DAEMONIUM

Curso de Filosofia Oculta

EM BREVE

Nessa segunda edição do Daemonium eu me proponho a uma tarefa difícil: demonstrar que a Quimbanda é uma genuína tradição brasileira de mistérios. Para isso eu construo uma ponte entre a feitiçaria da Quimbanda e seu sistema de iniciação com a goécia (feitiçaria) e teurgia da Antiguidade. A Quimbanda inclui ou herda a essência pura da goécia e teurgia gregas presente na Antiguidade clássica e tardia. Como vimos na última edição do Daemonium, as técnicas de feitiçaria e teurgia são universais, mudando pouca coisa de cultura para cultura. O corte e a oferenda que um feiticeiro-kimbanda faz as deidades da tradição, os Exus e Pombagiras, o teurgo e sacerdote dos deuses também fazia na Antiguidade. Procedimentos semelhantes, objetivos idênticos: celebrar a potencia dos espíritos e clamar por sua intervenção entre nós, purificando e sutilizando a alma, e auxiliando nas demandas da vida secular. Como veremos nessa edição, o corte ou sacrifício animal era o eixo da teurgia na Antiguidade e permaneceu o mesmo eixo da teurgia que existe dentro da Quimbanda.

Essa abordagem pode ser impactante aos tradicionalistas; no entanto, sob um olhar mais profundo, sob uma atenção mais cuidadosa, a Quimbanda encerra todos os arcanos e mistérios da goécia e teurgia universais. O poder do sacrifício na Quimbanda vem fundamentalmente da Chama Negra – ou unidade de vida – provinda de Maioral, a deusa Baphomet, e que subjaz os Sete Reinos. Como a causa primeira dos Sete Reinos de Quimbanda, Maioral compreende a totalidade da estrutura e das funções dos Reinos, presente portanto em todos os sacrifícios e oferendas. Ao preparar os sacrifícios e oferendas, o feiticeiro-kimbanda manipula e ativa essa unidade de vida através do poder do ritual, da faca imantada e do fogo propiciatório. Ao fazê-lo, ele alinha o sacrifício imolado a sua causa primeira. Essa mesma dinâmica é encontrada na teurgia grega. Em Jâmblico nós descobrimos que o poder do sacrifício vem da unidade de vida do cosmos e porque os deuses aos quais os sacrifícios são oferecidos são a causa primeira deles. Na visão de Platão no Timeu, na visão dos estóicos e dos neoplatônicos tardios, o cosmos é um único ser vivente que possui vida em todas as partes de si mesmo.[1] Os deuses como causa primeira formam a totalidade da estrutura e das funções do cosmos. É o amor dos deuses pelas oferendas a eles oferecidas – devido a presença deles nessas oferendas – é que elas se tornam efetivamente oferendas adequadas. Isso nega a falsa ideia de que os teurgos obrigavam os deuses e outras criaturas a lhes servirem; ao contrario, os deuses aceitam as oferendas por que eles estão e fazem parte delas, eles são a causa primeira das oferendas, portanto, eles amam o que lhes é oferecido. E da mesma maneira que o feiticeiro-kimbanda de hoje, o teurgo do passado manipulava e ativava a unidade de vida presente nas oferendas através do ritual, da faca e do fogo.

Teurgia e goécia (feitiçaria)[2] são práticas religiosas mágico-espirituais tão antigas quanto a idade do homem. Ambas têm em comum muitos elementos, como o conhecimento e conversação com espíritos diversos, além de compartilharem técnicas magísticas idênticas. A diferença essencial entre elas está no operador, nas suas inclinações espirituais e nas decisões e ações mágicas que ele decide colocar em prática.[3] O eixo central de ambas as engrenagens, teurgia e goécia, é o sacrifício cerimonial. A arma fundamental e mais importante do teurgo é também a arma mais importante do feiticeiro: a faca.

