DIÁRIO DE UM FEITICEIRO

Iniciação na Tradição de Quimbanda

INICIAÇÃO NA TRADIÇÃO DE QUIMBANDA

Templo de Quimbanda Maioral Exu Pantera Negra e Pombagira Dama da Noite orgulhosamente apresenta dois novos iniciados na tradição de Quimbanda, a feitiçaria tradicional brasileira: Gustavo do Tranca-Ruas de Embaré e Flávio do Exu dos Rios. Essa foi a primeira iniciação da família Cova de Cipriano Feiticeiro de 2021 e a última ocorrida em nosso antigo templo. Como toda genuína iniciação em tradições de Cabalá Crioula, existem eventos mágicos que tornam cada ritual iniciatório em um evento muito particular, porque a medicina e a cura dele agem de formas distintas nos iniciantes, cada qual com seu nível e carga energética. O Ritual de Iniciação na Quimbanda envolve uma estrutura coesa que prepara o caminho para a transmissão do àṣẹ, no entanto, adaptada as condições de cada postulante a admissão no momento de seu ordálio iniciatório.

   Perpetuar a tradição é transmitir ou entregar um segredo, um arcano mágico-iniciatório na forma de fundamentos, símbolos, lendas, costumes e ritos através das gerações e de boca a ouvidos. Como tradição, a Quimbanda  se organiza dentro de uma estrutura de culto religioso, de doutrina prática e inclinação filosófica. Para preservar suas raízes através dos tempos, toda genuína tradição aprende a se adaptar as condições sócio-culturais e geográficas, preservando sua estrutura, mas adaptada as condições de cada geração. Isso significa que as raízes são preservadas e continuam a influenciar as novas abordagens, mantendo a essência da fundamentação que deu origem ao culto.

   A feitiçaria tradicional brasileira é uma tradição de Quimbanda enraizada nas práticas de curandeirismo do xamanismo ameríndio; de fundamentação tradicional nàgô-yorùbá e cosmovisão banto, de inclinação filosófica luciferiana, de iconografia theriomorfa diabólica influenciada pela bruxaria ibérica e tradição dos grimórios europeus, de comportamento satânico/opositor e cujo objetivo é expandir o Reinado do Chefe Império Maioral, o Diabo.

   Na tradição de Quimbanda da Cova de Cipriano Feiticeiro, um clã hermético de adeptos Filhos do Diabo, existem três graus iniciatórios: Noviço, Adepto e Mestre. A partir do grau de Mestre de Quimbanda, tendo cumprido suas obrigações de culto e recebido todas as indumentárias hieráticas, teofânicas e espirituais em sua alma, o feiticeiro-kimbanda está pronto para caminhar com as próprias pernas, tendo a liberdade de adaptar/complementar no seu culto as práticas espirituais que conhecer e achar mais convenientes, baseando-se na sua experiência pessoal no Conhecimento & Conversação com o Exu e a Pombagira tutelares. 

   A Quimbanda é uma tradição moderna. Não há como fugir disso. O Culto de Exu (Quimbanda) no Brasil ainda está em sua gênese, engatinhando como um bebezinho. Embora a raiz ancestral da Quimbanda remonte aos escravos negros, cativos índios e bruxas europeias (e brasileiras), criminosas condenadas que fugiam e lutavam contra a supremacia social branca dominante e a religiosidade escravocrata vigente, sua estrutura de culto é bem recente, com pouco mais de cinquenta anos. Isso significa que - da mesma maneira como ocorre em qualquer tradição espiritual genuína - a Quimbanda está em processo de amadurecimento. Nesse caminho de desenvolvimento e amadurecimento novas abordagens surgirão, novas estruturas de fundamentos e o seu modus operandi substituirão ou desmistificarão antigas fundamentações, o que inclui novas nomenclaturas ou a reciclagem de algumas antigas. São os Poderosos Mortos, os Exus e Pombagiras da Quimbanda, os responsáveis diretos por esse desenvolvimento, transformação e expansão dos núcleos e vórtices obscuros da Quimbanda. É a Gnose transmitida por Exu aos seus adeptos que os orienta a expandir o culto e a admitir novas abordagens.

   Também não há como fugir do fato que a evolução religiosa de um culto, seus métodos e abordagens, é inevitável. Se opor a isso é como se opor as expansão do Reinado de Maioral. Crescer, evoluir, transformar, mudar, adaptar e mesmo assim preservar a essência primigênita de suas fundações, é o quer se espera de qualquer genuína tradição espiritual. Sobre a iniciação, Mircea Eliade (Initiation, Rites, Sociétés Secrètes) diz: Amiúde afirma-se que uma das características do mundo moderno é o desaparecimento da iniciação. [...] A originalidade do «homem moderno», sua novidade com relação às sociedades tradicionais, é precisamente sua vontade de se considerar um ser unicamente histórico, seu desejo de viver em um Cosmos radicalmente dessacralizado. [...] A maioria das provas iniciatórias implicam, de um modo mais ou menos transparente, uma morte ritual seguida de uma ressurreição ou de um novo nascimento. [...] Todos os ritos de renascimento ou de ressurreição, e os símbolos que eles implicam, indicam que o noviço alcançou um outro modo de existência, inacessível àqueles que não enfrentaram as provas iniciáticas e que não conheceram a morte.

   O Ritual de Iniciação na Quimbanda é um rito de passagem da vida profana para vida iniciática, um processo que envolve a morte e o renascimento mágico-místico, simbólico-religioso, de cada uma das partes que compõem a estrutura da consciência. Espiritualmente, o recém iniciado sai da infância (ou ignorância) e ingressa na vida adulta (amadurecimento/conhecimento espiritual).

   A iniciação em tradições espirituais e sociedades secretas é tão antiga quanto a idade do homem. De certo modo nós dizemos que a vida iniciática distingue-se da vida profana apenas no fato de fazer iniciaticamente o que se faz na vida profana. Todos nós passamos por ritos iniciatórios sócio-culturais desde que descemos a legião dos vivos, no entanto, esquecidos ou mal informados disso. Ritos de passagem estão nas entranhas culturais de todos os povos e raças. Um dos ritos de passagem é o ingresso em uma comunidade iniciática, secreta ou não. Trata-se de um rito de iniciatório de morte e renascimento dentro de um clã, o que garante a participação nele. 

   Mircea Eliade continua: A morte iniciática é, então, um recomeço, jamais um fim. Em nenhum rito ou mito encontramos a morte iniciática unicamente como fim, mas como condição sine qua non de uma passagem a um outro modo de ser, prova indispensável para se regenerar, isto é, para começar uma nova vida. Começar uma nova vida implica deixar a velha forma constituinte da personalidade para trás. Isso não é fácil, não é mesmo? O rito iniciatório provê condições adequadas para transformação (morte/renascimento) da consciência por meio de atos sacerdotais propiciatórios que incluem ritos de purificação (banhos, fumigações, sacudimentos, sacrifícios etc.), marcação corporal, obrigações, apresentação aos Reinos e seus respectivos Povos etc. Todos estes mecanismos propiciatórios têm a finalidade de causar mudanças permanentes nos recessos mais profundos da consciência, o que confere a estrutura de mudança requerida de um recém iniciado em uma tradição espiritual. Não é possível fazer isso virtualmente e por isso não existe, de fato e em nome da verdade, autoiniciações ou iniciações virtuais a distância. Iniciação exige presença!