REFLEXÕES

Mural de Opúsculos de Meditação

28/10/2020: UMA NOTA SOBRE A FORMAÇÃO DO CULTO DE EXU - Fernando de Ligório

Como estamos estudando no texto A Tradição de Quimbanda, nós discutimos a gênese do Culto de Exu no Brasil em dois momentos; é somente no segundo momento que a cosmovisão e antropovisão da Quimbanda tomou forma a partir de uma matriz, a Macumba que se espalhou pelo Rio de Janeiro na década de 1900 em um momento em que a cidade convulsionava de cultos e práticas religiosas diversas. Na época o Rio de Janeiro ainda era o centro político do Brasil e com o colapso da Era de Ouro das Minas Gerais e o enfraquecimento agrícola do Nordeste, a cidade gozava os louros de ser também o centro comercial do Brasil.

   Poucos anos antes, em 13 de maio de 1888, a escravidão foi abolida. Em detrimento dessa tardia libertação um grande contingente de ex-escravos inundou o Rio de Janeiro. Sem um programa político sólido de integração dos escravos libertos na sociedade, eles foram marginalizados e começaram a viver como párias juntos a outro grande contingente que chegava ao Brasil, os imigrantes europeus em busca de trabalho e sustento (vindos para substituir o trabalho escravo dos africanos e clarear a nação) e outras classes menos favorecidas que viviam na pobreza. Nesse período se misturavam no centro do Rio de Janeiro escravos libertos (angolanos e congoleses) em sua grande maioria de cultura banto, europeus de vários países, prostitutas, pivetes, capoeiras e todo tipo de criminosos.[1]

   Desse caldeirão cultural nasce a Macumba como movimento espiritualista sincrético, com influência da cultura banto (estrutura ritual e técnica de êxtase), a feitiçaria europeia popular (que chegava com os imigrantes europeus), a tradição dos grimórios e demonologia (influência literária das classes abastadas) que chegava através de inúmeras publicações ocultistas e espíritas. A cultura banto proveu a ritualística e a demonologia europeia as características estéticas da Macumba,[2] o primeiro caldo grosso que saiu dessa miscigenação cultural e que posteriormente seria apurado e refinado, produzindo a Quimbanda e a Umbanda modernas.

   João do Rio, um jornalista que escreveu acerca dos diversos cultos praticados no Rio de Janeiro por volta da década de 1900, ao falar sobre as casas de Macumba que deram gênese ao que conhecemos hoje como Quimbanda, disse:

Mas o que não sabem os que sustentam os feiticeiros, é que a base, o fundo de toda a sua ciência é o Livro de São Cipriano. Os maiores alufás, os mais complicados pais-de-santo, têm escondida entre os tiras e a bicharada uma edição nada fantástica do São Cipriano. Enquanto criaturas chorosas esperam os quebrantos e as misturadas fatais os negros soletram o São Cipriano, à luz dos candeeiros.[3]

A Macumba foi considerada por muitos autores como baixo espiritismo, um conjunto de práticas sincretizadas que adulteravam a originalidade das tradições africanas.

É provável que muita gente não acredite nem nas bruxas, nem nos magos, mas não há ninguém cuja vida tivesse decorrido no Rio sem uma entrada nas casas sujas onde se enrosca a indolência malandra dos negros e das negras. É todo um problema de hereditariedade e psicologia essa atração mórbida. Os nossos ascendentes acreditaram no arsenal complicado da magia da idade média, na pompa de uma ciência que levava à forca e às fogueiras sábios estranhos, derramando a loucura pelos campos; os nossos avós, portugueses de boa fibra, tremeram diante dos encantamentos e amuletos com que se presenteavam os reis entre diamantes e esmeraldas. Nós continuamos fetiches no fundo, como dizia o filósofo, mas rojando de medo diante do Feitiço africano, do Feitiço importado com os escravos, e indo buscar trêmulos a sorte nos antros, onde gorilas manhosos e uma súcia de pretas cínicas ou histéricas desencavam o futuro entre cágados estrangulados e penas de papagaio![4]

   Em fins do século passado, existiam, no Rio de Janeiro, várias modalidades de culto que denotavam, nitidamente, a origem africana, embora já bem distanciadas da crença trazida pelos escravos. A magia dos velhos africanos, transmitida oralmente através de gerações, desvirtuava-se, mesclada com as feitiçarias vindas de Portugal onde, no dizer de Morales de los Rios, existiram sempre feitiços, rezas e supertições.

   As «macumbas» – mistura de catolicismo, fetichismo negro e crenças nativas – multiplicavam-se; tomou vulto a atividade remunerada do feiticeiro, o «trabalho feito» passou a ordem do dia, dando motivo a outro, para lhe destruir os efeitos maléficos; generalizaram-se os «despachos», visando se obter favores para uns e prejudicar terceiros; aves e animais eram sacrificados, com as mais diversas finalidades; exigiam-se objetos raros para homenagear entidades ou satisfazer elementos do baixo astral. Sempre, porém, obedecendo aos objetivos primordiais: aumentar a renda do feiticeiro ou «derrubar» – termo que esteve muito em voga – os que não se curvassem ante os seus poderes ou pretendessem fazer-lhe concorrência.[5]

Dentre os feiticeiros da Macumba no Rio de Janeiro, o mais notório e conhecido por suas proezas mágicas chamava-se José Sebastião Rosa, conhecido como Juca Rosa ou o Chefe das Macumbas. Juca trabalhava com um espírito que se apresentava como Pai Quibombo, inaugurando o que seria conhecido posteriormente na Umbanda como a linha dos Pretos-Velhos. A biógrafa de Juca Rosa[6] conclui que, em última análise, seus ritos eram similares ao que hoje conhecemos como Culto de Exu, a Quimbanda.

Entre os diversos orixás cultuados, tanto na Umbanda quanto no Candomblé, o culto a entidade Exu parece ser o que mais se aproxima das cerimônias de Rosa. [...] Ainda que sua representação seja a da figura de um diabo, com tridente, chifre e rabo, Exu geralmente tem uma condição ambígua, não sendo nem bom e nem mal, mas podendo realizar benefícios ou malefícios [...]. Teimosos, abusados, os diferentes exus são potencialmente perigosos, pois aceitam qualquer pedido de seus clientes, independente de preocupações de ordem moral, desde que sejam devidamente pagos.[7]

Diferente das práticas religiosas e cosmovisão da cultura yorùbá, a influência banto que inaugurou a Macumba Carioca e posteriormente foi transmitida a Quimbanda e Umbanda foi àquela do trabalho com espíritos ancestrais, quer dizer, a necromancia.[8] É interessante que os espíritos que atendiam nas sessões da Macumba eram identificados como povo da encruzilhada. Nos rituais havia toques, pontos cantados, possessão e o feitio de pontos riscados.

Os mais antigos, frequentadores de longa data daquelas atividades, sabiam o que estavam prestes a presenciar. Haveria música, dança, muita comida e bebida. A certa altura, Rosa iria entrar em transe, quando, ao que se dizia, ele recebia espíritos em seu corpo, ou «falava com espíritos, e então se transformava: passava a agir como o Pai Quibombo, e não mais como José Sebastião da Rosa». Nesse estado ele atendia as pessoas, já que ficava dotado de um poder «sobre natural», segundo contavam seus seguidores.[9]

Juca vestia-se com roupas pretas e vermelhas, oferecia comidas diversas a entidades na forma de farofas e cortava sobre elas um galo. Com essa imagem em mente fica bem fácil de ver de onde vem, em verdade, a Quimbanda. A Macumba forneceu uma primeira sistematização ao que hoje conhecemos como Quimbanda.

No final dos anos 1900, o povo Yoruba e Kôngo-Angolano representavam a maioria dos escravos trazido para o Brasil. Mais tarde, grupos da língua Kikôngo incorporaram as religiões combinadas de Daomé e América Nativa (Ameríndia) com Catolicismo e espiritualismo europeu para a construção da prática religiosa da Macumba. Na prática, cruciformes marcados com giz no chão dos santuários, e a presença de certos espíritos medicinais atestam à influência Kôngo-Angolana. Muitos sacerdotes da Macumba «marcam pontos» (pontos riscados) na maneira do Bâkôngo para «centrar» consagrado água. O termo afro-brasileiro pontos cantados e os pontos riscados (canto simultâneo e marcação de pontos) fornecem mais evidências do costume Kôngo.[10]

Na década de 1930 nasce a primeira publicação umbandista.[11] Leal de Souza escreve e publica O Espiritismo, a Magia e as Sete Linhas de Umbanda. A Umbanda surgia como uma tentativa de branquear ou salubrizar a Macumba. Ele descreve os Exus que se manifestavam na, e a própria Macumba, da seguinte maneira: Tais entidades tem ufania de seu poder; são com frequência, irritadiças e vingativas, mas, quando querem agradar a um amigo da Terra, não medem esforços para satisfazê-lo. As suas lutas no espaço, por questões da Terra, tem a grandeza terrível das batalhas e das tragédias. Essa magia exerce diariamente a sua influência perturbadora sobre a existência, no Rio de Janeiro. Centenas de pessoas de todas as classes, pobres e ricos, grandes e pequenos, por motivos de amor, por motivos de ódio, por motivos de interesse, recorrem aos seus sortilégios. A política foi e continua a ser dos seus melhores e mais assíduos clientes. E continua seu relato:

As entidades espirituais que realizam esses trabalhos possuem sinistra sabedoria, recursos verdadeiramente formidáveis, e energia fluídica aterradora. Um desses espíritos tem se prestado à experiências, não só diante de conhecedores do espiritismo, como perante pessoas de brilho social no círculos da elegância. Assim, tomando o seu aparelho, isto é, incorporando-se ao seu médium, faz triturar com os dentes, sem ferir-se, cacos de vidro. Caminha, de pés descalços, sobre um estendal de fundos de garrafas quebradas, seno que, por duas vezes, convidados, levaram as garrafas e as quebraram, aguçando lâminas pontudas para o passeio do médium.

   Ele demonstrou de uma feita, a um grupo de curiosos da alta sociedade, a importância de coisas aparentemente insignificantes. Nos centros do espiritismo de linha, pede-se, durante as sessões, que ninguém encruze as pernas e os braços. Parece uma exigência ridícula, e não o é. Provou-o, o Exu.

   Quando, incorporado, passeava descalço sobre os cacos de vidro, para fazer compreender a transcendência daquela recomendação, mandou que uma senhora trançasse a perna, e logo os pedaços de vidro penetraram, ensanguentando-se, os pés que os pisavam.

   Para comprovar a força dos pontos da magia (desenhos emblemáticos, cabalísticos ou simbólicos), produziu uma demonstração sensacional. Escolheu sete pessoas, ordenou-lhes que se concentrassem sem quebra da corrente de pensamento, riscou no chão um ponto e decapitou um gato, cujo corpo mandou retirar, deixando a cabeça junto ao ponto.

   - Enquanto não se apagar esse ponto, esse gato não morre e essa cabeça não deixa de miar.

   Durante dezessete minutos, a cabeça separado do corpo miava dolorosamente na sala, enquanto lá fora, o corpo sem cabeça se debatia com vida. Os assistentes começavam a ficar aterrados. Ele apagou o ponto, e cessaram o miado gemente da cabeça sem corpo e as convulsões do corpo sem cabeça.[12]

Na reflexão que seguirá essa, vamos nos debruçar sobre a sistematização da Quimbanda como um desenvolvimento da Macumba e a Umbanda como uma usurpadora elitista que em um primeiro momento denigre a Macumba como marginal e o Culto de Exu como diabólico, mesmo se valendo de toda sua estrutura para formar seus pilares; em um segundo momento, se apropriando do Culto de Exu, ressignificando-o por diversas vezes, encerrando a mentira de que a Quimbanda esteja associada ou nasceu da Umbanda. A Umbanda é, no mínimo, um plágio da Macumba/Quimbanda.

 

NOTAS:

[1] Esses caldeirão cultural não deu gêneses somente a Macumba, que acabaria por se transformar na Quimbanda que conhecemos hoje, mas ao próprio Reino da Lira nos domínios do Chefe Império Maioral.

[2] Umberto Maggi, A Gnose do Diabo em Scientia Diabolicam. Clube de Autores, 2019.

[3] João do Rio, As Religiões do Rio, 1904.

[4] Ibidem.

[5] Omolubà, Doutrina e Práticas Umbandistas, Ícone Editora, 2015.

[6] Veja Gabriela dos Reis Sampaio, A História do Feiticeiro Juca Rosa: Cultura e relações Sociais no Rio de Janeiro Imperial. Tese de Doutorado do Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas, 2000.

[7] Gabriela dos Reis Sampaio, A História do Feiticeiro Juca Rosa: Cultura e relações Sociais no Rio de Janeiro Imperial. Tese de Doutorado do Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas, 2000.

[8] É somente muitos anos depois que a Umbanda introduz a cultura yorùbá dos Òrìṣà nas atividades do culto.

[9] Gabriela dos Reis Sampaio, A História do Feiticeiro Juca Rosa: Cultura e relações Sociais no Rio de Janeiro Imperial. Tese de Doutorado do Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas, 2000.

[10] Molefi Kete Asante e Ama Mazama, Encyclopedia of African Religion. Sage Publications, 2009.

[11] Alguns apontam para 1925 desde que se tratava de uma coletânea de artigos escritos desde a década de 1920.

[12] Leal de Souza, O Espiritismo, a Magia e as Sete Linhas de Umbanda. Rio de Janeiro, 1933. Nesta obra de Leal de Souza a figura e atuação dos Exus são humanizadas, caminho distinto daquele escolhido por Aluízio Fontenelle na sua obra Exu (1951) e autores da época, que demonizaram os Exus comparando-os a demônios.

27/10/2020: O FEITICEIRO-KIMBANDA É LIVRE - Fernando de Ligório

A Quimbanda traz um estandarte e seu emblema é àquele da liberdade. No caminho de sua iniciação o feiticeiro busca a maestria da vida. Para àqueles que possuem inclinação intelectual aguçada e um olhar filosófico sobre a existência, tornar-se um mestre da vida é uma tarefa de muitas camadas. A mais superficial delas sendo àquela da emancipação financeira, material, econômica; outra camada, um pouco mais profunda, é àquela da liberdade. Um feiticeiro é um homem livre, pelo simples fato de que ele não se adéqua ao sistema, as regras morais cativas e escravocratas da cultura religiosa dominante, e caminha à margem da sociedade. Então ele é um marginal de modo que anda separado e vai no sentido contrário das grandes massas de pessoas, o que elas pensam ou fazem.

