A Tradição Cipriânica da Feitiçaria Medieval

Atualizado: 4 de Set de 2019


Fernando de Ligório

Texto retirado da instrução O Espírito de São Cipriano:

Introdução a Tradição Cipriânica da Magia


Hoje podemos dizer que São Cipriano de Antioquia, bispo católico que sofreu o martírio em 26 de setembro de 304 d.C., representa uma tradição popular da magia, a tradição cipriânica, da mesma maneira que existe uma tradição salomônica, da qual a tradição cipriânica derivou muito de seu conhecimento. Tanto a São Cipriano quanto a Salomão são atribuídos vários grimórios, manuais mágicos de feitiçaria. Os grimórios salomônicos, no entanto, apresentam uma feitiçaria cabalística judaico-cristã derivada dos Papiros Mágicos Greco-Egípcios. Os grimórios da tradição cipriânica, por outro lado, apresentam elementos sincréticos retirados da tradição salomônica, em especial o Heptameron, o diabolismo e a magia folclórica europeia da Península Ibérica e Escandinava. Os vários grimórios atribuídos a São Cipriano possuem um caráter ecumênico e sincrético, tendo alimentado a crendice popular europeia a seu respeito. Desde a Idade Média O Livro de São Cipriano e suas variadas versões têm sido respeitados e usados por magos, feiticeiros, curandeiros, benzedeiros e católicos praticantes de todas as esferas sociais. Ao seu redor paira uma aura de mistério. O simples fato de possuí-lo torna seu possuidor um feiticeiro, pois sua aquisição consciente realiza de bom grado um pacto implícito, quer dizer, comprar ou aceitar de presente O Livro de São Cipriano é equivalente a fazer um pacto com o demônio. São Cipriano tornou-se com o tempo no imaginário popular o santo dos feiticeiros. E muito embora essa visão de São Cipriano não seja a posição oficial da Igreja de Roma, que em verdade até condena e educa contra essa visão popular, é um fato que São Cipriano tornou-se um ícone central da magia popular europeia. Esse São Cipriano da magia e sabedoria popular serviu tanto ao Diabo quanto a Deus, é querido tanto pelo Diabo e suas hordas infernais quanto a Deus e suas milícias celestes. Na tradição cipriânica da magia, o Diabo não é um pária proscrito, mas o Senhor de suas próprias moradas. Assim como a magia copta do Egito, a tradição cipriânica estabelece um axis mundi, um caminho que leva o mago do Inferno aos Céus e dos Céus ao Inferno. Um mago da tradição cipriânica é, dessa maneira, um indivíduo que caminha com os pés abaixo da terra e a cabeça acima das nuvens.


O Livro de São Cipriano e suas muitas versões tratam-se de um grimório de magia popular. Suas diversas receitas mágicas, feitiços e encantamentos servem para encontrar tesouros perdidos, manter o gado saudável, obter uma colheita abundante, nomes bárbaros misturados a passagens bíblicas para socorrer adoentados e exorcizar endemoniados. Não poderia ser diferente: a visão apresentada nos grimórios cipriânicos é animista, construindo dessa maneira uma ponte entre Deus e o Diabo. Não é difícil de entender! Como temos estudado em nosso Curso de Filosofia Oculta, a Igreja de Roma demonizou todas as criaturas espirituais que residem na região sub-lunar. Dessa maneira, daimones diversos como geniis-loci, quer dizer, os espíritos dos locais de poder, elementais, almas dos mortos etc., todas essas criaturas foram demonizadas. Antes da Igreja impor essa visão no Séc. IV d.C., todas essas criaturas eram compreendidas em suas funções demiúrgicas, quer dizer, desempenhavam um papel sólido na demiurgia do cosmos em nome e sob o comando da Inteligência de Deus, quer dizer, o demiurgo. Os magos, xamãs e feiticeiros de todos os tempos sempre lidaram com essas criaturas espirituais. Ao serem transformadas em demônios, estes mesmos magos, xamãs e feiticeiros foram condenados por estabelecerem trafico e pacto com demônios de todos os tipos. É por isso que a tradição cipriânica cria uma ponte (axis mundi) entre Deus e o Diabo e é por esse motivo que São Cipriano serve tanto a Deus quanto ao Diabo no imaginário popular.


