Goécia: A Constrição dos Demônios

Atualizado: 4 de Set de 2019


Texto retirado da Lição 2 do Curso de Filosofia Oculta: A Síntese Hermética.

Por Fernando de Ligório


A palavra constrição vem do latim constringo que significa confinar ou agrilhoar. Quando for claro ao mago no curso da cerimônia magística que o demônio evocado fez-se presente, ele passará ao próximo passo: a constrição do demônio. O propósito da constrição é garantir que o demônio convocado será confinado no triângulo da arte, tábua de evocação, bola de cristal ou arca de bronze fora do círculo mágico. A arca de bronze também é conhecida como vaso de latão[1] na magia moderna. Originalmente na magia tradicional salomônica a arca de bronze ficava dentro do círculo mágico, não fora, sendo usada para demônios domesticados, quer dizer, que se tornaram espíritos familiares do mago operante. A arca de bronze é utilizada no lugar do triângulo da arte fora do círculo somente se o mago não possuir o triângulo no chão, mas é uma interpretação moderna.


Essas tecnologias mágicas não são idênticas como muitos autores de magia moderna têm ensinado, quer dizer, a fórmula mágica que alimenta a arca de bronze não é a mesma que alimenta o triângulo da arte, a bola de cristal ou a mesa de evocação. Por exemplo, a arca de bronze é usada para tornar os demônios cativos e familiares, já o triângulo da arte serve para colocar o demônio em prontidão, uma atitude interna apropriada a servir e trabalhar sob as ordens do mago. Tecnicamente a arca deve ser utilizada antes do triângulo da arte e isso é algo que você não encontrará nos livros modernos que tratam do assunto, mas está em perfeita harmonia com a visão da feitiçaria dos grimórios. O exemplo abaixo ilustrará de forma mais efetiva:


Imagine que a arca de bronze é um grande curral onde o fazendeiro (mago) coloca os cavalos bravos (daimones) do campo (corpo de Deus) que estavam livres na natureza. O fazendeiro vai lá no ambiente dos cavalos bravos, o campo, e os laça, levando-os a força para dentro do curral. Uma vez dentro do curral, os cavalos bravos são açoitados, amansados, adestrados, treinados e alimentados. Depois que o fazendeiro treinou, adestrou, alimentou e tornou submissos os cavalos do curral, então ele irá selecionar um dentre eles e levará para fora do curral, onde colocará nele uma cela e arreio (o triângulo da arte) e o montará, comando-o a seguir um curso adequado e apropriado aos fins do fazendeiro.


A arca de bronze, portanto, serve para tornar os daimones da natureza que não possuem pactos com os homens submissos ao mago que, através do triângulo da arte, os comandará a fazerem a sua vontade. E é por isso que essa goécia ensinada na magia moderna trata-se só de psicurgia e efetivamente não funciona, é a arte dos tolos. Antes de confinar um demônio no triângulo da arte, ele deve ser preparado dentro da arca de bronze. A arca de bronze é o equivalente a lâmpada para aprisionar os djinns dos mulçumanos ou o baú (caixa preta) da feitiçaria crioula.


O Lemegeton (ou Goécia) ao descrever o 13° demônio, Beleth cujo Anjo Aniquilador é Jazalel, explica o processo de constrição:


[O demônio será] poderoso e terrível em um primeiro momento e terá aparência furiosa enquanto o Exorcista segura com Coragem um bastão de avelã em sua mão, golpeando os quadrantes sul e leste, traçando um triângulo [fora do] Circulo, comandando-o e o obrigando [pelas conjurações e] pelo laço e cargo de espíritos que daqui por diante o acompanharão. E se ele não adentrar no triângulo, pelas ameaças, nem pelo recitar das ligações e os encantos, então se deve rendê-lo em obediência e obriga-lo a vir, através do que é dito no Exorcismo. Contudo deve recebê-lo gentilmente [...].[2]

Embora o método da evocação mágica na magia tradicional salomônica seja hostil, o mago é aconselhado a receber o demônio de forma cortês. Este é o momento em que o demônio é testado para que o mago tenha certeza de que a entidade que ali se apresentou se trata do demônio convocado e não qualquer entidade zombeteira como o ocorrido no caso citado na seção anterior. A averiguação é importante para que o mago siga seguro na operação e não frustrado como John Dee (1527-1608) que se viu enganado por demônios (daimones) que se diziam anjos.


