Meditação, Oração, Nomes Bárbaros & a Experiência Filosófica



Nota: Este texto foi escrito em 2017 como roteiro para aula direcionada em vídeo aos membros do Colegiado da Luz Hermética.



Na nota que fiz anteriormente sobre Agrippa e enviada aos alunos do Curso de Filosofia Oculta nós estudamos que o escopo total da filosofia de um filósofo[1] não pode ser mensurado por sua obra escrita que, muitas vezes, nem de longe representa a experiência real dele extraída da própria Realidade. Dessa maneira, engana-se aquele que pensa poder acessa a filosofia desse ou daquele filósofo apenas por ler suas obras.[2] Antes disso, é necessário ir no âmago da Realidade e extrair de lá a Gnose que deu vida a obra do filósofo, sua experiência filosófica.


A experiência filosófica que cada filósofo extrai diretamente da Realidade não pode ser transmitida verbalmente ou pela escrita. Qualquer tentativa de oprimir a experiência filosófica em construtos mentais levará a perda quase total de seu verdadeiro significado e natureza. A palavra e a escrita transmitem apenas lampejos da experiência filosófica através de um conjunto de ideias.


Este conjunto de ideias que formulamos e utilizamos para expressar a experiência filosófica, por outro lado, são – na grande maioria das vezes e permanentemente quase sempre – construções culturais e de modo algum poderiam transmitir a verdadeira experiência filosófica, seu conteúdo fundamentalmente substancial. Mas a filosofia tem recursos especiais que possibilitam os filósofos irem da escrita e da fala a Realidade última da experiência filosófica.


Em lições anteriores nós estudamos que a filosofia se trata de um estilo de vida e fundamentalmente de exercícios espirituais sem os quais a semente filosófica não gemina a árvore do conhecimento e da sabedoria. Esses exercícios não perdem em nada daqueles encontrados nas tradições hindu, budista ou sufi, pois embora distintos possam ser no procedimento e técnica, o objetivo é chegar ao mesmo lugar: a Realidade última da experiência filosófica, quando o filósofo passa do individual ao o universal, unindo seu ochēma de luz ao Bem, que é o Uno e o mesmo que a Verdade. Essa é a experiência filosófica transformadora que aproxima a Alma humana do Absoluto, pois é na altitude dos planos superiores de luz e perfeição que se mede a pequenez. Viver junto ao Bem e tomar emprestado suas virtudes constitui o objetivo de um estilo de fida filosófico.


No texto De Sócrates a Patãnjali, nós estudamos que:


O diálogo socrático é um exercício espiritual do yoga ocidental. Ele convida a descoberta de si mesmo, da realidade interior essencial, distanciando o que não somos daquilo que verdadeiramente somos. Isso permanece urgente nos dias de hoje: nós chegamos a um período na história do homem em que a identidade de rótulo obscureceu completamente o conhecimento de nós mesmos. Por identidade de rótulo Patañjali descrevia um poderoso entrave ou perturbação na realização ou exercício do yoga, uma mazela poderosa que afasta o homem de sua verdadeira realidade interior e ele a chamou de abhiniveśaḥ. A prática do yoga oriental opera da mesma maneira que a filosofia ou yoga ocidental, quer dizer, através de uma purificação interior. As impurezas que queremos eliminar são quaisquer crenças, hábitos ou memórias que condicionem o pensamento a percorrer caminhos que não são os nossos, ou seja, que nos façam pensar com a cabeça de outras pessoas. Quando cometemos esse erro, de nos deixarmos guiar pela opinião alheia, nossa capacidade de percepção fica prejudicada por esta perturbação descrita por Patañjali.


O diálogo socrático tem por objetivo desconstruir esse conjunto de ideias ou acúmulo de detritos culturais, essa linguagem cultural ao qual estamos acorrentados no cativeiro do senso comum e politicamente correto. O diálogo socrático é um exercício espiritual que possibilita a transcendência desse acúmulo de detrito cultural e ir direto a Fonte, o Absoluto e de lá absorver da própria realidade a experiência filosófica.


Outra opção oferecida pela filosofia é a meditação, aspecto importante do método filosófico de transformação e integração. A experiência filosófica se revela no silêncio. É no refúgio do silêncio que o filósofo encontra a essência profunda de sua filosofia. Por meditação não entendamos técnica meditativa. Existem inúmeras técnicas cujo objetivo é levar a meditação, que se trata de um momento quando a Alma intelectiva transcende o reino da mentação e penetra nas profundezas da Realidade. Sentar-se por alguns minutos colocando em prática alguma técnica meditativa não significa estar meditando de verdade. As técnicas per si são ótimas ferramentas terapêuticas, pois o seu exercício organiza as forças da mente e equilibra as funções da Alma, colocando o Logoi no comando das Almas animal e emocional,[3] mas ainda sim não se trata da experiência da meditação. É só o tempo, disciplina e prática que poderão levar qualquer filósofo do exercício meditativo a meditação profunda.


