Crônica Cipriânica #1: O Mito & a Verdade Magística de São Cipriano

Atualizado: 25 de Dez de 2019


Como demonstrado nessa jornada de O Espírito de São Cipriano, de São Cipriano nós tiramos muitas lições importante na iniciação magística. Um dos temas abordados é a iniciação a tradição cipriânica da magia. Ao tocar nesse assunto, é impossível deixar de nos debruçar um pouco sobre a questão da iniciação na feitiçaria. Até o presente o que compreendemos acerca da tradição cipriânica? Em linhas gerais podemos dizer que:


1. O mito de São Cipriano foi criado por volta do Séc. IV d.C. quando fervilhava um profundo intercâmbio mágico-religioso na região do Mediterrâneo. Contemporâneo ao mito era a magia dos Papiros Mágicos Gregos, os Oráculos Caldeus e a teurgia de Jâmblico, e o Testamento de Salomão que inaugura a magia tradicional salomônica. Tudo isso serviu como pano de fundo para construção da história de São Cipriano e por isso tiramos dela elementos genuinamente mágico-iniciáticos.


2. O Pacto com o Diabo (sendo este uma paródia do contato com espírito assistente ou deidade tutelar), o elemento central do drama de São Cipriano, já era amplamente conhecido através da história de Teófilo de Adana, um personagem mítico do Séc. IV d.C. que teria feito um pacto com o Diabo após muitos anos de serviço a Igreja Católica, devido a ter sido removido de seu cargo após a eleição de um novo bispo para cidade de Adana. O Diabo teria tentado Teófilo com pensamentos depressivos e criminosos, o que o levou a pedir ajuda de um feiticeiro judeu, através do qual ele conheceu o próprio Diabo. Como Fausto posteriormente, Teófilo arrependeu-se amargamente; após conquistar tudo o que queria se viu frente à realidade de ter perdido a salvação de sua alma. Diferente de Fausto que assinou seu pacto com sangue, Teófilo o selou com cera de abelha dentro de um anel mágico. É incrível a semelhança entre as histórias de Fausto, São Cipriano e Teófilo. Soldo: a ideia de pacto está conectada diretamente a aquisição de um espírito assistente. Um contrato mágico é feito entre as duas partes, o mago e o espírito. Sendo este um contrato mágico, de sua assinatura nasce o espírito do contrato que passa a atuar tanto na alma do mago como no veículo astral do espírito assistente. Nos Papiros Mágico Gregos (I.1-42), o mago deve pegar testemunhos mágicos (unhas e cabelos) e assentá-los no mesmo altar em que colocará a múmia do falcão sacrificado. Esse procedimento mágico é uma forma de unir magicamente a alma do mago ao espírito assistente morto, o paredoi. Esse procedimento mágico é o ancestral direto do pacto assinado que vemos nas lendas de Teófilo, Fausto e até São Cipriano, de certo modo.


3. Fecundado na Alma do Mundo por séculos de projeções de magos, bruxos e feiticeiros pagãos e cristãos, São Cipriano tornou-se um espírito tutelar nos planos internos, capaz de ser conjurado a assistir um feiticeiro que pede seu auxílio. Como um espírito tutelar ou espírito patrono, São Cipriano tem sido assentado em santuários e templos de feitiçaria em várias partes do globo, principalmente na Península Ibérica, Escandinava e nas Américas.


4. Na Idade Média inúmeras versões de O Livro de São Cipriano circulavam na Europa, da Ibéria a Escandinávia. Por volta do Séc. XVI as primeiras feiticeiras condenadas ao exílio pelo Santo Ofício de Portugal aportavam no Brasil, trazendo com elas a feitiçaria cipriânica popular da Ibéria. Trocando conhecimentos acerca da Arte com escravos africanos, iniciou-se um entrecruzamento mágico-religioso entre a magia crioula africana, a cura cabocla ameríndia e a magia cipriânica popular da Ibéria. Nas tradições brasileiras de magia, umbanda e quimbanda, nós podemos falar de uma linha de São Cipriano devido a influência de sua feitiçaria nos trabalhos do Pai Cipriano de Angola, um preto-velho-kimbanda, Exu Meia Noite, Exu Tranca-Ruas, Pombagira Rosa Caveira, Maria de Padilha e outros espíritos. Todos trabalhando na linha de Cipriano feiticeiro.


