O Caldeirão Mágico da Tradição Cipriânica


Texto do livro O Espírito de São Cipriano:

Em Busca do Berço da Tradição Cipriânica


A maioria dos métodos e técnicas usados pelas bruxas dos tempos antigos tem pouca semelhança com aqueles usados pelas bruxas neopagãs de hoje. Muitas vezes o povo astuto praticava a observância da fé dual e os encantos, amuletos, orações e encantamentos que eles usavam invocavam Jesus, a Virgem Maria, a Trindade e a companhia dos santos. Os salmos eram usados para propósitos mágicos como feitiços e ainda estão em alguns círculos de feitiçaria tradicionais modernos. Com a chegada da nova fé do cristianismo e a supressão das antigas religiões pagãs, objetos como crucifixos, medalhões dos santos, a hóstia e a água benta foram amplamente usados pelos magos populares porque acreditavam possuir «virtude» ou energia mágica e poder de cura inerente. O simbolismo cristão era usado em rituais de magia popular envolvendo proteção psíquica, contra-magia e cura. Muitos dos antigos encantos pagãos foram cristianizados e alguns dos santos assumiram os atributos anteriores de deuses e deusas pagãos. As nascentes sagradas, anteriormente dedicadas às deusas, por exemplo, eram voltadas para a Virgem Maria ou para as mulheres, como Winefrede ou Bride. Os encantos de cura substituíram os nomes das divindades pagãs, como Woden, Loki e Thor, pelos de Deus, de Jesus e do Espírito Santo. Muitos dos grimórios [medievais] usados pelas bruxas e praticantes da magia popular também continham inevitavelmente o simbolismo judaico-cristão.


Algumas bruxas tradicionais modernas ainda seguem a observância da fé dupla usando os salmos para propósitos mágicos, trabalhando com a companhia de santos e empregando imagens cristãs, simbolismo e liturgia, muitas vezes de maneira herética e subversiva. A bruxa neo-pagã fala de maneira que não prejudique ninguém, enquanto que a bruxa tradicional moderna – em comum com as astúcias das bruxas do passado – pode tanto curar quanto amaldiçoar quando surgir a necessidade. Aqui a magia, enquanto cristã, é indubitavelmente autêntica, e não um renascimento romântico. Práticas semelhantes podem ser encontradas no Vodu, Hoodoo, Santeria, Macumba, Ju-ju e Obeah nas Américas e na África. Um modelo católico do universo, incluindo o céu, o purgatório e o submundo, influenciou a aceitação congolesa e o uso do catolicismo em suas práticas mágicas, como Palo Mayombe. É tão útil na necromancia ocidental.[1]


Esse ensaio nasceu da necessidade de contextualizar a prática teúrgica que exploramos anteriormente, a convocação de São Cipriano como uma deidade tutelar. Para compreendermos efetivamente a tradição cipriânica da magia, devemos sondar nas entranhas da Antiguidade suas raízes. Essa busca, por outro lado, esclarece completamente o pano de fundo da magia dos grimórios e demonstra que o exercício da goécia, efetivamente, trata-se de um estilo de vida que contém a herança genuína da tradição da magia. A goécia medieval, especificamente, trata-se de um relicário que guarda o verdadeiro arcano da magia que, se bem fosse compreendido e assimilado por uma legião de ocultistas, a Tradição Ocidental de Mistérios poderia ser completamente restaurada.


O berço da tradição cipriânica da magia é o Séc. IV d.C. quando nasce a história da vida de São Cipriano e Justina. O caldeirão religioso do Séc. IV d.C. herda, no entanto, a tradição hermética de pseudo-Thoth/Hermes do Séc. I d.C.; a magia dos Oráculos Caldeus de Juliano o Teurgo, filho de Juliano o Caldeu e a magia dos Papiros Mágicos Gregos no Séc. II d.C.; a magia copta dos egípcios e a teurgia de Jâmblico no baixo platonismo do Séc. IV d.C. O baixo platonismo, por outro lado, traz a herança dos cultos órficos e da tradição pitagórica.


