definido antes de Crowley, a projeção das forças da mente trata-se de psicurgia, não magia. A escola francesa de magia, da qual os grandes ícones são Eliphas Levi (1810-1875), Papus, Stanislas de Guaita (1861-1897) e Saint-Yves D’alveydre (1842-1909), estabelece uma distinção muito clara entre magia e psicurgia. A escola inglesa, por outro lado, cujos ícones são Aleister Crowley e McGregor Mathers (1854-1918), não estabelece essa distinção, chamando de magia o que na verdade trata-se de psicurgia.


Tanto é verdade que psicurgia não é magia que a magia não precisa das forças da mente do mago para funcionar. Se eu colocar o testemunho (endereço mágico) de alguém (um cliente) sobre um altar consagrado as virtudes de Mercúrio, com sunthēmatas apropriadas a Mercúrio, no dia e hora corretos, isso já é o suficiente para que o cliente possa receber em sua alma as virtudes da medicina planetária de Mercúrio. A mente humana não está envolvida em nada nesse processo. As virtudes mercuriais das sunthēmatas atrairão para alma do cliente, por meio de seu testemunho, as virtudes da energia planetária de Mercúrio. Como bem estabelecido no ensaio Magia & a Intenção Dirigida, presente nesta edição, existe valor fundamental na projeção unidirecionada das forças da mente, mas isso não define de fato a natureza da magia.​


Os primeiros a notarem essa inconsistência no sistema da magia moderna são aqueles ocultistas que se interessam pelos efeitos tangíveis da magia, quer dizer, a taumaturgia ou milagre, não os efeitos psicológicos típicos da psicurgia. Gradativamente estes ocultistas têm migrado das interpretações moderna e pós-moderna da magia, buscando encontrar na magia da Antiguidade ou Idade Média resultados reais do exercício da Arte dos Magi. Lisiewski chama de old school a prática da magia como orientada pelos grimórios medievais. Embora eu não concorde com muitas de suas alegações e às vezes sua postura preconceituosa cristã, seus esforços em demonstrar como a magia dos grimórios é mais eficaz que os sistemas modernos é notável. Nos ensaios que compõem essa edição, grande esforço foi feito para demonstrar que o mago da Antiguidade tinha uma visão muito distinta da magia daquela que os magos de hoje têm.


​É comum acreditar que através dos incontáveis graus de papel das sociedades secretas e ordens modernas é possível aprender magia. Mas essa crença tem se mostrado infundada. Todos os dias ocultistas debandam de fraternidades diversas para frequentarem choupanas de cabala crioula ou encontrarem um mago que de verdade lhes ensine o verdadeiro Arcano da magia. Diferente de sua versão moderna diletante e desorientada, o mago da Antiguidade tinha uma meta muito bem traçada:


  1. Iniciação e desenvolvimento magístico através de estudos, viagens e práticas espirituais. O estudante se prepara para a chegada do mestre.

  2.  O encontro com o mestre, um mago experiente que guiará o estudante, ensinando-lhe o verdadeiro arcano da magia.

  3.  De posse do verdadeiro Arcano da magia, o estudante conjura seu espírito assistente, com o qual estabelece um pacto de amizade.

  4.  Este espírito assistente instrui o estudante, agora um mago, nos segredos ocultos da magia.

  5.  De posse dos segredos ocultos da magia, o mago pode oferecer seus serviços e cobrar por eles.


​Essa edição de 666 páginas compõe-se pelos seguintes ensaios:


Magia: por onde começar? 

Os Livros Ocultos de Moisés                        

O que é Magia?                                                

Magia & a Intenção Dirigida                        

Acessando a Filosofia Oculta de Agrippa 

Magia Astral & Magia Salomônica              

Os Primórdios da Magia: do Xamanismo a Tradição Salomônica #1    

Os Primórdios da Magia: do Xamanismo a Tradição Salomônica #2    

Os Primórdios da Magia: do Xamanismo a Tradição Salomônica #3    

Do Espírito Assistente ao Sagrado Anjo Guardião      

Iniciação & a Doutrina Soteriológica do Paredros        

Teurgia & Goécia                                    

Um Elogio a Magia Tradicional Salomônica  

Magia Tradicional Salomônica & Iniciação   

O Método Salomônico                       

A Teurgia de Jâmblico                        

Aesthesis, Ochēma & Divinação     

Filosofia & Teurgia na Tradição de Mistérios 

Oração, Ritual & Comunicação Espiritual

A Purificação Filosófica                                 

A Hierarquia dos Deuses na Teurgia          

De Sócrates a Patañjali: A Identidade Própria  

Sexualidade Filosófica                                             

Meditação, Oração, Nomes Bárbaros & a Experiência Filosófica       

A Influência Neoplatônica na Tradição Hermética de Mistérios

A Estrutura Ritual da Magia Cerimonial   

 

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