Nos Papiros Mágicos Greco-Egípcios essa etapa da operação chama-se fórmula compulsiva e ela compreende uma miríade de procedimentos distintos usados na intenção de trazer o deus ou daimon a aparição. O procedimento que aparece primeiro nos papiros como técnica coerciva para trazer uma entidade a aparição visível é o corte, quer dizer, sacrifício das partes de um animal que possua equivalência com o daimon ou deus que terá sua imagem pintada no chão ou em um papiro.


Se ele não aparecer, sacrifique o cérebro de um cordeiro preto e no terceiro dia a unha da perna direita traseira, a mais próxima do tornozelo; no quarto [dia], o cérebro de uma íbis; no quinto, desenhe a figura [do carneiro] em um papiro com tinta de mirra, envolva ela em uma peça de roupa de alguém que tenha morrido violentamente e a atire no forno de uma casa de banho.[3]


Alguns papiros trazem a instrução para não jogar no forno, pois é uma ação muito extrema, mas ao contrário, suspender sobre uma lamparina acesa. É possível ver aqui o antecedente medieval de se ameaçar o demônio colocando seu selo dentro de uma caixa de metal com enxofre e assafétida suspensa sobre um braseiro com carvão em chamas (ou em brasa), o que torturará o demônio através de sua calcinação. Como o selo do demônio deverá ser inscrito em um papiro – o que demonstra sua ancestralidade a partir dos Papiros Mágicos Greco-Egípcios – este procedimento pode durar horas.


Se o mago colocar o papiro sobre a lamparina acesa e mesmo assim o daimon ou espírito não aparecer, ele segue jogando no forno de uma casa de banho no quinto dia. Esse procedimento é acompanhado de invocações aos deuses para forçar a aparição do Sem Cabeça (traduzido modernamente como Não Nascido). Outra fórmula compulsiva que acompanha a anterior é a ameaça de que um grandioso deus punirá o daimon calcinado:


Se você me desobedecer e não for até ele [i.e. a pessoa que se deseja contatar ou enviar uma mensagem através da experiência onírica] eu direi ao grande deus e após ele lhe espancar, irá lhe cortar em pedaços e alimentará os cães sarnentos que moram entre os montes de esterco com eles. Por isso, ouça-me agora, imediatamente, rápido. Eu não o ameaçarei novamente! [4]

O grande deus referido neste papiro é Set. A ideia de que o mago pode comandar um deus maior a repreender ou torturar uma entidade menor aparece nos grimórios latinos onde os espíritos são punidos pelo demônio rei e regente dos quadrantes do espaço. Em todo caso, seja na Antiguidade ou Idade Média, o sucesso da operação depende do espírito convocado e agrilhoado reconhecer o poder do mago. No texto que enviei a vocês anteriormente, Um Elogio a Magia Tradicional Salomônica, eu disse que o que confere poder real sobre os demônios é a conduta moral do mago, replicando o que Agrippa já havia ensinado. Neste texto eu contei sobre a experiência que presenciei de um exorcismo mal sucedido onde o possuído disse: Você? Logo você que é o mais pecador de todos acha que tem qualquer autoridade sobre mim?


Como a experiência relatada na seção anterior, essa também aconteceu no Céu das Estrelas em maio de 2006. Tratou-se de um Trabalho de Jovens, quer dizer, um trabalho só para os jovens da igreja, sem a presença dos dois comandantes, Fernando e Rodolfo. O jovem escolhido para comandar o trabalho foi o cunhado de Rodolfo, o Evandro. Eu fiquei na fiscalização do salão e do terreno, o Rodrigo ficou como fiscal de porta. O fiscal de porta é como um guardião, ele fica na porta da igreja. O fiscal de salão e de terreno cuida dos pontos acesos, lava os copos de Santo Daime e fica a disposição do comandante do trabalho.


Neste dia em questão, enquanto eu estava lavando os copos do último despacho de Santo Daime, o fiscal da porta teve de correr do lado de fora para socorrer um irmão que estava endiabrado, o Lele. O trabalho foi em uma noite de Lua Nova e Lele corria para todo lado, pulava e rolava no meio do mato, socava e batia a cabeça no chão. Literalmente ele deu trabalho a noite toda e no fim da sessão, ele ainda estava endiabrado.


Após eu lavar os copos, corri para render o fiscal da porta e lá fiquei, sem nada poder fazer. Enquanto eu estava ali na porta, por um momento o fiscal conseguiu trazer o Lele bem próximo da porta da igreja, quando ele caiu sentado no chão dizendo ao fiscal: Você? Logo você que é o mais pecador de todos acha que tem qualquer autoridade sobre mim? Eu não vou para igreja nada. Após dizer isso ao fiscal, Lele saltou do chão e saiu correndo para dentro do mato, pulou a cerca de trás da igreja e subiu lá para o alto da montanha. Quando o outro fiscal disse ao comandante que o Lele tinha saído correndo da igreja, ele me chamou e disse: Fernando, vai atrás do Lele e traz ele de volta. Eu prontamente saí correndo atrás do Lele.


