VLOG DE UM FEITICEIRO

Vlogs Diários sobre Feitiçaria Tradicional Brasileira

Teurgia Clássica Neoplatônica, Feitiçaria & Magia

na Antiguidade e Idade Média, Magia Salomônica

25/3/2020: VLOG 1: PILOTO

Apresentação do projeto de vlogs diários sobre a feitiçaria tradicional brasileira.

26/3/2020: VLOG 2: CULTO AOS ANCESTRAIS E INICIAÇÃO NA QUIMBANDA

Dúvidas sobre iniciação na Quimbanda são frequentes. Trata-se de um culto a ancestrais divinizadosalmas deificadas; mas será que nós olhamos com cuidado para nossos ancestrais familiares, aqueles conectados ao nosso DNA? Se não, como poderemos querer cultuar ancestrais divinizados se não damos atenção aos nossos ancestrais familiares? Esse é o tema de nosso vlog de hoje.

28/3/2020: VLOG 3: LINHAS DE QUIMBANDA

Seguindo nossa série de vlogs sobre a boa Quimbanda, o tema de hoje é Linhas de Quimbanda que explorei aqui no site nas abas Diário de um Feiticeiro (entrada em 26/3/2020) e Reflexões (entrada em 27/3/2020). A classificação umbandista de Linhas de Quimbanda está deveras ultrapassada e não reflete, de fato, as linhas de trabalho dos Exus e Pombagiras da tradição de Quimbanda. Se esta classificação serve a algum seguimento de Quimbanda, trata-se de um seguimento derivado da Umbanda, sendo ele Quimbanda Cruzada (ou Umbanda de Esquerda).

29/3/2020: VLOG 4: A FACA & O CORTE - TEURGIA NA QUIMBANDA

Seguindo nossa série de vlogs sobre a boa Quimbanda, o tema de hoje é a faca, o corte no processo teúrgico da Quimbanda. Na aba Reflexões (entrada em 29/3/2020) eu fiz uma introdução ao tema, elucidando o processo teúrgico do corte na Teurgia clássica grega e na Quimbanda, construindo uma ponte entre os procedimentos sacerdotais de ambas as tradições. No vídeo também abordo a falsa concepção de Hierarquia de Obé (faca) ou Ejé (sangue) dentro da Quimbanda. Ao ser consagrado um sacrificador, o feiticeiro-kimbanda tem o direito de cortar aves diversas, caprinos, suínos e bovinos. Essa Hierarquia de Ejé existe em alguns terreiros de Candomblé e não faz parte da boa e fidedigna tradição de Quimbanda. Trata-se de uma forma de arrancar dinheiro de incautos desavisados. 

30/3/2020: VLOG 5: DISCIPLINA ESPIRITUAL NA QUARENTENA

Seguindo nossa série de vlogs sobre a boa Quimbanda, o tema de hoje é a disciplina espiritual nesse período de quarentena.  O progresso espiritual depende de dedicação e força de vontade. Muitas vezes não temos tempo para nos dedicar ao Culto de Exu como deveríamos, sendo este um culto diário de adoração. Devido ao estilo de vida moderno, exteriorizado, desenvolvemos uma grande dificuldade de olhar para dentro, de ver na alma as dificuldades que assombram nossa jornada no reino da geração. O conhecimento e conversação com os Poderosos Mortos produz uma profunda alquimia na alma. Para percebê-la com eficiência, no entanto, precisamos aprender a olhar para dentro.

   Nessa quarentena muitos estão desenvolvendo pensamentos e atitudes depressivas, nocivas a saúde do corpo e da mente. É essa tal dificuldade de olhar para dentro no reino do silêncio. O silêncio tem sido evitado a todo custo porque não sabemos lidar com ele, com as flutuações da mente, suas inseguranças e medos. O contato com os Poderosos Mortos destrói medos e inseguranças infundadas. Para que esse contato seja efetivo, os adeptos têm de refinar a paranormalidade (mediunidade). Meditações e exercícios psicofisiológicos, boa alimentação e sono adequado, são elementos-chave essenciais para isso na boa Quimbanda! 

