Crônica Cipriânica #4: Sintonização com o Espírito de São Cipriano

Atualizado: 25 de Dez de 2019


A espinha dorsal desse opúsculo de meditação, O Espírito de São Cipriano, é o tema mais importante da Arte dos Magi, quer dizer, a obtenção do paredros, o espírito assistente e arcano primitivo do moderno Sagrado Anjo Guardião.


Diferente da interpretação moderna do Sagrado Anjo Guardião que nasceu de ideias neoplatônicas-cristãs, o espírito assistente está presente nas arcaicas culturas da magia desde o xamanismo paleolítico. Por este termo, xamanismo paleolítico, entenda uma prática de feitiçaria que antecede a formação de mitos e os rituais, festivais e celebrações a eles associados. Em um tempo onde o Sol não tinha nome ou mesmo qualquer construção cultural e mítica sobre ele, os feiticeiros trabalhavam com sua força bruta; as diversas mitologias e sistematizações espirituais acerca do Sol e outros astros e forças da natureza servem apenas para categorizar e codificar essas forças brutas da natureza, quer dizer, seus espíritos, em estruturas palatáveis a assimilação e, portanto, mais fáceis de serem trabalhadas. Bem, muito antes dessa formação de sistemas e estruturas, o feiticeiro já partilhava o conhecimento arcano da natureza com os espíritos ao seu redor.


Em O Espírito de São Cipriano instruções precisas, baseadas na tradição mágica cipriânica, são dadas na intenção de se construir um assentamento mágico para presença de São Cipriano. Em um primeiro momento é proposto uma aproximação ou sintonização com o Santo. Para tal a proposta é a construção de uma cripta cipriânica com um altar psiúrgico simples onde orações ao Santo, principalmente as dele, são executadas. Em um segundo momento é proposto a construção de um assentamento mágico de poder, o que requer uma acurada ciência mágica, exposta em detalhes no livro. A construção desse assentamento mágico criará na cripta cipriânica uma zona de poder definitiva onde o contato com o Santo será efetivo.


E poderemos dizer, sem medo de errar, que a construção desse assentamento na cripta cipriânica fará dela a própria Cova de São Cipriano, uma zona de poder onde o Diabo se apresenta para ensinar a Ars Nigra a seus estudantes.

O contato com São Cipriano requererá o aperfeiçoamento da invocação mágica. Uma invocação mágica bem sucedida, assim veremos no livro, trata-se de uma possessão mediúnica onde a consciência (ego) do mago é completamente solapada e apartada do processo e São Cipriano (ou qualquer deidade convocada) assume completamente os veículos espirituais e físico do mago. E esse é um dos temas fundamentais do livro, pois a tradição moderna da magia deturpou completamente o verdadeiro sentido e significado da palavra invocação. A invocação mais poderosa de todas, assim já ensinavam os teurgos neoplatôpnicos, trata-se da possessão daimônica, típica das choupanas de cabala crioula. E isso abre um vasto universo pela frente dentro da tradição cipriânica, trazendo elementos novos a confluência de elementos antigos, estabelecendo novas técnicas e abordagens mágicas. Falando sobre o tema em sua edição de O Livro de São Cipriano: o Tesouro do Feiticeiro (Headen Press, 2014), José Leitão diz:


Este terceiro período [da tradição cipriânica] não pode ser separado da efervescência mágico-religiosa da atmosfera Sul-americana. Foi ali, num grande cadinho cultural de sangue branco, negro e nativo-americano que as práticas da magia cipriânica foram revitalizadas e desenvolvidas para além dos princípios da prática ibérica, afastando-se dos livros originais. Essa nova e impressionante onda de práticas parece estar fazendo seu caminho de retorno a Ibéria e Europa, seja através da imigração ou pelo incrível prestígio e reconhecimento das técnicas mágico-religiosas Sul-americanas, colorindo e revitalizando antigos cultos cipriânicos. Em teoria, devido a seu caráter altamente pragmático, estas novas práticas revitalizadas poderão no futuro uma vez mais cristalizar uma nova ortodoxia cipriânica. Contudo, devido à possibilidade de se estabelecer contato mediúnico com São Cipriano, um constante fluxo de material novo e atualizado é estabelecido, fazendo dele uma corrente viva, como uma vez o foi em um distante passado da Ibéria

Meu envolvimento com a tradição cipriânica ocorreu, assim relato com detalhes no livro, em três ondas. Na primeira delas através de uma feiticeira cipriânica ainda na minha juventude, quando fui apresentado ao Diabo em uma cerimônia de iniciação. A segunda onda ocorreu enquanto estive em viagem a comunidades ribeirinhas ayahuasqueiras, onde pude ver São Cipriano como unha e carne a tradição mágico-católica popular. A terceira e mais recente, quem sabe a mais importante e magicamente gratificante, com as expressões cipriânicas na quimbanda com o Sr. Exu Meia Noite, o Sr. Exu Tranca Rua das Almas, a Sra. Pombagira Rosa Caveira e Maria de Padilha. Essa terceira onda mudou completamente minhas perspectivas acerca da Arte dos Magi e isso eu tento transmitir também com detalhes.


Compreender São Cipriano exige de nós o entendimento da evolução da tradição mágico-popular ibérica e sua transposição para terras brasileiras com a chegada de São Cipriano no Brasil através de feiticeiras exiladas por meio da Inquisição em Portugal. O Livro de São Cipriano, em acordo a evolução e transmutação que sofreu ao longo dos anos, é uma metamorfose. Captá-la em sua profundidade exige um envolvimento total com o Diabo do livro ou o próprio Espírito de São Cipriano. Falando sobre o livro José Leitão finalmente acrescenta:

Deve ser entendido que este [O Livro de São Cipriano], diferente de outros grimórios, não é uma relíquia de um distante passado mágico, ele não é um livro antigo e morto que espera para ver a luz novamente através de um devotado magista. O Livro de São Cipriano não se trata de um livro; ele não está localizado no tempo ou no espaço. Como qualquer culto, ordem ou religião viva e ativa, trata-se de um contínuo, uma corrente. Ele muda seu conteúdo porque está vivo, porque é praticado e vivido em vários contextos culturais, sociais e geográficos [...] [e] ele constantemente responde as necessidades de seus leitores. Da costa da Catalunha a Algarve, da Ibéria rural ao nordeste do Brasil, dos terreiros de Quimbanda e finalmente até as cidades, ele é em todo o sentido do termo um livro de magia popular, um livro [de magia] para o povo. [...] Ele vive a margem da sociedade, nas sombras, no limiar entre religiosidade e heresia, virtude e vício. Como o próprio Santo, ele vive naquela linha onde Deus e o Diabo se encontram. [...] Mas como um contínuo, um ponto parece ser constante em suas edições, todas trazem a narrativa faustina.

Fernando de Ligório

Curso de Filosofia Oculta


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