5. O mito de São Cipriano espelha a busca solitária e silenciosa de todo feiticeiro rumo a sua independência espiritual. Essa independência espiritual é o coroamento de sua iniciação magística. Quando nós falamos sobre conexão espiritual com uma corrente ou tradição mágica, inevitavelmente falamos também de iniciação, ou pelo menos o que se entende por este termo, cada vez mais elástico com o passar do tempo. Essa conexão ocorre através de um espírito! Seja lá o que te ensinarem acerca da iniciação na feitiçaria, de rituais de iniciação a confirmações pelas mãos de sacerdotes, o fato é que quem confere a iniciação de verdade é o espírito. Feitiçaria se trata de incorporação mediúnica, tratos, pactos e alianças com espíritos, assentamentos de poder e sacrifícios. É o espírito tutelar do feiticeiro quem decide como será sua iniciação, não um sacerdote ou um professor. Perceba que quando falamos de feitiçaria, falamos do conhecimento e conversação com espíritos, não do contato com doutrinas. Este ponto devo a reflexão do feiticeiro-kimbanda Youssef Ish'baq. Em conversa particular ele me disse:


Na esquerda mesmo a coisa é diferente; não tem isso de mestre. Você puxa a linha de espíritos e pede ao espírito-kimbanda para te iniciar e pronto. Os kimbandeiros antigos mesmo, trabalham em casa, sozinhos. Eles não abrem centros, isso é coisa jovem [i.e. moderna].

6. Como temos estudado no Curso de Filosofia Oculta, o arquétipo primordial do mago é um homem distante da sociedade, imerso no mundo dos espíritos. A tradição moderna da magia caminha em uma direção oposta. O mago moderno não necessita se isolar, antes disso, ser um elemento ativo da sociedade. Essa quebra de protocolo tem sido ensinada como regra aos buscadores de hoje, negando uma das mais importantes lições da tradição da magia. O mago precisa ser só para desenvolver uma intimidade com os espíritos, os quais cerceiam sua atenção apenas para eles.


7. A conexão espiritual com a tradição cipriânica da magia ocorre por meio de seu gringori, o Espírito de O Livro de São Cipriano, conjurado como uma deidade tutelar para acompanhar o feiticeiro ensinando-lhe os segredos da Arte.

Na Antiguidade, quando eclodiu o mito de São Cipriano como uma borbulha do caldeirão fervilhante do entrecruzamento mágico-religioso da região do Mediterrâneo, o conceito de iniciação estava conectado a ideia de longa jornada, trabalho de esforço e preparo espiritual, o que incluía treinamento intelectual e prática nas principais áreas da Arte: magia natural, magia matemática, magia celeste etc. dentre muitas matérias.


Convém que o iniciado passe por todas as fases, que são: desejo, perseverança e domínio. A primeira pertence ao noviço, ou seja, o desejo de aprender. A segunda, ao iniciado, que precisa de perseverança para chegar ao fim. A terceira, ao mestre, que é o verdadeiro mago, pois atingiu o domínio absoluto da Arte.[1]

Seguir o caminho de iniciação na tradição da magia se tratava de empreender uma longa e distante jornada na busca do conhecimento e domínio da Filosofia Oculta:


Se precisa de um estudo constante das coisas naturais para poder chegar por meio de sua investigação ao verdadeiro conhecimento do sobrenatural, que é o fim e o objeto das Artes Mágicas.[2]

Dessa maneira, a fórmula geral da iniciação sempre teve como pano de fundo a iniciativa pessoal de busca e realização através do estudo e da continuidade de propósito. É o estudante que tem de produzir as condições adequadas para que ele se torne um mago:


A Magia, como todas as ciências, requer indubitavelmente condições muito especiais das pessoas que se dedicam aos seus estudos e conhecimento.[3]

Na Antiguidade essa longa jornada era compreendida com o um extenso período de viagens onde o estudante aprendia com vários mestres, adentrando em sociedades secretas, sendo aceito em colegiados magísticos e sendo iniciado em cultos de mistérios. É dessa maneira que a carreira mágica, assim entendia-se, era construída. Na tradição da magia grande valor é conferido aquele que buscou conhecimento e foi verdadeiramente iniciado em tradições e cultos de mistérios. Na iniciação um processo verdadeiramente mágico (e psiúrgico) ocorre, pois o veículo pneumático da alma dos iniciados é completamente saturado com os códigos de luz ou virtudes da corrente mágica a qual está sendo iniciado. Essa impregnação do veículo pneumático com as virtudes da tradição deixa uma marca indelével na alma, uma chancela mágica da iniciação.