É nesse imaginário popular europeu que os possuidores de O Livro de São Cipriano tornaram-se pessoas especiais. Nas muitas lendas existentes acerca de São Cipriano e seu livro, àqueles que o possuíam eram homens simples de uma comunidade que do dia para noite adquiriram terras e gado, e se livraram do pesadelo da doença. Por vezes, outras histórias dizem que uma miríade de desgraças atormentou a família que possuísse um exemplar de O Livro de São Cipriano em casa. Essas histórias existentes na tradição cipriânica demonstram o caráter popular e o apelo da magia que estes grimórios continham. Dessa maneira, para compreender os muitos elementos da tradição cipriânica não se pode deixar de ver o contexto popular em que ela esteve envolvida. Um elemento especial é a relevância espiritual de São Cipriano como protetor de feitiços, conjuros e malefícios. Isso se dá pelas poderosas orações de São Cipriano, a coluna vertebral da tradição cipriânica. No se entorno foram acrescentados elementos mágico-cerimoniais. Essas orações cipriânicas têm origem na Europa Oriental, África e Arábia, onde testemunhamos o nascimento do cristianismo primitivo. Originalmente escritas em grego ou latim, elas se espalharam pela Península Ibérica, onde foram unidas a magia popular de Portugal e da Espanha. No fim desta instrução de cristianismo mágico nós delinearemos um ritual de proteção de magia pantacular de São Bento com elementos da feitiçaria de São Cipriano, utilizando espinhos de porco-espinho.


São Cipriando tem sido considerado pela sabedoria popular um mago tão poderoso quanto Simão, o Mago e Salomão entre os feiticeiros. Aos católicos praticantes, benzedeiros e curandeiros, São Cipriano é um santo muito popular, protetor contra magia negra e feitiçaria de todo o tipo, um exímio exorcista presente em capelas espalhadas por toda Europa. Um dos elementos míticos fundamentais da tradição cipriânica é o pacto que São Cipriano fez com o Diabo. Mas esse elemento mítico é apenas uma derivação do Paredros de Pinouthis dos Papiros Mágicos Greco-Egípcios onde um mago conjura um daimon assistente e que evoluiu para o conceito de Sagrado Anjo Guardião dentro e fora da Igreja Católica. Este Diabo ao qual São Cipriano convocou e realizou um pacto nada mais é do que o seu daimon pessoal ou Sagrado Anjo Guardião. Desde a Antiguidade, na magia dos papiros ou na teurgia clássica de Jâmblico, a coroação do processo de aprendizado na Arte dos Magi consistia em travar Contato & Conversação com o Sagrado Anjo Guardião. É essa realização na Arte dos Magi que confere ao mago poderes taumatúrgicos para realizar proezas fantásticas, pois é o Sagrado Anjo Guardião o professor que ensina ao mago os corretos conjuros e adorações. Na Tradição Oculta todos os magos são orientados a conquistar esse objetivo fundamental no caminho da magia.


Na primeira seção dessa introdução nós vimos os elementos sincréticos e ecumênicos da magia copta do Egito na Antiguidade tardia; na segunda seção nós vimos os elementos sincréticos e ecumênicos da tradição cipriânica da Europa na Idade Média; para encerrar essa introdução a magia dos santos e a magia pantacular de São Bento, vamos explorar os elementos sincréticos e ecumênicos da pajelança cabocla amazônica no Brasil Colonial e Imperial até a formação da república.


O livro O Espírito de São Cipriano é um estudo do Curso de Filosofia Oculta (Módulo 1: Magia na Antiguidade). Ao explorarmos a Tradição Hermética de Mistérios na Antiguidade tardia, é inevitável o encontro com São Cipriano. Como demonstramos neste estudo, São Cipriano representa o arquétipo legítimo do mago hermético da Antiguidade e Idade Média. Ao avaliarmos o mito ou a lenda de São Cipriano através dos elementos que a constroem, percebemos que se tratam de temas legítimos da tradição da magia e Arte dos Magi.


O livro é uma introdução a tradição cipriânica da magia, que formou-se dentro de um caldeirão de influências mágicas que se arrastam no tempo desde a Antiguidade. Através das edições de O Livro de São Cipriano e os estudos que autores modernos como Jake Stratton-Kent, Don Felix Castro Vicente, Nicholaj de Mattos Frisvold, José Leitão, Humberto Maggi, Frater Acher e outros têm contribuído, é possível rastrear as influências que formaram a tradição cipriânica desde a magia copta da Antiguidade. A própria ideia de São Cipriano como santo e feiticeiro transmutou-se no tempo aparecendo de variadas formas em cultos distintos, desde a magia popular europeia as tradições crioulas miscigenadas no caldeirão religioso do Brasil.


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