   A liberdade, por outro lado, é uma virtude que se desenvolve também em camadas, porque são muitas as coisas que todos nós precisamos nos libertar. Uma delas é a opinião dos outros. Por que será que a opinião de pessoas insignificantes tem tanta importância em nosso universo e causam um impacto tão profundo em nossas mentes e emoções que somos compelidos a agir de forma a negar e contrariar os impulsos mais naturais de nossa alma? Se importar com as opiniões dos outros é viver enclausurado, é levar uma vida de escravidão, porque não somos livres para libertar os impulsos da alma e despertar o potencial máximo da vontade, criatividade etc. Na Quimbanda o símbolo máximo da liberdade é o Chefe Império Maioral, porque ele é àquela máscara deífica do adversário que existe dentro de nós, àquele impulso tifoniano, caótico e luciférico que questiona e se opõe a moral da cultura religiosa escravocrata de nossa sociedade para a libertação, deificação e apoteose da alma. Então quando nos devotamos ao culto e a adoração do Chefe Império Maioral cultivamos esse impulso libertador dentro de nós e ele destrói muitas correntes, como o apego a opinião das outras pessoas.

   Em uma publicação no meu Instagram pessoal fiz uma nota. Eu gostaria de compartilhar e acrescentar. Alguns ditados ilustram algumas coisas bem simples:

   1. Nós só damos àquilo que temos; ninguém dá o que não tem.

   2. As palavras falam do que existe no coração; se da boca de alguém só saí maledicência, injúria, agressão etc., é porque seu coração está cheio de angústia, inveja e frustração.

   3. Pessoas felizes, realizadas e completas não se importam com a vida e, fundamentalmente, com a prática religiosa de outras pessoas; não se importam com as opiniões, com a ignorância intelectual e espiritual de terceiros, e que há muito tempo deixaram de ser fiscais do culto, das palavras ou das ações de outras pessoas.

   4. Vencedores, grandes homens de caráter, força e honra, não se importam com a opinião de perdedores, homens pequenos de caráter duvidoso, fofoqueiros fracos, ressentidos e desonrados.

   5. Ressentimento é uma virtude do fraco, porque suas más águas afetam apenas a si mesmo e suas vinganças são fantasias e delírios da mente. Homens fortes se libertam do ressentimento, da amargura e da fragilidade de uma mente frustrada.

   Se aquilo que temos é só inveja, angústia e frustração, se são essas as virtudes que nós levamos no coração, é somente isso que transmitiremos aos outros. É simples demais para não entender.

   Hoje recebi uma reclamação: Por que o pessoal da Kimbanda [você sabe qual] só fala mal e agride os outros feiticeiros? Minha resposta é a seguinte: eu não sei! O que eu sei é a da gnose singela que esses ditados acima enumerados transmitem. De minha parte eu não tenho porque me importar com o que outros feiticeiros dizem ou praticam; primeiro porque não é da minha conta e não constitui problema meu; segundo porque eu entendi a Quimbanda:

   1. A Quimbanda trata-se de um exercício pessoal de feitiçaria; quem vê na Quimbanda uma religião não entendeu muito bem as fórmulas que a compõem; talvez a palavra sistema seja mais adequada.

   2. Uma dessas fórmulas é àquela da gnose transmitida pessoalmente e intimamente do espírito tutelar ao feiticeiro, constituindo uma relação íntima, secreta, quase que intransmissível ou intransferível; essa é uma das fórmulas mágicas mais antigas da tradição da magia e está presente na Quimbanda.

   3. A Quimbanda, de maneira muito similar a cultura tântrica indiana, floresceu como uma tradição de clãs (famílias), herdando da cultura banto a visão de um trabalho espiritual familiar, ancestral; isso significa que cada família de espíritos (casa, terreiro, templo) desenvolve fundamentos próprios a essa família, às vezes bem distintos dos fundamentos de outras famílias.

22/10/2020: POMBAGIRA E O IMAGINÁRIO POPULAR DA BRUXA - Fernando de Ligório

Acabei de inaugurar uma série de vídeos com conteúdo exclusivo somente para o Instagram. O tema que escolhi para iniciar esse projeto parte das muitas noites de conversas com minha esposa, nossas experiências espirituais e nossa fé. Trata-se do arquétipo de Pombagira no imaginário cultural brasileiro.

   Exu e Pombagira são patrimônios do povo brasileiro. Entidades do imaginário cultural que influenciaram práticas e crenças populares. Ocorre uma simbiose interessante entre a formação do mito e a construção de práticas e crenças religiosas alimentadas por esses mitos. Na medida em que um se desenvolve, o outro também se desenvolve na mesma proporção. Então os mitos dão origem e alimentam práticas mágicas e religiosas; essas, por outro lado, alimentam e reforçam as crenças nos mitos. A partir do imaginário criam-se as lendas, contos e histórias que inspiram músicas, livros/estudos e peças de teatro. Tudo isso alimenta e reforça o imaginário, práticas mágicas e crenças religiosas.

   Eu estabeleço uma relação entre Pombagira e o glifo mágico da deusa Baphomet. Antes de mim, Fontenelle (Exu, 1951) já havia estabelecido equivalência entre esses símbolos, mas com aquela significação esboçada por Éliphas Lévi. Hoje nós sabemos que o glifo da deusa Baphomet é uma conjunção de símbolos antigos associados ao culto às deusas negras (Lilith, Astarte, Asherah, Hécate etc.) antigas. De igual forma, o imaginário cultural de Pombagira foi formado não apenas por esses mesmos símbolos e arquétipos das deusas negras, mas também das feiticeiras europeias como a Bruxa de Évora e Maria de Padilha, ambas elevadas à condição de Pombagiras Chefe de Falange.

   Pouco tempo atrás eu havia dito que toda Quimbanda é cipriânica, quando destaquei os elementos da magia cipriânica presentes no culto de Quimbanda. De O Livro de São Cipriano não apenas fórmulas mágicas são derivadas, como àquela faustina do Pacto com o Diabo, mas também a imagem ou arquétipo tradicional da feiticeira como representada na persona da Bruxa de Évora, que inspirou a iconografia de muitas Pombagiras. João do Rio, um jornalista que escreveu acerca dos diversos cultos praticados no Rio de Janeiro por volta da década de 1900, ao falar sobre as casas de Macumba que deram gênese ao que conhecemos hoje como Quimbanda, disse:

Mas o que não sabem os que sustentam os feiticeiros, é que a base, o fundo de toda a sua ciência é o Livro de São Cipriano. Os maiores alufás, os mais complicados pais-de-santo, têm escondida entre os tiras e a bicharada uma edição nada fantástica do São Cipriano. Enquanto criaturas chorosas esperam os quebrantos e as misturadas fatais os negros soletram o São Cipriano, à luz dos candeeiros.[1]

Por outro lado, outro fator que alimentou a iconografia de Pombagira no imaginário popular do Brasil foi à caracterização com a qual o Santo Ofício apresentava a imagem da bruxa a partir dos relatórios dos julgamentos das feiticeiras.

Andar nua e com o cabelo [solto] certamente identificava, no imaginário popular, a protagonista deste com a bruxa. No século XVI, em Évora, sabe-se que a interessada nos conjuros das pedras devia fazê-lo «em cabelo e em camisa à janela, fitando as estrelas e segurando na mão nove pedras apanhadas em encruzilhadas. No século XVII, persistiria tal gestualidade: em 1637, Maria Ortega conjurava os espíritos desguedelhada e nua da cintura para cima, e em 1664 era de forma idêntica que Maria da Silva invocava demônios ou proferia uma bela oração de Santo Erasmo, valendo-se também de um alguidar e velas verdes.» [...] Já Arde-lhe-o-rabo afirmava vagar descabelada e nua pelos adros e matos, em busca de feitiços: «porque eu ponho-me à meia noite no meu quintal e com minha cabeça ao ar com a porta aberta para o mar, enterro e desenterro umas botijas e estou nua da cintura para cima com os cabelos [soltos]; eu falo com os diabos e os chamo e estou com eles em muitos perigos.» Quando voltava das andanças, vinha «moída» pelos diabos e pelos trabalhos que tivera.[2]

A Bruxa de Évora é um exemplo tangível de como o imaginário popular influencia práticas mágicas e crenças religiosas. A origem de seu mito remonta a uma publicação de 1739 intitulada História das Antiguidades de Évora, do português Amador Patrício.[3] Posteriormente, as edições de O Livro de São Cipriano a partir do Séc. XVIII começaram a construir a ideia de uma conexão entre a Bruxa de Évora e São Cipriano. Ambos mitos construídos que começaram a tomar corpo espiritual e a fazer parte do imaginário popular ibérico e, em seguida, brasileiro. Tanto que a Bruxa de Évora acabou por se tornar uma Pombagira da Umbanda.

   Então vagarosamente começamos a tecer uma intricada gama de influências culturais na formação do arquétipo de Pombagina na cultura brasileira. Outro exemplo que cito no vídeo lá no Instagram: a Umbanda foi responsável pela disseminação da ideia de que Pombagira é mulher de sete homens (Exus). Essa ideia vem da Maria Madalena do Novo Testamento (veja Lucas, 8:2), e se espalhou como xuxu no imaginário cultural brasileiro. Maria Madalena tornou-se o protótipo par excellence da Pombagira na Umbanda: ela foi prostituta, viveu na iniquidade e era assolada por espíritos diabólicos (sete pelo menos). Curou-se através da conversão a fé cristã no batismo e tornou-se umas das mais importantes auxiliadoras de Jesus. Em uma Umbanda consumida pelas bodas com Cristo, o mito de Maria Madalena serve como luva a expressão religiosa de Pombagira como Exu-Mulher batizada e auxiliadora das giras de esquerda.

   Outras personagens bíblicas como a Rainha do Sabá (nos mitos umbandistas considerada uma encarnação da Pombagira Rainha das Sete Encruzilhadas), a Bruxa de Endor, Jezebel etc., a própria Eva – considerada a primeira de todas as bruxas que espalhou o veneno (poder de magia) entre as mulheres e a Lilith cabalística (identificada por alguns feiticeiros-kimbanda com a Pombagira Rainha do Inferno) endossam, alimentam e revigoram o imaginário cultural brasileiro sobre Pombagira.

NOTAS:

[1] João do Rio, As Religiões do Rio, 1904.

[2] Laura de Mello e Souza, Inferno Atlântico: Demonologia e Colonização nos Séculos XVI-XVIII. Companhia das Letras, 1993.

[3] Veja Humberto Maggi: Queen of Sevem Crossroads. Hadean Press, 2020.

11/10/2020: TRÊS TRONCOS DE QUIMBANDA NO BRASIL #3 - Fernando de Ligório

Chegamos ao fim desta série de três postagens sobre os troncos de Quimbanda no Brasil para o Instagram. Anteriormente falamos das Quimbandas Cruzada e Tradicional. Ambas nascidas das entranhas da Umbanda: a primeira por volta da década de 1940 na Tenda Espírita São Jorge sob a autorização do Caboclo Tupinabás; a segunda na década de 1960 com o trabalho da Mãe Ieda do Ogum e seu espírito tutelar, o Exu Rei das Sete Encruzilhadas. Destacando algumas diferenças:

1. A Quimbanda Cruzada está diretamente associada e é dependente da cosmovisão da Umbanda, constituindo uma parte dela, chamada de esquerda. A Umbanda opera com as Linhas Sagradas (linha branca) dos Òrìṣà sincretizados com os santos católicos; segundo os umbandistas,[1] estas linhas foram criadas para combater a linha negra de baixa magia (Macumba/Quimbanda) e contrabalancear as forças dos cosmos.[2] Dessa ideia derivou-se as Sete Linhas de Quimbanda. Exu na Quimbanda Cruzada tratou-se de um espírito impuro e involuido que necessitava de doutrinação;[3] com o tempo muitas outras interpretações foram agregadas a imagem de Exu. Idealmente a Quimbanda Cruzada (ou Umbanda de Esquerda) não faz sacrifícios propiciatórios, mas com o tempo algumas casas começaram a cortar para os Exus e Pombagiras.[4]

2. A Quimbanda Tradicional emancipou-se completamente da Umbanda, mas buscou no Culto dos Òrìṣà (Candomblé, Batuque etc.) fundamentação prática para compor seu arsenal de tecnologia mágica. Exu deixou de ser tratado como uma criatura impura e foi elevado ao grau de mestre e guia espiritual. A ferramenta teúrgica fundamental da Quimbanda Tradicional é a imolação ritual em honra aos Exus e Pombagiras. A Quimbanda Tradicional se estrutura nos Sete Reinos de Quimbanda, um desenvolvimento ou evolução das ultrapassadas e revogadas Sete Linhas de Quimbanda desenvolvidas por Lourenço Braga em 1942 e copiadas pelos autores umbandistas posteriores. Por ter se aproximado dos fundamentos do Culto dos Òrìṣà, é comum ver casas de Candomblé que também operam Quimbanda Tradicional.[5]

A Quimbanda Luciferiana é completamente independente da cosmovisão umbandista (cristã-kardecista) e do Culto dos Òrìṣà; ela não toma para si paradigmas culturais como a Lei do Karma e sua teologia luciferiana é anti-cósmica. Diferente das Quimbandas Cruzada e Tradicional, a Quimbanda Luciferiana não se formou a partir das entranhas da Umbanda; diferente disso, ela nasceu da força de oposição constituída pelos marginais e excluídos sociais que compareciam as sessões de feitiçaria nas casas de Macumba do Rio de Janeiro. Se por um lado a Umbanda foi constituída para se opor as forças da malfazeja Macumba, a Quimbanda Luciferiana é o desenvolvimento e refinamento desta. Por não ter assimilado nenhum dos princípios do kardecismo francês, a Quimbanda como desenvolvimento da Macumba encontrou respaldo filosófico no luciferianismo e comportamental no satanismo, tendo assimilado suas premissas fundamentais.

   O ser humano vive um sono hipnótico em um ciclo recorrente de encarnações. Esse ciclo é uma das muitas engrenagens de uma estrutura escravocrata que tem alienado as almas humanas espiritual, mental e emocionalmente. Cultura, estilo de vida, sociedade e religião; tudo é afetado por essa organização demiúrgica do cosmos. Os espíritos que trabalham na Quimbanda e os adeptos que a compõem são agentes – do Senhor das Trevas (o Adversário/Caos) – de oposição a essa estrutura escravocrata. A filosofia luciferiana e o aspecto comportamental satanista se uniram ao culto ancestral da Quimbanda, o que lhe forneceu uma orientação iniciática distinta daquela das Quimbandas Cruzada e Tradicional.

   A fundamentação da Quimbanda Luciferiana vem das entranhas de nossa própria terra e dos agentes que contribuíram para miscelânea cultural de nossa nação: o xamanismo tribal dos índios Tupí-Guaraní, a feitiçaria crioula das culturas banto e yorubá, e a magia cipriânica ibérica. Esse tripé mágico associado à filosofia luciferiana e satanista constituiu o tronco da Quimbanda Luciferiana. Ela opera nos domínios dos Sete Reinos do Chefe Império Maioral e tem na imolação ritual o eixo teúrgico do culto.

   O livro da imagem, Reflexões Noturnas: o Lado Oculto de Exu, de Eduardo Lima é uma pequena obra de gnose com Exu. Nessa série de postagens, ele fecha como um genuíno representante deste último tronco de Quimbanda, o Independente. O livro é constituído por breves opúsculos de meditação acerca do Culto de Exu que ressoam profundamente naqueles que procuram por uma auspiciosa gnose com os Poderosos Mortos. Eu gostei tanto deste livro que o assimilei em minhas práticas diárias de reflexão e meditação. É um livro de cabeceira!

NOTAS:

[1] Veja Aluízio Fontenelle, Exu. Parzifal Publicações, 2018.

[2] Veja Lourenço Braga, Umbanda (Magia Branca) e Quimbanda (Magia Negra). Edições Spiker, 1961, 12ª.edição. Em 1955 Lourenço Braga no livro Umbanda e Quimbanda Vol. II diz que as Sete Linhas de Umbanda em verdade estão associadas aos arcanjos planetários que mantêm as entidades evoluídas. Essa nota é apenas para destacar a influência da tradição europeia da magia sobre a Umbanda. Para um estudo histórico das Sete Linhas de Umbanda segundo seus mais destacados autores veja a pesquisa de Alexandre Cumino sobre o tema, disponível na internet.

[3] Essa foi uma tentativa de salubrizar a Umbanda, distanciando-a da famigerada Macumba, sua verdadeira genitora. Na década de 1930, Leal de Souza descreve no primeiro livro umbandista do Brasil, O Espiritismo, a Magia e as Sete Linhas de Umbanda, a incorporação de um Exu que se apresentava educadamente e realizava prodígios:

As entidades espirituais que realizam esses trabalhos possuem sinistra sabedoria, recursos verdadeiramente formidáveis, e energia fluídica aterradora. Um desses espíritos tem se prestado à experiências, não só diante de conhecedores do espiritismo, como perante pessoas de brilho social no círculos da elegância. Assim, tomando o seu aparelho, isto é, incorporando-se ao seu médium, faz triturar com os dentes, sem ferir-se, cacos de vidro. Caminha, de pés descalços, sobre um estendal de fundos de garrafas quebradas, seno que, por duas vezes, convidados, levaram as garrafas e as quebraram, aguçando lâminas pontudas para o passeio do médium.

   Ele demonstrou de uma feita, a um grupo de curiosos da alta sociedade, a importância de coisas aparentemente insignificantes. Nos centros do espiritismo de linha, pede-se, durante as sessões, que ninguém encruze as pernas e os braços. Parece uma exigência ridícula, e não o é. Provou-o, o Exu.

   Quando, incorporado, passeava descalço sobre os cacos de vidro, para fazer compreender a transcendência daquela recomendação, mandou que uma senhora trançasse a perna, e logo os pedaços de vidro penetraram, ensanguentando-se, os pés que os pisavam.

   Para comprovar a força dos pontos da magia (desenhos emblemáticos, cabalísticos ou simbólicos), produziu uma demonstração sensacional. Escolheu sete pessoas, ordenou-lhes que se concentrassem sem quebra da corrente de pensamento, riscou no chão um ponto e decapitou um gato, cujo corpo mandou retirar, deixando a cabeça junto ao ponto.

   - Enquanto não se apagar esse ponto, esse gato não morre e essa cabeça não deixa de miar.

   Durante dezessete minutos, a cabeça separado do corpo miava dolorosamente na sala, enquanto lá fora, o corpo sem cabeça se debatia com vida. Os assistentes começavam a ficar aterrados. Ele apagou o ponto, e cessaram o miado gemente da cabeça sem corpo e as convulsões do corpo sem cabeça. 

   Tais entidades tem ufania de seu poder; são com frequência, irritadiças e vingativas, mas, quando querem agradar a um amigo da Terra, não medem esforços para satisfazê-lo. As suas lutas no espaço, por questões da Terra, tem a grandeza terrível das batalhas e das tragédias.

   Essa magia exerce diariamente a sua influência perturbadora sobre a existência, no Rio de Janeiro. Centenas de pessoas de todas as classes, pobres e ricos, grandes e pequenos, por motivos de amor, por motivos de ódio, por motivos de interesse, recorrem aos seus sortilégios. A política foi e continua a ser dos seus melhores e mais assíduos clientes.

[4] Com o tempo e as inovações da Quimbanda Tradicional após a década de 1960, a Quimbanda Cruzada começou a adotar novas práticas rituais e entendimentos cosmogônicos. A cultura é fluída, ela se movimenta e se adapta.

[5] Isso se trata de realidade. Há casas que trabalham com Umbanda, Candomblé e Quimbanda em dias distintos. Embora ortodoxos e tradicionalistas discordem e aos berros vociferam «marmota» aos quatro ventos, contra fatos não há argumentos. E se funciona não tem marmotagem nenhuma...

08/10/2020: TRÊS TRONCOS DE QUIMBANDA NO BRASIL #2 - Fernando de Ligório

Continuando nossa jornada acerca dos troncos de Quimbanda no Brasil, hoje vamos nos debruçar sobre a Quimbanda Tradicional. Tentar destrinchar o emaranhado cultural que deu origem a Quimbanda não é fácil, até porque grande parte do que conhecemos hoje foi transmitido oralmente de mestre a discípulo. Não é possível traçar com exatidão plena o quando e o onde a Quimbanda realmente começou; mas através de pesquisa (levantamento de dados e estudo de campo), é possível ter lampejos da gênese da Quimbanda no segundo momento do Culto de Exu no Brasil. Na última reflexão nós falamos brevemente sobre a Quimbanda Cruzada; vamos relembrar alguns pontos:

1. A Quimbanda Cruzada está conectada a cosmovisão de Umbanda e depende dela; os rituais de Quimbanda com Exus e Pombagiras ocorrem no fim das giras (e hoje em dia) nas giras de esquerda, que acontecem em ocasiões distintas dentro das casas umbandistas. Deve-se ainda reiterar [...] que nestes contextos (umbandistas), a Quimbanda nunca configurou de fato um sistema religioso específico, existindo apenas como um aspecto cosmológico próprio a visão de mundo articulada na Umbanda.[1]

2. A Quimbanda Cruzada, dependente da cosmovisão da Umbanda, idealmente não faz corte para Exu, mas existem casas que fazem.

3. Seu início pode ser rastreado desde a década de 1940 quando, na Tenda Espírita São Jorge no Rio de Janeiro, houve uma revolução e os Exus foram autorizados a se manifestarem no fim das giras, após a saída do público com a intenção de purificação da casa e dos médiuns. Nesse período Exus são considerados espíritos inferiores aos Caboclos e Preto-Velhos, e precisam passar por um longo trabalho de evolução e refinamento espiritual.

4. Por volta da década de 1960 a Mãe Ieda do Ogum do Rio Grande do Sul inaugura uma nova revolução no trabalho com Exus dentro da Umbanda: rituais (giras e festas) somente para Exus e Pombagiras onde estes não estavam sob o julgo dos Caboclos e Preto-Velhos. É aqui que se inaugura a Quimbanda Tradicional. A Quimbanda, que se desenvolverá a partir de então, não se refere mais a uma categoria de acusação relativa à ideia de magia negra [...] a um domínio simbólico negativo do cosmos umbandista [...], e nem mesmo a uma linha subordinada às categorias espirituais da Umbanda.[2]

A Quimbanda Tradicional, assim podemos inferir, foi uma espécie de transição espiritual ou rito de passagem que conferiu aos Exus e Pombagiras completa independência da cosmovisão de Umbanda. Tomando muitos dos elementos práticos do Culto aos Òrìṣà (Candomblé, Batuque etc.), a Quimbanda Tradicional começou a se desenvolver como nova religião. Por esse motivo - e não outro – que se diz que a Quimbanda Tradicional está mais alinhada a cosmovisão do Candomblé. Muitos dos rituais de Quimbanda Tradicional, práticas de medicinas espirituais (cura) e iniciações têm profunda influência da tecnologia espiritual do Candomblé. Mas aos adeptos de Quimbanda não é requerida iniciação no Culto dos Òrìṣà.

   Diferente da Quimbanda Cruzada que se orienta pelas Sete Linhas, a Quimbanda Tradicional se orienta pelos Sete Reinos: Encruzilhadas, Cruzeiros, Matas, cemitério, Almas, Lira e Praia;[3] a ferramenta teúrgica fundamental do culto é a imolação ritual, onde um animal é sacrificado em honra às entidades da Quimbanda.

   Como uma transição de independência, a Quimbanda Tradicional trabalha com ciganos, malandros, caboclos, pretos-velhos, boiadeiros, baianos e marinheiros quimbandeiros. E diferente da opinião de alguns autores, não é a Quimbanda Cruzada (dependente da Umbanda e que se orienta pelas Sete Linhas) o que se conveniou chamar de Quimbanda de Cruzeiro e Almas, mas a Quimbanda Tradicional que começou com a Mãe Ieda do Ogum. Então para ser Quimbanda de Cruzeiro e Almas, tem-se que passar por ela ou por seus filhos feitos em Exu, onde não há trabalho algum com Sete Linhas.

   Outra diferença a se destacar entre esses dois troncos de Quimbanda, é que na Quimbanda Tradicional Exu é mestre evoluído, e quando em terra, se apresenta como tal. O livro da imagem, Desvendando Exu: o Guardião dos Caminhos de Diego de Oxóssi é uma introdução a Quimbanda Tradicional. Ótima leitura e de fácil compreensão a qualquer leigo no assunto. O livro trata de iniciação, história, formação do Culto de Exu e teologia de Quimbanda. Um dos melhores livros sobre o tema disponível em português.

 

NOTAS:

[1] R.M. Leistner, Os outsider do além: um estudo sobre a Quimbanda e outras «feitiçarias» afro-gaúchas. Tese de Doutorado em Ciências Sociais. Universidade do Vale do Rio dos Sinos, São Leopoldo, 2014.

[2] Ibidem. Op. Cit. Diego de Oxóssi, Desvendando Exu: o Guardião dos Caminhos. Ed. Do Autor, 2018.

[3] Veja o artigo disponível neste site sobre os Sete Reinos na aba de Reflexões.

06/10/2020: TRÊS TRONCOS DE QUIMBANDA NO BRASIL #1 - Fernando de Ligório

Eu tenho falado disso faz algum tempo. Aqui no site Filosofia Oculta, aba de Reflexões, veja a entrada de 27/3/2020 (Feitiçaria Ars Nigra). Na aba de Artigos veja a entrada de 24/6/2020 (O Progresso da Ignorância na Quimbanda). E veja também o artigo A Tradição de Quimbanda. Segue algumas postagens sobre esse tema, indicando alguns livros para um aprofundamento.

   A Quimbanda Cruzada é conectada a cosmovisão da Umbanda e está diretamente atrelada a essa religião. Ela nasceu efetivamente na Tenda Espírita São Jorge por volta de 1940 na cidade do Rio de Janeiro. Na ocasião, o Caboclo Tupinambás deu autorização espiritual para os Exus e Pombagiras se manifestarem após a incorporação dos Caboclos e Preto-Velhos no final dos trabalhos (veja aba de Novas Reflexões, entrada de 27/9/2020). Foi uma verdadeira revolução dentro da Umbanda porque até aquele momento os Exus e Pombagiras da Quimbanda (então compreendida como o Culto da Macumba), eram pintados como entidades vis e de extrema baixeza espiritual. Por volta da década de 1960 outra revolução ocorreu na Umbanda. Os Exus e Pombagiras se cansaram de serem relegados aos fins das sessões de trabalhos, arrombaram as portas das Cáfuas e invadiram as giras. O expoente máximo dessa segunda revolução foi o Exu Rei das Sete Encruzilhadas através da médium Ieda do Ogum (veja aba de reflexões, entradas de 7 e 9/3/2020).

   Na Quimbanda Cruzada os Exus e Pombagiras são atribuídos a linha de esquerda ou linha negra. Eles estão sob a autoridade de santos e òrìṣà, têm de evoluir espiritualmente e são ora agentes da Lei Divina, ora guardiões, ora amigos, ora tutores, ora diabos. Até os dias de hoje há muita indecisão na Umbanda acerca do papel de Exu e Pombagira, e há estudo acadêmico explorando as múltiplas ressignificações que a Umbanda deu a Exu nos últimos 70 anos.[1] O livro da imagem, Exuzada, de Luciana Fidelis, Douglas Rainho e Roe Mesquita (do podcast Papo na Encruza), é um livro da tradição de Quimbanda Cruzada. É lúcido, esclarecendo que diferente das Quimbandas independentes da Umbanda, a Quimbanda Cruzada não se orienta pelos Sete Reinos do Chefe Império Maioral, mas pelas Sete Linhas criadas por Lourenço Braga em 1942. Somente a Quimbanda Cruzada se orienta por essas Sete Linhas; tanto é assim que obras conectadas as Quimbandas Tradicional e Luciferiana não abordam esse tema, como veremos nas próximas postagens que darão continuidade a essa. O livro Exuzada é uma ótima, agradável e fácil leitura esclarecendo a cosmovisão da Quimbanda Cruzada. Algumas palavras dos autores bem interessantes:

Nesse livro, o primeiro do selo «Papo na Encruza», queremos trazer uma catalogação – que pode variar muito conforme os cultos – dos Exus que atuam na Quimbanda da Umbanda. [...] Em algumas Quimbandas os espíritos estão divididos por grupos ou agrupamentos, o que, geralmente, dentro da Umbanda , chamamos de Linhas, Falanges, Legiões, Povos e Tribos. No caso da Quimbanda, também encontramos outros termos, sendo que o mais usado é Reino. Aqui não usaremos essa nomenclatura, pois não estamos falando da Quimbanda como culto independente – ou das muitas Quimbandas. Estamos aqui nos aprofundando na Quimbanda da Umbanda, ou a Sétima Linha de Umbanda, chamada de Linha dos Santos e Almas.[2]

A Quimbanda Cruzada se orienta pela cosmovisão da Lei de Umbanda. Eu pessoalmente costumo me referir a Quimbanda Cruzada como Umbanda de Esquerda por conta dessa conexão inexorável. Tanto é assim que sacerdotes de Quimbanda Cruzada costumam dizer que a Quimbanda trata-se apenas de uma ferramenta de trabalho da Umbanda.

   Amanha falamos da Quimbanda Tradicional e depois da Quimbanda Luciferiana ou Independente.

 

NOTAS:

[1] Lenny Francis Campos de Alvarenga, As Ressignificações de Exu dentro da Umbanda. Universidade Católica de Goiás, departamento de Ciências da Religião, 2006.

[2] Luciana Fidelis, Douglas Rainho e Roe Mesquita: Exuzada. Podcast Papo na Encruza, 2019. Os negritos são meus.

27/9/2020: AS SETE LINHAS E OS SETE REINOS DE QUIMBANDA - Fernando de Ligório

Tais entidades tem ufania de seu poder; são com frequência, irritadiças e vingativas, mas, quando querem agradar a um amigo da Terra, não medem esforços para satisfazê-lo. As suas lutas no espaço, por questões da Terra, tem a grandeza terrível das batalhas e das tragédias. Essa magia exerce diariamente a sua influência perturbadora sobre a existência, no Rio de Janeiro. Centenas de pessoas de todas as classes, pobres e ricos, grandes e pequenos, por motivos de amor, por motivos de ódio, por motivos de interesse, recorrem aos seus sortilégios. A política foi e continua a ser dos seus melhores e mais assíduos clientes.[1]

A Quimbanda opera magicamente por meio de uma ampla zona de poder conhecida como os Sete Reinos do Chefe Império Maioral. O desenvolvimento dessa estrutura mágica levou quase cem anos do período que se estende desde a Macumba carioca no início do Séc. XIX, quando começou o segundo momento do Culto de Exu no Brasil, até os dias de hoje. A Quimbanda não é mais a terra de ninguém onde qualquer um diz ou escreve qualquer coisa e isso se dá por verdade ou fundamento, principalmente na delicada questão história. Hoje temos material abundante de pesquisa que possibilita traçar a gênese do Culto de Exu no Brasil. Durante muito tempo algumas fantasias e estruturas perniciosas foram desenvolvidas na intenção de fazer crer de modo injurioso que a Quimbanda seria: i. um culto de magia negra cujos espíritos dedicavam seu trabalho e influência a todo tipo de licenciosidade moral e ética; ii. a esquerda ou linha negra das casas umbandistas. Embora a primeira afirmativa tenha respaldo teológico e filosófico segundo a crença cristã-kardecista de muitas tradições umbandistas, mas que é facilmente refutável ou esclarecido pela filosofia e herança cultural da Quimbanda, a segunda afirmativa tem como respaldo apenas o dogma, a mentira e a fantasia.[2] Os primeiros autores umbandistas a escrever sobre Quimbanda foram precipitadamente criativos e de uma medonha desonestidade intelectual.[3]

   A Umbanda foi, em verdade, uma releitura kardecista da Macumba carioca, elegendo Preto-Velhos e Caboclos como guias de luz e Exus e Pombagiras como criaturas malignas capazes de fazer qualquer coisa moralmente condenável. Segundo Aluízio Fontenelle (1913-1952) em sua obra de 1951, Exu, a Umbanda como linha branca foi criada para combater a Quimbanda como linha negra.[4] Nesta obra o que Fontenelle apresenta como Quimbanda é, em verdade, a Macumba.[5] Na distribuição dos Exus conhecidos naquela época, Fontenelle esboça dois Reinos de Quimbanda: o Reino das Encruzilhadas e o Reino dos Cemitérios. Na época em que os Exus se manifestavam na Macumba eles eram conhecidos como o Povo da Encruzilhada. Então enquanto que na Macumba apenas um Reino era atribuído à morada dos Exus, cinquenta anos depois Fontenelle apresenta um segundo Reino, o dos Cemitérios. Em seu livro O Espiritismo no Conceito das religiões e a Lei de Umbanda (1952), Fontenelle reproduz uma lista publicada em 1942 por Lourenço Braga no livro Umbanda (Magia Branca) e Quimbanda (Magia Negra) que continha uma lista das sete linhas de Quimbanda. Nessa obra Lourenço Braga dá continuidade às ideias de Leal de Souza acerca da linha branca e da linha negra, ideia essa também defendida por Fontenelle, cristalizando a doutrina de que a Umbanda (ou linha branca) tratou-se de um movimento espiritual de oposição a Quimbanda (ou linha negra, entendida como a Macumba espalhada pelo Rio de janeiro até meados da década de 1930). Então as sete linhas de Quimbanda se opunham em contraste e equilíbrio cósmico com as sete linhas de Umbanda. Mas o fato é este: essas sete linhas de Quimbanda delineadas por Braga não existem; elas foram uma primeira tentativa de delinear ou estruturar o Culto de Exu no Brasil e tendo sido descartadas, serviram como inspiração para a estrutura dos Sete Reinos do Chefe Império Maioral que hoje reconhecemos no culto. Não existem sete linhas de Quimbanda; o que existe são os Sete Reinos de Quimbanda.

NOTAS:

[1] Leal de Souza, O Espiritismo, a Magia e as Sete Linhas de Umbanda. Rio de Janeiro, 1933. A referência é aos Exus que se manifestavam nas diversas casas de Macumba no Rio de Janeiro no início do Séc. XIX. Nesta obra de Leal de Souza a figura e atuação dos Exus são humanizadas, caminho distinto daquele escolhido por Aluízio Fontenelle na sua obra Exu (1951), que demonizou os Exus comparando-os a demônios.

[2] Isso por vários motivos, muitos para serem esclarecidos neste opúsculo de meditação. Mas podemos destacar o fato do nascimento do que se conveniou chamar de Quimbanda Cruzada, quer dizer, a Quimbanda derivada da Umbanda que nasceu em 1940 na Tenda Espírita São Jorge no Rio de Janeiro, quando o Caboclo Tupinambás abriu espaço oficialmente para que os Exus da famigerada Quimbanda (a Macumba carioca ou magia negra) se manifestassem nas giras após os Caboclos e Preto-Velhos. Nessa linha cruzada, negando a apresentação da atuação dos Exus de forma civilizada já atestada desde a década de 1930 por Leal de Souza em seu livro O Espiritismo, a Magia e as Sete Linhas de Umbanda (veja a citação que abre essa reflexão), os Exus apresentavam-se com consciência involuída, torpes, ignorantes, não doutrinados, inclinados a fazer o mal e prejudicar as pessoas. Eles deveriam ser doutrinados e batizados tendo que evoluir com a ajuda dos médiuns. Entre as décadas de 1940 e 1960 os Exus batizados da Umbanda, diferente dos Exus pagãos de fora da Umbanda, ganharam a chancela de Exus de Alta, quer dizer, Exus coroados e batizados que atuavam de forma elegante e civilizada, então pertencentes a uma hierarquia superior de espíritos. A exemplo temos a relação da Mãe Ieda do Ogum no Rio Grande do Sul com seu Exu tutelar, o Exu Rei das Sete Encruzilhadas. A Quimbanda Cruzada foi a mais popularizada forma de Culto de Exu no Brasil desde a década de 1940, trazendo inúmeros desfundamentos na arte de se comunicar com os Poderosos Mortos, como venho demonstrando em textos e vídeos. Sobre esse tema veja Lenny Francis Campos de Alvarenga, As Ressignificações de Exu dentro da Umbanda. Universidade Católica de Goiás, departamento de Ciências da Religião, 2006.

[3] Não só os primeiros autores de Umbanda foram desonestos intelectuais, mas os de hoje também. Por exemplo, o mito de criação da Umbanda pelo lendário Zélio Fernandino de Morais (1891-1975); até a década de 1960 não existe menção a Zélio como fundador da Umbanda em qualquer documento de associações ou congressos umbandistas. Embora respeitado, ele sempre teve uma estima secundária entre os umbandistas daquela época. Veja Vagner Gonçalves da Silva, Caminhos da Alma: Memória Afro-Brasileira. Selo Negro Edições, 2001.

[4] O que atesta a verossímil realidade de que a Quimbanda antecede a Umbanda.

[5] Desde o início a Umbanda escondeu que se derivou diretamente da Macumba. Os elementos centrais do ritual da Macumba na forma de giras, sua teogonia de espíritos ancestrais e o próprio nome umbanda foram rearranjados ao redor do espiritismo francês de alta classe social, o que acabou por se apresentar na forma de uma doutrina de luz que antagonizava o maligno e obscuro culto da Macumba carioca.

23/9/2020: O DESENVOLVIMENTO DA QUIMBANDA NO BRASIL - Fernando de Ligório

O desenvolvimento efetivo da Quimbanda, embora sua gênese se apresente em um primeiro momento no Brasil colonial como venho demonstrando no texto A Tradição de Quimbanda, ocorreu somente em um segundo momento, com o advento da Macumba carioca. É da Macumba carioca que o Culto de Exu como hoje o conhecemos começou a tomar forma. Os nomes umbanda e quimbanda já eram termos utilizados no culto da Macumba e segundo autores umbandistas como Aluízio Fontenelle (1913-1952), a tradição de Umbanda foi criada para combater a iniquidade da Macumba, classificada por ele com o nome de Quimbanda sob a pecha de magia negra. Então aquilo que Fontenelle descreve como Quimbanda em sua obra, Exu (1951), não se trata da Quimbanda que conhecemos hoje como tradição independente. A importância disso ser frisado e esclarecido é que até os dias de hoje Fontanelle, sua obra e especulações são tidas como verdades irretocáveis. Note que no livro de Fontenele ele apresenta somente dois Reinos de Quimbanda: cemitério e encruzilhada, realidade distante dos Sete Reinos hoje bem estabelecidos.

   A primeira tentativa ou esboço dos Sete Reinos de Quimbanda foi à apresentação umbandista das famigeradas Sete Linhas de Quimbanda. Essas, inexistentes em realidade de fato a despeito da fantasia criada e por muitos acreditada, foi uma classificação (ou estruturação) mal sucedida, mas que de certa forma norteou a sistematização efetiva do Culto de Exu ao redor dos Sete Reinos e seus 49 Povos de Exus e Pombagiras. Então hoje é possível ver com muita clareza que a Quimbanda não é, nunca foi e nunca será a esquerda da Umbanda. Essa fantasia é pura desonestidade intelectual! Diferente disso, a Quimbanda vem crescendo desde sua gênese na Macumba, desenvolvendo seu sistema, cosmologia e teogonia. A Quimbanda como sistema independente de feitiçaria tradicional brasileira não está atrelada ou depende do Culto aos Òrìṣà (tradição nàgô-yorubá), do Culto aos Nkisis, Ngangas e Tatás (cultura kimbundo-banto), do xamanismo ameríndio (cultura Tupí-Guaraní etc.) ou Culto ao Diabo e demônios pessoais (feitiçaria ibérica e tradição europeia dos grimórios); embora tenha raízes em todas essas tradições e culturas, a partir dos elementos delas a Quimbanda estabeleceu um culto próprio, peculiar a terra e gente brasileira.

22/9/2020: CONVOCAÇÃO DE DEMÔNIO NA QUIMBANDA - Fernando de Ligório

A seguinte questão me chegou: Fernando, rebatendo o que você alega nos seus vídeos e textos, o pessoal da Quimbanda [...] alega que os daimones são deuses antigos, por isso eles os consideram mais poderosos que os Exus e os convocam para irradiar mais força sobre esses. Bom, eu não sou uma pessoa de mente fechada! No entanto, para me convencer de algo, todas as minhas perguntas têm de ser respondidas com fundamentação lúcida e lógica. E convocando a memória da cultura nàgô-yorubá, qualquer fundamentação prática de culto deve ser respaldada por uma história narrada nos mitos, contos e lendas. Eu publiquei uma nota no Facebook há mais de um ano. Vou extrair dessa nota um trecho e ela orientará toda minha argumentação:

[...] através de pesquisas filológicas e etmológicas dizem que estes demônios [do Ars Goetia] são antigos deuses transformados em demônios. [...] Eles viram que a língua evoluiu e a partir dessa evolução os termos e nomes começaram a produzir corruptelas e aí eles concluíram que na Idade Média esses nomes de deuses antigos culminaram nesses nomes goéticos. [...] É como pegar um nome arcaico, por exemplo, Mikael, o arcanjo solar da cabalá e que seu nome no cristianismo evoluiu para Miguel. E será que Mikael é Miguel? O Mikael solar, uma expressão da glória de Deus, tornou-se um Santo com espada e manto azul, guardião do cristianismo. Aí os cristãos ao invés de invocarem Kamael, a espada e o escudo de Deus marciais, invocam Miguel para proteção. Vê como as corruptelas não podem ser as mesmas do original? Dessa maneira, os deuses antigos, que têm características planetárias específicas, mudam de uma banda vibracional para outra. Assim, no caso de Mikael que era solar na cabalá tornou-se marcial no cristianismo. Isso você pode concluir de todos os deuses do passado. [...]

Ao fazer uma comparação entre o demônio Ashtaroth, celebrado em vários grimórios modernos, e as deusas da Antiguidade (Inana, Astarte), Jake Stratton-Kent diz: Para nossos propósitos imediatos, Astaroth é considerado semelhante, senão idêntico a uma deusa dos cananeus pagãos e outros, conhecida como Astarte, e associada à Vênus e à Lua.[1] Kent é um dos precursores modernos do que se conveniou chamar de renascer dos grimórios (grimoire rivival) cujo objetivo é quebrar a hegemonia cristã na interpretação dos grimórios, destacando suas fontes pagãs.[2] É de muito respeito e notoriedade o seu trabalho, mas não vejo nele nenhuma praticidade além do estudo técnico e histórico. A luz do cristianismo, a magia e feitiçaria antigas, seus deuses e espíritos diversos, tornaram-se demônios. É por isso que, na minha opinião, não deveria ser traçada equivalência entre um demônio medieval dos grimórios e os daimones gregos, porque estes vão para muito além dos propósitos e manifestações dos demônios escatológicos cristãos.[3] A convocação de demônios do Grimorium Verum, Ars Goetia etc. dentro da Quimbanda, usando seus símbolos, metalinguagem e tecnologia mágica contamina a prática levando para dentro dos Reinos de Quimbanda o que se conveniou chamar de Interpretatio Christiana, ou seja, a vibração dessas criaturas na interpretação que o cristianismo deu a ela.[4] Dessa forma o feiticeiro-kimbanda não está convocando a deusa Astarte, sua força e potência antigas, mas o demônio Ashtaroth como o conhecemos nos grimórios. Baseando-me na argumentação que fiz na nota acima, embora tenham conexão ontológica, filológica e epistemológica, não se tratam mais da mesma criatura espiritual. Isso fica muito claro a luz de Jâmblico que categoriza os deuses, os daimones, os heróis e as almas segundo seus três vetores de manifestação: ousia (essência), dunamis (poder) e energeia (atividade). Ao mudar o nome de uma deusa como Astarte para o demônio Ashtaroth, sua essência, poder, atividade também mudam. É por isso que em verdade o demônio medieval Astaroth não é a deusa Astarte da Antiguidade; é por isso que o Mikael da cabalá judaica não é o Miguel do cristianismo católico.

   Muitos feiticeiros-kimbanda podem pensar que, ao convocarem Ashtaroth, estão em verdade adorando o poder Astarte (Inana, Hécate etc.) como Rainha das Encruzilhadas,[5] irradiando mais força em seus Exus e Pombagiras; mas não é o caso, pelo motivo demonstrado acima. Ademais, Pombagira concentra na Quimbanda todo poder ancestral derivado dessas antigas deusas. Convocar e trabalhar com Pombagira é operar diretamente com o poder de Astarte, Lilith, Hécate, Inana, Babalon, Asherah etc. E por lógica, seguindo este bom senso, seria mais eficiente convocar Astarte na sua forma original.

   Quem inaugurou efetivamente a conexão entre Exus e os demônios escatológicos cristãos derivados dos grimórios e manuais demonológicos europeus foi Aluízio Fontenelle (1913-1952) em seu livro Exu. Com base na versão italiana do Grimorium Verum (e muito possivelmente através de alguma edição de O Livro de São Cipriano, o que não tenho 100% de certeza, mas é provável que sim), somado a ideias retiradas de Eliphas Levi (1810-1875), Fontenelle faz uma extensa comparação entre Exus e demônios, o que Jake Stratton-Kent em sua pesquisa chama de Exu com alter ego demoníaco: [...] Este material diz respeito à Legião de Exus, ou Povo do Cemitério, uma vasta classe de entidades, muitas das quais em várias tradições brasileiras têm como alter egos os demônios do Grimório. Os cultos brasileiros de Umbanda e Quimbanda apresentam grande diversidade. Entre eles estão fios que há muito reconhecem os demônios do Grimório como equivalentes diretos de sua Legião de Exus ou Povo do Cemitério. Esses alter egos são conhecidos como demônios cabalísticos.[6] Essa pesquisa de Kent foi completamente baseada na obra de Fontenelle, que tem amplas falhas, pontas soltas e a luz do esclarecimento, chega a ser vulgar em entendimento.[7]

   Ao tentar estabelecer uma linha de pesquisa que conecte a interpretação (e sincretismo) que Fontenelle fornece com suas fontes, quer dizer, as versões do Grimorium Verum disponíveis na época, Kent diz: Como todos os Exus são essencialmente de natureza intermediária, isso não cria dificuldades nos cultos brasileiros, apenas indicando a origem das influências textuais.[8] Na cultura nàgô-yorubá que alimenta a Quimbanda, o Èṣú Òrìṣà possui essa virtude intermediária e mercurial. Como ele foi a maior fonte de inspiração para o Exu de Quimbanda, entendemos que o Exu é um intermediário entre o feiticeiro e outras criaturas espirituais, as quais estão sob a sua autoridade, convocando a fórmula mágica universal do espírito tutelar; mas os Exus de Quimbanda não são essencialmente de natureza intermediária. Exu abre linha, como dizemos, mas ele é dono dela. No texto Os Poderosos Mortos, disponível aqui no site Filosofia Oculta, eu saliento que o Culto de Exu está muito mais próximo ao culto dos heróis gregos ou santos católicos do que das convocações goéticas medievais ou associação com demônios.

   Kent continua: Até onde vai a associação entre espíritos do Verum e Exus é difícil de estabelecer com certeza. É muito provável que o Verum tenha chegado ao Brasil no século XIX. Aparentemente, também houve edições do muito popular O Livro de São Cipriano, que incluía tabelas de bebidas espirituosas do Verum. [...] Os críticos da associação entre espíritos Verum e Exus fariam bem em entender o significado real do True Grimoire antes de assumir que tal associação é negativa ou superficial.[9] Particularmente eu assumo que é tão superficial quanto negativa, a luz do que é o Grimorium Verum, sua estrutura, metalinguagem e objetivos. E tudo é muito simples de ser explicado. A Quimbanda possui seus métodos próprios e não precisa, efetivamente, de nenhuma tecnologia ou espírito derivados do Grimorium Verum. Exus e Pombagiras na condição de almas deificadas são superiores aos demônios escatológicos de qualquer grimório moderno. E para finalizar, como coloquei ênfase a luz de Jâmblico no texto sobre os Sete Reinos de Quimbanda disponível aqui no site Filosofia Oculta, estes demônios escatológicos cristãos são em realidade desprovidos de razão (e não há porque repetir aqui o que foi dito naquele texto). Como é que podem eles serem superiores a Exus e Pombagiras? Você entende o que é a integridade de alma ou pneuma de uma entidade deificada?

NOTAS:

[1] Jake Stratton-Kent, Encyclopaedia Goetica Vol. I: The True Grimoire. Scarlet Imprint, 2009.

[2] Humberto Maggi, Goetia: História & Prática. Clube de Autores, 2020.

[3] A tarefa dos daimones é cosmogônica. Eles são agentes de prohodos, quer dizer, obedecem a «benéfica vontade dos deuses», revelando o bem invisível e divino. E na medida que os daimones servem ao impulso processional dos deuses, eles são responsáveis, também, por conectarem a Alma a matéria. Em sua função extrovertida, os daimones produzem o crescimento das plantas, preservam as espécies (incluindo os homens) através dos impulsos sexuais e outros instintos etc. Isso significa que os daimones estão em uma direção diametralmente oposta a vontade da Alma de se libertar dos apegos da matéria, no entanto, são eles agentes dos deuses e do próprio Demiurgo. Assim, o teurgo precisa aprender como lidar com essas forças ou funções demiúrgicas, não rejeitá-las ou se opor a elas. «Eu digo, portanto, que os daimones são produtos de forças gerativas e demiúrgicas dos Deuses na culminação mais extrema da processão [cosmogônica] e a última distribuição das partes.» Os daimones são, portanto, leis da natureza. Como guardiões do reino da geração, eles cegamente executam suas tarefas e a Alma prospera ou não em acordo ao uso judicioso destes poderes da natureza. Os heróis, por outro lado, possuem uma função soteriológica, guiando as Almas para sua integração espiritual nos reinos celestes. «Mas os heróis são produtos do próprio logoi em acordo a vida dos seres superiores, e a primeira e perfeita medida da alma é definida pelos heróis.» [...] De acordo com esses vetores de manifestação, é possível perceber a função cosmogônica dos daimones. Agindo como uma força centrífuga, eles carregam o poder gerativo do Demiurgo em suas mais particulares expressões. A função dos heróis, por outro lado, é conversiva. Como agentes da epistrophē, eles guiam os impulsos daimônicos da Alma para os reinos celestiais. De certa maneira, os daimones e os heróis estão em conflito. Os daimones reforçam os apegos da Alma a matéria, os heróis auxiliam a Alma a se libertar da matéria. Na mitologia grega encontramos vários mitos entre heróis lutando contra daimones, refletindo esse arcano de mistério. Nesse caminho, vê-se como os daimones da tradição platônica tornaram-se os demônios das tradições gnósticas e cristãs, bem como na distorção apresentada na goécia medieval. No entanto, para Jâmblico, tanto os daimones como os heróis agem em acordo com a vontade divina. Veja Gregory Shaw, Theurgy and the Soul: The Neoplatonismo of Iamblichus. Angelico Press, 2014.

[4] A Quimbanda antagoniza, está em total oposição e se rebela contra o cristianismo, sua metalinguagem e cosmovisão, bem como a tradição judaica e islâmica. No entanto, em sua estrutura de culto e metafísica, em sua organização cosmológica e cosmogônica, há certa influência da tradição católica portuguesa.

[5] Jake Stratton-Kent, Encyclopaedia Goetica Vol. I: The True Grimoire. Scarlet Imprint, 2009.

[6] Ibidem.

[7] Vele lembrar ainda que quando Fontenelle fala em Quimbanda, ele quer dizer a Macumba carioca.

[8] Jake Stratton-Kent, Encyclopaedia Goetica Vol. I: The True Grimoire. Scarlet Imprint, 2009.

[9] Ibidem.

19/9/2020: EM BUSCA DAS RAÍZES DO CULTO DE EXU - Fernando de Ligório

A grande maioria das descrições umbandistas acerca do aparecimento de Exu nos terreiros de Umbanda o descrevem como uma criatura abominável que precisava de luz e evolução. A partir dos anos de 1940, 1950 e 1960 apareceram eruditos umbandistas destemidos a condenar as raízes africanas da Umbanda. Lourenço Braga, Aluízio Fontenelle e José Bitencourtt foram autores que marcaram e influenciaram pelo menos três ou quatro gerações de umbandistas, e eles têm alguma relevância até hoje. Nestes autores ficava nítida a delimitação entre o que se conveniou chamar de linha branca e linha negra. A partir de 1940 os Exus e Pombagiras causaram uma revolução dentro da Umbanda:[1] com a autorização do Caboclo Tupinabás, a Tenda Espírita São Jorge do Rio de Janeiro começou a abrir giras de Exu e Pombagira após as giras de Caboclos e Preto-Velhos. A partir dali a Umbanda não poderia esconder Exu e Pombagira que cruzavam linha nas sessões. Como mencionei anteriormente, a Umbanda fez de tudo para esconder suas raízes na Macumba carioca; no entanto, a partir de 1940 isso não seria mais possível. Então a partir dali os autores umbandistas (eurocentristas e preconceituosos) passaram a denegrir os Exus e o que se conveniou chamar de Quimbanda.

   A Quimbanda seria a linha negra dentro da Umbanda, onde os Exus manifestavam-se em seus médiuns caricaturizados, trevosos, raivosos etc. Mas essa é uma narrativa mítica que se cristalizou, infelizmente, nos terreiros, principalmente a partir de 1960. Em Fontenelle os Exus efetivamente foram equiparados a demônios, resgatando a iconografia atribuída a eles desde a Macumba. Com o tempo os autores umbandistas desenvolveram a ideia de que a Quimbanda, em verdade, havia saído de dentro da Umbanda, hora como uma parte do ritual (quando Exus e Pombagiras se manifestavam no fim das giras para descarrego das casas e terreiros), hora como uma linha a parte, de esquerda, que equilibrava os trabalhos da linha de direita e protegiam os filhos de fé e os terreiros contra ataques de feitiçaria.[2]

   Na contramão destes letrados umbandistas que apareceram após 1940, está o primeiro autor de Umbanda, Leal de Souza. Em sua obra O Espiritismo, a Magia e as Sete Linhas de Umbanda de 1925 (alguns historiadores propõem 1935 a partir dos artigos datados que compõem o livro de 1930 a 1933), Leal descreve Exu falando normalmente com os participantes de uma sessão, sem a falácia de que Exu é demônio, é trevoso ou raivoso. Na sua descrição ele não só falava de forma que todos compreendiam, mas realizava milagres no curso da incorporação do médium. Fica nítido nessa obra, também, a delimitação entre a linha branca e a linha negra, associada a Macumba carioca (Cap. XIII) e a Magia Negra (Cap. XIV). A partir de Leal de Souza está claro que a Umbanda seria a linha branca criada para contrapor a linha negra da Macumba, a Quimbanda, o que concorda Fontenelle em 1951 (veja Nota 2 abaixo). Leal descrevia, com lealdade, o trabalho, a manifestação e o comportamento de Exu pela primeira vez em 1925; sua descrição é distinta daquilo que os autores posteriores preferiram agregar.

   O primeiro momento do Culto de Exu no Brasil começa ainda na África, se estende pelo período colonial até a derrocada da Cabula capixaba; o segundo momento do Culto de Exu no Brasil começa com a Macumba carioca, cujos métodos estão em sincronia com tudo o que fazemos hoje na Quimbanda de forma aprimorada.

O rito usado na Cabula o era também em terreiros sudaneses da Bahia e em outros lugares de influência Banto. Aqui, no Rio de Janeiro, nas pesquisas de campo em terreiros de Umbanda e Macumba ouvi frequentemente referências a essa prática comprobatória da autenticidade da «possessão» por uma entidade, mas nos quatro anos de intensiva pesquisa de campo não tive ocasião de presenciar sua prática. Ao que tudo indica, está caindo em desuso, pela pressão de pais-de-santo de formação kardecista, que repugnam todas as práticas virulentas dos antigos rituais africanos.[3]

Valdeli Carvalho da Costa descreve no desenvolvimento de sua comparação entre a Cabula e a Macumba um rito de comprovação de possessão por uma entidade, provavelmente um Exu. O rito consistia em colocar um turíbulo de barro e orifícios com brasas (candaru) e fogo (ajerê) sobre a cabeça do médium em trabalho, derramando azeite sobre ele. Caso se queimasse, a possessão não era verdadeira. Mais a frente ele descreve outro ritual conectando a Cabula a Macumba, onde o médium incorporado de Exu, purificava aqueles que compareciam as sessões com o fogo da vela e a fumaça do charuto. Pelos textos destes autores, Exu e Pombagira se apresentavam já na Cabula e na Macumba realizando proezas e milagres mágicos. Leal de Souza em O Espiritismo, a Magia e as Sete Linhas de Umbanda (Cap. XIV) descreve Exu imolando um gato e mantendo-o vivo por dezessete minutos dentro de um ponto riscado.

   Contrariando e desmentindo umbandistas modernos que afirmam que Exu manifesta-se trevoso e raivoso, necessitando de doutrinação e educação espiritual, muito antes deles as descrições de Exu falam de uma criatura mágica, educada e poderosa.

notas:

[1] Veja a tese de mestrado de Lenny Francis Campos de Alvarenga, As Ressignificações de Exu dentro da Umbanda. Universidade Católica de Goiás, departamento de Ciências da Religião, 2006.

[2] Mas em realidade é a Umbanda que vem da Quimbanda. Por um lado, apelando à ancestralidade africana, a enbanda (medicina mágica) trata-se de uma arte praticada por um kimbanda; por outro lado, os rituais da Macumba, genitora da Umbanda e da Quimbanda, receberam muita influência da cultura kimbundo-banto através da Cabula capixaba. Na Cabula o embanda era o sacerdote da mesa de trabalho, assistido por um cambone. Na reflexão anterior eu havia dito que foi na Macumba que Exus e Pombagiras se manifestaram pela primeira vez. Corrigindo, na verdade foi na Cabula. Veja o artigo de Valdeli Carvalho da Costa, Cabula e Macumba, na Revista Síntese, No. 41, 1987. O que conhecemos hoje como Quimbanda é um aperfeiçoamento e refinamento da Macumba carioca. O que Fontenelle indica como Quimbanda em sua obra, Exu de 1951, é na verdade a Macumba, então denegrida e rechaçada pela Umbanda. Segundo ele, a linha branca da Umbanda foi formada para lutar contra a linha negra da Quimbanda. Quer dizer, a Quimbanda veio primeira. Veja Humberto Maggi, Queen of the Seven Crossroads, Hadean Press, 2020.

[3] Valdeli Carvalho da Costa, Cabula e Macumba, na Revista Síntese, No. 41, 1987.

17/9/2020: A QUIMBANDA TEM IDENTIDADE PRÓPRIA - Fernando de Ligório

Em fins do século passado, existiam, no Rio de Janeiro, várias modalidades de culto que denotavam, nitidamente, a origem africana, embora já bem distanciadas da crença trazida pelos escravos. A magia dos velhos africanos, transmitida oralmente através de gerações, desvirtuava-se, mesclada com as feitiçarias vindas de Portugal onde, no dizer de Morales de los Rios, existiram sempre feitiços, rezas e supertições.[1]

As «macumbas» – mistura de catolicismo, fetichismo negro e crenças nativas – multiplicavam-se; tomou vulto a atividade remunerada do feiticeiro, o «trabalho feito» passou a ordem do dia, dando motivo a outro, para lhe destruir os efeitos maléficos; generalizaram-se os «despachos», visando se obter favores para uns e prejudicar terceiros; aves e animais eram sacrificados, com as mais diversas finalidades; exigiam-se objetos raros para homenagear entidades ou satisfazer elementos do baixo astral. Sempre, porém, obedecendo aos objetivos primordiais: aumentar a renda do feiticeiro ou «derrubar» – termo que esteve muito em voga – os que não se curvassem ante os seus poderes ou pretendessem fazer-lhe concorrência.[2]

No meu texto A Tradição de Quimbanda[3] eu trato dos dois momentos do Culto de Exu no Brasil. Hoje nós vivemos o segundo momento que teve início entre os anos de 1900 e 1920[4] com o movimento da Macumba no Rio de Janeiro, marcando o início ou eclosão da Quimbanda alguns anos depois, que desde então tem tomado corpo doutrinário e filosófico apurado, refinado e independente. Como demonstrei no meu texto, a Quimbanda tornou-se herdeira ou o sumo concentrado dos Calundus baianos, da Cabula capixaba e da Macumba carioca: na Quimbanda é possível encontrar traços desses três movimentos religiosos afro-brasileiros conjugados em harmonia, criando o corpo prático/litúrgico que hoje exercitamos em nossos rituais (giras).

   O feiticeiro-kimbanda de hoje no Brasil herda os traços ou as características do kimbanda africano: curandeiro nativo; médico da alma; homem que prepara medicinas (umbanda) que para funcionarem devem seguir prescrições (ijila); curandeiro que tem acesso a ku’Alunga (terra dos mortos); curandeiro que contata o rei do submundo ou dos mortos (kalunga-ngombe).[5] Avaliando o papel do kimbanda africano, Humberto Maggi resume:

O kimbanda pode providenciar soluções mágicas para problemas diários preparando umbandas.

O kimbanda pode acessar os mortos ou o reino dos mortos, talvez pela prática de incubação onde ele decreta um enterro próprio ou dorme sobre a tumba.

O kimbanda age como um curador.

Uma das maneiras que o kimbanda pode receber instrução dos espíritos é através dos sonhos.

O kimbanda é visto de maneira muito positiva.

O kimbanda é um ofício que pode ser muito lucrativo.[6]

A Macumba, diferente da criminalização pejorativa descrita por Omolubà na nota que abre essa reflexão, trazia traços do kimbanda africano introduzidos nos movimentos religiosos afro-brasileiros desde os primeiros Calundus baianos. O kimbanda africano, por outro lado e sendo considerado um curador, trata-se de uma figura muito próxima ao xamã (curandeiro e feiticeiro tribal) de muitas culturas e cujas instruções espirituais são recebidas em sonhos ou transes/possessões através de espíritos diversos, principalmente ancestrais, divinizados ou não. Como enfatizei diversas vezes em livros, vídeos, artigos e reflexões desse site, os passos para tornar-se um feiticeiro são quase que universais em diversas culturas, seguindo um padrão:

Passo 1: tornar-se apto através do estudo e prática para chegada do mestre.

Passo 2: encontrar o mestre e aprender com ele a contatar-se com espíritos, fundamentalmente o espírito tutelar e ancestrais pessoais.

Passo 3: contatar o espírito tutelar e aprender com ele a arte da feitiçaria, seja através da possessão/transe ou através da inspiração e sonhos.

Passo 4: colocar em prática o que aprendeu com o espírito tutelar a favor da comunidade, sendo remunerado por seus serviços mágicos.

Diferente das noções racistas, eurocentristas, sexistas etc. enfim, preconceituosas e ignorantes, o ofício do feiticeiro é um dos trabalhos mais antigos da humanidade e em tempos remotos, antes da formação das grandes cidades em diversas culturas, seu papel e presença era tido em alta medida. No Brasil, desde o primeiro momento do Culto de Exu no período colonial, o feiticeiro tem sido perseguido e condenado. Com a criminalização da figura diabólica de Exu, os feiticeiros-kimbanda ao invés de assumirem o papel de curandeiros e médicos da alma, são perseguidos como feiticeiros (muloji) das trevas, macumbeiros ávidos por riqueza a custa de incautos. Essa visão pejorativa ainda impera no Brasil hoje devido a popularização da Umbanda que, de modo geral, entende os Exus da Quimbanda como entidades pagãs, quer dizer, que ainda não foram doutrinadas e são gananciosas por fazer o mal e prejudicar quem quer que seja. Tomando posse do Culto de Exu a todo custo, a Umbanda apresenta seus Exus como doutrinados, portanto, batizados, espadados e coroados. Essa hierarquia, de fato, não existe na Quimbanda; os feiticeiros da Quimbanda, por trabalharem com Exus e Pombagiras que estão fora do controle da Umbanda, são tidos como desajustados criminosos.

   Quimbanda e Umbanda, movimentos tradicionais de feitiçaria brasileira, são filhas da Macumba carioca. A Umbanda fez de tudo para separar-se completamente de sua mãe, a Macumba, ao ponto de, por muito tempo, negar e esconder o trabalho com Exus.[7] Estes, por sua vez, apareceram efetivamente pela primeira vez na Macumba.[8] A Quimbanda, seguindo um caminho oposto, elevou Exus e Pombagiras a categoria de reis e rainhas do culto, não havendo ninguém, espírito nenhum, Caboclo ou Preto-Velho, acima deles. Assim, a Quimbanda criou uma identidade própria apartada da Umbanda! Abertamente ela não nega suas origens negras, europeias e ameríndias, sincronizando seus ancestrais nas diversas falanges de Exus e Pombagiras.

   A eclosão da Quimbanda e sua crescente popularidade se iniciou a partir das décadas de 1940, 1950 e 1960, por um lado através das obras publicadas por umbandistas e, por outro, na atuação pública de alguns médiuns populares da Umbanda. Isso é tema para outra reflexão!

NOTAS:

[1] É da tradição da feitiçaria ibérica que a feitiçaria tradicional brasileira toma sua influência da tradição cipriânica. Veja o texto A Tradição de Quimbanda e A Herança da Feitiçaria Ibérica na Quimbanda.

[2] Omolubà, Doutrina e Práticas Umbandistas, Ícone Editora, 2015.

[3] Ainda em preparo, mas já disponível no site.

[4] Segundo alguns sacerdotes de Quimbanda, período que antecedeu o movimento da Quimbanda Moderna pós 1970, que marca o início dos seguimentos de Quimbanda completamente independentes da Umbanda e Candomblé. Pessoalmente não estou plenamente de acordo com esse termo ou ideia, porque espiritualmente a Quimbanda sempre esteve à parte da Umbanda (e do Candomblé). A espiritualidade que alimenta a Quimbanda é distinta daquela que alimenta a Umbanda, como afirmei muitas vezes neste site: os espíritos e guias (Caboclos e Preto-Velhos) da Umbanda são almas catequizadas e doutrinadas em vida pelo cristianismo; os espíritos e guias (Exus e Pombagiras) da Quimbanda são almas que em vida se revoltaram e se opuseram ao cristianismo. Ainda, Exu de Quimbanda ganhou/herdou muitos atributos de Èṣú Òrìṣà, fundamentalmente àquele de representar entre os òrìṣà uma força anti-cósmica. Exus da Quimbanda, portanto, são caóticos, quer dizer, separados ou a parte de forças cósmicas demiúrgicas. A Umbanda, por outro lado, assume cosmovisão demiúrgica refratada pelas lentes do cristianismo e do kardecismo. A parte do mito de criação da Umbanda que envolve a figura de Zélio Fernandino de Moraes (1891-1975), ambas, Quimbanda e Umbanda, são filhas de um movimento religioso afro-brasileiro conhecido como Macumba que nasceu no Rio de Janeiro no início do Séc. XX. Enquanto que a Umbanda é uma revisão kardecista da Macumba, a Quimbanda é a evolução e refinamento do que anteriormente foi denominado Macumba no Rio de Janeiro.

[5] Veja Humberto Maggi, Queen of Sevem Crossroads, Hadean Press, 2020.

[6] Ibidem.

[7] A Umbanda começou a trabalhar com Exus e Pombagiras somente a partir de 1940 na Tenda Espírita São Jorge, quando foram autorizados a se manifestarem após os Caboclos e Preto-Velhos.

[8] Os nomes Umbanda e Quimbanda também, efetivamente, apareceram no contexto da Macumba carioca.

15/9/2020: QUIMBANDA UM EXERCÍCIO PESSOAL DE FEITIÇARIA - Fernando de Ligório

Macumbeiro: definição de caráter brincante e político, que subverte sentidos preconceituosos atribuídos de todos os lados ao termo repudiado e admite as impurezas, contradições e rasuras como fundantes de uma maneira encantada de se encarar e ler o mundo no alargamento das gramáticas. O macumbeiro reconhece a plenitude da beleza, da sofisticação e da alteridade entre as gentes. A expressão macumba vem muito provavelmente do quicongo kumba: feiticeiro (o prefixo «ma» no quicongo, forma o plural). Kumba também designa os encantadores das palavras, poetas. A Macumba seria então a terra dos poetas do feitiço; os encantadores de corpos e palavras que podem fustigar e atazanar a razão intransigente e propor maneiras plurais de reexistência pela realidade do encanto, em meio às doenças geradas pela retidão castradora do mundo como experiência singular de morte. (Do livro Fogo no Mato: A Ciência Encantada das Macumbas, de Luiz Antonio Simas e Luiz Rufino, 2019 MV Serviços e Editora.)

Eu sempre defendo a ideia de que a Quimbanda trata-se de um exercício individual de feitiçaria, uma busca pelo aperfeiçoamento e a geração do àṣẹ pessoal. O trabalho com os probacionistas da O.N.Q. e com os iniciados de nosso Chão de Quimbanda tem me permitido desenvolver essa ideia profundamente. A feitiçaria de modo geral não está apenas conectada a cultura local de onde vivemos e os espíritos em nosso entorno, mas com o desenvolvimento de um culto pessoal e familiar, a formação de um clã. Os templos ou terreiros de Quimbanda são como clãs que têm como elemento central um conjunto de espíritos ancestrais, uma família espiritual. Os ritos de iniciação e de passagem, os sacrifícios propiciatórios, feitiços e macumbas de cada clã estão alinhados e fundamentados na família de espíritos ao qual pertence o feiticeiro-kimbanda, a sua Banda.

   Quanto maior for o arranjo de técnicas conhecidas e utilizadas pelo feiticeiro-kimbanda, testadas e conferidas na prática se funcionam ou não, irão compor seu arsenal individual de prática mágica; este arsenal individual auxiliará o adepto de Quimbanda a cultivar um profundo sentido de religiosidade, alimentando sua fé e crenças pessoais em Exu e Pombagira; produzirão o espírito da entrega e devoção ao Chefe Império Maioral, bem como o comprometimento com a expansão de seu Reinado.

   O Culto de Exu é diário! Na medida em que o adepto se entrega fervorosamente a Exu todos os dias com fé e devoção, em contrapartida Exu o cobre com sua capa. Trata-se do desenvolvimento de uma relação que capacita e aumenta o quantitativo de àṣẹ pessoal.

28/8/2020: QUIMBANDA ABRE LINHA - Fernando de Ligório

Uma fervilhante discussão se abre entre os feiticeiros-kimbanda: é possível trabalhar com outras criaturas espirituais além dos Exus e Pombagiras na Quimbanda? Vou responder com outra pergunta: Exus e Pombagiras têm sob o seu domínio legiões de égún e o feiticeiro pode trabalhar diretamente com eles; além disso, há feiticeiros que trabalham com quiumbas; a Quimbanda não abre linha de trabalho para outras criaturas além dos Poderosos Mortos?