Na teurgia, a faca é a arma teúrgica do Logos; um símbolo da análise criteriosa e luminosa do Logos e de sua ação separadora: silenciosamente o Logos vê – racionalmente – e separa as ações da alma animal/emocional da alma intelectual, as vibrações e virtudes distintas do plano das ideias ao reino da geração, estabelecendo uma ordem interna, uma organização na alma que espelha a ordem fundamental do próprio cosmos; de igual modo a faca separa a vida da morte quando a lâmina fende a garganta do animal sacrificado. A Luz do Logos presente na faca invade o veículo pneumático do animal sacrificado, tornando-o um sacrifício luminoso, adequado às deidades convocadas na cerimônia. A deificação da alma do teurgo depente da saturação de luz logóica no seu veículo pneumático, tornando-o adequado a companhia dos deuses e a participação da unidade dos cosmos, como uma peça que se conecta ou se encaixa perfeitamente na engrenagem do cosmos. Por meio da faca o teurgo auxilia a alma do animal sacrificado enriquecendo-a com a Luz do Logos, deificando-a e tornando-a adequada ao sacrifício. A faca é a ferramenta que torna a morte um sacrifício sagrado. Ao empunhar sua faca, o teurgo se conecta ao Logos e torna-se seu instrumento. Como na Quimbanda, duas são as armas sacerdotais de um teurgo e sem as quais a teurgia não é ativada: a faca e o fogo.

A Quimbanda, fundamentalmente os seguimentos luciferianos/satanistas, não trabalha com a ideia do Logos como compreendida no neoplatonismo tardio; a Luz da alma intelectual é Lúcifer, o archote luminoso perpetuamente aceso na cabeça da deusa Baphomet (Beelzebuth/Maioral). Ao empunhar sua faca o feiticeiro-kimbanda segura em suas mãos a própria Luz de Lúcifer e como prometeu que roubou o fogo dos deuses, com ela fende a garganta do animal; como um relâmpago que brilha e ilumina a escuridão, a queda da Luz que vem dos Céus, a alma do animal é saturada de poder para tornar-se um augoeides apropriado ao sacrifício propiciatório. Para este ofício ritual a faca deve possuir poder (axé/moyo). Na teurgia o veículo pneumático da faca é saturado com a Luz do Logos através de um rito de imantação, quando se torna eikon-logoi, uma imagem do próprio Logos. Na feitiçaria-kimbanda uma cerimônia cognata, o Axé de Faca, torna a faca um instrumento magístico sagrado, imbuído de poder para sacralizar um sacrifício e deificar o animal.[4]

No ritual de iniciação na tradição de Quimbanda, o adepto e seu Exu Tutelar nascem; a Faca de Feitura recebida pelo adepto representa uma conexão logóica – ou luciférica – entre o adepto e seu Exu Tutelar, um vínculo mágico de união entre ambos. Ao cortar teurgicamente um animal com sua faca, o adepto está usando a arma mágica de seu Exu Tutelar, o instrumento sacerdotal através do qual ele se alimentará de menga (sangue). O momento que precede o corte é um silêncio profundo, uma sensação de calma, clareza e paz que amplia os horizontes da consciência; o que vem adiante é a gnose do corte quando são abertos portais a manifestação total do poder do Exu Tutelar e a oferenda em honra e glória a ele; neste ato de sacrifício teúrgico reforça-se o pacto e aliança com o Exu Tutelar, o diabo pessoal.

Quando se cultua a força de Exu através do corte colocamos dinamismo e vida em nossos propósitos, prosperidade e abundância na vida secular e a cura para as mazelas da mente, das emoções e do corpo. O veículo pneumático se sutiliza e isso tem um impacto profundo na mediunidade e sensibilidade espiritual, na personalidade e conduta pessoal. No corte o feiticeiro-kimbanda busca a gnose com seu Exu Tutelar, a convocação de sua sabedoria ancestral para resolução de questões espirituais e demandas da vida. A faca, portanto, como a Luz da conexão entre o Exu Tutelar e seu adepto, é o archote luminoso que ilumina seu caminho, como o eremita guiado no silêncio e nas sombras das profundezas por sua candeia mágica. Na teurgia ou na tradição da Quimbanda, a faca é um instrumento de deificação da alma.

Seguiremos doravante em uma jornada que atravessa as muralhas do tempo e os faróis de grandes culturas e civilizações mágico-espirituais na intenção de demonstrar que o feiticeiro-kimbanda não faz nada distinto do feiticeiro dos papiros gregos ou os teurgos neoplatônicos. É só nessa convergência que se compreende que teurgia e goécia estão na Quimbanda, formando a dinâmica mágica e mística destes dois pilares da Tradição Ocidental de Mistérios dentro da feitiçaria tradicional brasileira.

Essa edição é dividida em três partes:

 

Daimonologia: inclui estudos sobre os daimones gregos na visão de Porfírio (233-305 d.C.) e de Jâmblico (245-325 d.C.). A intenção é demonstrar como a visão destes dois filósofos neoplatônicos acerca dos daimones está presente de muitas maneiras na Quimbanda, na interação entre os adeptos e os Exus e Pombagiras. Um fundamento que hoje temos dentro da tradição de Quimbanda, como veremos, pode estar alicerçado no conhecimento filosófico e mágico do passado.