Mas ao se aproximar da tradição cipriânica através do Espírito de O Livro de São Cipriano, o mago se encontrará na mesma encruzilhada dos magos da Antiguidade e Idade Média. Desde a Antiguidade, passando pela Idade Média até os dias de hoje notamos um padrão na tradição mágica ocidental: trata-se de uma tradição desenvolvida através de manuais que contêm os segredos da Arte. Estes manuais na Antiguidade eram difundidos em papiros secretamente. Da mesma maneira, na Idade Média estes manuais eram difundidos em pergaminhos, também secretamente. Possuir papiros ou pergaminhos de magia poderia levar a condenação por morte. Dessa maneira, os magos têm se debruçado sobre estes manuais, despertando seu espírito e perpetuando a tradição secretamente, em silêncio. Por conta disso, os arcanos da Arte dos Magi têm permanecido ocultos por longos períodos. Magos aqui e ali no curso do tempo os têm encontrado, estudado e praticado, colhendo experiência magística de seus experimentos solitários ou coletivos, a qual se perpetua no tempo quando zelosamente preservada. Estes magos morrem e novamente os arcanos se ocultam, até que outros magos, às vezes em um distante período do tempo, os reencontram nos manuais de magia. Nos dias de hoje passamos por um reavivamento na tradição da magia e os arcanos da Arte têm sido disseminados pelo encontro do passado (os gimórios e papiros que hoje temos a disposição) com a tecnologia do presente. No futuro, não é possível prever quando e nem onde, um novo ocultamento ocorrerá e os arcanos da se manterão nas sombras para um novo despertar. É assim que a tradição mágica ocidental tem se desenvolvido no curso da história, em ondas de descobertas, reavivamentos e ocultamentos.


O verdadeiro mago deverá ser portanto estudioso discreto e constante em seus trabalhos.[4]

Dois requerimentos fundamentais da Arte dos Magi são o silêncio e o segredo.


De nenhum modo se deve revelar, a alguém que não seja adepto dessas ciências, as coisas sobrenaturais que se chegar a conhecer.[5]

Esses dois requerimentos na Antiguidade eram poderosos talismãs, mas o efeito colateral dessas duas medicinas produzia o espírito da solidão. O mago sempre foi um homem solitário, isolado, imerso na ciência e arte da magia.


A pessoa que quiser fazer os experimentos da arte mágica deverá estar completamente sozinha, a menos que a acompanhe pessoa iniciada na Arte e que tenha feito pacto com algum espírito.[6]

Ao seu lado, um mago trazia consigo um aprendiz. Até aqui, explorando a ideia de iniciação, nós temos todos os elementos da narrativa faustina presente nas edições de O Livro de São Cipriano:

  1. O jovem aprendiz que se interessa pela filosofia oculta e inicia sua jornada de aprendizado através de estudo, viagens e iniciações.

  2. O encontro com um tutor espiritual que lhe auxiliará a desenvolver suas capacidades para se conectar com espíritos.

  3. O conhecimento e a conversação com um espírito tutelar para obter dele conhecimento oculto acerca da Arte por meio de um pacto.

  4. Acompanhar um aprendiz que já tenha passado ou esteja em transição das etapas 1 e 2 acima.


NOTAS:

[1] São Cipriano, O Livro de São Cipriano: Tratado Completo da Verdadeira Magia, Pallas, 2017.

[2] São Cipriano em Qualidades Essenciais para Professar as Artes Mágicas em Thesaurus Magicus, Vol. II. Humberto Maggi, 2016, Clube de Autores.

[3] Ibidem.

[4] Ibidem.

[5] São Cipriano, O Livro de São Cipriano: Tratado Completo da Verdadeira Magia, Pallas, 2017.

[6] Ibidem.



Fernando de Ligório

Curso de Filosofia Oculta


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