Goécia: A Importância da «Licença para Partir»

Atualizado: 4 de Set de 2019



Texto retirado da Lição 2 do Curso de Filosofia Oculta: A Síntese Hermética.

Por Fernando de Ligório

Assim como o fechamento de templo é uma etapa importante em uma operação magística, a licença para partir também é fundamental em um ritual de evocação mágica, constituindo a última etapa do método salomônico evocatório. A licença para partir está presente em ritos egípcios arcaicos, nos Papiros Mágicos Greco-Egípcios, no Hygromanteia e nas Clavículas de Salomão até os grimórios tardios e vernaculares da Europa.


A licença para partir é importante por duas razões: a segurança do mago e seus assistentes e para ordenar a entidade que retorne pacificamente quando for novamente convocada. Esta licença também inclui agradecimentos pela presença da entidade, o que reforça uma relação cordial entre as partes, tornando conjurações futuras mais fáceis.


A licença para partir trata-se de uma permissão de retirada, não um banimento como ensinado na magia moderna. Por isso rituais como o Menor do Pentagrama não têm validade alguma aqui. Isso é consistente com a atitude de liberar a entidade de seu agrilhoamento ao invés de expulsá-la do triângulo da arte. Não é coerente prender, evocar e conjurar a entidade e depois bani-la. Caso todos os passos deste método salomônico tenham sido diligentemente empreendidos, então a entidade partirá sem problemas após a licença para partir.


A experiência que agora discorrerei ilustra a importância da licença para partir. Eu estou sempre falando que um dos magos mais proficientes que já tive a oportunidade de conhecer é um amigo de longa data, Alex Elias (Xamã Montanha Vermelha), praticante de xamanismo paleolítico e líder do Instituto Terra Sagrada. Por mais de vinte anos nós realizamos inúmeros rituais juntos e o fazemos até hoje. Mas eu não estava presente neste ritual que aqui irei relatar.


Segundo Alex, após um ritual de evocação do demônio de Marte, Bartzabel, que durou mais de doze horas com pelo menos vinte magistas dentro do círculo mágico, por conta do cansaço coletivo, ele não cumpriu todos os requisitos da licença para partir, querendo finalizar logo a operação. Quando os assistentes e magistas já começam a cair pelo círculo mágico de cansaço, não há muito que se fazer: evocações mágicas exigem força, firmeza de propósito e muito preparo atlético. Ao cansaço soma-se o estado de êxtase que todos se encontravam, pois o sacramento utilizado no ritual foi o Santo Daime.


No fim da operação, Alex que era o oficiante, deixou de completar a licença de partir. Ele conta que Bartzabel destruiu os encanamentos de sua casa, destruindo uma estante de livros medievais de magia e grimórios. No vídeo Goécia & a Arte da Evocação ele conta pessoalmente a história.


Estes são os seis passos do método salomônico que devem ser seguidos com as armadilhas de espírito necessárias como o círculo mágico, triângulo, lâmen consagrado etc.


O texto na íntegra está disponível no livro DAEMONIUM. Trata-se de um jornal de pesquisas sobre a tradição da magia e a Arte dos Magi do Curso de Filosofia Oculta, um seminário on-line permanente na internet ministrado pelo Professor Fernando de Ligório sobre magia na Antiguidade, feitiçaria dos Papiros Mágicos Gregos, Teurgia Neoplatônica com ênfase na Escola de Jâmblico, Magia Tradicional Salomônica e tradição dos grimórios. O jornal abordará também a magia cipriânica, a tradição da magia popular e pajelança cabocla, xamanismo e cabala crioula.

Os magos da magia moderna estão condenados ao fracasso, não por falta de capacidade ou talento, mas por inconsistência do próprio sistema. Aleister Crowley é conhecido como o pai da magia moderna. E muito embora muitos discordem, ele assim o é porque a sua definição de magia influenciou todos os magistas da tradição moderna da magia. Na visão de Crowley a magia se trata das projeções das forças da mente ou como ele nomeia, a vontade para mudar a estrutura da realidade, quer dizer, causar taumaturgia na natureza. Quando ele assim o faz, determina que a magia trata-se de uma ação humana, dependente exclusiva das intenções do mago. No entanto, isso não é magia de fato. Como iremos explorar nos textos selecionados para essa edição, qualquer definição válida de magia envolve o tráfego com criaturas espirituais, espíritos diversos do Corpo de Deus. Isso significa que é por meio dos espíritos de todas as coisas que a magia opera. Estes espíritos, daimones de todos os tipos, foram chamados de demônios na recessão escatológica cristã. Assim, a partir de Aleister Crowley a vontade humana passou a determinar a natureza da magia, não os espíritos ou como postularia Agrippa, as virtudes de todas as coisas.

