O Poder Sexual de Atração da Bruxa

Texto do livro em preparo O Espírito de São Cipriano.


O tema central de O Espírito de São Cipriano é o relacionamento espiritual com o espírito familiar. Ele é familiar porque mora com o mago, faz parte de sua família. Como qualquer membro da família, ele se alimenta e conversa com o mago o tempo todo. Os magos do passado entenderam a importância de construírem alianças espirituais com os espíritos para todos os fins, fundamentalmente aqueles ligados a sobrevivência nos primórdios da humanidade. Os aborígenes africanos têm mantido tráfego com espíritos há pelo menos vinte mil anos.


Em O Espírito de São Cipriano eu teço alguns parágrafos sobre a potência sexual da bruxa. O texto segue:



Os berserkers nórdicos, por exemplo, eram guerreiros poderosos com força sobre-humana que recebiam seu poder de um espírito tutelar na forma de um urso. Antes de invadirem e pilharem, os berserkers se reuniam para convocar este espírito assistente e se vestiam com peles, dentes e ossos de urso em rituais orgásticos para invocar seus poderes, os quais eles usavam para se tornarem invencíveis.


Os poderes da orgia sexual e da quimiognose eram utilizados por tribos de muitas culturas para convocar espíritos assistentes. Kenneth Grant (1924-2011) explora o poder da magia sexual para o conhecimento e conversação com o Sagrado Anjo Guardião ou deus oculto como ele nomeia em suas obras, O Renascer da Magia e Aleister Crowley & o Deus Oculto. Uma discussão esclarecedora do deus oculto como sombra (chaya) ou duplo aparece nessas obras e em outra, Cultos das Sombras.


Na Idade Média, o poder sexual de atração da bruxa era considerado um espírito familiar, um duplo astral que a acompanhava. A palavra em inglês utilizada para este duplo é fetch (encantar, fascinar); considerava-se que ele possuía grande poder magnético. Desse termo vem outro, fetiche, que descreve algo (um objeto mágico como um talismã) ou alguém com grande poder de atração. Quando a libido é dirigida a um objeto, ação ou parte do corpo ao invés de um parceiro ou um espírito familiar produz-se o espírito do fetichismo. Modernamente entende-se que um fetiche se trata de um objeto, geralmente sem implicações sexuais, como um calçado, que atraí a atenção sexual. No entanto, na tradição da magia desde tempos antigos, um fetiche se trata de um objeto mágico, a morada de um espírito assistente cujas virtudes despertam certo magnetismo. Estátuas adoradas em diversos cultos são, dessa maneira, fetiches. Na Antiguidade, dentre os sistemas oraculares da cultura mediterrânea existia a divinação através de estátuas que ganhavam vida. As estátuas eram portais através dos quais as sacerdotisas oraculares acessavam o espírito assistente que residia nelas. É interessante notar que essas sacerdotisas eram virgens (dedicadas à deusa Vesta, portanto, vestais) ou castas, dedicadas a outros deuses e deusas. Todo o fetch era dirigido ao conhecimento e conversação com a deidade. Se trata de uma prática pancultural bruxas, magos e xamãs de todas as culturas reservarem sua potência sexual para o contato com espíritos assistentes (magia) ou transcendência espiritual (misticismo).


A crença nesse espírito familiar era tão profunda que as bruxas acreditavam que sob certas circunstâncias, o fetch podia se manifestar materialmente, dependendo da concentração de desejo nele projetada. É através do fetch que a bruxa tem poder de magia e ele representa a própria força que produz a criação. Os gregos chamaram este espírito assistente de Eros e disseram que onde ele se manifesta, a magia se realiza. Representando o espírito da libido, o fetch poderia materializar-se como uma sombra ou duplo, engajando em coito sexual com a bruxa em um sabbath de bruxaria. É sobre o trabalho com o fetch ou sombra que Kenneth Grant se debruça em sua obra Cultos das Sombras. Eu falei sobre esse tema nas edições de O Olho de Hoor, Vol. I, Nos. 9 & 10.


A palavra fantasia (faculdade de produzir imagens) que utilizamos no termo fantasia sexual vem da palavra fantasma (ilusão, projeção imaginativa). No grego, ambas denotam demonstrar, fazer visível, tornar aparente. Fantasmas ou fantasia podem ser, portanto, projeções da mente imaginativa, imagens projetadas pelos olhos da mente. A repetição de uma fantasia sexual acerca de uma pessoa como projeção imaginativa pode, com o tempo, capacitar o fetch a atrair a pessoa desejada pela bruxa. Em contos medievais de feitiçaria, as bruxas velhas atraíam suas vítimas para floresta, homens e mulheres, projetando a imagem de uma jovem voluptuosamente sedutora. Tratava-se do fetch materializado. Espíritos de todos os tipos, incluindo vampiros (súcubos ou íncubos), demônios etc. são atraídos ao fetch das bruxas como mariposas são atraídas a luz. Na magia sexual cerimonial, a lamparina mágica representa o fetch dos magos, que precisa ser alimentado com ojas para brilhar reluzente.


Por outro lado, a palavra fascinar é latina e originalmente significava feitiço ou encantamento. Fascinar é colocar alguém sob feitiço ou encanto. Nós nos fascinamos por tudo que nos chama atenção das inclinações naturais humanas; fantasias sexuais têm uma natureza obsessivamente atraente e é sobre este princípio que opera a magia sexual com o chaya. O fetch é o poder sobre o qual a bruxa projeta os fantasmas de sua mente, sejam eles conscientes ou não. Por sua vez, como um assistente mágico ele torna tangíveis esses fantasmas. Em outras palavras, o fetch é como o gênio da lâmpada que realiza os desejos da bruxa.


Através da magia sexual o fetch é alimentado com ojas, tornando-se uma lamparina reluzente nos planos internos, o que torna a bruxa magnética e atraente. As frustrações sexuais, de outra maneira, contaminam e adoecem o fetch, que atrairá apenas criaturas espirituais substancialmente torpes e de natureza vil.


Fernando de Ligório

Curso de Filosofia Oculta


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