30/3/2020: A BOA QUIMBANDA

Seguindo nossa série de vlogs sobre a boa Quimbanda, o tema de hoje é novamente sobre as tradicionais Sete Linhas de Quimbanda que não são nem tradicionais e muito menos de Quimbanda. Essa concepção vem de um autor umbandista da década de quarenta, Lourenço Braga, que escreveu uma obra chamada Umbanda Magia Branca e Quimbanda Magia Negra. Para contrapor (equilibrar/harmonizar) o cosmos em detrimento das energia divinas condensadas e divididas  em linhas de atuação, Braga lança as Sete Linhas de QuimbandaMalei, Caveiras, Almas, Mossorubi, Nagô, Caboclos Quimbandeiros e Mista.

   Essa ideia umbandista não é reconhecido por nenhum feiticeiro-kimbanda sério que se aprofunda nas origens do Culto de Exu no Brasil. Qualquer um que se apoie nessa classificação para localizar sua tradição de Quimbanda está enganando ou está sendo enganado.

   A Kimbanda Malei moderna não é, nunca foi, a Linha Malei da classificação de Lourenço Braga. Quem assim afirma, da mesma forma, está enganando ou está sendo enganado. A Kimbanda Malei moderna é um seguimento luciferiano de Quimbanda. Para que fique bem claro: qualquer seguimento de Quimbanda que cruze (sincretize) Exus com demônios da escatologia judaico-cristã, ou que equipare Vossa Santidade o Maioral de Quimbanda com o Diabo (Satanás), a Trindade do Oposto ou deuses antigos é, não importa o nome ou designação que assuma, luciferiana.

   Eu, Fernando de Ligório, pratico o legítimo Culto de Exu, almas deificadas, não demônios da escatologia judaico-cristã. O apelido de Diabos é carinhoso, devido a iconografia diabólica do culto. Demônios (kako-daimones) não podem ser assentados. O estudo da daimonologia na Antiguidade, fundamentalmente a dos neoplatônicos, demonstra com clareza o fato.

   A boa e genuína tradição de Quimbanda tem conhecimento (gnose).

31/3/2020: O CULTO DIÁRIO DE EXU

Seguindo nossa série de vlogs sobre a boa Quimbanda, o tema de hoje é o culto diário de Exu. Como venho demonstrando, infelizmente muitos feiticeiros-kimbanda perpetuam no tempo desfundamentos (fundamentos infundados ou a mais pura conversa fiada) que vêm da Umbanda. O uso de bebidas inadequadas, por exemplo, no trato diário com Exus e Pombagiras, é um desses desfundamentos. No vlog de hoje tratamos de uma bebida especial para ser ofertada aos Exus e Pombagiras diariamente: a água de fogo. Trata-se de um preparado a base de marafo (cachaça), gin, pimenta e gengibre.

   Inúmeras tradições arcaicas ensinam que no trato com deidades diversas, o feiticeiro (ou sacerdote) deve consagrar sua palavra, purificando a boca, a língua e o hálito para se dirigir aos espíritos. A água de fogo pode ser tanto utilizada para esse objetivo quanto pode ser ofertada diretamente sobre os assentamentos dos Exus e Pombagiras.

   No Culto de Exu, o verdadeirogenuíno e fidedigno, não se utiliza água (H2O) comum, apenas bebidas destiladas. Isso inclui também banhos mágicos. Muitos utilizam banhos feitos em água no Culto de Exu; no entanto, o banho de Exu é feito com cachaça ou tem como base fundamental a água de fogo ensinada neste vlog de hoje.

   Isso é boa Quimbanda!

1/4/2020: TODA QUIMBANDA É CIPRIÂNICA

Seguindo nossa série de vlogs sobre a boa Quimbanda, o tema de hoje é: toda tradição de Quimbanda é cipriânica. Como venho demonstrando no texto sobre a Tradição de Quimbanda, disponível aqui no site, foi a tradição cipriânica da magia (e com ela a demonologia europeia e tradição dos grimórios) que conferiu a Quimbanda seu caráter magístico único e singular. Diferente do que muitos pensam, Cipriano Feiticeiro está atrelado a Quimbanda como unha e carne, considerado por muitos estudiosos e especialistas como seu espírito patrono. Nesse caminho nós podemos dizer de forma romântica, não técnica, que ao adentrarmos a Quimbanda estamos nos domínios do Espírito de São Cipriano.