Ao encontrar o Lele em uma plataforma no alto da montanha, consegui conversar tranquilamente com ele que, hora estava consciente, hora não falava coisa com coisa. Bem lentamente fomos conversando e ele optou por retornar. Nós somos muito amigos e devido a isso ele manteve-se controlado.


Eu consegui trazê-lo para igreja. No entanto, ele permaneceu atrapalhando o trabalho, interrompendo os hinos, pedindo outros hinos. Tivemos de lidar com ele até o fim da sessão dando problemas. Ele não foi levado ao cruzeiro e nem tomou Santo Daime de cura. O comandante preferiu deixa-lo na fila entre os irmãos. Será que se o comando da casa estivesse ali ele teria passado por tudo aquilo? Eu refleti que não, conhecendo o Lele, que esperava o tempo certo, quer dizer, quando a casa se encontrasse sem autoridade espiritual do comando para exorcizar, ele mesmo, os demônios que lhe acompanham e lhe açoitam.


NOTAS:

[1] O bronze é uma liga de cobre, estanho, chumbo e zinco. O latão é apenas cobre e zinco. Magicamente, o bronze oferece a constrição saturnina (por causa do chumbo), o que o latão não oferece. É por isso que na Arte da Alquimia o latão é considerado o bronze dos pobres. O efeito mágico do bronze é infinitamente superior ao efeito do latão. Quando avaliamos as tabelas de proporção dessas ligas metálicas, notamos que as razões matemáticas do bronze são mais adequadas que o latão para arte da magia. O latão por sua vez tem razões matemáticas imprecisas e não produz razões áureas, dessa maneira, gera espíritos de segunda grandeza, quer dizer, forças essencialmente cegas.

[2] The Goetia of Dr. Rudd editado por Stephen Skinner & David Rakine, p. 115.

[3] PGM II. 44-52.

[4] PGM XII. 141-43.



O texto na íntegra está disponível no livro DAEMONIUM. Trata-se de um jornal de pesquisas sobre a tradição da magia e a Arte dos Magi do Curso de Filosofia Oculta, um seminário on-line permanente na internet ministrado pelo Professor Fernando de Ligório sobre magia na Antiguidade, feitiçaria dos Papiros Mágicos Gregos, Teurgia Neoplatônica com ênfase na Escola de Jâmblico, Magia Tradicional Salomônica e tradição dos grimórios. O jornal abordará também a magia cipriânica, a tradição da magia popular e pajelança cabocla, xamanismo e cabala crioula.


Os magos da magia moderna estão condenados ao fracasso, não por falta de capacidade ou talento, mas por inconsistência do próprio sistema. Aleister Crowley é conhecido como o pai da magia moderna. E muito embora muitos discordem, ele assim o é porque a sua definição de magia influenciou todos os magistas da tradição moderna da magia. Na visão de Crowley a magia se trata das projeções das forças da mente ou como ele nomeia, a vontade para mudar a estrutura da realidade, quer dizer, causar taumaturgia na natureza. Quando ele assim o faz, determina que a magia trata-se de uma ação humana, dependente exclusiva das intenções do mago. No entanto, isso não é magia de fato. Como iremos explorar nos textos selecionados para essa edição, qualquer definição válida de magia envolve o tráfego com criaturas espirituais, espíritos diversos do Corpo de Deus. Isso significa que é por meio dos espíritos de todas as coisas que a magia opera. Estes espíritos, daimones de todos os tipos, foram chamados de demônios na recessão escatológica cristã. Assim, a partir de Aleister Crowley a vontade humana passou a determinar a natureza da magia, não os espíritos ou como postularia Agrippa, as virtudes de todas as coisas.


Então o que Crowley fez foi tentar reinventar a roda ressignificando a magia segundo suas concepções particulares e visão de mundo idealista. Como Papus (1865-1916) já havia definido antes de Crowley, a projeção das forças da mente trata-se de psicurgia, não magia. A escola francesa de magia, da qual os grandes ícones são Eliphas Levi (1810-1875), Papus, Stanislas de Guaita (1861-1897) e Saint-Yves D’alveydre (1842-1909), estabelece uma distinção muito clara entre magia e psicurgia. A escola inglesa, por outro lado, cujos ícones são Aleister Crowley e McGregor Mathers (1854-1918), não estabelece essa distinção, chamando de magia o que na verdade trata-se de psicurgia.