Essa disciplina como estudamos no texto A Purificação Filosófica, proporciona o ambiente ideal para o desenvolvimento interior, regrado a purificações, orações, teose e henosis a Alma intelectiva encontra caminho seguro a seu pleno desenvolvimento. Um exercício meditativo fundamental ao desenvolvimento filosófico é um tipo de visualização onde convoca-se através da imaginação os caminhos que levaram um filósofo as suas conclusões. Espera-se que após um tempo de treinamento acessando a fonte da experiência filosófica de muitos filósofos, cada um esteja preparado para acessar a filosofia de sua própria Alma.


O êxtase místico alcançado por meio de orações e invocações é um poderoso acesso a experiência filosófica verdadeira. Na teurgia, orações, hinos e encantamentos são indistintos e eles contêm os nomes bárbaros em sequências de vogais. Quando entoados repetidamente pelo filósofo, eles proporcionam um êxtase místico que pode se revelar em visões ou profecias. Jâmblico dizia que o êxtase místico produzido por um rito teúrgico complementa e vai além da experiência filosófica obtida por meio da meditação.[4]


Na teurgia um símbolo é um portal de acesso direto e capaz de estabelecer uma conexão inefável com a Realidade transcendente por ele representado e essa é a mecânica do talismã.[5] Um talismã no contexto da teurgia trata-se de uma conexão ontológica com aquilo que ele representa, uma conceituação distinta da concepção moderna na qual o talismã é apenas uma representação metafórica daquilo que se pretende representar. Um símbolo (sunthāmata) na teurgia pode ser uma pedra, ervas, ossos, incenso, um encantamento, hino, música, ritual, texto sagrado, oração ou qualquer outro objeto que esteja conectado a uma deidade por simpatia e em amor.[6] Os nomes bárbaros ou voces magicae são poderosos encantamentos considerados um símbolo do divino transcendente na teurgia. Eles são considerados nomes inefáveis ininteligíveis e inexprimíveis no contexto ritual ou inscritos em estatuetas e outros aparatos ritualísticos como talismãs.[7] Jâmblico explica que os nomes bárbaros são nomes secretos dos deuses e por isso eles operam em um nível de realidade supraracional. Alguns exemplos de orações teúrgicas podem ser encontrados nas obras do filósofo neoplatônico Proclo, que habitualmente abria com uma oração como prefácio de suas obras principais. Por exemplo, no início de seu Comentário sobre Parmênides, a oração de Proclo invoca toda a hierarquia celeste, desde os deuses hiper-cósmicos até os anjos, daimones e heróis, solicitando auxílio apropriado de cada hierarquia divina para a recepção da divindade e visão mística de Platão.[8] No De Misteriis, uma das questões centrais levantadas por Porfírio diz respeito a execução e propósitos da oração teúrgica e da invocação religiosa:


Mas as invocações [...] são dirigidas aos deuses como se estivessem sujeitos à influência externa, de modo que não são apenas os daimones sujeitos, mas também os deuses.[9]


Porfírio parece estar apontando para uma crítica popular e contemporânea sobre orações e invocações na Antiguidade: isto é, se os deuses são imutáveis, eternos e não estão sujeitos a paixões, uma posição aceita pela maioria dos filósofos da Antiguidade, qual é o propósito das orações e invocações? Elas pretendem influenciar, compelir ou constringir os deuses? Ora, uma vez que era aceito por qualquer um com treinamento filosófico que Deus ou os deuses não estão sujeitos a paixões, e que a ordem cósmica é (inteiramente ou em grande parte) determinada como um produto da providência de Deus, tornou-se uma questão amplamente debatida se alguém poderia influenciar os deuses ou o curso dos eventos através de orações ou sacrifícios.


Jâmblico responde a este desafio de três maneiras: em primeiro lugar, através de uma discussão sobre o Um da Alma, que é o princípio divino da Alma humana, a semente ou Logoi do Nous plantado no homem. Em segundo lugar, através de uma discussão sobre a assimilação e a semelhança com a deidade, que Jâmblico considera ser o objetivo central do ritual e da invocação. Em terceiro lugar, através de uma discussão sobre a natureza e significado da providência divina, o amor divino e a vontade divina em conexão com o exercício de orações e invocações.


Falar destes três pontos iluminados por Jâmblico está além dos objetivos deste opúsculo de meditação, mas vamos tecer algumas linhas sobre o Um da Alma, que está intimamente relacionado ao papel da providência e da vontade divinas dentro do ritual teúrgico.