2/4/2020: QUIMBANDA & REENCARNAÇÃO

Seguindo nossa série de vlogs sobre a boa Quimbanda, o tema de hoje é: Quimbanda & Reencarnação. Os primeiros autores de Quimbanda no Brasil nas décadas de quarenta, cinquenta e setenta eram adeptos de Umbanda. Lourenço Braga, autor de Umbanda Magia Branca e Quimbanda Magia Negra (1941), Aluízio Fontenelle, autor de Exu (1951) e José Maria Bittencourt, autor de No Reino dos Exus (1972) estiveram entre os pioneiros em tecer comentários e estabelecer dogmas acerca da Quimbanda. O desserviço que estes autores fizeram a Quimbanda comprometeu o crescimento do Culto de Exu no Brasil, deturpando-o como degradante, criminoso e marginal. Tudo o que a Quimbanda, em verdade, não é. Quimbanda, a feitiçaria tradicional brasileira, trata-se de um culto iniciático de mistérios, muito distinto e muito mais distante da cosmovisão e metalinguagem umbandista.

   A reencarnação é uma das ideias umbandistas (via o kardecismo a ela atrelado) presente em algumas famílias (clãs) de feiticeiros-kimbanda. Um espinho cravado em uma ferida purulenta na tradição de Quimbanda. Herdando conceitos metafísicos da cosmovisão kimbundo-bantu, a Quimbanda não acredita na reencarnação. No curso da vida, os feiticeiros e sacerdotes de Quimbanda se esforçam em deificar a alma para, no pós-vida, tornarem-se ancestrais divinizados do culto. Isso está em sincronia com as crenças dos magos e feiticeiros da Antiguidade. Como temos estudado no Curso de Filosofia Oculta, os feiticeiros do passado tinham profunda preocupação com o destino da alma. Eles desenvolveram técnicas para deificação da alma quase que universais em todas as culturas e cultos de mistérios da Antiguidade. Eu venho falando um pouco sobre isso no texto sobre a Tradição de Quimbanda e no vlog de hoje tratamos desse assunto.

3/4/2020: EXU DE UMBANDA & EXU DE QUIMBANDA

Seguindo nossa série de vlogs sobre a boa Quimbanda, o tema de hoje é: Exu de Umbanda e Exu de QuimbandaExistem muitas diferenças entre os Exus que trabalham na linha de Umbanda e àqueles que se apresentam entre as Legiões da Quimbanda; no entanto, no imaginário popular Exu de Umbanda e de Quimbanda são tudo a mesma coisa, quando não são. Não se trata de uma linha tênue enxergada só por alguns mais cuidadosos; pelo contrário, há um abismo, um verdadeiro precipício que os separam e não há pontes que possam ser erigidas pelo homem para tentar uni-los. Mas alguns homens, confusos e teimosos, têm tentado e falhado construir essa ponte. O ritual de iniciação na tradição de Quimbanda e as obrigações que se seguem a ele, por outro lado, destrói completamente essas pontes imaginárias. No vlog de hoje vamos nos debruçar um pouco sobre essa questão.

   Ponto 1: os Exus que se apresentam na Quimbanda possuem um laço de ancestralidade com os seus adeptos; os Exus da Umbanda não. A Umbanda é alicerçada sobre o tripé kardecista da paz, do amor e da caridade. A Lei de Umbanda, portanto, obriga a todos os espíritos que se apresentam, Preto-Velhos, Caboclos, Crianças, Ciganos, Boiadeiros, Marinheiros, Mestres do Oriente, Exus etc., por obrigação espiritual, a missão de atender irrestritamente qualquer pessoa que os busquem. Essas entidades que se apresentam na Umbanda agem segundo os princípios e ordens de leis e seres divinos superiores, pois é a obrigação deles servir a manutenção divina do cosmos. Por conta disso não existe uma conexão ancestral entre o médium de Umbanda e as entidades que ele dá passagem. Em uma sessão de Umbanda é comum ver um adepto dar passagem a inúmeras entidades. As entidades não trabalham para o médium, mas para o bem comum e social da comunidade, pois através desse trabalho elas podem evoluir espiritualmente. Através do trabalho de doação, as entidades adquirem méritos espirituais e ganham honrarias por isso.

   Na Quimbanda é muito diferente! As entidades que se manifestam na Quimbanda têm um laço de ancestralidade com seus adeptos. A Quimbanda preserva a cosmovisão da cultura kimbundu-bantu de culto a ancestralidade onde as entidades que se apresentam têm laços espirituais ou familiares com os adeptos. Os Ngangas mantinham conhecimento e conversação com os espíritos familiares e ancestrais da comunidade. Essa conexão só ocorria através do ritual de iniciação. Se não há iniciação, não há conexão! Isso significa que determinados Exus e Pombagiras só incorporam em determinados adeptos. Diferente dos Exus da Umbanda, os Exus da Quimbanda não precisam evoluir. Eles, ao se tornarem Exus e Pombagiras, título de honra dado a almas verdadeiramente deificadas, são mestres e guias da humanidade. Inúmeros cultos produziram mestres espirituais que adquiriram a honra de se tornarem mestres divinizados; e na tradição de Quimbanda, de desfrutarem a vida na terra no pós-morte através do fenômeno da incorporação. A Igreja produziu os santos; a teurgia clássica neoplatônica produziu as almas purificadas que podiam voltar quando quisessem ao reino da geração e governavam o cosmos junto aos deuses; as tradições modernas também: thelema produziu os chefes secretos; a Ordem Hermética da Aurora Dourada produziu os adeptos dos planos internos; a teosofia os mestres ascencionados etc. Na Quimbanda Exus e Pombagiras são mestres e guias espirituais divinizados que desfrutam temporariamente do reino da geração na incorporação e que trabalham em benefício de seus adeptos. Cada adepto de Quimbanda possui, dessa forma, seu Diabo Pessoal: um Exu Tutelar que o orienta, guia e o protege. Um adepto de Quimbanda não dá passagem a uma miríade de espíritos; ele dá passagem somente a um, dois ou poucos Exus, que têm com ele conexão espiritual ancestral.

   Ponto 2: alicerçada sobre dogmas kardecistas, a Umbanda além de acreditar no evolucionismo darwinista dos espíritos, também acredita na reencarnação como um ciclo de sucessivas vidas, mortes e renascimentos. A Quimbanda não segue este dogma kardecista; os Exus e Pombagiras na Quimbanda, diferente daqueles da Umbanda, não tiveram inúmeras vidas encarnados na terra; apenas uma, como feiticeiros ou sacerdotes do culto. Um espírito da Quimbanda, vamos supor, Tatá Caveira, não relataria uma vida como Proclo no Egito. Na cosmovisão da Quimbanda, o ancestral divinizado trata-se de uma alma deificada que pelo mérito de sua evolução e maestria espiritual forjados em vida desfruta do reino da geração por meio de seu médium e trabalha exclusivamente para o bem dele.

   Se na tua iniciação de Quimbanda te batizarem na Umbanda, tome muito cuidado, pois teu iniciador pode estar te enganando ou deve ter sido enganado.

4/4/2020: A INFLUÊNCIA BANTU NA QUIMBANDA

Seguindo nossa série de vlogs sobre a boa Quimbanda, o tema de hoje é: a influência bantu na QuimbandaComo todos estão acompanhando, tenho produzido um trabalho de pesquisa extenso e profundo sobre a gênese da tradição de Quimbanda nos dois momentos do Culto de Exu no Brasil. Boa parte dessa pesquisa tenho atualizado no texto A Tradição de Quimbanda, disponível aqui no site. É somente na eclosão das tentativas de organização do chão africano no Brasil através dos movimentos mágico-culturais dos candomblés e calundus baianos, da cabula capixaba e da macumba carioca que é possível inferir a profundidade e extensão da influência da cultura kimbundo-bantu na tradição de Quimbanda. No dia-a-dia do culto, na transmissão oral de fundamentos e memória ancestral, pode ser difícil enxergar essa influência: não só o modus operandi da Quimbanda é norteado pela religião bantu, mas fundamentações peculiares da metafísica e cosmovisão também. Eu gostaria de abordar um aspecto bem prático (senão pragmático) para o entendimento disso.

