O Ritual & a Hierarquia da Alma





Os ritos de teurgia refletem a ordem do cosmos e como tal eles têm um papel na cosmogênese, no entanto, como são as Almas encarnadas que executam esses rituais, suas características individuais influenciam significantemente a intensidade ou potencial teúrgico do ritual. Uma vez que existe uma miríade de Almas encarnadas distintas em característica, é difícil saber como elas, através dos rituais de teurgia, irão refletir a cosmogonia, a menos que compreendamos como Jâmblico concebia a diferença entre as características da Alma. Assim, ele classifica a Alma humana em três categorias, distinguindo seus propósitos ao encarnarem na matéria.


De acordo com Jâmblico o propósito da descida da Alma até a matéria é revelado por sua encarnação e isso determina o tipo de teurgia mais apropriada a ela. Seguindo os princípios da continuidade, filiação e a regra de que a Alma só pode se juntar ou se agregar a outras Almas pelas afinidades que elas têm em comum, cada Alma tem um tipo de ritual de teurgia que seja específico e mais apropriado a ela. Jâmblico explica todo o processo de descida da Alma até a matéria no seu De Anima, o qual devemos nos debruçar.


Sobre este tema, Jâmblico inicia seu discurso revisando as ideias de um filósofo platonista anterior, Lucius Calvenus Taurus, nascido por volta de 105 d.C. Taurus diz que o Demiurgo envia as Almas a terra para completar o cosmos[1] e, mais especificamente, revelar a vida dos deuses na vida sem defeitos das Almas.[2] Essa visão é consistente com as explicações de Jâmblico sobre a descida das Almas. Uma vez que as Almas encarnadas são a parte inferior de tipos superiores, elas são as ultimas mediadoras entre a imortalidade e a mortalidade do mundo. O propósito comum a descida de toda Alma e cosmogônico e revelatório, mas uma vez que as Almas foram semeadas nas fileiras de diferentes deuses, a natureza de sua manifestação encarnadas é diferente. Por outro lado, a encarnação da Alma na matéria é anatrópica, isso significa que cada Alma sofre um tipo de alienação, perdendo sua continuidade com os deuses. Dessa maneira, a Alma perde sua afiliação divina, assim podemos dizer, em sua jornada até a matéria. Neste caminho, ela precisa de uma correção, um ajustamento capaz de fazê-la recuperar sua progenitura divina ancestral e continuidade com os deuses. Por isso Jâmblico explica a descida da Alma na matéria como voluntária, mas também involuntária: De acordo com outra divisão, alguns modos de descida são concebidos como voluntários, seja quando a Alma decide governar as coisas materiais, ou quando ela é persuadida a fazê-lo por Tipos Superiores. Mas outras descidas são involuntárias, quando a Alma é forçadamente sugada a matéria.[3] As causas para estes diferentes tipos de descida são os distintos propósitos para encarnação.


Na medida em que existem inúmeros propósitos pelos quais a alma desce, isso cria diferenças na maneira de se descer. Pois se as almas descem para salvação, purificação e perfeição das coisas deste mundo, então elas simplesmente descem. Mas se as almas vêm ao corpo para exercitar e corrigir seus hábitos, a descida não é inteiramente livre de paixões e nem elas, em si mesmas, são completamente liberadas. E se as almas descem como se tivessem sido sugadas por punição e julgamento, então a descida é forçada.[4]


Contrariando a visão de Porfírio, Jâmblico não acredita que a apoteose da Alma resulta de sua fuga do cosmos. A Alma perfeita e purificada continua a descer, não para ser punida ou corrigir desequilíbrios físicos, mas para o benefício de outras Almas encarnadas na matéria, revelando a partir disso sua perfeição e a perfeição dos deuses.[5] Uma Alma purificada, no entanto, em sua descida não perde sua conexão com os seres divinos (ta ekei).[6] Olimpiodoro, o Jovem (495-570), um dos últimos pagãos a ensinar filosofia na escola de Alexandria, segue a mesma linha de raciocínio de Jâmblico: de fato, Platão não permitiu que as almas dos teurgos permanecessem sempre no mundo inteligível, mas mesmo descendo ao mundo da geração, a respeito do que diz o oráculo: «as ordens angelicais».[7]


