Evocação Mágica

Atualizado: 4 de Set de 2019



Texto retirado da Lição 2 do Curso de Filosofia Oculta: A Síntese Hermética.

Por Fernando de Ligório

Na magia tradicional salomônica o termo evocação tem um significado distinto daquele difundido pela magia moderna. A evocação como compreendida pelos modernistas trata-se de projetar para fora, geralmente para dentro de um triângulo mágico, um demônio da mente inconsciente. O paradigma moderno da magia como estabelecido por alguns membros da Ordem Hermética da Aurora Dourada ou por sua verdadeira representante, a Astrum Argentum fundada por Aleister Crowley (1875-1947) a partir dos escombros da velha e destruída ordem, ensina que os demônios do Lemegeton são partes da mente inconsciente.[1] A magia tradicional salomônica, por outro lado, segue a visão animista apresentada nos grimórios medievais. Como temos estudado neste curso, a prática da magia na Antiguidade e Idade Média exige uma consciência daemonica, quer dizer, a crença na existência de criaturas espirituais separadas da consciência humana, entidades do corpo de Deus. Sem isso a prática da magia tradicional salomônica trata-se de uma impossibilidade.


No contexto dos grimórios, a evocação é o elemento central da operação magística. A palavra evocação vem do latim evoco que significa chamar ou convocar as entidades do corpo de Deus de maneira agressiva, usando ameaças ao invés de adulação e barganha ou bondade e caridade.[2] Uma operação magística evocatória, portanto, consiste na utilização de tecnologias mágicas e armadilhas de espírito que separam o mago do demônio convocado devido à criação da virtude da hostilidade por meio das ameaças mágicas. Essa é uma influência nitidamente católica devido a cosmovisão dos grimórios medievais, todos produzidos pela elite intelectual da Idade Média, quer dizer, os padres da Igreja Católica.


A barreira principal erigida entre o mago e o demônio é o círculo mágico, central em todas as operações de magia tradicional salomônica. O Hygromanteia, ancestral direto das Chaves de Salomão, esboça pelo menos dois tipos de operação evocatória.


Esse tema traz a mente uma experiência pessoal que ocorreu por volta de 2013 no Céu das Estrelas, Igreja do Santo Daime e representante regional lá na cidade de Juiz de Fora, Minas Gerais. Depois de uma sessão de concentração, alguns dias antes do Trabalho do Dia das Mães, lá pelas tantas da meia noite, o comandante da igreja, Fernando Ribeiro, toca meu ombro esquerdo e diz: Fernando, estão te chamando aqui no quartinho. Ele se referia ao quartinho de cura que ficava atrás da biqueira do Daime, o altar onde o sacramento era despachado nas sessões.


Prontamente o acompanhei até o quartinho de cura. Quando lá cheguei havia um irmão, o Bibim com nós o chamávamos, arqueado como um exu pagão, quer dizer, da porteira para fora, que me disse logo que entrei: Então, você não gosta do demônio? Tô aqui. Diante dele me prontifiquei com pé esquerdo à frente, acionando o hemisfério direito do cérebro, aquele que realmente faz magia e tem o poder do conjuro. Coloquei a mão esquerda sobre a estrela consagrada da doutrina, no lado direito de meu peito. Estendi a mão direita à frente, na direção dos olhos da entidade. Os dedos polegar, indicador e médio unidos enquanto que os dedos anular e mindinho encostados na palma da mão. Este é o símbolo cristão do fogo do Espírito Santo, utilizado em batismos, unções, bendições, consagrações, conjurações e exorcismos. Ao me prontificar disse: Em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo e do Eterno Pai Celestial nas alturas e da Santíssima Mãe de Deus, qual é o teu nome? A entidade cabisbaixa relutou e esperneou dizendo: Meu nome é Zé! Então retruquei: Zé? Povo de Rua? A entidade resmungou e resmungou sem nenhuma lógica. Logo identifiquei que se tratava de uma entidade zombeteira, pois não conseguia raciocinar as minhas perguntas. Eu perguntava: Quanto é dois mais dois? Ela respondia resmungando e nada dizia. A entidade mal sabia falar. Quem te mandou aqui? Com que autoridade você se apresenta? Essas eram perguntas que a entidade não sabia responder.


Eu optei por fazer algo muito distinto da doutrina do Santo Daime. Nessas circunstâncias a orientação da doutrina é tratar com carinho, doutrinar e curar. Essa cura o próprio Santo Daime é quem dá. Após a doutrinação da entidade o fiscal ou comandante lhe dá uma dose de Santo Daime, que cristifica e cura a entidade, seja zombeteira, demônio etc. No entanto, em minhas veias correm sangue de mago, optando por exorcizar a entidade zombeteira. Isso foi desonroso ao método da casa, como depois me avaliou o comandante, infelizmente.