   1. A feitiçaria tradicional brasileira herda inúmeras práticas e exercícios místicos das religiões, filosofias e sistemas que influenciaram sua gênese. 2. A feitiçaria, onde quer que ela tenha existido, sempre envolveu o trato com criaturas regionais, quer dizer, espíritos no entorno do feiticeiro.

   Em História da Bruxaria (Editora Aleph, 2019), os autores Jeffrey B. Russell e Brooks Alexander dizem: 

Os familiares das bruxas subsequentes originaram-se com os duendes, gnomos, fadas, trolls, kobolds ou outros espíritos menores do folclore nórdico. Podiam ser amistosos, malévolos ou travessos. Em sua origem, eram espíritos da natureza, mas o cristianismo não podia permitir a existência de outras entidades espirituais além de Deus, dos anjos e demônios. A Igreja então identificou esses espíritos a demônios secundários, considerando a associação da feiticeira com o espírito familiar outro sinal de seu relacionamento com o Diabo. Entretanto, a origem dos familiares, firmada mais no folclore do que na demonologia, [...] serão encontrados em plantações de verduras ou atrás dos ramos de lariço, e não nas fileiras compactas do inferno de Satã.

A rigor a Quimbanda é um culto necromântico a égún deificados (os Poderosos Mortos), égún familiares (pessoais) e égún diversos. O espírito familiar do feiticeiro-kimbanda é um égún deificado, o Exu Tutelar. Seguindo uma fórmula mágica de escopo universal, presente no xamanismo – e em toda verdadeira e genuína tradição de feitiçaria –, o espírito familiar do feiticeiro-kimbanda permite acesso a qualquer criatura espiritual da natureza, benigna, malévola ou travessa. E os Poderosos Mortos, não deixe de notar, incorporam bem estas três qualidades ou virtudes espirituais. Note com atenção: não se trata de convocar criaturas para irradiar poder aos Poderosos Mortos, mas de criaturas que estão sob a égide, força e autoridade deles.

21/8/2020: SOBRE A QUIMBANDA CIPRIÂNICA - Fernando de Ligório

Quando eu comecei a falar da influência da feitiçaria cipriânica na tradição de Quimbanda fui acusado de ser fantasioso, imaginário, ficcionista e pejorativamente inspirado, criativo. Como sou estudante do COF (Curso Online de Filosofia) do prof. Olavo de Carvalho há dois anos, com quem já aprendi muito até sobre ocultismo, fui acusado de ser olavista e de extrema direita. Eu nunca me manifestei sobre isso, então eis aqui minha resposta: 

   Não sou olavista; o que me interessa em Olavo de Carvalho é seu conhecimento notório, sua filosofia e nada mais! Não compartilho com ele opiniões políticas, religiosas e muito menos conservadoras, até porque não tenho o menor interesse nisso. Olavo é Cristão, eu sou pagão! Olavo defende a cosmovisão cristã, a qual abomino desde as entranhas de minha alma (e por isso não consegui tornar-me um cristão, pois embora tenha tentado, sou filho do Diabo). Mas por outro lado, prefiro ler Olavo de Carvalho do que assistir vídeos de analfabetos funcionais que nunca publicaram uma vírgula. 

    Quando eu falo da influência cipriânica na Quimbanda, me baseio em fatos, na história mágica do Brasil e da Península Ibérica. Há dezenas de livros fantásticos onde esta influência pode ser averiguada; estes livros trazem um panorama histórico onde a gênese do Culto de Exu no Brasil pode ser rastreada desde o período colonial no Séc. XVI. Eu me baseio em fatos, não em fantasias para tecer meus argumentos. Mas há aqui uma necessidade de se defender a genialidade criativa e a produção de contos, ficção e mitos em importância maior que a própria história.  

   Aprendemos em Aristóteles que cultura se forma em um primeiro momento pela imaginação, pela criação de modelos e pela capacidade de enxergar possibilidades. As maiores civilizações que testemunhamos no curso da história nasceram por meio de mitos; as grandes culturas nasceram a partir de grandes textos fictícios. Os personagens dos mitos povoam a imaginação e criam modelos (de conduta, expressão etc.). Em A Poética Aristóteles diz que a ficção é mais filosófica que a história, porque a história relata fatos que aconteceram e a ficção relata possibilidades que podem acontecer. Os maiores exemplos de virtude, heroísmo e condição humana execrável e doentia vêm da ficção, o que alarga a capacidade imaginativa do leitor/estudante. Na perspectiva aristotélica a condição de possibilidade do gênio está conectada a condição de possibilidade do alargamento da imaginação e da criatividade – e toda magia psiúrgica moderna se baseia nesse princípio; é de Eliphas Levi (magia moderna) que se norteou a ideia de que imaginação e vontade produzem a magia. Embora Levi tenha parecido inaugurar essa ideia, ela pode ser rastreada até Aristóteles. A imaginação é uma condição sine qua non a realização da magia; se você que me acusa de «imaginário» não possui essa virtude inata, isso explica porque sua casa ainda não tem teto!

12/8/2020: QUIMBANDA TEURGIA-GOETIA - Fernando de Ligório

A presente reflexão é um excerto de uma instrução da O.N.Q.

   Você está adentrando a uma escola de feitiçaria tradicional brasileira de culto a ancestrais divinizados; em outras palavras, um culto necromântico. O início da jornada consiste, portanto, em compreender os primórdios da magia, sua história, seus símbolos e personagens mais celebrados e a relação que eles tinham com os mortos. Dois pontos são interessantes no início dessa discussão: i. a feitiçaria, onde quer que ela tenha existido, sociedade e cultura, sempre esteve associada a comunicação com os mortos;[1] ii. por outro lado, onde quer que tenha existido um limiar tênue entre feitiçaria e religião,[2] surgiu uma separação entre o culto dos mortos e o culto de deidades consideradas superiores.[3] Na cultura nagô/yoribá, por exemplo, o culto aos òrìṣà[4] se diferencia e se distancia do culto aos égún;[5] os òrìṣà estão especialmente associados à estrutura da natureza, do cosmo; os ancestrais, à estrutura da sociedade.[6] Na Grécia da Antiguidade Clássica os mortos e a comunicação com eles constituía um culto fúnebre particular e eles eram enterrados nas propriedades de suas famílias. Com o colapso da Civilização Micênica e o surgimento da pólis (as grandes cidades), os cultos fúnebres foram banidos, criminalizados e os mortos passaram a serem enterrados fora das cidades.[7]

   O culto aos mortos, sendo ele separado do culto a outras deidades, oferece um tipo distinto de teurgia. Por este termo, theourgia, nós compreendemos um exercício místico sobre a alma. A teurgia grega, de onde importamos os muitos usos deste termo nas tradições modernas, trata-se da obra com os deuses ou da obra dos deuses, no sentido que se trata do exercício de envelopar a alma, para usar as palavras de Jâmblico, com as virtudes dos deuses e projetá-la em suas moradas. A teurgia do culto aos mortos é distinta porque se trata do conhecimento e conversação com espíritos dos mortos; as virtudes recebidas na alma são, portanto, necromânticas e constituem uma alquimia peculiar da arte negra.[8]

   Em sociedades e culturas animistas e fetichistas do passado o culto aos mortos constituiu sempre a primeira prática espiritual, o primeiro passo responsável na jornada, porque os ancestrais constituem nossas raízes e, portanto, são a fundação de uma vida saudável através de um crescimento interior consistente. A maioria dos problemas que todos nós carregamos por anos, às vezes nos arrastando como moribundos maltrapilhos, vem de uma ancestralidade doente. O culto aos mortos é, antes de mais nada, a busca pela cura de nossa ancestralidade. E herdeiros das concepções escatológicas e soteriológicas do passado, nós os tomamos como agentes de magia na intenção de modificar a natureza que nos cerca e seu habitat selvagem. Foi na intenção de aplacar a selvageria da natureza e de suas condições que homem buscou o exercício da feitiçaria.

Existe uma crença geral e uma prática universal de feitiçaria. Ela fala às necessidades humanas de justiça, proteção e vingança num mundo que, com excessiva frequência, parece fora de nosso controle.[9]

O nosso primeiro passo, portanto, na arte da feitiçaria tradicional brasileira é o culto aos ancestrais, os mortos familiares. Eu venho demonstrando que a Quimbanda é a goécia brasileira. A palavra goēteia (goécia) com o tempo – da Antiguidade Clássica a Antiguidade tardia – tornou-se tão elástica quanto a palavra daimon, como já apresentei em textos e vídeos. Em ambos os casos entende-se um pelo outro, pois a prática da goēteia acompanhou a evolução ontológica do daimon. Então no pensamento antigo grego (Homero, Hesíodo e Ésquilo), o espírito de um morto (nekydaímōn) passou de entidade presa no submundo (sem poder escapar dele) a entidade que podia visitar os vivos temporariamente, podendo afetá-los. Era esse tipo de espírito de morto, que podia afetar os vivos, a especialidade dos feiticeiros (goēs). Na época de Platão, Séc. IV a.C., aos feiticeiros era imputada a pena de morte sem enterro ou rito fúnebre; essa tradição permaneceu no Império Romano:

As autoridades romanas eram geralmente intolerantes em relação a todas as variedades de feitiçaria. A prática de feitiçaria, em oposição aos ritos públicos aprovados, ligados à religião oficial, era considerada uma ameaça à sociedade. Os imperadores, sempre apavorados com a possibilidade de conspirações e atentados contra as suas vidas, temiam a feitiçaria como a menos identificável e, portanto, a mais poderosa de todas as ameaças. A repressão era indiscriminadamente implacável. [...] A tradição inexorável do direito romano foi um dos alicerces em que assentou a perseguição medieval da bruxaria.[10]

E por volta do Séc. IV d.C., já havia se cristalizado na cosmovisão dos médio e baixo platonistas que a goēteia tratava-se da aliança com os espíritos dos mortos e criaturas malignas da terra e do submundo. A Quimbanda brasileira é herdeira de toda essa tradição ocidental e sua formação/estruturação recebeu elementos dos cultos de mistérios do passado através da feitiçaria ibérica popular que, por sua vez, os preservara em certa medida.

A semelhança entre muitas crenças africanas em bruxas e as da Europa historicamente é pronunciada. [...] Pelo menos 50 motivos da bruxaria europeia podem ser encontrados em outras sociedades. Algumas semelhanças entre a feitiçaria europeia e a feitiçaria não europeia resultam da exportação de ideias europeias por meio do colonialismo. [...] Embora a feitiçaria europeia influenciasse a feitiçaria em modernas sociedades não europeias, estas demonstram exercer muito pouca influência sobre o desenvolvimento da bruxaria no continente europeu. Mas as antigas civilizações do Oriente Próximo, Grécia e Roma, também tinham crenças semelhantes e dessas civilizações derivavam muitas das ideias em que se basearam as feitiçarias europeia e africana.[11]

A Antiguidade tardia, período do baixo ou médio platonismo, apresentou alguns dos filósofos de maior envergadura espiritual: Plotino, Porfírio, Jâmblico e Proclo para citar os mais proeminentes daquele período. Para estes filósofos, o exercício da feitiçaria (goēteia) era um impedimento a purificação e projeção da alma nos planos noéticos superiores. Suas críticas e ataques não partiam da técnica – até porque não existe diferença entre a tecnologia espiritual da teurgia e da feitiçaria[12] – mas da conduta pessoal dos feiticeiros (ética/moral) e o tipo de relação que eles estabeleciam com criaturas espirituais consideradas menores, mortos sem descanso e daimones malignos cujo objetivo era, no fim das contas, se apossar da alma humana, mantendo-a cativa no reino da geração. A ideia é que o conhecimento e conversação com os mortos e daimones malignos causava a anatropia da alma, quer dizer, sua inversão (representada modernamente pelo glifo do pentagrama invertido). Apenas o contato com criaturas de éteres superiores é capaz de reverter o anatropismo da alma (o glifo do pentagrama), projetando-a nestas mansões. Baseada nesse tipo de crença, fundamentalmente as ideias de Porfírio, discípulo de Plotino e professor de Jâmblico, nasceu a interpretatio christiana que marcou a transição da goécia grega para goécia salomônica (Ars Goetia) que conhecemos hoje.[13]

   A Quimbanda, embora seja feitiçaria (goēteia), também inclui teurgia para liberação e deificação da alma, não nos éteres superiores referidos pelos filósofos/teurgos neoplatônicos, mas nos Reinos de Quimbanda. Como diz a Bhagavadgītā (IX:25): Os devotos dos deuses vão para [esses] deuses. Os devotos dos antepassados vão para os antepassados. Os devotos dos espíritos vão para os espíritos.[14] Para quem tem olhos para ver e entende que o exercício da teurgia trata-se da busca pela emancipação e deificação da alma, por este verso vê-se que um culto aos ancestrais oferece uma teurgia que os destina toda alma do culto. Por ele também se infere que, diferente do ditado popular romano, nem todas as estradas vão para Roma; nem todos os caminhos levam ao mesmo destino espiritual; há moradas e moradas...

NOTAS:

[1] E todo tipo de criatura espiritual do reino da geração, os espíritos da natureza etc.

[2] A distinção entre técnicas de feitiçaria e as práticas religiosas das religiões e cultos de mistérios no passado era tênue. Enquanto que os ritos públicos destinados à comunidade tinham caráter religioso, as mesmas práticas, quando executadas no âmbito particular, constituíam o exercício da feitiçaria. Na cultura egípcia não se fazia distinção entre feitiçaria/magia e religião. No meu texto sobre teurgia e goécia (veja Daemonium Vol. I) eu frisei: No Egito, os sacerdotes que realizavam as celebrações oficiais também realizavam cerimônias menores nas cidades, vilarejos e comunidades a convite de famílias locais como magos freelance em suas horas de folga. Humberto Maggi, Goetia: História & Prática (Clube de Autores, 2020), completa: Que os rituais que hoje rotulamos como «mágicos» recorriam às mesmas técnicas usadas nas cerimônias formais da religião é algo bem atestado nos Papiros Mágicos Gregos posteriores, onde encontramos o mesmo uso de oferendas, sacrifícios e orações, o que obscurece a divisão entre «religião» e «magia».