Em resposta às perguntas de Porfírio sobre o uso de invocações e se esse uso implica que os deuses estão sujeitos a influências externas, Jâmblico começa sua defesa da teurgia explicando como o ritual teúrgico opera:


Das operações de teurgia realizadas em qualquer ocasião, algumas têm uma causa que é secreta e superior a todas as explicações racionais, outras são como símbolos consagrados desde toda a eternidade aos seres superiores, outras preservam alguma outra imagem, mesmo como a natureza em seu papel generativo imprime [sobre coisas] formas visíveis a partir de razões-princípios invisíveis; outras ainda são realizadas em honra de seus assuntos, ou têm como objetivo algum tipo de assimilação ou estabelecimento de familiaridade.[10]


Embora as invocações religiosas possam parecer coercivas, Jâmblico afirma que o filósofo está sintonizando-se com os deuses, utilizando os símbolos que foram semeados em todo o cosmos pelos próprios deuses. Jâmblico também afirma que alguns ritos teúrgicos visam um tipo de assimilação ou estabelecimento de familiaridade com o divino. O que exatamente isso quer dizer? Mais a frente no De Mysteriis, Jâmblico enfatiza a inerente duplicidade dos rituais, que parece corresponder à dupla natureza da própria Alma humana:


Por um lado, [o ritual] é realizado por homens e, como tal, observa nossa posição natural no universo; mas, por outro lado, [o filósofo] controla os símbolos divinos e, em virtude deles, é elevado à união com os poderes superiores, e dirige-se harmoniosamente de acordo com sua dispensação, o que lhe permite apropriadamente assumir o manto dos deuses. É em virtude desta distinção, portanto, que a arte invoca naturalmente os poderes do universo como superiores, na medida em que o invocador é um homem, e ainda, por outro lado, dá-lhes ordens, uma vez que se investe, em virtude dos símbolos inefáveis, com o papel hierático dos deuses.[11]


Jâmblico afirma que, de uma perspectiva, os rituais teúrgicos são realizados por seres humanos. No entanto, todos os humanos carregam uma semente ou princípio divino dentro de suas Almas. Em seu Comentário sobre o Fedro, Jâmblico se refere a este princípio como o Um da Alma. Se valendo de símbolos divinos, como os nomes bárbaros usados nas invocações, o filósofo ativa este princípio divino da Alma, permitindo-lhe assumir o manto dos deuses e ascender aos reinos de luz e perfeição, ao invés de sugerir que os deuses descem. Assim, a vocalização ritual dos nomes bárbaros funciona como um poderoso ato teúrgico de fala que capacita o filósofo a assumir um papel divino ao ascender, por similaridade e assimilação, ao divino. Os nomes bárbaros, portanto, funcionam como palavras de passe dos mistérios que certificam a aptidão do filósofo a penetrar na Realidade e lá receber Gnose da experiência Filosófica. Quando o filósofo ora e invoca os deuses, ele é capaz fazê-lo por causa do princípio divino em sua Alma que tem o potencial de ser despertado e ativado de modo a tornar-se consciente das constantes iluminações dos deuses. O daimon pessoal, por exemplo, que está em constante contato com este princípio divino da Alma, se aproxima do filósofo em momentos de orações e invocações, quando esse princípio divino é ativado, possibilitando receber suas instruções por meio da intuição, através de visões etc.


Magister Fernando Liguori

Schola Hermetica


NOTAS: [1] Com a palavra filósofo no Colegiado da Luz Hermética nós entendemos um amante da sabedoria que se aproxima de seu objeto de desejo através do aperfeiçoamento da Alma Intelectual (meditação), o aperfeiçoamento da Alma Emocional através da devoção e piedade aos deuses, virtudes, heróis e daimones (teurgia) e o aperfeiçoamento da Alma Animal através da disciplina de um estilo de vida filosófico. [2] Os cursos de filosofia disponíveis nas academias brasileiras têm se limitado a ministrar aulas de pesquisa histórico-filológica e hermenêutica. Essas duas matérias são importantes para uma compreensão da tradição filosófica e para interpretação dos temas fundamentais da filosofia. No entanto, essas duas matérias, filologia e hermenêutica, são membros fundamentais que fazem parte do método filosófico, composto de sete matérias importante para formação filosófica. São elas: Anamnese, meditação, exame dialético, filologia, hermenêutica, exame da consciência e técnica expressiva. Veja Olavo de Carvalho, A Filosofia & seu Inverso (p. 133). No método filosófico adotado no Colegiado da Luz Hermética se inclui a matéria teurgia. [3] Para uma introdução sobre a Alma humana, suas partes e relações, veja Lição 2.1: Teurgia & a Arte do Sacerdócio Magístico. [4] Jâmblico, De Mysteriis, 7, 35-39. [5] Jâmblico, De Mysteriis, 1, 21; 138, 1-5; 210, 11. [6] Jâmblico, De Mysteriis, 5, 23. [7] Jâmblico, De Mysteriis, 7, 4-5; 8, 5. [8] Nos seus comentários sobre a vida de Pitágoras, Jâmblico diz que a oração propicia a graça dos deuses. [9] Jâmblico, De Mysteriis, 1, 12. [10] Jâmblico, De Mysteriis, 1, 11. [11] Jâmblico, De Mysteriis, 4, 2.

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