Crônica Cipriânica #3: O Relicário da Tradição Oculta Ocidental

Atualizado: 25 de Dez de 2019


Uma indagação enviada por um dos assinantes do site Filosofia Oculta acerca do livro O Espírito de São Cipriano, me questiona o porquê da ênfase em São Cipriânico ou na tradição cipriânica da magia. No seu questionamento ele trata São Cipriano ou sua feitiçaria como fantasiosa e sem uso prático ao magista moderno.


De fato, quem lê O Livro de São Cipriano em qualquer uma de suas edições, principalmente um ocultista letrado e acostumado a autores difíceis no campo do ocultismo, logo se sente decepcionado, para não dizer completamente desolado. Assim cabe esclarecer que O Livro de São Cipriano é destinado a pessoas simples cujas demandas estão longe de questões filosóficas refinadas ou até mesmo o misticismo da catedral interior. Como diz José Leitão em sua edição de O Tesouro do Feiticeiro (Headen Press, 2014), a magia de São Cipriano é visceral e para praticá-la é preciso ter estômago.


Dito isso, cabe dizer que São Cipriano é um relicário da tradição oculta ocidental. Nele a magia da Antiguidade (ou dos Papiros Mágicos Gregos), a teurgia de Jâmblico e Proclo, a cabala crioula da África Setentrional, a demonologia, demonolatria e tradição dos grimórios medievais (o que inclui a tradição salomônica), a magia de cura ameríndia e o catolicismo popular se encontram, tradições jogadas dentro de um grande caldeirão mágico fervilhante. É desse caldo grosso que é feita a feitiçaria cipriânica. Compreendê-la, portanto, nos pede o entendimento do desenvolvimento e desdobramento destas tradições no seu encontro, mistura e transmutação. A umbanda, por exemplo, é uma tradição mágica brasileira que foi sistematizada nas três primeiras décadas do Séc. XX como um desenvolvimento de um movimento anterior conhecido como macumba. E é interessante notar como que o modus operandi da umbanda resgata toda influência espiritual que fundou o Brasil: a mistura étnico-religiosa dos negros-escravos africanos (o trabalho com os sábios preto-velhos), os índios (o trabalho de cura com os caboclos) e a iconografia diabólica européia (o trabalho com os exus). Posteriormente o trabalho com os exus tomaria rumos independentes que eclodiram nas diversas choupanas de quimbanda.


São Cipriano veio ao Brasil por meio de feiticeiras exiladas pelo Santo Ofício de Portugal que, ao chegarem em nossas terras, logo associaram sua feitiçaria aquela dos escravos. Após a abolição da escravatura, estes ex-escravos travaram uma profunda confluência com europeus que, por sua vez, trouxeram muito de sua magia popular. Isso tudo somado a influência do espiritismo francês do fim do Séc. XIX e início do Séc. XX, forma uma intricada tradição espiritual genuinamente brasileira. Não é possível determinar, por exemplo, a extensão da influência dos sigilos mágicos dos grimórios medievais nos pontos riscados utilizados na umbanda e quimbanda. Esse estudo, como podemos ver, nos leva em uma direção completamente oposta as interpretações da magia moderna e nos coloca na senda da gnose do diabo. Então quando imergimos na feitiçaria cipriânica, é essa gnose que encontraremos.


Em uma das vídeo-aulas do Curso de Filosofia Oculta eu mencionei que ao estudarmos a magia hermética na Antiguidade e Idade Média, é impossível não nos encontrarmos com São Cipriano, pois ele representa, resgata e engloba toda essa tradição descrita nos parágrafos anteriores. Desdenhar São Cipriano por imaturidade, inocência ou ignorância é fechar os olhos para um dos maiores símbolos da tradição da magia. Símbolos não velam, mas explicam a tradição. Dessa maneira, destrinchar São Cipriano, um símbolo vivo da tradição da magia, é destrinchar a própria tradição e se encontrar com suas raízes. Esse exemplo que segue, da indagação me enviada, demonstra:


> Mas Fernando, como assim uma invocação

> bem sucedida é na verdade uma possessão? > Isso é tão criticado pela maioria dos magos!


Pois é, isso é criticado pela maioria dos magos. A possessão daimônica já era amplamente conhecida na Antiguidade com críticas e elogios. Os teurgos neoplatônicos e a própria religião greco-romana reconhecia o fenômeno como inspiração divina. Por exemplo, em oráculos como àquele de Delfos, acreditava-se que as sacerdotisas estavam divinamente inspiradas pelos deuses, quer dizer, literalmente possuídas. Esse é um dos maiores arcanos da tradição da magia. A possessão mediúnica é um meio efetivo de se comunicar com os espíritos, daimones ou deuses. Certa vez um ocultista me disse: Fernando, você nunca ouviu falar de incorporação de um deus! Como assim? Esse é um dos elementos mais antigos da tradição: a possessão divina. Mas as concepções modernas acerca da invocação vão em um caminho distinto; se por um lado é admitido que o mago traz para dentro de si as virtudes divinas de uma deidade ao invocá-la, por outro lado não se admite que a deidade possua completamente os veículos espirituais e físico do mago. Quando viramos as costas a essas concepções modernas e mergulhamos profundamente neste caldo grosso da feitiçaria torna-se inevitável o encontro com a magia da noite, do sangue e do fogo que tanto sintetiza a herança da magia na Antiguidade e Idade Média e que faz vasto uso dessa tecnologia da tradição mágica ocidental.


É por isto que neste livro, O Espírito de São Cipriano, é oferecido a oportunidade de fazer do Santo o patrono espiritual do trabalho de feitiçaria. Com ele vem criaturas da noite, arautos das sombras. Em um dos capítulos eu menciono que você poderá escolher entre a feitiçaria cipriânica católico-popular e a feitiçaria cipriânica pagã. Esta, não se engane, fecha as portas para os éteres de luz e perfeição e opera apenas com as criaturas espirituais sub-lunares. Bastam apenas três tapas no chão e as portas para o alto se fecham, começam os batuques e batuleios do inferninho. Estás preparado?


Fernando de Ligório

Curso de Filosofia Oculta


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