Ao perceber que ali estava uma entidade zombeteira, me prontifiquei a conjurar após fazer o Sinal da Cruz na face dele: Senhor Jesus Cristo, Palavra de Deus Pai, Deus de toda criatura que destes aos vossos apóstolos o poder de subjugar os demônios e inimigos hostis de seus servos. Em nome do deus Santo e de sua Palavra Nosso Senhor Jesus Cristo, vá-te daqui demônio. Eu repeti exaustivamente esse exorcismo junto ao Salmo 90Sob a Proteção do Altíssimo. Por fim, o irmão da casa se viu livre da entidade zombeteira quando lhe impus ambas as mãos e roguei: Senhor, nosso refúgio e proteção, livrai o vosso servo das prezas do demônio, dos laços do ardiloso, protegei-o nas sombras de vossas santas asas divinas lhe enviando São Miguel e São Gabriel para defender-lhe.


Após o ocorrido o comandante da casa me repreendeu severamente, dizendo que não é daquela maneira que ali se lidava com este tipo de possessão. Eu pedi desculpas dizendo que de onde eu venho, esse tipo de entidade nós sentamos a espada na cabeça. O comandante disse: Aqui não! Aqui nós tratamos os espíritos com «bondade e caridade».


A evocação mágica na magia tradicional salomônica remonta aos Papiros Mágicos Greco-Egípcios e trata-se de uma operação magística cuja finalidade é convocar e imprecar um demônio a sua aparição visível. A tecnologia espiritual da evocação de um demônio é, portanto, violenta e hostil. Ela não está interessada em projetar demônios da mente inconsciente, mas convocar a aparição entidades do corpo de Deus. A principal armadilha de espírito para evocação de um demônio é o triângulo mágico, presente tanto na magia egípcia quanto na magia greco-romana. Pessoalmente, eu melhorei a tecnologia do triângulo ao incluir o cabo de aço e água na evocação de um demônio.


NOTAS:


[1] Tecnicamente Crowley diz que os demônios do Lemegeton são partes do cérebro, fazendo entender que se tratava de entidades internas, pessoais. Crowley não descarta entidades objetivas do corpo de Deus e isso ele demonstrou por volta de 1929 quando produziu seus aforismos sobre magia, tendo ainda confirmado em palavras claras no fim da vida a existência de entidades objetivas. Veja Aleister Crowley: Goetia, Magia em Teoria & Prática e Magia sem Lágrimas. A partir do Iluminismo Científico de Crowley, a magia tornou-se cada vez mais psicológica. Veja Natural Occultism de Frater IAO131.


[2] Adulação e barganha é o método dos feiticeiros como praticado nas choupanas de Cabala Crioula, especificamente a kimbanda. Bondade e caridade como praticado nos centros espíritas e ecléticos como a tradição do Santo Daime por exemplo.



O texto na íntegra está disponível no livro DAEMONIUM. Trata-se de um jornal de pesquisas sobre a tradição da magia e a Arte dos Magi do Curso de Filosofia Oculta, um seminário on-line permanente na internet ministrado pelo Professor Fernando de Ligório sobre magia na Antiguidade, feitiçaria dos Papiros Mágicos Gregos, Teurgia Neoplatônica com ênfase na Escola de Jâmblico, Magia Tradicional Salomônica e tradição dos grimórios. O jornal abordará também a magia cipriânica, a tradição da magia popular e pajelança cabocla, xamanismo e cabala crioula.


Os magos da magia moderna estão condenados ao fracasso, não por falta de capacidade ou talento, mas por inconsistência do próprio sistema. Aleister Crowley é conhecido como o pai da magia moderna. E muito embora muitos discordem, ele assim o é porque a sua definição de magia influenciou todos os magistas da tradição moderna da magia. Na visão de Crowley a magia se trata das projeções das forças da mente ou como ele nomeia, a vontade para mudar a estrutura da realidade, quer dizer, causar taumaturgia na natureza. Quando ele assim o faz, determina que a magia trata-se de uma ação humana, dependente exclusiva das intenções do mago. No entanto, isso não é magia de fato. Como iremos explorar nos textos selecionados para essa edição, qualquer definição válida de magia envolve o tráfego com criaturas espirituais, espíritos diversos do Corpo de Deus. Isso significa que é por meio dos espíritos de todas as coisas que a magia opera. Estes espíritos, daimones de todos os tipos, foram chamados de demônios na recessão escatológica cristã. Assim, a partir de Aleister Crowley a vontade humana passou a determinar a natureza da magia, não os espíritos ou como postularia Agrippa, as virtudes de todas as coisas.