Dillon sugere que o epíteto theios conferido pelos neoplatonistas a Platão e Pitágoras, depois ao próprio Jâmblico também, pode ser explicado em parte por essa doutrina da reencarnação: a crença de que seres angelicais tomam um corpo humano para salvar a humanidade. Essa Alma, na estima dos neoplatônicos, é chamada de theios.


Antes de analisarmos o impacto desta doutrina na visão de Jâmblico sobre a formulação dos rituais, nós precisamos nos debruçar sobre o aparente conflito na tradição platônica acerca da encarnação. Se uma Alma divina e purificada não perde o contato com os deuses, como Jâmblico sugere, ela seria poupada do trauma, no momento de seu nascimento na matéria, da anatropē, uma experiência descrita no Timeu. Mas este não é o ponto que Jâmblico quer ressaltar. Citando um estrangeiro em As Leis de Platão: O que sei é que nenhum ser vivo jamais nasce de posse dessa inteligência [nous] ou da quantidade de inteligência que deverá ter em sua idade adulta.[8] O contexto da discussão, portanto, é sobre os anos de infância de uma Alma purificada, se ajustando a um corpo físico na matéria. Isso levou Jâmblico a expor a doutrina da animação progressiva que ele trata no seu De Anima.[9]


Se anatropē é a experiência de cada Alma encarnada, então os rituais de teurgia servem até as Almas purificadas. Ainda, por causa de seu propósito elevado durante a descida, quando a Alma purificada entra na condição humana, ela nasce em uma família que seja preparada para lhe ensinar a pedagogia apropriada dos deuses.[10] Encarnada, a Alma continua anatrópica – identificada com o Ego apenas – mas no caso de uma Alma purificada, a inversão no processo de descida nunca se torna desviante.[11] Quer dizer, sua condição anatrópica não se torna habitual, fazendo com que ela ativamente busque por enantios: oposta a si mesmo e ao Todo. Caso contrário, seu anatropismo atuaria como um pivô através do qual a Alma poderia manifestar o princípio cosmogônico de philia,[12] juntando-se ao Todo.[13] E por mais que Jâmblico tenha se detido a resolver essa importante questão, é conclusivo que mesmo a Alma purificada, como consciência individual, é deficiente pelo simples fato de estar na condição humana. Ele diz: Mesmo a alma perfeita é imperfeita quando comparada a ação divina.[14] Por razões soteriológicas a Alma purificada encarna na matéria para experienciar sua condição anatrópica e para mediar o reino humano e o reino angélico.[15] Como os deuses liberados que vivem entre os deuses encósmicos e hipercósmicos, o teurgo vive entre o humano e o divino.[16]


A apoteose teúrgica não é um voo para os deuses. Na condição de encarnada na matéria, a experiência da Alma é anatrópica, permanecendo imersa no cosmos natural e na sociedade. Mas na medida em que a Alma encarnada na matéria se alimenta e se enriquece dos códigos de luz dos deuses, ela sustenta uma conexão direta com eles, invertendo seu anatropismo. Jâmblico diz que os deuses estão em toda parte,[17] mas eles somente podem ser recebidos em veículos apropriados a sua manifestação de luz, que tenham sido preparados através de um profundo processo de purificação.


