DIÁRIO DE UM FEITICEIRO

O Relato de Iniciação na Quimbanda 

26/3/2020: DIA 7 - INSTRUÇÕES SOBRE A TRADIÇÃO DE QUIMBANDA

Sétimo dia com Tatá Carlos.

11:00. Recebimento do nome espiritual de Culto de Exu.

12:00. Instrução final de Tatá Carlos sobre Linhas de Quimbanda. Tradicionalmente sete são as linhas de Quimbanda segundo as elucubrações dos primeiros autores, todos eles umbandistas. Pelo fato de serem umbandistas, estes primeiros autores disseminaram uma grande quantidade de conceitos e ideias que estão muito longe da boa e legítima tradição de Quimbanda. Esses conceitos e ideias como a evolução darwinista de espíritos e a lei do karma, heranças do kardecismo umbandista, estão entranhadas como espinhos em feridas purulentas na tradição de Quimbanda. A boa e legítima Quimbanda Luciferiana visa levar a Luz a toda essa fossa de lama criada pelos umbandistas que decidiram colocarem-se como autoridades em Quimbanda. Se Aluízio Fontenelle recebeu dos espíritos aquelas informações deturpadas sobre Quimbanda, publicadas em sua obra Exu, então estes espíritos eram Quiumbas.

   A Quimbanda não é e nem nunca foi a esquerda da Umbanda. Como estamos estudando no texto sobre a Tradição de Quimbanda, isso foi uma construção da Umbanda e dessa ideia nasceram as casas de Umbanda Cruzada (ou Umbanda de Esquerda) que tocavam trabalhos de direita (Pretos-Velhos, Caboclos e Crianças) e de esquerda (Exus e Pombagiras). Desse trabalho da Umbanda Cruzada começaram a eclodir seguimentos de Quimbanda recheados de cosmovisão umbandista. Um exemplo: Exus da suposta linha dos Caboclos Quimbandeiros aceitam bebidas como Paratudo. Um fundamento completamente fora da boa e verdadeira Quimbanda. Bebida de Exu é marafo (cachaça) ou destilados como Gim. Pare para pensar: Paratudo é uma bebida que ganhou esse nome porque ao ser ingerida, ela para tudo, coração, fígado, rins etc. É essa virtude que você quer que seu Exu tenha? Exu é movimento, é caminho. Sua bebida é quente, como se diz, água de fogo. Outro fundamento umbandista bem desfundamentado: o uso de azeite de dendê em demasia nos assentamentos de Exu. Na cultura yorubá, o azeite de dendê é usado para apaziguar Eṣu, diminuir seu ímpeto e ferocidade, não para dar calor ou movimento. Melhor que isso é um unguento a base de cachaça (e/ou gim), pimenta malagueta (ou dedo de moça) e gengibre. Isso sim, todos os dias, dá calor e movimento a Exu, lhe provendo a virtude da velocidade.

   No texto que estamos estudando sobre a Tradição de Quimbanda ficou claro que a gênese da Quimbanda não é a Umbanda, mas vem dos primeiros movimentos organizados que eclodiram no Candomblé, no Calundu, na Cabula e na Macumba. Tanto a Quimbanda quanto a Umbanda devem a estes primeiros movimentos organizados de cultos africanos no Brasil. Para simplificar a verdadeira gênese da Quimbanda, podemos dizer que ela nasceu dos primeiros sacerdotes de Candomblé que deixaram de cortar para os Orixás e passaram a cortar somente para os Exus e Pombagiras. E é por isso que muitos dos fundamentos dessas tradições são bem semelhantes. A linha da Quimbanda Nagô, por exemplo, vem do Candomblé Nagô (e bem recentemente, a Quimbanda Xambá vem do Candomblé Xambá). A verdadeira e legítima Quimbanda, como tradição, não nasceu e nem tem qualquer conexão com a Umbanda. São os umbandistas que, em dado momento, decidiram deixar Exu trabalhar na linha deles. Bem, disso nasceram os seguimentos de Quimbanda mais desfundamentados do Brasil. A cosmovisão da Quimbanda é completamente distinta daquela adotada pela Umbanda.

   Como uma oposição ao septenário umbandista das energias divinas, para equilíbrio e harmonia do universo, existem as sete Linhas de Quimbanda:

Linha Malei.*

Linha das Almas.

Linha dos Caveiras.

Linha Nagô.

Linha Mossorubi.

Linha dos Caboclos Quimbandeiros.

Linha Mista.

* Nota: a Kimbanda Malei moderna, não é a Linha Malei das sete linhas de Quimbanda citada acima.

Essa visão umbandista das Sete Linhas de Quimbanda já está deveras ultrapassada, para não dizer deveras equivocada. Quem se baseia na lista acima para falar sobre as Sete Linhas de Quimbanda está enganando ou está sendo enganado. Por exemplo, a linha Mossorubi que agrega espíritos curadores de mazelas da mente tem pouca diferença da linha dos Caboclos Quimbandeiros, também espíritos curadores, mas da mata escura, que curam enfermidades de todos os tipos, inclusive da mente. Trocando em miúdos, essa lista acima é uma conversa fiada da Umbanda e não faz parte da verdadeira tradição de Quimbanda. Sinto muito! As reais Sete Linhas de Quimbanda têm a ver com os Reinos de Quimbanda e seus povos de Exus e Pombagiras respectivos. Fugir disso é pura marmelada. O que existe de verdade são os diversos seguimentos de Quimbanda, muitos como são, classificados de formas distintas dependendo da região do Brasil. Como estudamos no texto Tradição de Quimbanda, inúmeros seguimentos modernos de Quimbanda estão classificados sob três troncos: Quimbanda CruzadaQuimbanda Luciferiana e Quimbanda Tradicional

    

   

   

25/3/2020: DIA 6 - INSTRUÇÕES SOBRE A TRADIÇÃO DE QUIMBANDA

Sexto dia com Tatá Carlos.

A nossa Quimbanda é a boavelha e raiz. Nossa filosofia é Luciferiana, porque buscamos levar a Luz até a ignorância. É por isso que tomamos a iniciativa de demonstrar publicamente a jornada espiritual de um rito de iniciação e consagração a arte da feitiçaria tradicional brasileira. Os fundamentos aqui apresentados são os da nossa Casa, nosso Chão de Quimbanda ou choupana de cabala crioula como queiram chamar. Não temos a intenção de dizer o que é certo ou errado no Culto de Exu praticado em outras Casas; muito menos nos colocamos como os donos da verdade e conhecedores últimos de Quimbanda.

   Em nosso trabalho não procuramos sincretizar Exus e Pombagiras com demônios. O nosso satanismo, se assim podemos dizer, é aquele da oposição adversária a ortodoxia cristista da cultura brasileira. É somente nesse caminho que a Quimbanda é o Culto do Diabo. Nós não inventamos/fundamos uma Quimbanda. Nossos fundamentos vêm da tradição oral, da gnose com os Poderosos Mortos e do conhecimento obtido em tradições diversas após anos de busca, desencontros, encontros e iniciações.

   Nós temos a plena convicção que o trabalho que aqui laboramos irá ferir a visão de mundo de muitos feiticeiros-kimbanda; no entanto, também sabemos que estamos levando a Luz para resgar o véu da ignorância de muitos buscadores sinceros e incautos perdidos na escuridão. Não somos melhores que ninguém por isso; somos apenas um templo do Culto de Exu fazendo um trabalho inédito e pioneiro no Brasil: nenhum tatá de Quimbanda, adepto ou tradição se propôs a documentar e publicar uma jornada de iniciação na feitiçaria tradicional brasileira. Se isso fere os tradicionalistas ortodoxos da tradição de Quimbanda Brasileira, nós não sentimos muito, porque sabemos que o que estamos fazendo está atingindo os objetivos que gostaríamos.

   Esse documentário não é profissional. Trata-se de um relato em um diário mágico de um feiticeiro-kimbanda. Ele não tem, portanto, a pretensão ou mesmo a obrigação de revelar tudo. Mas apenas de tornar público aspectos essenciais de uma iniciação na tradição de Quimbanda. O conteúdo das cátedras de Tatá Carlos não serão divulgados; os feitiços, mirongas e mandingas que aprendemos com ele, muito menos. Nossa intenção íntima é essa: demonstrar que a tradição de Quimbanda, o Culto de Exu no Brasil, é verdadeiramente iniciática, propõe alquimia na alma, quer dizer, o trabalho sobre si mesmo, o cultivo da sabedoria, da força e da honra.

   Em nossa tradição nós temos o comprometimento de produzir conhecimento. É isso que estamos fazendo. O que não faremos é cair na armadilha de feiticeiros sincretizadores de demônios e Exus, obsediados por Quiumbas e disseminadores de ignorância e mentiras para ganhar holofotes de 15 minutos de fama, produzindo mais ignorância. Quem gosta de treta em internet são cultuadores de Quiumbas, não de Exus. Exu é, abre e dá caminho. É muito diferente!

   Atenção aqui: qualquer tradição de Quimbanda que diz que assenta demônio não é, de fato, Quimbanda, mas demonolatria moderna. É bão demais, como se diz, mas não é Quimbanda. A boavelha e raiz tradição de Quimbanda Brasileira trata-se do Culto de Exu, ancestrais divinizados, almas deificadas, não demônios escatológicos judaico-cristãos. 

21:00. Cátedra de Tatá Carlos sobre o ternário de Exu nas cores vermelho, preto e branco (elétron, próton e nêutron) na movimentação energética e ação dos Poderosos Mortos. 

22:00. Cátedra de Tatá Carlos sobre o culto aos ancestrais familiares dentro da Quimbanda, sua importância na eficiência magística do feiticeiro e no trabalho alquímico da alma.

23:45. Nos dirigimos a encruzilhada para fazer a oferenda dos cortes feitos aos Exus e Pombagiras.

24/3/2020: DIA 5 - SACRIFÍCIO PROPICIATÓRIO AOS EXUS E POMBAGIRAS

Quinto dia com Tatá Carlos.

9:00. Instrução oral sobre oráculo com quatro e sete búzios de Exu

10:00. Instrução sobre mão de corte e marcação do corpo na iniciação.

12:00. Fomos todos buscar as dez aves para o sacrifício propiciatório as entidades: seis Exus e quatro Pombagiras assentados. São os guias dos três feiticeiros do templo mais o Exu da tronqueira.

O ataque dos Quiumbas

Enquanto estávamos buscando as aves, seis galos para os Exus e quatro galinhas para as Pombagiras, recebi notificação de um vídeo gravado por um feiticeiro da Kimbanda Malei fazendo referência ao conteúdo deste diário. Ele dizia neste vídeo e outro que gravou em seguida que aqui nós estamos sincretizando Quimbanda com Paolo pelo fato de Tatá Carlos ter ensinado que Exus de mata têm assentamentos parecidos com os dos Ngangas do Paolo ao se referir ao assentamento de Exu Pantera Negra. Puro analfabetismo funcional. Em tempo algum nós dissemos que Exu Pantera Negra tem relação com Paolo, trabalha na banda do Paolo ou deve ser assentado da mesma maneira que qualquer Nganga do Paolo. Ele nos acusava de marmoteiros.

   Este mesmo feiticeiro, no entanto, sincretiza livremente Exus com demônios (daimones) da goécia salomônica medieval. Um erro de principiante. Exus não são demônios; eles são ancestrais divinizados, almas deificadas. Ele diz que não tem Exus assentados, mas demônios. Tudo bem, mas trata-se de um sincretismo marmota. Cada um na sua banda...

   Isso deve ficar bem claro: eu nunca me coloquei como mestre, seja na magia tradicional ou na tradição de Quimbanda. Quem me acusa de dizer isso está mentindo. Eu não inventei uma Quimbanda ou faço cruzamento/sincretismo com qualquer entidade associada a Exus. Muito menos me coloco como dono da verdade; muito pelo contrário, sou um buscador e é a busca que movimenta a iniciação. Eu pratico a boa Quimbanda raiz: pronto! Tatá Carlos tem dezoito anos de Quimbanda, iniciado por Tatá Antônio Alves de Rosado, o Antônio Kaminaloa. Nossa Quimbanda é de inclinação luciferiana e o trabalho que fazemos é este: levar a luz. E é só por isso que você, leitor, está tendo a oportunidade de acompanhar essa jornada espiritual.

    Aqui nós não brincamos de Quimbanda! E por conta dos caminhos que trilhei para chegar até aqui onde me encontro, sou chamado de drogado, estuprador e até estelionatário. Não há sequer uma queixa crime contra mim; durante muitos anos labutei pelas veredas da utilização de plantas de poder associadas a prática espiritual. Nunca me envolvi com entorpecentes químicos, mas fui adepto do uso de plantas de poder. Essa prática, no entanto, deixei ao chegar na Quimbanda, onde passei a depender de minha própria mediunidade e da instrução de meus guias. Fui thelemita por vinte anos; pratiquei intensamente a magia sexual thelêmica e escrevi livros sobre o assunto. Pratiquei e me tornei professor de tantra, yoga e ayurveda, produzindo muito conteúdo sobre esses temas. Fui apaixonado pela teurgia grega e consumi Jâmblico até me fartar. Minha jornada pelos caminhos da magia agregou trinta anos de experiência. Hoje tenho 42 anos e desde os dez anos busco a espiritualidade. Toda essa bagagem me capacitou a compreender a Quimbanda profundamente, me apaixonar por ela e decidir me dedicar ao seu exercício somente, sem misturá-la com absolutamente nada.

   Este feiticeiro da Kimbanda Malei, portanto, está me acusando de fazer algo que não faço. Quem sincretiza Exu é ele. Deveria ser o primeiro a pensar duas vezes antes de acusar alguém de sincretizar qualquer coisa. Com cinquenta anos já deveria ter alguma sabedoria, pelo menos àquela gnose adquirida do contato com os Exus. Mas não é o caso, pois trata-se de um servidor e escravo de Quiumbas que querem atrapalhar nós da boa Quimbanda a levar a luz aos ignorantes. Aqui não temos reserva de mercado e revelamos fundamentos. Se isso dói a qualquer um: reclame com Deus ou com o Diabo, senão, com a mamãezinha.

   Olha que teu Diabo é Quiumba, do contrário, criava vergonha na cara, saia do You Tube e praticaria a boa feitiçaria. Se liga, porque feiticeiro de You Tube não é feiticeiro! O Templo Cova de Cipriano Feiticeiro está a sua disposição para vir e fazer um aprofundamento para tirar-lhe da feitiçaria de You Tube e trazê-lo novamente a feitiçaria real.

Nós iniciamos o sacrifício dos animais às 19:00. Foram seis galos e quatro galinhas para os Exus e Pombagiras. Particularmente, a parte e sem desrespeitar nenhum dos nossos guias, o clímax da cerimônia foi o sacrifício para o assentamento de Exu Pantera Negra. O galo cortado a ele foi um índio de rincha, grande, forte e pesado. Quando nós fomos pegá-lo a tarde, em uma propriedade diferente daquela onde conseguimos todas as outras nove aves, passamos por uma verdadeira jornada de iniciação. Muita chuva, estrada de chão, buracos e muita, muita lama. No momento do corte, segurando suas asas, fiquei com a mão esquerda inchada, dormente e dolorida; a mão direita cortada pelas gigantescas esporas do galo. No momento do corte eu segurei para não incorporar, o que produziu uma forte dor de cabeça. Quando isso ocorre, quando travo, vamos dizer, a incorporação, fico com fortes dores de cabeça. Mas essa, no entanto, durou pouco mais de vinte minutos. Finalizamos o sacrifício propiciatório por volta da 00:00.

   O Chefe de nossa casa é o Sr. Pantera! Nosso Chão de Quimbanda é uma choupana da mata. Foi o Sr. Pantera que me tirou de São José do Rio Preto e me trouxe até Angra dos Reis, porque é aqui que ele quer trabalhar. Ele disse: filho, vá-te embora dessa cidade e busque a mata e a praia, é lá que vamos trabalharNunca, em toda minha jornada espiritual, me senti tão completo, tão realizado, tão em paz comigo mesmo, com minhas dúvidas, medos infundados e ansiedades. Com o Sr. Pantera, meu guia e guardião, estou inteiro.

23/3/2020: DIA 4 - FEITIO DOS ASSENTAMENTOS DE EXUS E POMBAGIRAS

Quarto dia com Tatá Carlos.

9:00. Lira, pagamento e retirada de fetiches para os assentamentos de Pombagira Maria Mulambo e Cigana das Sete Saias.

10:00. Início do feitio dos assentamentos dos dez Diabos do terreiro/Templo Cova de Cipriano Feiticeiro.

Uma reflexão sobre o feitio dos assentamentos:

Na tradição de Quimbanda ninguém dá aquilo que não tem. No Terreiro Cova de Cipriano Feiticeiro o feitio do assentamento ocorre no ato da iniciação. É a partir do Exu nascido e assentado na frente de um Exu Pronto que se inicia a relação entre o adepto e seu Exu Tutelar. A alquimia deste processo ocorre por meio do feitio do assentamento e do primeiro sacrifício oferecido ao Exu Tutelar. É na iniciação que começa a alquimia de deificação da alma do adepto, no momento em que o sacerdote imola o animal no sacrifício propiciatório dentro do assentamento do Exu.

17:00. Axé de Faca (imantação). Trata-se da imantação da Faca para imolação sacrifical de animais no Culto de Exu. Para deificar o animal sacrificado, a Faca deve conter a força e o poder de Exu. Axé de Faca trata-se da cerimônia onde uma faca comun torna-se um objeto sagrado do Culto de Exu. A Faca trata-se da arma mágica mais importante do feiticeiro-kimbanda.

22/3/2020: DIA 3 - SEPARAÇÃO DO MATERIAL PARA ASSENTAR OS EXUS E POMBAGIRAS

Terceiro dia com Tatá Carlos.

9:00. Mata e Calunga Grande, pagamento e retirada de fetiches para os assentamentos de Exu Pantera Negra, o dono da casa, Exu Tronqueira e Exu Tranca-Ruas de Embaré.

10:00. Almas, pagamento e retirada de fetiches para o Exu Sete Catacumbas. Nós achamos um Cruzeiro das Almas de Estrada e Tatá Carlos o retirou para colocar no assentamento de seu Exu Tutelar, o Sr. Sete Catacumbas. 

14:00. Preparação da tabatinga para fixação dos pontos de ferro de alguns Exus e Pombagiras do Reino das Almas, Calunga Grande, Calunga Pequena e Matas. Alguns assentamentos como os das Pombagiras Maria Mulambo e Cigana das Sete Saias, do Reino da Lira, não são preparados com tabatinga prendendo as ferramentas. No caso da Cigana Sete Saias, pelo fato de ser cigana, portanto livre, não prende-se a ferramenta com tabatinga.

   O assentamento de Exu não é um símbolo da entidade, mas um organismo vivo, um microcosmo de um Reino de Quimbanda atuando como uma zona de poder do Reino e, portanto, um campo de atuação do Exu correspondente aquele reino. Seguindo o septenário da tradição de Quimbanda, o assentamento é formado pelos quatro elementos e os três reinos mineralvegetal e animal. Uma vez constituído, ele não pode ser desmontado e enviado por correio. O assentamento ocorre quando o Exu nasce e é assentado no local. Uma vez animada e ativada, a pedra de Exu (okutá) permanece no assentamento, carregando com força e potência mágica a ferramenta (e todo assentamento).

   Não existe iniciação na Quimbanda sem assentamento. A iniciação que não oferece assentamento, mas ao invés disso apenas uma imagem imantada como ponto de força ou um vulto, não se trata verdadeiramente de uma iniciação na tradição de Quimbanda. E tem feiticeiro quase-mestre sem assentamento... na Umbanda de Esquerda...

   A iniciação na tradição de Quimbanda confere a cada adepto capacidade para cuidar zelosamente de sua relação com seu Exu Pessoal, guia espiritual, protetor e encaminhador do destino.

   Aqui nós estamos assentando DEZ DIABOS. Bem vindo a Cova!

21/3/2020: DIA 2 - SEPARAÇÃO DO MATERIAL PARA ASSENTAR OS EXUS E POMBAGIRAS

Segundo dia com Tatá Carlos.

9:00. Tempo chuvoso. Instrução oral sobre Lei de Pemba (constituição de pontos riscados).

14:00. Separação do material para confeccionar os dez assentamentos do Terreiro Cova de Cipriano Feiticeiro

23:00. Lira/Cabaré. Retirada de fetiches de um cabaré para os assentamentos de Maria de Padilha das Almas e de Cigana das Sete Saias.

Um relato sobre este evento: Eu e Tatá Carlos nos direcionamos ao cabaré. Chegando lá fomos atendidos, na porta, por um adepto raspado de Candomblé. Explicamos a ele o porque estávamos ali e ele chamou o gerente. Este, por sua vez, veio de dentro do cabaré cantando: É a Mulambo me chamando, é a Mulambo me chamando. Explicamos o porque de estarmos ali e logo ele se propôs a nos deixar entrar a vontade para pegar o que quiséssemos, dizendo que lá dentro do cabaré havia uma Maria de Padilha assentada. Nós pedimos para vê-la, mas o quarto do assentamento estava fechado e ele sem as chaves. Eu notei que ele me olhava de maneira estranha, o que fui saber o porque um pouco mais adiante.

   O gerente nos levou aos quartos onde as mulheres do cabaré faziam programa e lá retiramos da porta do quarto de número sete (7), o número, para o assentamento de Cigana das Sete saias. Do mesmo quarto retiramos parafusos da parede para o assentamento de Maria de Padilha das Almas.

   Indo embora o gerente me parou e perguntou: você é novo na cidade? Respondi que sim e perguntei o porquê da pergunta. Ele sacou o celular do bolso, abriu uma foto minha e disse: eu estava procurando por você! Eu logo respondi: então pare de me procurar porque aqui estou!

   O gerente relatou que quem lhe enviou a foto foi a dona do cabaré, pedindo a ele que me procurasse para ajudar o cabaré a se levantar, pois o sacerdote que estava lá cuidando do assentamento de Maria de Padilha, assim eles entendiam, não devia estar fazendo direito, pois o movimento caiu muito nos últimos tempos. Passei a ele meu telefone e pedi que a dona do cabaré entrasse em contato comigo.

   Nos despedimos e fomos embora. 

   Ao chegarmos no terreiro a dona já havia me mandado mensagem e estamos em contato.

20/3/2020: DIA 1 - RETIRADA DE FETICHES PARA ENRIQUECER OS ASSENTAMENTOS

Primeiro dia com Tatá Carlos.

9:00. Análise dos Diabos na Cáfua e separação do assentamento de Exu Pantera Negra.

14:00. Calunga Pequena, pagamento e retirada de fetiches para os assentamentos de Exu Caveira, Pombagira Maria Tatá Caveira, Tranca-Ruas das Almas e Maria de Padilha das Almas. Conseguimos ossos humanos, cruzes, potes de louça, moedas, terra de cova, terra e pedra de lomba e velas usadas. 

16:00. Lira de enseada/praia e praça, pagamento e retirada de fetiches os assentamentos de Tranca-Ruas de Embaré; Maria Mulambo e Cigana das Sete Saias. Conseguimos terra e pedras de trilhos de praça, correntes de embarcações. 

20:00. Instrução oral sobre corte/sacrifício. Nesse primeiro dia de instrução Tatá Carlos corrigiu inúmeros equívocos aprendidos com nosso ex-mestre de Quimbanda, nos explicando com fundamentação o porque de não existir mão de faca fragmentada/partida: (faca de avefaca de bicho de quatro patas etc.). O nome dessa prática é Hierarquia de Obé (faca) ou Ejé (sangue), o que é incorreto quando refere-se a mãos de faca distintas dentro da Quimbanda. Isso vem do Candomblé e dentro da Quimbanda trata-se de charlatanismo. Essa prática na Quimbanda trata-se de pura enganação. Quem assim o faz é um mercador da espiritualidade. Existe sim hierarquia de sangue, mas isso não tem relação nenhuma com a faca (ou a mão de faca) do sacrificador, mas somente com a natureza do sacrifício. Uma vez consagrado e marcado como um sacrificador, o sacerdote pode sacrificar, independente do animal sacrificado. 

19/3/2020: CHEGADA DE TATÁ CARLOS MEIRA

Tatá Carlos Meira chegou às 2:00. O recebi e o levei as suas acomodações na casa de FM, que irá se iniciar na Quimbanda também.

FERNANDO DE LIGÓRIO

Fernando de Ligório é um hermetista praticante, escritor interessado em Teurgia Neoplatônica, Tradição Salomônica e dos Grimórios, Magia na Antiguidade, Cabala Crioula (Quimbanda), Feitiçaria, Bruxaria e Magia Negra (Caminho da Mão esquerda), Filosofia, Yoga, Tantra, Āyurveda e Xamanismo. Fernando de Ligório se interessa em preservar a Tradição Ocidental de Mistérios (ou Tradição Oculta da Magia) através de seus cursos, palestras, assessoria espiritual e consultas.

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