Então o que Crowley fez foi tentar reinventar a roda ressignificando a magia segundo suas concepções particulares e visão de mundo idealista. Como Papus (1865-1916) já havia definido antes de Crowley, a projeção das forças da mente trata-se de psicurgia, não magia. A escola francesa de magia, da qual os grandes ícones são Eliphas Levi (1810-1875), Papus, Stanislas de Guaita (1861-1897) e Saint-Yves D’alveydre (1842-1909), estabelece uma distinção muito clara entre magia e psicurgia. A escola inglesa, por outro lado, cujos ícones são Aleister Crowley e McGregor Mathers (1854-1918), não estabelece essa distinção, chamando de magia o que na verdade trata-se de psicurgia.


Tanto é verdade que psicurgia não é magia que a magia não precisa das forças da mente do mago para funcionar. Se eu colocar o testemunho (endereço mágico) de alguém (um cliente) sobre um altar consagrado as virtudes de Mercúrio, com sunthēmatas apropriadas a Mercúrio, no dia e hora corretos, isso já é o suficiente para que o cliente possa receber em sua alma as virtudes da medicina planetária de Mercúrio. A mente humana não está envolvida em nada nesse processo. As virtudes mercuriais das sunthēmatas atrairão para alma do cliente, por meio de seu testemunho, as virtudes da energia planetária de Mercúrio. Como bem estabelecido no ensaio Magia & a Intenção Dirigida, presente nesta edição, existe valor fundamental na projeção unidirecionada das forças da mente, mas isso não define de fato a natureza da magia.​


Os primeiros a notarem essa inconsistência no sistema da magia moderna são aqueles ocultistas que se interessam pelos efeitos tangíveis da magia, quer dizer, a taumaturgia ou milagre, não os efeitos psicológicos típicos da psicurgia. Gradativamente estes ocultistas têm migrado das interpretações moderna e pós-moderna da magia, buscando encontrar na magia da Antiguidade ou Idade Média resultados reais do exercício da Arte dos Magi. Lisiewski chama de old school a prática da magia como orientada pelos grimórios medievais. Embora eu não concorde com muitas de suas alegações e às vezes sua postura preconceituosa cristã, seus esforços em demonstrar como a magia dos grimórios é mais eficaz que os sistemas modernos é notável. Nos ensaios que compõem essa edição, grande esforço foi feito para demonstrar que o mago da Antiguidade tinha uma visão muito distinta da magia daquela que os magos de hoje têm.


​É comum acreditar que através dos incontáveis graus de papel das sociedades secretas e ordens modernas é possível aprender magia. Mas essa crença tem se mostrado infundada. Todos os dias ocultistas debandam de fraternidades diversas para frequentarem choupanas de cabala crioula ou encontrarem um mago que de verdade lhes ensine o verdadeiro Arcano da magia. Diferente de sua versão moderna diletante e desorientada, o mago da Antiguidade tinha uma meta muito bem traçada:


  1. Iniciação e desenvolvimento magístico através de estudos, viagens e práticas espirituais. O estudante se prepara para a chegada do mestre.

  2.  O encontro com o mestre, um mago experiente que guiará o estudante, ensinando-lhe o verdadeiro arcano da magia.

  3.  De posse do verdadeiro Arcano da magia, o estudante conjura seu espírito assistente, com o qual estabelece um pacto de amizade.

  4.  Este espírito assistente instrui o estudante, agora um mago, nos segredos ocultos da magia.

  5.  De posse dos segredos ocultos da magia, o mago pode oferecer seus serviços e cobrar por eles.


​Essa edição de 666 páginas compõe-se pelos seguintes ensaios:


Magia: por onde começar? 

Os Livros Ocultos de Moisés                        

O que é Magia?                                                

Magia & a Intenção Dirigida                        

Acessando a Filosofia Oculta de Agrippa 

Magia Astral & Magia Salomônica              

Os Primórdios da Magia: do Xamanismo a Tradição Salomônica #1    

Os Primórdios da Magia: do Xamanismo a Tradição Salomônica #2    

Os Primórdios da Magia: do Xamanismo a Tradição Salomônica #3    

Do Espírito Assistente ao Sagrado Anjo Guardião      

Iniciação & a Doutrina Soteriológica do Paredros        

Teurgia & Goécia                                    

Um Elogio a Magia Tradicional Salomônica  

Magia Tradicional Salomônica & Iniciação   

O Método Salomônico                       

A Teurgia de Jâmblico                        

Aesthesis, Ochēma & Divinação     

Filosofia & Teurgia na Tradição de Mistérios 

Oração, Ritual & Comunicação Espiritual

A Purificação Filosófica                                 

A Hierarquia dos Deuses na Teurgia          

De Sócrates a Patañjali: A Identidade Própria  

Sexualidade Filosófica                                             

Meditação, Oração, Nomes Bárbaros & a Experiência Filosófica       

A Influência Neoplatônica na Tradição Hermética de Mistérios

A Estrutura Ritual da Magia Cerimonial     


COMPRE aqui.

382 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo