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DAEMONIUM

Curso de Filosofia Oculta

EM BREVE

Diferente dos textos que compõem a primeira edição, todos do Curso de Filosofia Oculta, os textos desta segunda edição de Daemonium foram revisados, corrigidos, anotados e ampliados para a versão aqui apresentada.

Os dois temas centrais desta edição e da anterior permanecem os mesmos: 1. a natureza do espírito tutelar (daimon pessoal, Exu Tutelar, Sagrado Anjo Guardião, espírito assiste ou servidor etc.) e; 2. o conhecimento & conversação com o espírito tutelar. E isso segue uma fórmula de iniciação: primeiro tomamos conhecimento da natureza do Espírito Tutelar, nos tornamos capazes de vê-lo; após essa visão da natureza é que empreendemos esforços para nos comunicar e interagir com ele efetivamente.

Este tem sido o eixo ao redor do qual se estruturou a tradição da magia como a conhecemos no Ocidente; a busca pelo conhecimento e conversação com o espírito tutelar e através dos poderes dele operar o milagre da magia.

Nós encontramos referências acerca de auxiliadores espirituais em quase todas as culturas do Ocidente ao Oriente, nas mitologias e nos contos populares. Durante a Idade Média o tema ganhou fôlego nas perseguições católicas e protestantes contra as bruxas na Europa, acusadas de pactuarem e se comunicarem com o Diabo que as aparecia como um espírito tutelar, o diabo pessoal que as dotava de poderes miraculosos de magia. O diabo pessoal das bruxas era de natureza aérea e agia como um agente de comunicação, um mensageiro entre elas e os espíritos familiares que conjuravam a disposição. Não tardou para aparecerem relatos de bruxas acompanhadas de espíritos familiares na forma de gatos, ratos, corujas, cães e insetos. Na alta temperatura das fogueiras de bruxas qualquer mulher que possuísse um animal desses podia ser acusada como tal. Uma quantidade grande dessas histórias são puro folclore, muitas vezes para assustar e condenar a prática de feitiçaria e religiosidade pagã, no entanto, elas vêm carregadas com um conhecimento arcano, quase que subliminar nos contos folclóricos da magia popular europeia: a ajuda espiritual através de um agente sobrenatural.

Durante a Idade Média curandeiros e bruxas foram acusados de comunicação com espíritos; as bruxas eram imputadas o contato com demônios e os curandeiros o contato com os encantados da natureza, fadas e elementais diversos. Dependendo das inclinações naturais dos bruxos, magos ou feiticeiros, seus espíritos assistentes podem ser de natureza maligna, benigna ou ambas, como é o caso na tradição de Quimbanda com os Exus e Pombagiras. Seja como for, o papel do espírito assistente é auxiliar o mago em sua arte, guiando e protegendo sua jornada. Existem contos de magia popular europeia relatando a ação dos espíritos assistentes os descrevendo como animais diversos, cães, gatos, aves etc. enviados a longas distâncias pela bruxa para coletarem informações e espionarem seus desafetos pessoais ou dos clientes, o que também está presenste na tradição de Quimbanda nas relações dos Exus com seus adeptos. E é interessante notar como este tipo de conto europeu medieval além de encontrar expressão e reflexo na feitiçaria tradicional brasileira, também o faz na tradição xamânica quando o animal de poder do xamã é enviado para espionar ou resgatar alguma parte da alma de um cliente perdida nos planos espirituais.

Espíritos familiares são distintos de espíritos tutelares. Os familiares e servidores são aliados mágicos, membros da família espiritual ou egrégora pessoal. Os espíritos tutelares agem como guias e instrutores espirituais, encaminhadores do destino dos magos e feiticeiros. Na tradição xamânica o espírito tutelar aparece em um momento de intensa crise espiritual na forma de doença e estado de quase morte. Tanto o conhecimento e conversação com o espírito tutelar no xamanismo quanto a própria iniciação xamânica ocorre nesse limiar entre vida e morte. Como vimos na edição passada, o conhecimento e conversação com o espírito tutelar é uma experiência mágica universal, presente em inúmeras culturas mágico-espirituais. Trata-se de uma experiência de cunho íntimo e que pode ocorrer de maneiras distintas com quase todos os magos, bruxos e feiticeiros. Nos contos e relatos de magia popular europeia o contato de bruxas e curandeiros com seus espíritos tutelares/assistentes são descritos de formas diferentes e em ocasiões distintas:

 

  1. O espírito tutelar pode aparecer ao feiticeiro em meio às atividades cotidianas da vida secular, inesperadamente.

  2. O familiar/servidor/tutelar pode ser transferido de um feiticeiro a outro no momento da morte, usualmente um filho mágico, quer dizer, um discípulo ou membro da família.

  3. O espírito tutelar pode aparecer ao feiticeiro em momentos de intensa crise espiritual e secular. Na europa medieval, problemas com falta de dinheiro, doenças, perda/luto etc. eram demandas da maior parte da população. O espírito tutelar aparecia nestes momentos de crise para proporcionar uma saída para superar estes obstáculos e dificuldades. Um conforto espiritual oferecido e compartilhado por meio de um pacto mágico.

  4. O espírito tutelar pode aparecer ao feiticeiro através de intensa ascese, isolamento e disciplinas espirituais de mortificação.

 

Nós podemos incluir o silêncio, a reflexão e a meditação como meios efetivos de contatar o espírito familiar. Na Idade Média, bruxas clamavam a Satã, o diabo pessoal, para contatar seus espíritos assistentes. Outras o faziam através da leitura de livros ou eles saltavam aos olhos delas inesperadamente. Não existe, efetivamente, uma fórmula de bolo para o conhecimento e conversação com o espírito tutelar. Para alguns sensitivos ele pode aparecer logo no início da jornada; outros têm o buscado por toda a vida. O conhecimento e a conversação, termo utilizado para conexão total com o espírito tutelar, ocorre no curso do tempo, dentro de uma relação íntima e familiar com ele. Ser assistido por um espírito tutelar e conjurar diversos espíritos assistentes, ancestrais, familiares e servidores, é construir uma equipe espiritual, uma família que deve ser cuidada com carinho e comprometimento. Constituir uma família espiritual ao seu redor tem sido uma das tarefas tradicionais de um feiticeiro porque isso constitui a fonte das maiores proezas mágicas realizadas e relembradas na história da magia.

Não é muito diferente de se ter animais de estimação. Eles precisam de cuidados diários, alimentação, saúde, limpeza. Não é muito diferente também de conviver em família ou grupo: temos de ser cordiais e educados, comprimentar todos os dias, bom dia, boa noite, estou saíndo, cheguei etc. Todo o cuidado que temos com nossas relações pessoais será o mesmo cuidado que teremos com nossa família de espíritos, a egrégora pessoal ou, como se diz na cabala crioula, a banda. Quando dizemos saravá a banda de fato cumprimentamos toda egrégora pessoal de um feiticeiro, os espíritos que o acompanham.

Os benefícios de ser assistido por um espírito tutelar são muitos. Pessoalmente experimento aquela voz daimônica que assistia Sócrates nas escolhas de suas ações. Na minha experiência ela aparece principalmente nos rituais, naquele movimento equivocado que causaria um erro magístico e a correção chegasse antes da ação, podendo mudar o curso ajustando pequenos detalhes. Exemplos práticos de minha experiência pessoal:

 

 

  • Certa vez cortei a perna enquanto realizava a entrega de um sacrifício em uma zona de poder equivocada. Naquele momento em que cortei a perna a voz disse no meu ouvido: lugar errado. Eu estava entregando o sacrifício na porta de uma igreja centenária quando o local certo era na praia, a beira do mar.

  • Outra vez também machuquei a perna ao acender uma vela no lado errado do Cruzeiro das Almas. A voz daimônica disse: lugar errado.

  • Ao cortar uma ave para sacrifício, empunhando a faca em mãos, pensando em um procedimento diferente para o corte, a voz daimônica me alertou: conjure a faca, não mude o corte.

  • Mais uma vez me machuquei, cortando o dedão do pé direito ao me aproximar de um Cruzeiro das Almas para limpá-lo. A voz daimônica disse: se aproxime com mais respeito e reverência, peça licença.

  • Acordando no meio da noite com a voz daimônica dizendo: acende uma vela agora para mim, bebida, fumo e um prato com [...]. Adquira um crânio para [...].

Sobre essa última instrução relatada, é interessante notar que desde a antiga Babilônia o crânio humano tem sido usado como assentamento para espíritos tutelares. Antigos magos e feiticeiros de renome como São Cipriano são retratados carregando ou ao lado de um crânio humano sobre a mesa ou na estante de livros.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cipriano o Mago. Autor: Romario Romis.

Capa do livro O Espírito de São Cipriano

(no prelo)

O livro de Samuel (28:3-25) relata a história da Bruxa de Endor, uma feiticeira necromante que conjurou a alma do Profeta Samuel sob as ordens do Rei Saul através de um espírito assistente. Ela é descrita carregando um ob, objeto mágico como um talismã que abriga um espírito. A Bruxa de Endor teria conjurado a alma do Profeta Samuel por meio de um espírito assistente de um crânio humano.[5] Desde tempos imemoriais o crânio tem sido usado como uma morada ou zona de poder adequada a um espírito assistente com capacidade de nos colocar em contato com outros espíritos. Como tal, trata-se de uma ótima ferramenta oracular ou de conexão com o mundo espiritual.

Altar necromântico de culto aos ancestrais

com crânio humano, agosto de 2019.

Após essa instrução recebida pela voz daimônica de meu guia espiritual de que eu deveria conseguir um crânio humano, curiosamente ganhei um de presente de um aluno do Curso de Filosofia Oculta. Imediatamente o purifiquei com libações e fumigações, me preparando para conjura-lo e imantá-lo. Mas eu havia me esquecido de algo importante e que me custou ter de devolver as catacumbas o crânio.

Na ocasião eu estava imerso em práticas cipriânicas de feitiçaria, o que eu chamei de terceira onda cipriânica em minha jornada espiritual e que acabou por me levar a tradição de Quimbanda. Como veremos nessa edição, eu me envolvi com a feitiçaria de São Cipriano em três ocasiões distintas em minha carreira mágica que chamei de ondas. A terceira dessas ondas me levou ao coração da Quimbanda.

Dentro do crânio eu havia colocado um cristal voguel sacrificado pelo fogo e pelo sangue, libertando sua força e alimentando o espírito que nele vivia. Meu interesse era fazer do crânio um assentamento de poder para o Espírito de São Cipriano ou como gosto de chama-lo, Cipriano Feiticeiro ou Mandingueiro.

Eu já havia conjurado Cipriano Feiticeiro como patrono espiritual do meu exercício de feitiçaria, a Quimbanda Ars Nigra e como o espírito tutelar do meu altar de feitiçaria. Então decidi utilizar o crânio no ponto de força de Cipriano Feiticeiro sobre o altar. Na foto acima vê-se o crânio como assentamento de poder de um espírito assistente sobre a zimba (ponto riscado) de Cipriano Feiticeiro. A partir disso iniciei um relacionamento espiritual com o espírito assistente do crânio e passei a compartilhar com ele sessões de oráculos e visões astrais em meio a um turbilhão de mudanças e ajustes espirituais, além de oferecer-lhe sacrifícios sobre o altar.

Como havia ganhado o crânio, me esqueci de perguntar ao meu aluno de imediato se ele pagou pelo presente. Quando o fiz, bem depois que iniciei os procedimentos magísticos com ele, meu aluno disse que pagou o coveiro, mas não o crânio como deveria tê-lo feito. Nada sai da Calunga Pequena (cemitério) sem pagamento ao povo que mora lá, os Caveiras. Por conta disso, foi uma prerrogativa do Sr. Exu Tatá Caveira que eu devolvesse o crânio a Calunga Pequena antes de minha iniciação na Quimbanda. Essa é uma história para outra oportunidade e tratou-se de uma verdadeira jornada espiritual durante os eventos que relatei em A Mulher de Branco nessa edição.

Com outro direcionamento espiritual conectado a feitiçaria-kimbanda, hoje tenho um crânio na minha tronqueira de Eguns que serve de assentamento para os ancestrais, eguns de trabalho. Trata-se de um trabalho mágico secreto que está em curso no presente, portanto, impossível divulgar imagens nesse momento. Como falei na apresentação dessa edição, culturas diversas incentivam o inicio da jornada espiritual através do culto aos ancestrais, pois se trata de um culto que depende totalmente da crença no contato com espíritos desencarnados. Por conta disso, através do culto aos ancestrais se aprende mais rapidamente a interagir com espíritos tutelares, familiares e servidores diversos. Além do valor místico/terapêutico, pois o contato com ancestrais familiares auxilia na cura de profundas mazelas psíquicas conectadas a eles, existe o valor mágico, pois os ancestrais familiares se tornam a primeira linha de defesa espiritual do feiticeiro e agentes de magia. A tradição de Quimbanda preserva essa tecnologia mágica através do resgate de eguns, termo que designa o perfilamento de Eguns diversos nas Legiões e Exus e Pombagiras. Durante a iniciação na Quimbanda, o sacerdote e iniciante alimentam com sacrifícios propiciatórios a tronqueira e a mesa dos ancestrais, os Eguns de trabalho com os quais o feiticeiro-kimbanda passará a trabalhar, além dos Exus e Pombagiras. Com o tempo, no curso da formação sacerdotal, o feiticeiro recebe a Faca de Egun, através da qual ele poderá oferecer sacrifícios de sangue a estes ancestrais e terá poder efetivo para resgatá-los e trazê-los a sua banda, sua egrégora pessoal. Esse tipo de trabalho espiritual é universal e está presente em inúmeras culturas mágico-religiosas.

O conhecimento e conversação com o espírito tutelar deve, portanto, ser construído com o tempo, dedicação e comprometimento para com ele. É como uma amizade que para dar frutos vistosos precisa amadurecer. É como um relacionamento que para criar raízes profundas precisa de uma interação e conexão em todas as áreas.

Bom estudo!

NOTAS:

[1] Jâmblico, De Mysteriis, 5.7.

[2] Originalmente a goécia foi nos primórdios uma arte de conhecimento e conversação com os mortos apenas. Somente com o tempo ela agregou a comunicação com outras criaturas espirituais. A Quimbanda é, portanto, uma goécia brasileira, no sentido em que é uma arte de comunicação com almas mortas deificadas, os Exus e Pombagiras, e Eguns diversos.

[3] A diferença largamente difundida, mas às vezes deveras equivocada, dependendo do contexto em que é colocada, é que a feitiçaria (goécia) trata-se do comercio com entidades menores, telúricas e ctonianas; a teurgia, por outro lado, trata-se da comunicação com espíritos mais elevados, de planos superiores. Essa diferença é bem falaciosa. Tanto na teurgia quanto na feitiçaria usa-se lidar com todo tipo de criatura espiritual.

[4] O poder da faca, no entanto, é dependente da Mão de Faca, quer dizer, a mão consagrada ao sacerdócio sacrifical pelo poder da iniciação.

[5] Martin Coleman, Cummuning with Spirits: The Magical Practice of Necromancy.

O livro estará disponível no Clube de Autores 

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