Em Defesa da Imagem: os Símbolos na Teurgia




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A Teurgia Clássica Neoplatônica tem sido associada a espiritualidade transmitida pelos Oráculos Caldeus, tanto no sentido cosmológico como soteriológico. Essa é uma discussão que ainda está em aberto. Alguns estudiosos têm argumentado que a Teurgia Clássica é apenas a versão helênica de um conjunto de práticas mágicas e místicas de várias tradições espirituais que floresceram no Oriente Médio e Egito. Uma versão teúrgica de várias ideologias de realeza que propunham o Estado como um espelho do cosmos.[1] Estas tradições espirituais e suas tecnologias místicas e mágicas que propunham uma harmonia entre todas as partes da Alma humana e o continuum do cosmos, quer dizer, a teurgia propriamente dita, se transformou e sobreviveu como um mecanismo de aperfeiçoamento – ou enriquecimento – da Alma e seu processo de salvação, tema sobre o qual toda tradição Platônica se debruça.


Nesse caminho, a Teurgia Clássica Neoplatônica cujo expoente mais destacado é Jâmblico (245-325 d.C.) seria a helenização de uma tradição metafísica comum de renascimento e imortalidade solar compartilhado, por exemplo, pelos pitagóricos, órficos, dionisíacos, caldeus, babilônios, egípcios e no Extremo Oriente, védicos.


Dito isso, faz sentido olhar a theourgia não em um sentido Neoplatônico apenas, que leva em consideração o neologismo cunhado no Séc. III d.C. a partir dos Oráculos Caldeus, mas de maneira mais simples, como a obra dos deuses (theon erga) e a teofania que essa obra implica. Assim temos teurgia como:


  1. O poder divino mágico e criativo que sustenta e permeia tudo o que existe: os mundos material, psíquico e espiritual. Como veremos abaixo, o teurgo que se coloca a praticar a obra dos deuses não a inicia ou a finaliza, pois isso não compete sua individualidade finita ou posição no cosmos como Alma encarnada na matéria. Ele apenas torna-se um agente da demiurgia do próprio Demiurgo na obra dos deuses.

  2. Toda metaestrutura eidética do cosmos-estado e seu raciocínio de realeza ontogenética e escatológica, suportado por mitos soteriológicos ritualizados que seguem os ritmos diários do cosmos.


Para que os dois pontos acima sejam aceitos como válidos, deve haver uma cosmovisão que os respalde. E ela existe: espírito e matéria se entrelaçam dentro de uma mesma substância. Essa cosmovisão subjaz a própria hierofania dos deuses no mundo e, portanto, sustenta que não existe diferença entre os deuses e suas imagens (estatuetas, símbolos ou ídolos, estações do ano, paisagens, templos, árvores ou seres humanos como dramatis personae). Quando elas são utilizadas como veículos para invocar o nome ou a essência da substância dos deuses, tornam-se animadas, quer dizer, magicamente transformadas de uma mera imagem material em um ídolo magnetizado ou infundido com a substância noética que ele representa. A matéria é a manifestação da Luz noética que soa e provê vida; dito de outra forma, o – ou no – mundo a luz noética vibra e permeia em todas as coisas, animando tudo com vida e substância espiritual. As imagens (sinthemāta) sagradas, dessa forma, são veículos da presença do divino.


Em De Mysteriis, fica nítido o apelo que Jâmblico faz aos mistérios do Egito. Neste ensaio, o qual responde inúmeras indagações e postulados acerca da teurgia feitos por seu professor, Porfírio (cerca de 234-304 d.C.), Jâmblico sustenta a visão Platônica de que a teologia egípcia é teúrgica pelo fato de imitar a engenharia dos cosmos e a energia criativa dos deuses como agentes ou vetores de força da grande engrenagem do Universo. Na teologia egípcia, uma ação que esteja em ressonância direta com o cosmos é uma ação ritualística, quer dizer, uma ação executada liturgicamente. Essa ação, no entanto, não é individual. Nos rituais de teurgia, os sacerdotes egípcios se identificavam com os deuses. Esse tipo de ação ritual está presente até nos Papiros Mágicos Gregos, onde a consciência individual chega a ser anulada em detrimento da possessão divina. Os filósofos e sábios caldeus, hermetistas e representantes da genuina tradição dos maghdim, não se colocavam como executores individuais da teurgia, mas apenas símbolos ou máscaras que imitavam a demiurgia do cosmos. Ao fazê-lo, eles apenas compartilhavam diretamente com os deuses da Obra Divina (theourgia), como veículos dela, não seus executores, iniciadores ou finalizadores. A teurgia ocorre no continuum perpetuamente como a obra dos deuses. O teurgo apenas participa dela através do ritual. Essa visão sobreviveu particularmente no Neoplatonismo e no Neopitagorismo.