Que nós não desdenhemos de dizer isso também, que frequentemente temos ocasiões para executar rituais por uma questão de necessidade corporal genuína aos Deuses que regem o corpo e seus bons Daimones.[18]


A reverência que os teurgos têm para com os deuses que regem a natureza física é uma expressão de sua confiança em philia, que trata-se de uma força que se estende da unidade dos deuses a pluralidade das formas na matéria. No entanto, para que a Alma tenha a experiência de philia, ela deve conhecer a estrutura do cosmos no qual ela está inserida, só assim ela poderá honrar e venerar seus deuses tutelares e a miríade de daimones os quais eles regem. Isso significa que para produzir um ritual que seja adequado a Alma, o teurgo deve saber ler a natureza de sua energeia, pois isso revela o modo como a Alma desceu até o mundo sensível e consequentemente, o propósito (thelos) pelo qual ela encarnou na matéria.


O propósito pelo qual a Alma encarna na matéria é revelado pela estrutura do corpo e o seu comportamento na vida: a energeia manifesta da Alma.[19] Distinguindo entre os três tipos diferentes de Alma ou seus três graus de manifestação, Jâmblico diz:


De acordo com outra divisão,[20] o grande rebanho[21] da humanidade está sujeito a natureza e é governado pelos poderes naturais, olhando para baixo e imerso na natureza.[22] [Este rebanho] cumpre a administração de seu destino, aceitando para si a ordem de eventos que levam ao cumprimento deste destino. Ele [o rebanho] faz uso do raciocínio prático todo o tempo, mas apenas sobre as coisas da natureza. Mas existe um pequeno número [de pessoas] que faz uso dos poderes da mente para superar a natureza, são liberados da natureza e levados ao separado e não misturado Nous, e de uma vez só se tornam superiores aos poderes da natureza. E ainda há outros que estão entre estes, alocados entre a natureza e o puro Nous. Alguns deles seguem ambos [i.e. o Nous separado e a natureza] perseguido uma vida que seja uma mistura dos dois, e ainda existem àqueles liberados da natureza inferior e caminham a frente em direção a coisas melhores.[23]


Assim, Jâmblico faz distinção entre três tipos de Alma:


  1. O grande rebanho que segue a natureza e o destino.

  2. Àqueles que se elevaram ao divino nous e estão acima da natureza e do destino.

  3. Àqueles que estão entre a natureza e o divino nous.

Para cada tipo de Alma há um tipo distinto de adoração. Jâmblico continua:


Portanto, desde que essas distinções foram feitas, o que segue deve ser obvio. Almas governadas pela natureza do universo, levando a vida em acordo a sua natureza pessoal e usando os poderes da natureza, devem executar a adoração de maneira adaptada a sua natureza e das coisas corpóreas movidas pela natureza. Na sua adoração eles devem incluir locais [sagrados], estações, matéria e os poderes da matéria, os corpos, suas características e qualidades, movimentos e tudo o que segue estes movimentos, a mudança das coisas [no mundo] da geração, e com outras coisas associadas a essas nos seus atos de reverência aos Deuses, especialmente quando estão executando sacrifícios [aos Deuses].


Outras almas, vivendo de acordo com o Nous apenas e a vida do Nous, liberadas dos laços da natureza, devem ocupar-se em todas as partes da teurgia com as leis intelectuais e incorpóreas da arte hierática.


Outras almas, as que estão entre estas [acima], devem trabalhar diferentes partes da santidade de acordo com as diferenças de sua posição intermediária, seja participando de ambas as formas de adoração ritual, ou praticando-os separadamente, ou aceita ambos como a fundação para coisas mais honradas – pois sem elas o transcendente não pode ser alcançado.[24]


Essa classificação de Jâmblico está em acordo com a classificação tântrica dos três tipos de buscadores tântricos (sādaka tāntrika).*


*Não foi possível incluir aqui a tabela comparativa.


As Almas que seguem a natureza e o destino estão atadas, presas ou amarradas a matéria. Na cultura tântrica, este tipo de Alma é chamada de paśu, sādakas tāntrikas presos pela corda (paśa), com pouca ou quase nenhuma inclinação espiritual profunda, licenciosos e na maioria das vezes torpes e ignorantes (tamas). Escapar dessa condição de Alma, quer dizer, se libertar de paśa, significa transcender essa ignorância. Jâmblico diz que esse tipo de Alma em seu trabalho teúrgico deve incluir locais [sagrados], estações, matéria e os poderes da matéria, os corpos, suas características e qualidades, movimentos e tudo o que segue estes movimentos, a mudança das coisas [no mundo] da geração. Quer dizer, essa qualidade de Alma deve procurar por cultos populares como os grandes centros e instituições religiosas, participar de cerimônias coletivas, empreender peregrinações, executar adorações aos espíritos das estações. Na cultura tântrica, um paśu se dedica aos ritos e observâncias tradicionais hindus adaptados a sua casta, que inclui também peregrinações, rituais de adoração aos deuses e deusas e disciplinas diárias. Os teurgos neoplatônicos e os teurgos hindus têm ainda uma prática espiritual diária em comum: o sacrifício de fogo. Os teurgos helênicos neoplatônicos adoram diariamente a Deusa Héstia do fogo cerimonial; os sādakas tāntrikas realizam diariamente o homa, um sacrifício ritual ao fogo. Em ambas as práticas incluem-se libações, fumigações etc.


As Almas que estão em acordo com o Nous e vivem a vida do Nous são àquelas purificadas que conseguiram superar os laços que os prendem a matéria e alcançar morada nos planos de luz e perfeição onde habita a Inteligência ou Demiurgo. De outro modo, Almas purificadas também podem ser àquelas que perfeitas em sua luz, nunca desceram ao reino da geração, mas podem fazê-lo pelo bem e evolução da humanidade, como na doutrina do bodhisattva budista. Sua equivalência na cultura tântrica é divya, o sādaka tāntrika divino, puro e realizado (sattva) que transcendeu completamente os apetites da Alma animal. Jâmblico diz que esse tipo de Alma deve ocupar-se em todas as partes da teurgia com as leis intelectuais e incorpóreas da arte hierática. Esse trabalho envolve um alto nível de jñāna-yoga onde se busca o acesso ao plano das ideias noéticas e o Conhecimento de tipo superior (Gnose) através de práticas hieráticas místicas e mágicas. O divya em seu sādhana (prática espiritual) se dedica a imersões profundas nos cakras em um trabalho meditativo, além de se dedicar a um tipo refinado de homa onde realiza um exercício contemplativo.


As Almas que se encontram entre o reino da geração e o divino são àquelas que atadas a matéria, possuem inclinações espirituais, às vezes profundas ao ponto de libertarem-se das restritivas correntes da ignorância. Aqui se encontram a maioria dos buscadores e estudiosos, no meio do caminho entre o divino e o profano. Na cultura tântrica estes são os vīras e tamanho é seu prestígio que a eles são dados títulos diversos como siddha (perfeito) ou kaula (centrado). Esses títulos referem-se a natureza perigosa de suas práticas. Eles são àqueles que verdadeiramente andam sobre o fio da navalha, cavalgam tigres e domam leões pela juba, impetuosos (rajas). São virtuosos em sabedoria, prudência e coragem, senhores de si mesmos (sveccacarin). Jâmblico diz que esse tipo de Alma deve trabalhar diferentes partes da santidade de acordo com as diferenças de sua posição intermediária, seja participando de ambas as formas de adoração ritual, ou praticando-os separadamente. Isso significa que eles procuram um estilo de vida moralmente saudável, executam a teurgia participando de centros religiosos, suas comemorações e rituais, mas também a executam particularmente no ambiente familiar. Cuidam para que suas ações sejam virtuosas e éticas em acordo com sua prática mística e filosófica. Na cultura tântrica, o vīra também pratica as observâncias e a liturgia tradicional, mas também se lança a práticas mais perigosas como o ritual pañca-makāra-tattva. É possível, portanto, traçar conexões entre a teurgia neoplatônica de Jâmblico e a teurgia hindu dos tāntrikas.