[3] Assim como rejeição e perseguição. Pelo menos desde o Séc. V a.C. na Grécia antiga os feiticeiros (goēs) eram pejorativamente rechaçados como criadores de ilusões, criminosos e mercadores da espiritualidade. O feiticeiro, culturalmente, é uma figura marginal na sociedade ocidental desde a Antiguidade Clássica. E muito embora tecnicamente não haja uma distinção real entre feitiçaria e religião, a feitiçaria tem sido perseguida pela religião (conhecimento real sobre a divindade e espiritualidade) como heresia criminosa e, nos tempos modernos, perseguida e criminalizada pela ciência (conhecimento real dos fatos e das leis naturais). Veja Marvin W. Meyer e Richard Smith, Ancient Christian Magic: Coptic Texts of Ritual Power (Cap. 1), Princeton University Press, 1999.

[4] Deidades associadas às forças da natureza, ctonianas, telúricas e celestes.

[5] Espíritos dos mortos: almas penadas, sofredores, fantasmas e obsessores. A Quimbanda não é, par excellence, um culto a égún, mas a almas humanas deificadas, espíritos iluminados, os Exus e Pombagiras.

[6] Juana Elbein dos Santos, Os Nāgō e a Morte. Editora Vozes, 2019.

[7] É dessa cisão que nasce o goēs (feiticeiro) grego. O goēs através da arte da feitiçaria (goēteia) tratava-se de um indivíduo que se comunicava com mortos. Goēteia é um termo que deriva de goos, que significa lamentação ou choro psicagógico, conectado a ritos fúnebres e invocações aos mortos. Na Grécia da Antiguidade Clássica os ritos fúnebres de convocação dos mortos ocorriam ao lado das sepulturas dos defuntos, com oferendas, sacrifícios, lamentações e cantos para despertar o nekydaímōn, que significa espírito de um morto. Isso era a goécia por volta do Séc. V a.C. Com o banimento e a criminalização dos ritos fúnebres (necromancia) e o conhecimento vindo das culturas do Oriente e disseminado nas colônias no leste do Mar Egeu sobre o poder dos mortos e como eles podiam afetar os vivos, surgem feiticeiros especializados no contato com eles, os temidos e rechaçados goēs. Veja Humberto Maggi, Goetia: História & Prática (Clube de Autores, 2020).

[8] Veja os textos A Quimbanda & o Caminho da Mão Esquerda e A Alquimia Negra do Culto de Exu.

[9] Jeffrey B. Russel e Brooks Alexander, A História da Bruxaria. Editora Aleph, 2019.

[10] Ibidem. Para os autores, a bruxaria foi a revisão europeia medieval perseguida e criminalizada da feitiçaria de todos os povos.

[11] Ibidem.

[12] Para uma visão clássica da distinção entre theourgia e goēteia, vejas o texto Teurgia & Goécia (Partes #1 e #2).

[13] Veja Humberto Maggi, Goetia: História & Prática (Clube de Autores, 2020).

[14] Aqui a palavra bhūta denota espíritos inferiores, telúricos (e malignos na interpretação de alguns swāmis).

10/8/2020: REINOS & HIERARQUIAS DE EXUS NA QUIMBANDA #8 - Fernando de Ligório

O Reino da Lira oculta arcanos profundos e secretos da tradição de Quimbanda e reflete o próprio espírito sincrético que deu nascimento a feitiçaria tradicional brasileira. Como vimos nos capítulos precedentes, a Quimbanda foi formada a partir de uma intensa confluência cultural que envolveu as culturas bantu e yorubá africanas, a feitiçaria ibérica (popular) da Europa, tradição dos grimórios e demonologia, e o xamanismo ameríndio. Esse intenso caldeirão borbulhante de influxo cultural que ocorreu no primeiro momento do Culto de Exu no Brasil é espelhado diretamente no Reino da Lira, uma zona de poder espiritual formada a partir de uma confluência de forças.

   Lira é o nome dado a uma cidade africana que fica no Norte de Uganda, a 320 quilômetros da capital, Kampala. Considerada um importante centro comercial, nos Sécs. XV e XVI a cidade tornou-se a rota da seda da região, recebendo mercadores de todas as partes: árabes, chineses, ciganos e diversos clãs bantus. A própria organização dos reinos, sub-reinos e falanges de Exus e Pombagiras na Quimbanda espelha a organização hierárquica, monárquica e política dos clãs bantus, refletidas também na organização social e administrativa de Uganda. Como uma rota da seda, a cidade de Lira atraiu muitos estrangeiros, artistas de todos os tipos, comerciantes, criminosos diversos e muitas prostitutas. Negócios regados a bebidas, prostituição, música, dança, espetáculos e crimes como roubos e assassinatos, disputas entre clãs e contra estrangeiros tornaram a cidade de Lira um ponto de força conhecido e desejado. No fim do Séc. XIV a cidade de Lira estava engajada profundamente em troca ou intercâmbio cultural, principalmente com os árabes; no Séc. XV e XVI com os europeus. A profunda identidade entre as feitiçarias da Europa, África e Oriente Médio ocorreu por conta desse intenso intercâmbio entre as culturas:

A semelhança entre muitas crenças africanas em bruxas e as da Europa historicamente é pronunciada. [...] Pelo menos 50 motivos da bruxaria europeia podem ser encontrados em outras sociedades. [...] Existe uma crença geral e uma prática universal de feitiçaria. Ela fala às necessidades humanas de justiça, proteção e vingança num mundo que, com excessiva frequência, parece fora de nosso controle. Algumas semelhanças entre a feitiçaria europeia e a feitiçaria não europeia resultam da exportação de ideias europeias por meio do colonialismo. [...] Embora a feitiçaria europeia influenciasse a feitiçaria em modernas sociedades não europeias, estas demonstram exercer muito pouca influência sobre o desenvolvimento da bruxaria no continente europeu. Mas as antigas civilizações do Oriente Próximo, Grécia e Roma, também tinham crenças semelhantes e dessas civilizações derivavam muitas das ideias em que se basearam as feitiçarias europeia e africana.[1]

No período da diáspora, a cidade de Lira tornou-se um importante centro para compra e venda de escravos. O Reino da Lira também está profundamente conectado ao comércio sexual (prostituição), presente nas entranhas medievais da cidade de Lira e de grandes centros no Mediterrâneo próximo e continente europeu. A palavra cabaré é francesa e nos arremete as antigas e luxuosas casas noturnas de shows, bebida, fumo e sexo, quer dizer, diversão! Essa palavra, diversão, espelha profundamente o tipo de força e zonas de poder que encontramos no Reino da Lira: locais de boemia como bares, botecos risca faca, prostíbulos, zonas, motéis e cabarés, casas de apostas, tráfico de drogas, comércios de todos os tipos, instituições financeiras, praças e parques onde circulam milhares de pessoas, camelódromos e cracolândias, casas de espetáculos, museus e circos. No âmbito da arte, os Povos e Falanges do Reino da Lira atuam sobre a criatividade artística e todas as formas de música, dança e entretenimento. Todo tipo de prazer e vício estão associados ao Reino da Lira: jogatinas, prostitutas, cafetões, pederastas e proxenetas, criminosos diversos, políticos, banqueiros e pessoas que acumulam grande quantidade de dinheiro, todos vibram nas forças deste Reino. A realização de grandes empreendimentos, o fechamento de grandes contratos e negócios etc., desde tempos imemoriais têm sido regados ao deleite de bebida, fumo e sexo. O Reino da Lira é o reino da opulência, da riqueza e do desfrute dos prazeres como forças de atuação para o crescimento dos feiticeiros-kimbanda.

A ação do Reino da Lira é dinâmica e forte o suficiente para tirar uma pessoa da miséria e pobreza e colocá-la em uma situação de conforto. [...] Um adepto desperto pode evocar e invocar essas energias para promover as mudanças necessárias em sua vida [...].[2]

Os Exus e Pombagiras do Reino da Lira têm vigor hipnótico, típico das mulheres de cabaré, mestras na arte da dominação e manipulação de seus clientes. O cabaré é uma zona de poder que condensa a potência do Reino da Lira. No curso da história os cabarés estiveram nos bastidores e fizeram parte da construção de grandes cidades e centros comerciais. Disponibilizando bebida, fumo e sexo, nos cabarés grandes negócios eram fechados e empreendimentos eram lançados, no entanto, eles também eram o epicentro de fatídicos destinos e derrocadas tragédias. No Brasil os cabarés chegaram com os colonizadores portugueses e eles receberam mulheres de todas as partes, africanas, europeias e índias, tendo exercido um papel fundamental nos bastidores da formação de nossa nação.

   Danilo Coppini[3] chama a atenção para uma questão interessante: a prostituição trata-se de uma prática que ocorre somente em culturas onde o adultério é tido como um exercício ilícito que fere a moral e os bons costumes. A orgia, o bacanal, a festa da carne que envolve o deleite de bebida, fumo e sexo, herança do Culto a Dionísio, foram práticas repudiadas pela cristandade. O que inferimos desta questão é que se os grandes feitos do passado foram empreendimentos inspirados pelo divino, foi no reino da geração, de dentro dos cabarés, que eles tomavam força de materialização: temos aí um axis mundi...

   Os Exus e Pombagiras deste Reino são oportunistas, sempre prontos à oportunidade certa. Alegres, boêmios e galanteadores, dão caminho a riqueza, prosperidade e opulência; por outro lado, podem levar a falência e a derrota total. Como regem as profundas questões dos vícios e dos prazeres, eles podem libertar ou chafurdar uma alma. Impiedosos, eles podem escravizar qualquer alma, levando-a a barbárie e atitudes atrozes.

   Os Sete Povos ou Falanges originais que constituem o Reino da Lira são:

1. Inferno

2. Cabaré

3. Lira

4. Comércio

5. Malandros

6. Oriente

7. Ciganos

Outras listagens de Povos que têm aparecido na literatura popular da Quimbanda além dos Sete Povos originais são:

8.  Ouro

9.  Lixo

10. Luar

Inferno

Chefes de Legião: Exu dos Infernos e Pombagira Maria Padilha dos Infernos. Os pontos de força são os portões de antigas casas e construções do Reino da Lira, as fogueiras ou latões de fogo de mendigos e pedintes, mas também os crematórios (Povo do Forno) no Reino da Calunga Pequena (cemitérios).

Cabaré

Chefes de Legião: Exu dos Cabarés e Pombagira Maria Padilha dos Cabarés. Os pontos de força são dentro e nas portas dos cabarés (motéis e prostíbulos em geral), bem como nas encruzilhadas que circundam esses locais.

Lira

Chefes de Legião: Exu Sete Liras e Pombagira Sete Saias. Os pontos de força estão espalhados por todo Reino da Lira: porta de cabarés, motéis e prostíbulos, porta de bancos e financeiras, praças, porta de bares e botecos, encruzilhadas diversas, porta de igrejas, portas de casas noturnas de shows, teatros e cinemas, comércios etc.

Comércio

Chefes de Legião: Exu Chama Dinheiro e Pombagira Maria Padilha Rica. Os pontos de força são as portas de comércios, bancos e financeiras, bem como as encruzilhadas que os circundam.

Malandros

Chefes de Legião: Exu Zé Pelintra e Pombagira Maria Navalha. Os pontos de força são as portas de bares, botecos, casas de jogos e apostas, pontos de tráfico de drogas, portas de terreiros de samba e prostíbulos, bem como as encruzilhadas que circundam esses locais.

Oriente

Chefes de Legião: Exu Pagão (ou Exu do Oriente) e Pombagira Pagã. Os pontos de força são os grandes descampados ou aterros de Lira, frente o Oriente; recebem oferendas também na porta de casas e edifícios tombados, escolas, universidades e bibliotecas, sempre na direção do Oriente, bem como nas encruzilhadas que circundam estes locais.

Ciganos

Chefes de Legião: Exu Cigano e Pombagira Cigana. Os pontos de força são as grandes avenidas onde circulam milhares de pessoas, na entrada de circos e na porta de casas de espetáculos, bem como nas encruzilhadas que circundam esses locais.

Ouro

Chefes de Legião: Exu Pedra Negra e Pombagira das Minas. Os pontos de força são as jazidas de ouro e de pedras preciosas, locais de mineração e de garimpo. Essas zonas de poder costumavam congregar comunidades que acabaram por se tornar cidades e também, cujos arredores havia comércio e prostituição. O Povo do Ouro também recebe oferendas nas encruzilhadas do Povo do Comércio, na porta de joalherias e casas de compra e venda de ouro.

Lixo

Chefes de Legião: Exu Mulambo e Pombagira Maria Mulambo. Os pontos de força são os locais de grande concentração/aglomeração de excluídos sociais: prostitutas, criminosos de todos os tipos, viciados abandonados pelas famílias etc. Zonas portuárias, comércios em geral e locais com grande incidência de crimes, prostituição e venda de drogas são zonas de poder adequadas ao Povo do Lixo.

Luar

Chefes de Legião: Exu Malé e Pombagira Lua Negra. A luz da Lua ilumina a noite dos cabarés e prostíbulos, dos bares e botecos, das casas de shows, teatro e cinema; enfim, a Lua ilumina a festa e os deleites da noite. Oferendas ao Povo da Lua devem ser oferecidas em noites de Lua Cheia, quando a luz da Lua está plena, nas encruzilhadas e praças de Lira.

NOTAS:

[1] Jeffrey B. Russel e Brooks Alexander. A História da Bruxaria. Editora Aleph, 2019.

[2] Danilo Coppini. Quimbanda: Fundamentos e Práticas Ocultas (Vols. I & II). Via Sestra, 2019.

[3] Danilo Coppini. Quimbanda: O Culto da Chama Vermelha e Preta. Via Sestra, 2019.

FERNANDO DE LIGÓRIO

Fernando de Ligório é um hermetista praticante, escritor interessado em Teurgia Neoplatônica, Tradição Salomônica e dos Grimórios, Magia na Antiguidade, Cabala Crioula (Quimbanda), Feitiçaria, Bruxaria e Magia Negra (Caminho da Mão esquerda), Filosofia, Yoga, Tantra, Āyurveda e Xamanismo. Fernando de Ligório se interessa em preservar a Tradição Ocidental de Mistérios (ou Tradição Oculta da Magia) através de seus cursos, palestras, assessoria espiritual e consultas.

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