Neste caldeirão ainda inclui-se a tradição cristã que gradativamente começou a amputar a tradição da magia, proibindo a visão animada do universo, quer dizer, o animismo e suas práticas de comunicação com espíritos (i.e. goécia) na forma de cultos a rios, árvores, pedras, mortos etc. Seja como for, a parte da ortodoxia cristã estabelecida, nasceram diversas formas de cultos mágicos cristãos onde o cristianismo mesclou-se com tradições pagãs diversas. No período colonial brasileiro, por exemplo, nós testemunhamos um fervilhar de tradições crioulas de feitiçaria cristã. O que pouco tem sido compreendido acerca dos grimórios medievais é a consistência da cosmovisão cristã neoplatônica que lhes dá estrutura, o que por si já é uma demonstração efetiva da congruência entre cristianismo e paganismo típica da magia hermética dos papiros, a principal fonte de influência dos grimórios tardios. Então a influência cristã neoplatônica nos grimórios não se trata de um romantismo renascentista, como alguns têm proposto. Na verdade, o cristianismo já estava amplamente entranhado na magia pagã dos papiros. Os grimórios salomônicos preferiram eleger a linguagem mística dos judeus, mas mantiveram uma cosmovisão neoplatônica cristã enquanto propunham uma prática mágica essencialmente grega.


No fim do Séc. IV d.C. o que temos é um fervilhante caldeirão de tradições mágicas de todas as partes da cultura mediterrânea que sedimentou a Tradição Hermética de Mistérios. A magia de São Cipriano nasceu nesse caldeirão como um encantamento da varinha mágica do deus Hermes. Por isso São Cipriano tornou-se o arquétipo do mago hermético dos primeiros séculos da era cristã.


Na tentativa de resgatar as raízes antigas da síntese hermética da magia, muitos grupos pagãos modernos como wiccanos, thelemitas e luciferianos propõem reconstrucionismos que têm pouco ou estão muito distantes das tradições que alimentaram essa síntese da magia antiga. Por exemplo, a reconstrução de Michael W. Ford acerca da magia babilônica é, quem sabe, uma das paródias mais ridículas da história da magia. Ele se baseia em uma fonte jovista moderna onde Marduk é considerado o rei dos deuses. No entanto, a proeminência de Marduk nessa posição é de um período bem anterior a síntese hermética da tradição de mistérios que estamos estudando no Curso de Filosofia Oculta. Nos primeiros séculos da era cristã o deus que agora ocupava essa posição era Zervan, enquanto que Marduk havia sido reduzido a uma deidade planetária. A interação cultural entre babilônios e caldeus nesse período emprestou a Zervan atributos de Ahura-Mazda, transformando-o em uma deidade suprema, típica das muitas que haviam naquele período, entre elas Jeová. Tudo isso se refletia no cânone mágico da Tradição Hermética, os papiros, onde ritos e feitiços chamavam Jeová e Sabaoth ao lado de Rá, Ísis, Osíris e Hermes. Nesse período da história da magia, muitos deuses competiam ao posto de Deus Supremo e essa corrida pelo trono era diretamente refletida nos feitiços e rituais da época. Jake Stratton-Kent faz um resumo dessa corrida e sua influência até os grimórios medievais:[2]


Babilônia (como uma cidade muito antiga) envolve uma série de períodos e reavivamentos; sua religião, claro, era altamente astrológica e seu sacerdócio durou muito tempo e foi influente. As ideias desse sacerdócio evoluíram com o tempo e formaram alianças intelectuais. Assim, naturalmente as ideias sobre os deuses e a base oculta do universo mudaram com o tempo, embora as fases anteriores continuassem a se alimentar e a ser reinterpretadas para se adequarem a concepções posteriores.


[...] À Babilônia foi obviamente conquistada pela Pérsia, cuja religião era o zoroastrismo – do profeta que estava associado com magia na mente grega. Uma seita persa (mais corretamente mediana) conhecida como os Magoi – que provavelmente antecederam Zoroastro – formou outro sacerdócio poderoso. Assim que os sacerdotes e as ideias persas e babilônicos colidiram um com o outro, todo tipo de complexidade e confusão entraram em cena. O deus do pensamento astrológico caldeu no pico era Zervan, um deus do tempo superior aos antigos deuses planetários. Nesse papel, ele era candidato ao Supremo Deus no fermento cultural da época. Além disso, a interação do pensamento persa e caldeu inspirou uma «heresia» zoroastriana em que Zervan, ao invés de Ahura Mazda, era supremo.