Os objetos sacrificados aos deuses, segundo Jâmblico, têm afinidades distintas com eles. Ele diz: Quando nós adoramos os Deuses que regem a alma e a natureza, não está fora do lugar oferecer-lhes poderes da natureza e nem é desprezível consagrar a eles corpos que estejam sobre a régia da natureza, pois todos os trabalhos da natureza servem aos Deuses e contribuem para seu governo.[25] Para os deuses que presidem locais sagrados, as coisas encontradas e produzidas nestes locais servem como sacrifícios apropriados.[26] Jâmblico diz: Sempre, para um criador sua obra é agradável, e àqueles seres que são primariamente a causa para produção de certas coisas, são elas primariamente queridas por eles.[27] Essas criações, Jâmblico diz, podem ser animais (zōa tina), plantas (phuta)[28] ou outro material terrestre que contribua para demiurgia dos deuses. Essas criações unem Almas encarnadas com a philia universal. Essas criações, nas palavras de Jâmblico, preservam os poderes de comunicação entre os Deuses e os homens.[29]


As criações materiais são os elementos apropriados nos sacrifícios dos ritos teúrgicos das Almas presas a matéria e a natureza. Através da consagração desses elementos as Almas se alinham a demiurgia dos deuses diretamente a elas conectadas, quer dizer, os deuses materiais e deuses encósmicos. Todas as Almas encarnadas começam sua disciplina teúrgica de sacrifícios a estes deuses na intenção de estabelecerem fundações apropriadas à compreensão da adoração ritual e, segundo Jâmblico, os deuses materiais presidem estas oferendas.


De acordo com a arte dos sacerdotes é necessário iniciar os ritos sagrados com os Deuses materiais. Pois [do contrário] a ascensão aos Deuses imateriais não acontecerá. Os Deuses materiais, portanto, estão em comunicação com a matéria e como tal eles a presidem. Eles regem o fenômeno natural: divisão, colisão, impacto, reação, mudança, geração e corrupção de todos os corpos materiais.


Se qualquer um deseja adorar esses Deuses teurgicamente [e isso quer dizer], da maneira na qual eles naturalmente existem e foram distribuídos a reger, [o adorador] deveria render a eles adoração material. Pois neste caminho o teurgo é levado a completa familiaridade com estes Deuses e na adoração ele oferece aquilo que é apropriado a eles. Em sacrifícios, portanto, corpos mortos e coisas desprovidas de vida, o sangue animal, o consumo do sacrifício, suas diversas mudanças e destruição, e em resumo, o desfacelamento da matéria oferecida aos Deuses, é apropriado – não para os Deuses – mas com respeito a matéria sobre a qual eles presidem. Pois embora os Deuses sejam preeminentemente separados (chōristoi) da matéria, eles estão presentes nela pela virtude de seu poder imaterial, eles coexistem com ela.[30]


Em outra parte Jâmblico descreve os benefícios do sangue animal. No caso de sacrifícios expiatórios para aplacar a ira dos deuses,[31] a ira, ele diz, não vem dos deuses, mas das Almas afastando-se dos cuidados beneficentes deles.[32] O propósito do sacrifício ritual é redirecionar a atenção da Alma novamente aos deuses e a ordem superior. A expiação não afeta os deuses, mas a Alma, convertendo-as a ordem divina. Jâmblico diz: Se alguém acredita que desertando do cuidado guardião [dos deuses] leva a algum tipo de punição automática, o apelo aos Seres Superiores por meio do sacrifício serve para relembrá-lo novamente de seu cuidado beneficente, remove a privação [de sua presença] e é inteiramente puro e inflexível.[33] O sacrifício animal e a combustão de seu corpo na pira de fogo da deidade retrata como a Alma impura purifica-se na apoteose divina dos deuses. Jâmblico repreende Porfírio por ignorar o simbolismo teúrgico da dimensão espiritual do fogo:


Essa indagação revela [sua] ignorância concernente as oferendas do sacrifício por meio do fogo, pois é o grande poder do fogo que destrói, consome e assimila a matéria em si mesmo, sem ser ele assimilado pela matéria, elevando ao divino, transcendente, celestial e fogo imaterial a oferenda, ao invés de lançá-la novamente [ao reino da] geração.[34]


O poder do fogo para destruir e assimilar a matéria é uma antecipação ritual da Alma que é assimilada pelos deuses. Jâmblico diz:


Para os Seres Superiores, aqueles para quem o esfacelamento da matéria é querido, são impulsivos e nos tornam impassíveis. O que quer que exista dentro de nós é feito similar aos Deuses assim como o fogo assimila toda substância sólida e resistente a um corpo luminoso diluído. E por meio do sacrifício e do fogo sacrificial nós somos levados ao Fogo dos Deuses da maneira [como vemos] na ascensão do fogo ao Fogo invocado e na elaboração das coisas gravitantes e resistentes a natureza divina e celeste.[35]


Em efeito, o drama do sacrifício de sangue trata-se de um rito mnemônico para lembrar a Alma de sua prístina origem. Imagine como o som, o cheiro e a cor de um sacrifício animal, que implica na imolação (corte) e combustão de sua carne na pira de fogo, prende a atenção do teurgo. Para Jâmblico essa é uma absorção ritual fundamental requerida para despertar a sunthēma divina da Alma: o fogo do sacrifício imita o Fogo Divino,[36] que liberta[37] a Alma dos laços que a prendem na matéria, sendo ela assimilada[38] pelos deuses, fazendo com que o teurgo participe de sua philia.[39]


A oferenda e sua combustão no fogo trata-se do próprio sacrifício da Alma, pois para que o teurgo consiga criar uma simpatia ou familiaridade (oikeōsis) com os deuses cujos sacrifícios são dedicados, ele deve se tornar a oferenda e o sacrifício. Sua comunhão com os deuses depende de sua conaturalidade (sungeneia) com os elementos que compõem a oferenda e o sacrifício. Esse tipo de ritual de teurgia material deve ser executado para o consumo da vida e do sangue, a pena de dor e sofrimento na matéria, pelo grande rebanho, quer dizer, as Almas encarnadas por punição (dikē) e julgamento (krisis).[40] Essa punição ritual afeta diretamente a condição anatrópica da Alma. As Almas que encarnam na matéria para corrigir e exercitar seus hábitos e suas ações, ao participarem deste ritual de sacrifício aos deuses aceleram seu despertar e desenvolvimento espiritual.[41] Jâmblico diz: A lei dos sacrifícios para este uso, portanto, será necessariamente formada por corpo, alguns sacrifícios cortarão o que é supérfluo em nossas almas, outros nos preencherão na medida de nossas deficiências, e outros nos levarão a uma ordem e simetria daquilo que em nós é ofensivamente desordenado.[42] Outras operações sagradas[43] preenchem a necessidades humanas como saúde e bem-estar do corpo[44] e elas são oferecidas aos deuses materiais que presidem estes sacrifícios.


Uma vez que as Almas oferecem aos deuses aquilo que é conatural a eles, Jâmblico ensina que existe uma forma de adoração completamente imaterial, dedicada aos deuses imateriais: Sempre que assumimos a honra desses deuses que são uniformes em si mesmos, é apropriado celebrá-los com honras liberadas. Presentes intelectuais e coisas da vida incorpórea são adequados a estes seres. Tanto quanto virtude e sabedoria que a alma tenha oferecido, toda perfeição e todas as bondades que existem na alma.[45] Teurgos que praticam este tipo de rito são inteiramente purificados e isso é bem raro.[46] Jâmblico diz que participar dos deuses dessa forma é a mais rara das coisas feitas.[47] Infelizmente há raríssimos relatos sobre a teurgia praticada por este tipo de Alma nos escritos de Jâmblico. Ele acreditava que a discussão aberta sobre esse tipo de ritual teúrgico não era adequada a iniciantes e até mesmo praticantes já com alguma experiência. Muito provavelmente este tipo de ritual é adequado as Almas purificadas que encarnam na matéria para o bem da evolução da humanidade.[48] Uma vez que estas Almas já estão em perfeita harmonia com os deuses que regem o cosmos material, elas não têm necessidade para realizar adorações materiais. Mesmo assim, por causa da fraqueza da Alma humana, a perfeição noética de uma Alma purificada não se manifesta imediatamente e adorações materiais serão necessárias nesse período de maturação. Tais práticas estabelecem as fundações adequadas (hupothesis) para adoração imaterial dos deuses hipercósmicos.[49]


Aos Deuses Intermediários (Hiperencósmicos) que são tanto Hipercósmicos quanto Encósmicos, dois tipos de adoração são apropriados. Jâmblico diz: Em verdade, para os Deuses Intermediários, que são os líderes das bênçãos intermediárias, às vezes dois tipos de oferendas são adaptadas, às vezes um presente comum a ambos, ou presentes que são purgados de seus elementos inferiores e conectados a seus elementos superiores, ou geralmente, uma adoração que ofereça um meio termo entre eles.[50]

Jâmblico determina uma antropologia tripartida para três propósitos (telē) distintos para as Almas encarnadas:


  1. Salvar, purificar e proteger o cosmos.

  2. Corrigir e exercitar o caráter.

  3. Punição e julgamento.


Essa divisão está em sincronia com a teologia tripartida de Jâmblico que distingue os deuses em:



  1. Hipercósmicos.

  2. Hiperencósmicos.

  3. Encósmicos.


Para cada classe de deuses há um tipo adequado de teurgia, envolvendo os elementos por eles regidos. Os Deuses Encósmicos regem a ordem material e a eles são ofertados sacrifícios materiais. Os deuses Hipercósmicos recebem oferendas noéticas e os Deuses Hiperencósmicos recebem ambos os sacrifícios, noéticos e materiais. Essa divisão de deuses em acordo a sua processão cosmogônica, portanto, delineia adorações distintas, da mesma maneira que os três tipos de Almas humanas executam distintas formas de teurgia. O grande rebanho adora os deuses materiais (Encósmicos) com oferendas materiais, as Almas purificadas adoram os deuses imateriais (Hipercósmicos) com sacrifícios noéticos, e as Almas entre o profano e o sagrado adoram os deuses intermediários (Hiperencósmicos) com sacrifícios e oferendas materiais e noéticas.