   Nesta primeira parte daremos continuidade ao tema do conhecimento e conversação com o espírito tutelar que exploramos na primeira edição, cruzando livremente a linha temporal que separa as tradições arcanas do passado e a Quimbanda, estabelecendo uma ponte ou convergência quando necessário.

   Esse tema, como temos estudado, é de amplitude universal e está no cerne da Tradição Ocidental de Mistérios.

Segredos Espirituais da Quimbanda: nessa segunda parte exploraremos alguns segredos e mistérios da Quimbanda, construindo uma ponte sedimentada entre a tradição de Quimbanda, cultos de mistérios do passado, tradições espirituais antigas e modernas, e a cultura tântrica vāmācāra.

O Espírito de São Cipriano: uma das pontes que une a feitiçaria e magia na Antiguidade e a tradição de Quimbanda de hoje é a magia cipriânica que inclui feitiçaria medieval dos grimórios e magia popular europeia, cristã e pagã. Como veremos, a corrente mágica da magia cipriânica forma um corredor do tempo. Iniciada no Séc. IV d.C. como uma revolução cristã contra a arte da feitiçaria, a mitologia cipriânica agregou com o tempo novas abordagens ao ponto de tornar-se uma egrégora, protegida por um guardião, o Espírito de São Cipriano. Toda a herança da feitiçaria na Antiguidade (cultura mediterrânea) e Idade Média (cultura popular européia) que convergeu para dentro da tradição de Quimbanda foi por meio da feitiçaria de O Livro de São Cipriano no primeiro momento de formação do Culto de Exu no Brasil.

 

Diferente dos textos que compõem a primeira edição, todos do Curso de Filosofia Oculta, os textos desta segunda edição de Daemonium foram revisados, corrigidos, anotados e ampliados para a versão aqui apresentada.

Os dois temas centrais desta edição e da anterior permanecem os mesmos: 1. a natureza do espírito tutelar (daimon pessoal, Exu Tutelar, Sagrado Anjo Guardião, espírito assiste ou servidor etc.) e; 2. o conhecimento & conversação com o espírito tutelar. E isso segue uma fórmula de iniciação: primeiro tomamos conhecimento da natureza do Espírito Tutelar, nos tornamos capazes de vê-lo; após essa visão da natureza é que empreendemos esforços para nos comunicar e interagir com ele efetivamente.

Este tem sido o eixo ao redor do qual se estruturou a tradição da magia como a conhecemos no Ocidente; a busca pelo conhecimento e conversação com o espírito tutelar e através dos poderes dele operar o milagre da magia.

Nós encontramos referências acerca de auxiliadores espirituais em quase todas as culturas do Ocidente ao Oriente, nas mitologias e nos contos populares. Durante a Idade Média o tema ganhou fôlego nas perseguições católicas e protestantes contra as bruxas na Europa, acusadas de pactuarem e se comunicarem com o Diabo que as aparecia como um espírito tutelar, o diabo pessoal que as dotava de poderes miraculosos de magia. O diabo pessoal das bruxas era de natureza aérea e agia como um agente de comunicação, um mensageiro entre elas e os espíritos familiares que conjuravam a disposição. Não tardou para aparecerem relatos de bruxas acompanhadas de espíritos familiares na forma de gatos, ratos, corujas, cães e insetos. Na alta temperatura das fogueiras de bruxas qualquer mulher que possuísse um animal desses podia ser acusada como tal. Uma quantidade grande dessas histórias são puro folclore, muitas vezes para assustar e condenar a prática de feitiçaria e religiosidade pagã, no entanto, elas vêm carregadas com um conhecimento arcano, quase que subliminar nos contos folclóricos da magia popular europeia: a ajuda espiritual através de um agente sobrenatural.