Então o que Crowley fez foi tentar reinventar a roda ressignificando a magia segundo suas concepções particulares e visão de mundo idealista. Como Papus (1865-1916) já havia definido antes de Crowley, a projeção das forças da mente trata-se de psicurgia, não magia. A escola francesa de magia, da qual os grandes ícones são Eliphas Levi (1810-1875), Papus, Stanislas de Guaita (1861-1897) e Saint-Yves D’alveydre (1842-1909), estabelece uma distinção muito clara entre magia e psicurgia. A escola inglesa, por outro lado, cujos ícones são Aleister Crowley e McGregor Mathers (1854-1918), não estabelece essa distinção, chamando de magia o que na verdade trata-se de psicurgia.

Tanto é verdade que psicurgia não é magia que a magia não precisa das forças da mente do mago para funcionar. Se eu colocar o testemunho (endereço mágico) de alguém (um cliente) sobre um altar consagrado as virtudes de Mercúrio, com sunthēmatas apropriadas a Mercúrio, no dia e hora corretos, isso já é o suficiente para que o cliente possa receber em sua alma as virtudes da medicina planetária de Mercúrio. A mente humana não está envolvida em nada nesse processo. As virtudes mercuriais das sunthēmatas atrairão para alma do cliente, por meio de seu testemunho, as virtudes da energia planetária de Mercúrio. Como bem estabelecido no ensaio Magia & a Intenção Dirigida, presente nesta edição, existe valor fundamental na projeção unidirecionada das forças da mente, mas isso não define de fato a natureza da magia.​


Os primeiros a notarem essa inconsistência no sistema da magia moderna são aqueles ocultistas que se interessam pelos efeitos tangíveis da magia, quer dizer, a taumaturgia ou milagre, não os efeitos psicológicos típicos da psicurgia. Gradativamente estes ocultistas têm migrado das interpretações moderna e pós-moderna da magia, buscando encontrar na magia da Antiguidade ou Idade Média resultados reais do exercício da Arte dos Magi. Lisiewski chama de old school a prática da magia como orientada pelos grimórios medievais. Embora eu não concorde com muitas de suas alegações e às vezes sua postura preconceituosa cristã, seus esforços em demonstrar como a magia dos grimórios é mais eficaz que os sistemas modernos é notável. Nos ensaios que compõem essa edição, grande esforço foi feito para demonstrar que o mago da Antiguidade tinha uma visão muito distinta da magia daquela que os magos de hoje têm.


​É comum acreditar que através dos incontáveis graus de papel das sociedades secretas e ordens modernas é possível aprender magia. Mas essa crença tem se mostrado infundada. Todos os dias ocultistas debandam de fraternidades diversas para frequentarem choupanas de cabala crioula ou encontrarem um mago que de verdade lhes ensine o verdadeiro Arcano da magia. Diferente de sua versão moderna diletante e desorientada, o mago da Antiguidade tinha uma meta muito bem traçada:

  1. Iniciação e desenvolvimento magístico através de estudos, viagens e práticas espirituais. O estudante se prepara para a chegada do mestre.

  2.  O encontro com o mestre, um mago experiente que guiará o estudante, ensinando-lhe o verdadeiro arcano da magia.

  3.  De posse do verdadeiro Arcano da magia, o estudante conjura seu espírito assistente, com o qual estabelece um pacto de amizade.

  4.  Este espírito assistente instrui o estudante, agora um mago, nos segredos ocultos da magia.

  5.  De posse dos segredos ocultos da magia, o mago pode oferecer seus serviços e cobrar por eles.


​Essa edição de 666 páginas compõe-se pelos seguintes ensaios:

Magia: por onde começar? 

Os Livros Ocultos de Moisés                        

O que é Magia?                                                

Magia & a Intenção Dirigida                        

Acessando a Filosofia Oculta de Agrippa 

Magia Astral & Magia Salomônica              

Os Primórdios da Magia: do Xamanismo a Tradição Salomônica #1    

Os Primórdios da Magia: do Xamanismo a Tradição Salomônica #2    

Os Primórdios da Magia: do Xamanismo a Tradição Salomônica #3    

Do Espírito Assistente ao Sagrado Anjo Guardião      

Iniciação & a Doutrina Soteriológica do Paredros        

Teurgia & Goécia                                    

Um Elogio a Magia Tradicional Salomônica  

Magia Tradicional Salomônica & Iniciação   

O Método Salomônico                       

A Teurgia de Jâmblico                        

Aesthesis, Ochēma & Divinação     

Filosofia & Teurgia na Tradição de Mistérios 

Oração, Ritual & Comunicação Espiritual

A Purificação Filosófica                                 

A Hierarquia dos Deuses na Teurgia          

De Sócrates a Patañjali: A Identidade Própria  

Sexualidade Filosófica                                             

Meditação, Oração, Nomes Bárbaros & a Experiência Filosófica       

A Influência Neoplatônica na Tradição Hermética de Mistérios

A Estrutura Ritual da Magia Cerimonial     


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