Tanto é verdade que psicurgia não é magia que a magia não precisa das forças da mente do mago para funcionar. Se eu colocar o testemunho (endereço mágico) de alguém (um cliente) sobre um altar consagrado as virtudes de Mercúrio, com sunthēmatas apropriadas a Mercúrio, no dia e hora corretos, isso já é o suficiente para que o cliente possa receber em sua alma as virtudes da medicina planetária de Mercúrio. A mente humana não está envolvida em nada nesse processo. As virtudes mercuriais das sunthēmatas atrairão para alma do cliente, por meio de seu testemunho, as virtudes da energia planetária de Mercúrio. Como bem estabelecido no ensaio Magia & a Intenção Dirigida, presente nesta edição, existe valor fundamental na projeção unidirecionada das forças da mente, mas isso não define de fato a natureza da magia.​


Os primeiros a notarem essa inconsistência no sistema da magia moderna são aqueles ocultistas que se interessam pelos efeitos tangíveis da magia, quer dizer, a taumaturgia ou milagre, não os efeitos psicológicos típicos da psicurgia. Gradativamente estes ocultistas têm migrado das interpretações moderna e pós-moderna da magia, buscando encontrar na magia da Antiguidade ou Idade Média resultados reais do exercício da Arte dos Magi. Lisiewski chama de old school a prática da magia como orientada pelos grimórios medievais. Embora eu não concorde com muitas de suas alegações e às vezes sua postura preconceituosa cristã, seus esforços em demonstrar como a magia dos grimórios é mais eficaz que os sistemas modernos é notável. Nos ensaios que compõem essa edição, grande esforço foi feito para demonstrar que o mago da Antiguidade tinha uma visão muito distinta da magia daquela que os magos de hoje têm.


​É comum acreditar que através dos incontáveis graus de papel das sociedades secretas e ordens modernas é possível aprender magia. Mas essa crença tem se mostrado infundada. Todos os dias ocultistas debandam de fraternidades diversas para frequentarem choupanas de cabala crioula ou encontrarem um mago que de verdade lhes ensine o verdadeiro Arcano da magia. Diferente de sua versão moderna diletante e desorientada, o mago da Antiguidade tinha uma meta muito bem traçada:


  1. Iniciação e desenvolvimento magístico através de estudos, viagens e práticas espirituais. O estudante se prepara para a chegada do mestre.

  2.  O encontro com o mestre, um mago experiente que guiará o estudante, ensinando-lhe o verdadeiro arcano da magia.

  3.  De posse do verdadeiro Arcano da magia, o estudante conjura seu espírito assistente, com o qual estabelece um pacto de amizade.

  4.  Este espírito assistente instrui o estudante, agora um mago, nos segredos ocultos da magia.

  5.  De posse dos segredos ocultos da magia, o mago pode oferecer seus serviços e cobrar por eles.


​Essa edição de 666 páginas compõe-se pelos seguintes ensaios:


Magia: por onde começar? 

Os Livros Ocultos de Moisés                        

O que é Magia?                                                

Magia & a Intenção Dirigida                        

Acessando a Filosofia Oculta de Agrippa 

Magia Astral & Magia Salomônica              

Os Primórdios da Magia: do Xamanismo a Tradição Salomônica #1    

Os Primórdios da Magia: do Xamanismo a Tradição Salomônica #2    

Os Primórdios da Magia: do Xamanismo a Tradição Salomônica #3    

Do Espírito Assistente ao Sagrado Anjo Guardião      

Iniciação & a Doutrina Soteriológica do Paredros        

Teurgia & Goécia                                    

Um Elogio a Magia Tradicional Salomônica  

Magia Tradicional Salomônica & Iniciação   

O Método Salomônico                       

A Teurgia de Jâmblico                        

Aesthesis, Ochēma & Divinação     

Filosofia & Teurgia na Tradição de Mistérios 

Oração, Ritual & Comunicação Espiritual

A Purificação Filosófica                                 

A Hierarquia dos Deuses na Teurgia          

De Sócrates a Patañjali: A Identidade Própria  

Sexualidade Filosófica                                             

Meditação, Oração, Nomes Bárbaros & a Experiência Filosófica       

A Influência Neoplatônica na Tradição Hermética de Mistérios

A Estrutura Ritual da Magia Cerimonial     

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