O Resgate da Filosofia Antiga



Desde a Antiguidade, o termo magia tem ganhado conotações pejorativas e tem sido associado a prestidigitação e trapaças de todos os tipos.[1] Tanto mageia quanto goēteia eram sinônimos de feitiçaria,[2] um tipo de prática mágico-cerimonial de caráter inferior devido às inclinações particulares de quem pratica, e não pelos métodos ou procedimentos que se realiza,[3] muito embora esse também seja um tema deveras debatido.[4] O Séc. III d.C. apresentou uma disputada questão na taxonomia e na definição de suas práticas e qualidade de ritual. Em meio a essa disputa, a teurgia neoplatônica também foi acusada ter equivalência com a prática da magia (goēteia, feitiçaria). Jâmblico, filósofo e teurgo, era um homem que combinava o refinamento e a profunda inquirição espiritual filosófica com a devoção e a teofania de um hierofante de mistérios. Ele se esforçou em demonstrar que a teurgia tratava-se de uma prática cerimonial de tipo superior, aliada a um estilo de vida filosófico. Jâmblico ensinava que a teurgia é o complemento religioso-cerimonial da filosofia, acreditando que somente a devoção inspirada poderia levar o filósofo do ver para o ser em um arrebatado estado de união com o divino (henosis).


Como veremos adiante, a filosofia antiga é um estilo de vida, uma maneira distinta de olhar a realidade. A teurgia, neste mesmo caminho, não difere da filosofia, antes disso, a complementa. É correto dizer que filosofia e teurgia são artes irmãs. Nos primeiros séculos da era cristã, principalmente entre os Sécs. III e IV onde esse embate crescia fervorosamente, o cristianismo se apresentava como uma alternativa filosófica, uma vez que orientava um estilo de vida sacramental em concordância com o Logos. Nesse processo, ele rejeitou e perseguiu os rivais da filosofia helênica que perseguiam os mesmos objetivos espirituais, mas com metodologias dialéticas e teúrgicas distintas. Porfírio, professor de Jâmblico, classificava os cristãos em dois grupos, os letrados e os iletrados. Os iletrados eram a maioria, os polloi kai alloi, os letrados eram a minoria, os hairetikoi. Estes poucos eram os gnósticos, àqueles que possuíam hairesis, uma firme e oposta doutrina filosófica.


Os gnósticos foram completamente exterminados pelos cristãos e a ekklesia, antes orientada pela philosophia verissima de Platão, agora orientava-se aos mistérios menores. A lógica e os aspectos psíquico-cosmológicos da filosofia foram aceitos, mas a espiritualidade pagã foi furiosamente sufocada. A teurgia e metafísica neoplatônicas de Jâmblico e Proclo transformaram-se na teologia mística de Pseudo Dionísio, mas a dimensão teúrgica do neoplatonismo foi demonizada e perseguida.


Uma vida filosófica é essencialmente mística. Um filósofo na Antiguidade era um místico. No entanto, o embate acalorado e por vezes deveras sangrento entre cristãos e pagãos também mudou completamente a orientação das academias de filosofia que por fim foram completamente fechadas e seus professores e alunos perseguidos. Houve nesse período um maciço ingresso no cristianismo, que se apoderava dos ideias filosóficos espirituais de imortalidade da filosofia, deixando apenas uma casca de discurso racional amorfo. O cristianismo se valeu dos exercícios espirituais da filosofia, renegando esta apenas a um conjunto de especulações. É essa filosofia desprovida de estilo de vida filosófico que chegou até nós nos dias de hoje em nossas universidades. A filosofia moderna é um fruto direto desta corrupção do neoplatonismo tardio e pagão em virtude da apropriação cristã de sua espiritualidade. A partir do Séc. IV d.C. a filosofia nunca mais seria a mesma. Ela daria lugar a especulação filosófica abstrata de uma atividade intelectual desprovida de identidade própria, perdendo completamente suas dimensões teológica, religiosa e teúrgica.


O resgate da filosofia antiga pode, dessa maneira, ser estabelecido através da prática da teurgia. A filosofia compreendida como um desenvolvimento da tradição órfica, pitagória e platônica, não se trata de uma explicação teórica da realidade, do mundo, mas antes disso, de um rito de renascimento, o que implica em transcender a finitude material. O objetivo de uma vida filosófica inclui a habilidade de viver bem no aqui e no agora, pois o pano de fundo noético de cada filósofo, quer dizer, o Uno inefável, está presente em toda parte. Nos termos da cultura egípcia, trata-se portanto de uma transição ao reino de Osíris (duat) ou corpo alquímico da deusa Nuit (o céu), às vezes representado como um templo na forma de vaca (a deusa Hathor). Para um filósofo, portanto, aprender a viver bem se trata de aprender a morrer e essa paideia (educação) filosófica é análoga a construção da tumba real, quer dizer, a maṇḍala teúrgica de palavras (hekau) e os espíritos hieróglifos animados (medu neter), a incorporação das Formas platônicas. Essa tumba filosófica é a própria cripta de iniciação do filósofo, onde ele passará pela transformação alquímica no templo de Osíris no duat. O termo grego filósofo tem equivalência com o termo egípcio mer rekh, que significa amante do conhecimento, que dizer, àquele que busca por uma teofania divina com os neteru (deuses) em henosis. Esse elemento teofânico dá acesso ao espírito da sabedoria, quando o deus Thoth é assentado na ponta da língua e a deusa Maat no santuário do coração. Como todo hierofante de mistérios egípcios, o filósofo busca a ressurreição no reino de Osíris-Rá. A revolução intelectual helênica despertada por Pitágoras e Platão modernizou e adaptou este conhecimento egípcio, transformando o antigo Faraó-Hórus, o theios aner, no Filósofo-Sacerdote platônico buscando união com os princípios elevados noéticos (neteru) adentrando a barca de Rá. O Atum-Rá egípcio equivale ao Intelecto Divino ou cosmos noético (kosmos noetos) de luz espiritual.