Fernando Liguori

Magister Schola Hermética


NOTAS: [1] Stobaeus: Anthologium, Ed. Wachsmuth e O. Hence), I, 378, 25-28. [2] Ibidem, I, 379, 2-6. [3] Ibidem, I, 379, 6-10. [4] Ibidem, I, 380, 6-14. [5] Existe aqui nesta doutrina de Jâmblico uma equivalência com a doutrina budista do bodhisattva. Neste caso, a Alma purificada do teurgo desce a matéria pelo mesmo motivo que um bodhisattva também desce, para auxiliar a humanidade. Veja John M. Dillon, Iamblichi Chalcidensis, p. 243. [6] John M. Dillon, Iamblichi Chalcidensis, p. 243. [7] Olimpiodoro, Olympiorori Philosophi in Platonis Phaedonem Commentaria, 64, 2-5. Ed. W. Norvin. [8] Platão, As Leis, 672b. [9] Stobaeus: Anthologium, Ed. Wachsmuth e O. Hence), I, 381, 7-13. [10] Uma família desta natureza foi àquela de Juliano, o Caldeu, que orou ao Demiurgo para que lhe provesse com um filho que tivesse a Alma de um Arcanjo. E é dito que o filho de Juliano, o Caldeu e que se chamava Juliano, o Teurgo, recebeu a Alma de Platão. Veja Hans Lewy, Chaldean Oracles and Theurgy, p; 223-4. [11] Quer dizer, quando heteros assume permanentemente a função de autos. [12] Amor no sentido fraternal. [13] Esse é o principio fundamental que levou ao desenvolvimento do que se conveniou chamar de círculo mágico na Tradição Hermética de Mistérios. [14] Veja Jâmblico, De Mysteriis, 149, 11-12. [15] Essa doutrina bodhisattva de Jâmblico é antagônica com a descida da Alma no Fedro, mas está em acordo com o filósofo retornando a caverna em A República. Veja Iamblichi Chalcidensis, p. 243. [16] Jâmblico descreve essa vida dupla dos teurgos em De Mysteriis, 184, 1-13; 246, 16; 247, 5. [17] Veja Jâmblico, De Mysteriis, 27, 8-10; 30, 1-3. [18] Veja Jâmblico, De Mysteriis, 221, 1-4. [19] Propósito (tele), modo (tropoi) e corpo (sōmata), funcionam como o complexo ousia-dumanis-energeia que Jâmblico utiliza para distinguir entidades incorpóreas (veja Lição 8.2). Em todo caso, o corpo, quer dizer, a energeia viva da Alma, revela o tropos de sua descida a matéria (assim como a energeia revela sua dumanis) e isso permite ao teurgo identificar o thelos da Alma. [20] Jâmblico distingue duas maneiras de adoração apropriadas a Alma em condições distintas: quando ela é puramente noética com os deuses inteligíveis e quando ela está encarnada na matéria. [21] A frase que Jâmblico utiliza aqui é hē pollē agelē e muito provavelmente foi tirada dos Oráculos Caldeus, fragmentos 107, 153 e 198. [22] Veja Jâmblico, De Mysteriis, 21, 6-7 onde a Alma é descrita como inclinada aos fenômenos da natureza. Veja também Jâmblico, De Communi Mathematica Scientia, 18, 9-13, onde a Alma encarnada é descrita como tendo caído fora da ordem natural do cosmos. [23] Veja Jâmblico, De Mysteriis, 223, 10; 224, 6. [24] Veja Jâmblico, De Mysteriis, 224, 7-225; 10. [25] Veja Jâmblico, De Mysteriis, 226, 3-9. [26] Veja Jâmblico, De Mysteriis, 234, 1-2. [27] Veja Jâmblico, De Mysteriis, 235, 3-5. [28] Veja Jâmblico, De Mysteriis, 235, 6. [29] Veja Jâmblico, De Mysteriis, 235, 11-12. [30] Veja Jâmblico, De Mysteriis, 217, 8; 218, 12. [31] Veja Jâmblico, De Mysteriis, 43, 2. [32] Veja Jâmblico, De Mysteriis, 43, 4-5. Quer dizer, mantendo-se em condição anatrópica em relação a sua realidade prístina superior. [33] Veja Jâmblico, De Mysteriis, 44, 5-10. [34] Veja Jâmblico, De Mysteriis, 214, 5-10. [35] Veja Jâmblico, De Mysteriis, 214, 17; 215, 7. [36] Veja Jâmblico, De Mysteriis, 215, 19. [37] Veja Jâmblico, De Mysteriis, 216, 5. [38] Ibidem. [39] Veja Jâmblico, De Mysteriis, 216, 6. [40] Stobaeus: Anthologium, I, 380, 12-13. [41] Stobaeus: Anthologium, I, 380, 10. [42] Veja Jâmblico, De Mysteriis, 221, 13-17. [43] Veja Jâmblico, De Mysteriis, 221, 19. [44] Veja Jâmblico, De Mysteriis, 222, 1-2. [45] Veja Jâmblico, De Mysteriis, 226, 9-14. [46] Veja Jâmblico, De Mysteriis, 219, 14-15. [47] Veja Jâmblico, De Mysteriis, 228, 2-3. [48] Stobaeus: Anthologium, I, 380, 8. [49] Veja Jâmblico, De Mysteriis, 225, 8-11. [50] Veja Jâmblico, De Mysteriis, 226, 14-20.


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