[...] Há pelo menos duas versões de Zervan, uma das quais tem atributos de Ahura Mazda. Neste disfarce – como Ahura Mazda – Zervan está além do universo material. Esses [dois] modelos se unem ao Uno dos Platonistas e todos podem alimentar-se de Jeová desde a antiguidade tardia.


O «regular» Zervan – um deus da eternidade, mas dentro do universo criado, e não fora – ainda é uma concepção muito mais elevada de Deus do que Marduk. Neste ponto da história, Marduk é um dos deuses planetários abaixo dessas ideias superiores em qualquer que seja o disfarce. Esses deuses planetários obviamente alimentam nossos anjos e demônios, mas também uma teologia solar ou solunar que alimenta a síntese que era distinta da teologia astrológica fatalista mais comum. Ambas as tendências podem ser detectadas dentro do hermetismo, mas a existência deste último é frequentemente subutilizada. A teologia mais positiva pode se relacionar com a competição anterior entre Júpiter e o Sol em cultos regionais, bem como o «positivismo egípcio». Naturalmente, o antigo deus superior dessas teologias planetárias e solares mais primitivas também alimentou ideias sobre Deus e seu Filho/Demiurgo/Logos. Portanto, os pagãos podem afirmar, e os cristãos negam, que Zeus era outro nome da divindade suprema; enquanto Jesus, Miguel e Apolo tiveram papéis semelhantes em várias cosmologias.


Assim, as ideias de um Deus Supremo podem se basear em uma variedade de modelos quando entram no pensamento ocidental. Isso obviamente inclui os grimórios que se baseiam na síntese de religiões e magias que ocorrem na Antiguidade tardia. Na época dos grimórios podemos chamá-los de Jeová, mas como ele é entendido – e como a magia funciona – pode se parecer com as formas neoplatônica, zoroastrista ou caldeia, ou uma combinação.


[...] Também é relevante que Kronos precede a Chronos etimologicamente, um Zervan caldeu é mais propenso a ter influenciado um deus grego do que a língua grega influenciando um persa. Este pode ser um ponto adequado para mencionar a equivalência de Zervan com outra figura, talvez mais familiar, a chamada divindade gnóstica Aion. Como o deus supremo no Mitraísmo, podemos interpretar seu modelo como zervanista, não tendo divindade transcendental superior em linhas platônicas ou zoroastrista.


Toda a fórmula mágica típica deste caldeirão cultural da Antiguidade tardia no Mediterrâneo possui um ingrediente fundamental: a tradição de magia e filosofia dos caldeus, que influenciou profundamente a era imperial dos primeiros séculos, principalmente os estoicos e os neoplatônicos. Jâmblico (245-325 d.C), um sacerdote sírio profundamente influenciado pelos Oráculos Caldeus, foi sem sombra de dúvidas a maior influência magística de seu tempo até os grimórios da Idade Média e a tradição cipriânica da magia herda dele muitos elementos. A influência teúrgica dos sírios, egípcios e do neoplatonismo hermético e cristão é profunda na magia ritual dos grimórios medievais e isso tem sido deixado de lado por muitos dos ditos eruditos e estudiosos modernos. O aspecto central da profunda influência neoplatônica cristã nos grimórios reside na classificação da hierarquia espiritual que eles apresentam, principalmente nos chefes, reis e comandantes dos espíritos, bem como o extenso arco de milícia celeste. No fim, o que vimos nos grimórios, anjos associados a decanatos e uma extensa classificação espiritual diabólica é um produto de vários ingredientes jogados dentro do caldeirão da magia na Antiguidade tardia.


A história de São Cipriano, os Papiros Mágicos Gregos, os Oráculos Caldeus, a teurgia de Jâmblico e o Testamento de Salomão, que inaugura a magia tradicional salomônica, eram contemporâneos e estavam presentes na primeira grande síntese da magia da Tradição Hermética de Mistérios.


Fernando de Ligório

Curso de Filosofia Oculta



NOTAS:

[1] Jake Stratton-Kent, The Testament of Cyprian the Mage. Scarlet Imprint, 2014. Os colchetes são meus.

[2] Jake Stratton-Kent, The Testament of Cyprian the Mage. Scarlet Imprint, 2014. Os colchetes são meus.



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