Fernando Liguori (Frater Abammon)

Magister Schola Hermetica



NOTAS: [1] Veja a sequência de instruções na Lição 1: A Tradição Hermética de Mistérios, onde mageia é interpretada dentro do contexto iniciático da Tradição Hermética que compreende a prática da mística filosófica especulativa do Corpus Hermeticum atribuído a Hermes e a aplicação da magia como delineada nos Papiros Mágicos Gregos. As palavras de Peter Kingsley em seu artigo Conhecer para Além do Conhecer: O Âmago da Tradição Hermética ressalta a diferença entre a prática mágica hermética e a feitiçaria: No centro da tradição Hermética reside a necessidade de um determinado tipo de conhecimento: gnose, ou conhecimento do divino. Isto é algo inteiramente diferente dos tipos formais de conhecimento, que nos separam e distanciam do que julgamos que sabemos. [2] O termo feitiçaria (goēteia) está associado desde a Antiguidade a uma classe inferior de magia conectada aos Papiros Mágicos Greco-Egípcios sem o desenvolvimento espiritual atribuído a mística do Corpus Hermeticum. Embora muitas sejam as tentativas desde a Antiguidade tardia de ressignificar a feitiçaria, ainda permanece o tom pejorativo de seu exercício. Veja a lectio divina Teurgia & Goécia na Lição 2.2. Veja também as lições de estudo do CFO: Curso de Filosofia Oculta. Definição do termo feitiçaria: a arte de movimentar a matéria psíquica através de bases materiais. A partir da obra de Agrippa e dos grimórios medievais de magia, o termo goēteia passou a ser associado a evocação magística de 72 daimones classificados dentro de uma estrutura judaico-cristã. Estes 72 daimones são uma herança medieval da classificação hierárquica do neoplatonismo tardio dos 72 Deuses Sub-Lunares, quer dizer, deuses abaixo da Lua, também conhecidos como os Deuses Hilíticos, Arcontes Materiais ou simplesmente Arcontes. Eles dominam o cosmos material abaixo do reino da Lua, que é o último dos céus. Eles estão cercados pela matéria e são marcados por uma jactância em poder e ação. Sua aparência é instável, muda de forma e tamanho devido a sua proximidade com a matéria. Eles trazem consigo os melhores aspectos da vida material, ao mesmo tempo em que atraem para si o caos do mundo material. Os Deuses Sub-Lunares são materiais e se misturam com os elementos, são sombrios e divididos. Eles também estão cercados por fantasmas poderosos que podem afligir a Alma (o que imediatamente traz à mente a comitiva de Sátiros e os Bacanais de Dionísio). Em uma visão teúrgica, os Deuses Sub-Lunares manifestam-se vagamente, cercados pelo acúmulo de matéria, mas com certa autoridade, pois reúnem em torno de si elementos materiais e sua própria ordem. [3] Veja a lectio divina Teurgia & Goécia na Lição 2.2. A lectio divina é um exercício espiritual de contemplação em um texto. O termo exercício espiritual aqui é utilizado como na obra de Pierre Hadot, uma prática de vida filosófica, o que implica em profundas mudanças espirituais, quer dizer, em todo complexo psíquico. Veja Exercícios Espirituais e Filosofia Antiga, realizações, 2014. Pessoalmente, melhorando Hadot, eu colocaria desse modo: o exercício espiritual, que se trada de uma prática ou estilo de vida filosófico em acordo com a filosofia antiga, reestrutura e equilibra todo o complexo da consciência. Hadot estabelece Sócrates como o arquétipo fundamental do filósofo. Alguns amigos filósofos têm estabelecido que o arquétipo ideal do filósofo devesse ser encontrado entre os filósofos pré-socráticos. Pessoalmente, penso que o berço da Tradição Ocidental de Mistérios é uma pirâmide: sua base começa com Pitágoras e seu ápice termina em Jâmblico. O arquétipo perfeito ao filósofo é àquele, portanto, que combina filosofia e teofania, resgatando assim a tradição filosófica antiga. [4] O tradicional corte ou sacrifício de sangue foi um tema amplamente debatido pelos filósofos neoplatônicos, gnósticos e cristãos do Séc. III. Os cristãos, mas também os gnósticos e alguns filósofos neoplatônicos, criticavam duramente os sacrifícios de sangue, dizendo serem eles impróprios aos deuses, servindo apenas a uma classe inferior de daimones. Embora na diversificada cosmologia e cosmogonia neoplatônica um daimon não necessite de nenhum alimento provido pelas Almas humanas, os gnósticos e cristãos diziam que daimones de classes inferiores alimentavam seus veículos pneumáticos do sangue e da fumaça da carne queimada. Veja ótima discussão sobre o tema em Heidi Marx-Wolf, Spiritual Taxonomies and Ritual Authority, PENN, 2016.

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