Estatuetas Animadas

Atualizado: 18 de Jan de 2020

Texto do livro em preparo O Espírito de São Cipriano.



Em O Espírito de São Cipriano é discutida a consagração da estatueta de São Cipriano para assentar o Santo Feiticeiro como deidade tutelar. Como o livro aborda uma íntima conexão da magia cipriânica com a teurgia de Jâmblico, uma discussão sobre estatuetas animadas como compreendida nessa tradição foi inserida. O texto segue:


Tendo compreendido o que é o veículo pneumático, que se trata do veículo através do qual é possível deificar a alma, o veículo através do qual nos alimentamos dos códigos de luz dos deuses e também dos espíritos de todas as coisas, podemos seguir adiante.


Siga essa trajetória: se tudo no reino da geração está vivo, se todas as coisas, inanimadas ou animadas têm alma, isso significa que tudo também tem um veículo pneumático. Como vimos acima, homens, daimones e deuses possuem veículo pneumático. Na verdade, o que é correto dizer é que tudo o que existe no reino da geração possui um veículo pneumático, pois o que sustenta a vida ou conexão da alma/espírito com o reino da geração é o veículo pneumático. Sem a presença do veículo pneumático deuses, daimones e heróis não podem afetar o reino da geração e as almas dos homens não podem se elevar aos planos de luz e perfeição através da teurgia. E muito embora homens, daimones e deuses possuam este veículo pneumático, em cada um deles sua qualidade será distinta. Como o homem está na posição mais inferior de uma cadeia ontológica de precessão espiritual, seu veículo pneumático precisa ser purificado para receber os códigos de luz dos deuses. Não há nada que afete a natureza do veículo pneumático, mas seu entorno afeta sua qualidade. É a qualidade de seu veículo pneumático que o teurgo quer mudar para deificação apropriada de sua alma.


São Cipriano como alma deificada possui um veículo pneumático também, através do qual ele influencia a alma de seus fieis devotos. Para assentar o veículo pneumático do Santo, será necessário uma estatueta animada dele. Para compreender a ideia de estatueta animada lembre-se que o homem possui um pé no reino da geração e outro pé no reino espiritual, quer dizer, seus pés estão cravados na terra e sua cabeça acima das nuvens, no Reino do Nous. É isso que nos faz deuses e homens (ou semideuses). Da mesma maneira, talismãs e estatuetas consagradas são elementos (ou sunthēmatas) físicos (intermediários) que possuem contrapartes espirituais. O que o mago faz é conectar estas duas partes, a material e a espiritual através de um rito de consagração onde ele envelopa, para usar um termo de Jâmblico, a estatueta com o veículo pneumático da deidade. Agrippa agrega dizendo que: Mas saiba que estas imagens não servem de nada a menos que elas sejam vivificadas seja por virtudes naturais, ou celestiais, ou heroicas, ou animistas, ou demoníacas, ou angelicais.[1] Através do ritual de consagração o mago cria uma simpatia que opera através da Alma do Mundo entre o veículo pneumático da estatueta e o veículo pneumático da deidade. Da mesma maneira que um teurgo se veste com o manto dos deuses, quer dizer, tem seu veículo pneumático envelopado pelo veículo pneumático dos deuses, através do rito de consagração é possível fazer o mesmo com um talismã ou estatueta, tornando-a animada com o veículo pneumático de uma deidade. É este veículo pneumático da deidade no talismã ou estatueta animada que afetará o veículo pneumático do mago. Dessa maneira, uma estátua animada de São Cipriano se torna um portal de acesso ao Espírito de São Cipriano, porque está em contato direto com o Santo por meio de seu veículo pneumático.


Uma estatueta animada é, portanto, um tipo de agalma, porque também funciona como uma lanterna astral para o mago. Um tipo porque um talismã é criado a partir de sunthēmatas noéticas, naturais e intermediárias para cumprir uma função específica, determinada pelo mago. Quer dizer, um talismã está estritamente conectado a demiurgia do mago. Uma estatueta animada de uma deidade (deus, daimon etc.) está conectada a demiurgia da deidade, que a alimenta ou a envelopa com seu ochēma-pneuma. Após consagrada a estatueta é uma agalma-empsychon, quer dizer, animada pela presença do pneuma (espírito) da deidade.


Uma pergunta que poderia lhe ocorrer agora: qual o motivo fundamental de se usar uma estatueta animada nos trabalhos de magia? Da mesma maneira que sistemas e cosmovisões são construídos para facilitar o acesso ou a manipulação de certas energias (espíritos) que fora de uma sistematização são consideradas brutas e violentas, a arte teléstica das imagens facilitam a indução da inspiração divina ou possessão mediúnica. A possessão mediúnica está presente na teurgia e na feitiçaria para fins de divinação e de magia. Juliano o Filósofo (330-363 d.C.)[2] dizia que mesmo os deuses materiais (o Sol, a Lua, os planetas etc.) não podem ser venerados adequadamente através de suas formas naturais-transcendentes; para tal, um tipo peculiar de corpo teléstico é criado pelos homens. Para teurgos e feiticeiros que operam com estatuetas animadas, elas são uma poderosa ferramenta de conexão com a deidade que representam, facilitando o transe mediúnico ou possessão divina.


Uma estatueta animada trata-se de um eikon (imagem verdadeira ou superior) de uma realidade transcendente, portanto, uma representação apropriada e que permite acesso a própria realidade transcendente. No ritual de consagração de uma estatueta, o teurgo alinha sua demiurgia pessoal com a do próprio Demiurgo que cria o universo como um agalma para os deuses. Contra o uso da estatueta animada, inúmeros foram seus opositores, dizendo que tais obras de arte nada são além de um eidolon, quer dizer, um pálido reflexo da realidade transcendente que pretende representar. Mas é para que a estatueta como um eidolon se torne um eikon que o ritual de consagração serve. Através do uso dos nomes bárbaros e procedimentos ritualísticos de consagração que incluem purificação, fumigação e invocação a estatueta se torna uma imagem verdadeira da realidade que pretende representar. Geralmente, dentro, abaixo ou no entorno da estatueta são colocados sunthēmatas apropriados como talismãs da deidade que ela representa, o que aumenta seu poder magnético.


Fernando de Ligório

Curso de Filosofia Oculta


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NOTAS:

[1] Cornélio Agripa, Três Livros de Filosofia Oculta, Madras, 1999.

[2] Veja Lição 2.

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