Durante a Idade Média curandeiros e bruxas foram acusados de comunicação com espíritos; as bruxas eram imputadas o contato com demônios e os curandeiros o contato com os encantados da natureza, fadas e elementais diversos. Dependendo das inclinações naturais dos bruxos, magos ou feiticeiros, seus espíritos assistentes podem ser de natureza maligna, benigna ou ambas, como é o caso na tradição de Quimbanda com os Exus e Pombagiras. Seja como for, o papel do espírito assistente é auxiliar o mago em sua arte, guiando e protegendo sua jornada. Existem contos de magia popular europeia relatando a ação dos espíritos assistentes os descrevendo como animais diversos, cães, gatos, aves etc. enviados a longas distâncias pela bruxa para coletarem informações e espionarem seus desafetos pessoais ou dos clientes, o que também está presenste na tradição de Quimbanda nas relações dos Exus com seus adeptos. E é interessante notar como este tipo de conto europeu medieval além de encontrar expressão e reflexo na feitiçaria tradicional brasileira, também o faz na tradição xamânica quando o animal de poder do xamã é enviado para espionar ou resgatar alguma parte da alma de um cliente perdida nos planos espirituais.

Espíritos familiares são distintos de espíritos tutelares. Os familiares e servidores são aliados mágicos, membros da família espiritual ou egrégora pessoal. Os espíritos tutelares agem como guias e instrutores espirituais, encaminhadores do destino dos magos e feiticeiros. Na tradição xamânica o espírito tutelar aparece em um momento de intensa crise espiritual na forma de doença e estado de quase morte. Tanto o conhecimento e conversação com o espírito tutelar no xamanismo quanto a própria iniciação xamânica ocorre nesse limiar entre vida e morte. Como vimos na edição passada, o conhecimento e conversação com o espírito tutelar é uma experiência mágica universal, presente em inúmeras culturas mágico-espirituais. Trata-se de uma experiência de cunho íntimo e que pode ocorrer de maneiras distintas com quase todos os magos, bruxos e feiticeiros. Nos contos e relatos de magia popular europeia o contato de bruxas e curandeiros com seus espíritos tutelares/assistentes são descritos de formas diferentes e em ocasiões distintas:

 

  1. O espírito tutelar pode aparecer ao feiticeiro em meio às atividades cotidianas da vida secular, inesperadamente.

  2. O familiar/servidor/tutelar pode ser transferido de um feiticeiro a outro no momento da morte, usualmente um filho mágico, quer dizer, um discípulo ou membro da família.

  3. O espírito tutelar pode aparecer ao feiticeiro em momentos de intensa crise espiritual e secular. Na europa medieval, problemas com falta de dinheiro, doenças, perda/luto etc. eram demandas da maior parte da população. O espírito tutelar aparecia nestes momentos de crise para proporcionar uma saída para superar estes obstáculos e dificuldades. Um conforto espiritual oferecido e compartilhado por meio de um pacto mágico.

  4. O espírito tutelar pode aparecer ao feiticeiro através de intensa ascese, isolamento e disciplinas espirituais de mortificação.

 

Nós podemos incluir o silêncio, a reflexão e a meditação como meios efetivos de contatar o espírito familiar. Na Idade Média, bruxas clamavam a Satã, o diabo pessoal, para contatar seus espíritos assistentes. Outras o faziam através da leitura de livros ou eles saltavam aos olhos delas inesperadamente. Não existe, efetivamente, uma fórmula de bolo para o conhecimento e conversação com o espírito tutelar. Para alguns sensitivos ele pode aparecer logo no início da jornada; outros têm o buscado por toda a vida. O conhecimento e a conversação, termo utilizado para conexão total com o espírito tutelar, ocorre no curso do tempo, dentro de uma relação íntima e familiar com ele. Ser assistido por um espírito tutelar e conjurar diversos espíritos assistentes, ancestrais, familiares e servidores, é construir uma equipe espiritual, uma família que deve ser cuidada com carinho e comprometimento. Constituir uma família espiritual ao seu redor tem sido uma das tarefas tradicionais de um feiticeiro porque isso constitui a fonte das maiores proezas mágicas realizadas e relembradas na história da magia.

Não é muito diferente de se ter animais de estimação. Eles precisam de cuidados diários, alimentação, saúde, limpeza. Não é muito diferente também de conviver em família ou grupo: temos de ser cordiais e educados, comprimentar todos os dias, bom dia, boa noite, estou saíndo, cheguei etc. Todo o cuidado que temos com nossas relações pessoais será o mesmo cuidado que teremos com nossa família de espíritos, a egrégora pessoal ou, como se diz na cabala crioula, a banda. Quando dizemos saravá a banda de fato cumprimentamos toda egrégora pessoal de um feiticeiro, os espíritos que o acompanham.

Os benefícios de ser assistido por um espírito tutelar são muitos. Pessoalmente experimento aquela voz daimônica que assistia Sócrates nas escolhas de suas ações. Na minha experiência ela aparece principalmente nos rituais, naquele movimento equivocado que causaria um erro magístico e a correção chegasse antes da ação, podendo mudar o curso ajustando pequenos detalhes. Exemplos práticos de minha experiência pessoal:

 

 

  • Certa vez cortei a perna enquanto realizava a entrega de um sacrifício em uma zona de poder equivocada. Naquele momento em que cortei a perna a voz disse no meu ouvido: lugar errado. Eu estava entregando o sacrifício na porta de uma igreja centenária quando o local certo era na praia, a beira do mar.

  • Outra vez também machuquei a perna ao acender uma vela no lado errado do Cruzeiro das Almas. A voz daimônica disse: lugar errado.

  • Ao cortar uma ave para sacrifício, empunhando a faca em mãos, pensando em um procedimento diferente para o corte, a voz daimônica me alertou: conjure a faca, não mude o corte.

  • Mais uma vez me machuquei, cortando o dedão do pé direito ao me aproximar de um Cruzeiro das Almas para limpá-lo. A voz daimônica disse: se aproxime com mais respeito e reverência, peça licença.

  • Acordando no meio da noite com a voz daimônica dizendo: acende uma vela agora para mim, bebida, fumo e um prato com [...]. Adquira um crânio para [...].

Sobre essa última instrução relatada, é interessante notar que desde a antiga Babilônia o crânio humano tem sido usado como assentamento para espíritos tutelares. Antigos magos e feiticeiros de renome como São Cipriano são retratados carregando ou ao lado de um crânio humano sobre a mesa ou na estante de livros.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cipriano o Mago. Autor: Romario Romis.

Capa do livro O Espírito de São Cipriano

(no prelo)

O livro de Samuel (28:3-25) relata a história da Bruxa de Endor, uma feiticeira necromante que conjurou a alma do Profeta Samuel sob as ordens do Rei Saul através de um espírito assistente. Ela é descrita carregando um ob, objeto mágico como um talismã que abriga um espírito. A Bruxa de Endor teria conjurado a alma do Profeta Samuel por meio de um espírito assistente de um crânio humano.[5] Desde tempos imemoriais o crânio tem sido usado como uma morada ou zona de poder adequada a um espírito assistente com capacidade de nos colocar em contato com outros espíritos. Como tal, trata-se de uma ótima ferramenta oracular ou de conexão com o mundo espiritual.

Altar necromântico de culto aos ancestrais

com crânio humano, agosto de 2019.

Após essa instrução recebida pela voz daimônica de meu guia espiritual de que eu deveria conseguir um crânio humano, curiosamente ganhei um de presente de um aluno do Curso de Filosofia Oculta. Imediatamente o purifiquei com libações e fumigações, me preparando para conjura-lo e imantá-lo. Mas eu havia me esquecido de algo importante e que me custou ter de devolver as catacumbas o crânio.

Na ocasião eu estava imerso em práticas cipriânicas de feitiçaria, o que eu chamei de terceira onda cipriânica em minha jornada espiritual e que acabou por me levar a tradição de Quimbanda. Como veremos nessa edição, eu me envolvi com a feitiçaria de São Cipriano em três ocasiões distintas em minha carreira mágica que chamei de ondas. A terceira dessas ondas me levou ao coração da Quimbanda.

Dentro do crânio eu havia colocado um cristal voguel sacrificado pelo fogo e pelo sangue, libertando sua força e alimentando o espírito que nele vivia. Meu interesse era fazer do crânio um assentamento de poder para o Espírito de São Cipriano ou como gosto de chama-lo, Cipriano Feiticeiro ou Mandingueiro.

Eu já havia conjurado Cipriano Feiticeiro como patrono espiritual do meu exercício de feitiçaria, a Quimbanda Ars Nigra e como o espírito tutelar do meu altar de feitiçaria. Então decidi utilizar o crânio no ponto de força de Cipriano Feiticeiro sobre o altar. Na foto acima vê-se o crânio como assentamento de poder de um espírito assistente sobre a zimba (ponto riscado) de Cipriano Feiticeiro. A partir disso iniciei um relacionamento espiritual com o espírito assistente do crânio e passei a compartilhar com ele sessões de oráculos e visões astrais em meio a um turbilhão de mudanças e ajustes espirituais, além de oferecer-lhe sacrifícios sobre o altar.

Como havia ganhado o crânio, me esqueci de perguntar ao meu aluno de imediato se ele pagou pelo presente. Quando o fiz, bem depois que iniciei os procedimentos magísticos com ele, meu aluno disse que pagou o coveiro, mas não o crânio como deveria tê-lo feito. Nada sai da Calunga Pequena (cemitério) sem pagamento ao povo que mora lá, os Caveiras. Por conta disso, foi uma prerrogativa do Sr. Exu Tatá Caveira que eu devolvesse o crânio a Calunga Pequena antes de minha iniciação na Quimbanda. Essa é uma história para outra oportunidade e tratou-se de uma verdadeira jornada espiritual durante os eventos que relatei em A Mulher de Branco nessa edição.

Com outro direcionamento espiritual conectado a feitiçaria-kimbanda, hoje tenho um crânio na minha tronqueira de Eguns que serve de assentamento para os ancestrais, eguns de trabalho. Trata-se de um trabalho mágico secreto que está em curso no presente, portanto, impossível divulgar imagens nesse momento. Como falei na apresentação dessa edição, culturas diversas incentivam o inicio da jornada espiritual através do culto aos ancestrais, pois se trata de um culto que depende totalmente da crença no contato com espíritos desencarnados. Por conta disso, através do culto aos ancestrais se aprende mais rapidamente a interagir com espíritos tutelares, familiares e servidores diversos. Além do valor místico/terapêutico, pois o contato com ancestrais familiares auxilia na cura de profundas mazelas psíquicas conectadas a eles, existe o valor mágico, pois os ancestrais familiares se tornam a primeira linha de defesa espiritual do feiticeiro e agentes de magia. A tradição de Quimbanda preserva essa tecnologia mágica através do resgate de eguns, termo que designa o perfilamento de Eguns diversos nas Legiões e Exus e Pombagiras. Durante a iniciação na Quimbanda, o sacerdote e iniciante alimentam com sacrifícios propiciatórios a tronqueira e a mesa dos ancestrais, os Eguns de trabalho com os quais o feiticeiro-kimbanda passará a trabalhar, além dos Exus e Pombagiras. Com o tempo, no curso da formação sacerdotal, o feiticeiro recebe a Faca de Egun, através da qual ele poderá oferecer sacrifícios de sangue a estes ancestrais e terá poder efetivo para resgatá-los e trazê-los a sua banda, sua egrégora pessoal. Esse tipo de trabalho espiritual é universal e está presente em inúmeras culturas mágico-religiosas.

O conhecimento e conversação com o espírito tutelar deve, portanto, ser construído com o tempo, dedicação e comprometimento para com ele. É como uma amizade que para dar frutos vistosos precisa amadurecer. É como um relacionamento que para criar raízes profundas precisa de uma interação e conexão em todas as áreas.

Bom estudo!

NOTAS:

[1] Jâmblico, De Mysteriis, 5.7.

[2] Originalmente a goécia foi nos primórdios uma arte de conhecimento e conversação com os mortos apenas. Somente com o tempo ela agregou a comunicação com outras criaturas espirituais. A Quimbanda é, portanto, uma goécia brasileira, no sentido em que é uma arte de comunicação com almas mortas deificadas, os Exus e Pombagiras, e Eguns diversos.

[3] A diferença largamente difundida, mas às vezes deveras equivocada, dependendo do contexto em que é colocada, é que a feitiçaria (goécia) trata-se do comercio com entidades menores, telúricas e ctonianas; a teurgia, por outro lado, trata-se da comunicação com espíritos mais elevados, de planos superiores. Essa diferença é bem falaciosa. Tanto na teurgia quanto na feitiçaria usa-se lidar com todo tipo de criatura espiritual.

[4] O poder da faca, no entanto, é dependente da Mão de Faca, quer dizer, a mão consagrada ao sacerdócio sacrifical pelo poder da iniciação.

[5] Martin Coleman, Cummuning with Spirits: The Magical Practice of Necromancy.

O livro estará disponível no Clube de Autores 

FERNANDO DE LIGÓRIO

Fernando de Ligório é um hermetista praticante, escritor interessado em Teurgia Neoplatônica, Tradição Salomônica e dos Grimórios, Magia na Antiguidade, Cabala Crioula (Quimbanda), Feitiçaria, Bruxaria e Magia Negra (Caminho da Mão esquerda), Filosofia, Yoga, Tantra, Āyurveda e Xamanismo. Fernando de Ligório se interessa em preservar a Tradição Ocidental de Mistérios (ou Tradição Oculta da Magia) através de seus cursos, palestras, assessoria espiritual e consultas.

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