A Imagem Sagrada dos deuses, sua sinthemāta, são animadas com seus veículos pneumáticos noéticos e elas podem ser, como acima demonstrado, árvores, o sol, a lua e as estrelas, as montanhas, estações e o por do sol, mas também pedras, estatuetas ou ícones. Neste último caso pode-se fazer um paralelo com a doutrina tântrica do nyāsa, cujo objetivo é infundir ritualisticamente prāṇa (essência vital) em uma estatueta ou no próprio corpo físico, transformando ou transubstanciando sua matéria densa em um corpo divino, simbolizado no conceito filosófico de āsana, não como assento, mas como perfeição adquirida. É neste sentido e não àquele do assento, que o Yogasūtra do sábio Patañjali diz que āsana leva o praticante a se tornar imune dos pares de opostos. Continuando, uma ação que não seja ritualizada não é uma ação divina, mas apenas um ato secular ordinário. Uma ação ritualizada estabelece um padrão eidético na mente, fazendo daquele que o executa um mediador da luz neótica entre a matéria e os planos de luz e perfeição.


A compreensão do que é um ritual de teurgia é necessária para o fechamento de nosso raciocínio. Um ritual de teurgia invoca a perfeição divina. Essa é a interpretação de inúmeros teúgos da Antiguidade até os dias de hoje. Através da execução de um rito teúrgico, um portal de acesso é aberto, fazendo do teurgo um mediador entre o céu e a terra. O ritual em si ocorre no reino dos deuses, que o testemunham e participam dele em um eterno continuum, quer dizer, a própria demiurgia do cosmos. É isso que torna um ritual de teurgia sagrado, pois através dele espírito e matéria se entrelaçam dentro de uma mesma substância. Nesse caminho, o ritual dá ao teurgo o acesso a esse perpétuo entrelaçamento de matéria e espírito.


Da mesma maneira que um teurgo neoplatônico se transforma no deus que ele invoca, o teurgo tântrico também assume a forma do deus no iṣta-devatā. Esse é o ponto crucial da ritualística teúrgica, quando o corpo do teurgo se torna um verdadeiro templo, um agalma ou imagem viva transformada em acordo a iconografia cultural e ritualística. Um teurgo em seu ritual, dessa maneira, é um agathos aner, uma imagem do próprio divino e encarnação da virtude e de tudo o que é belo, harmônico e estável, como uma estatueta de Kouros.


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Na Teurgia Clássica Neoplatônica, um símbolo (snmbolon) é um portal de acesso direto e capaz de estabelecer uma conexão inefável com o divino transcendente por ele representado e essa é a mecânica do talismã.[2] Um talismã no contexto da teurgia trata-se de uma conexão ontológica com aquilo que ele representa, uma conceituação distinta da concepção moderna na qual o talismã é apenas uma representação metafórica daquilo que se pretende representar. Um símbolo (sunthāmata) na teurgia pode ser uma pedra, ervas, ossos, incenso, um encantamento, hino, música, ritual, texto sagrado ou qualquer outro objeto material que esteja conectado a uma deidade por simpatia e em amor.[3] Os nomes bárbaros ou voces magicae são poderosos encantamentos considerados um símbolo do divino transcendente na teurgia. Estes onomata barbara são considerados nomes inefáveis ininteligíveis e inexprimíveis no contexto ritual ou inscritos em estatuetas e outros aparatos ritualísticos como talismãs.[4] Jâmblico explica que os nomes bárbaros são nomes secretos dos deuses e por isso eles operam em um nível de realidade supraracional, entregues aos homens pelos próprios deuses.


Falando sobre os procedimentos da teurgia, Jâmblico sustenta que os rituais teúrgicos são símbolos consagrados a eternidade e as entidades superiores.[5] O ritual como um símbolo do transcendente desperta na Alma suas qualidades superiores, quer dizer, eles ativam na Alma seu elemento divino, pois o teurgo, por meio dos símbolos inefáveis do ritual, envolve a si mesmo no papel hierático dos deuses. Em outras palavras, os símbolos do ritual criam um tipo peculiar de afinidade ou reconhecimento de sua causa divina na Alma, capacitando o teurgo elevar-se aos reinos de luz e perfeição, a morada dos deuses e das virtudes.[6] Os símbolos (sunthāmata), portanto, compõem todo o material utilizado pelo teurgo, desde as estatuetas telestéticas e os nomes bárbaros nelas inscritos, a vestimenta sagrada para execução dos rituais, os encantamentos proferidos etc.


Fernando Liguori

Magister Schola Hermetica


NOTAS: [1] Veja Algis Uždavinys, Philosophy & Theurgy in Late Antiquity, p. 293. [2] Veja Jâmblico, De Mysteriis, 1, 21; 138, 1-5; 210, 11. [3] Veja Jâmblico, De Mysteriis, 5, 23. [4] Veja Jâmblico, De Mysteriis, 7, 4-5; 8, 5. [5] Veja Jâmblico, De Mysteriis, 1, 11. [6] Veja Jâmblico, De Mysteriis, 4, 2.

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