   Um feiticeiro-kimbanda não mensura suas ações magísticas pelas lentes opacas da moral, da ética e dos bons costumes. A Quimbanda vai à contramão disso! Um feiticeiro-kimbanda mensura suas ações magísticas em quantitativos energéticos. Dessa maneira, um feiticeiro bem sucedido na vida é aquele que manipula com eficiência uma quantidade considerável de energia vital; por outro lado, um feiticeiro-kimbanda mal sucedido na vida tem pouca eficiência na manipulação dela. Trata-se de um consenso comum essa verdade na tradição de Quimbanda. Essa ideia, no entanto, vem da cultura kimbundu-banto.

   Na religião bantu o poder do sacerdote (kimbanda) é mensurado por sua capacidade em manipular a energia vital (moyo) de forma benigna (para garantir a ordem cósmica e social) ou maligna (para desestruturar a ordem cósmica e social). A ordem cósmica e social por sua vez são interdependentes, ambas dependentes das relações (pactos, alianças e compromissos) que os homens estabelecem com os ancestrais divinizados e antepassados do culto. Tudo depende da harmonia das relações estabelecidas com os espíritos. Não há uma distinção entre homens e espíritos; ambos participam de uma só comunidade. Assim, relações espirituais negligentes produzem esgotamento energético através de um processo de vampirização e, ao contrario, relações harmoniosas garantem um fluxo abundante de energia vital. Para os bantus a magia é fruto direto da comunicação com os espíritos – uma ideia universal na tradição da magia – e dela depende a harmonia ou anarquia total do cosmos e da sociedade (comunidade). Dessa forma, o culto diligente aos ancestrais divinizados e aos antepassados para os bantus garante a continuidade da organização da comunidade e o fortalecimento da energia vital dela (mais fartura e saúde para todos).

   Por conta disso, a notoriedade de um sacerdote (kimbanda) depende de sua capacidade em, através de sua feitiçaria, manter a harmonia e a prosperidade da comunidade. Dessa notoriedade nasce a confiança da comunidade de que o kimbanda tem uma comunicação profunda com os ancestrais divinizados e antepassados da religião, mantendo com eles laços fortes e efetivos, responsáveis pelo bem-estar, harmonia e abundância de todos. É neste sentido que um kimbanda trata-se de um agente social. Um sacerdote que deixa a comunidade cair vítima da voracidade dos espíritos, sejam àqueles da comunidade ou outros enviados pelo ataque de feiticeiros, criando com isso uma desestruturação social, têm sua notoriedade manchada. O status social de um kimbanda está conectado, portanto, a sua capacidade de conhecer e manipular a energia vital, se beneficiando ele mesmo, em primeiro lugar, dela.

   Na cultura kimbundo-bantu o mundo é concebido como energia, não como matéria; tudo é força mágica e disso depende toda a cosmovisão kimbundu-bantu. Essa força mágica é transmitida dos espíritos diretamente aos homens, todos os homens. Mas apenas alguns poucos, os kimbandas, têm a capacidade de manipular tal força com eficiência. Nesse entendimento, os bantus compreendem que existe uma conexão tênue entre os três reinos primordiais (mineral, vegetal e animal), o reino dos homens e o reino divino, todos interligados por uma extensa rede energética. A energia vital, portanto, pode aumentar ou diminuir em acordo a dinâmica entre todos esses reinos, de modo que um pode enfraquecer o outro. É sabendo disso que um kimbanda conquista o domínio e torna-se capaz de manipular essa força mágica.

   Toda herança desse entendimento está presente na tradição de Quimbanda, não nos termos idênticos a cultura kimbundo-bantu, mas como pano de fundo da compreensão que o feiticeiro-kimbanda tem da arte da feitiçaria e seu exercício.

5/4/2020: EM DEFESA DA CABALA CRIOULA

Seguindo nossa série de vlogs sobre a boa Quimbanda, o tema de hoje é: em defesa da Cabala Crioula. No texto sobre a Tradição de Quimbanda o termo Cabala Crioula foi descrito como um conhecimento arcano ancestral transmitido secretamente de mestre a discípulo dentro de uma relação de sucessão discipular no contexto das tradições mágico-espirituais africanas e afro-descendentes. Ele engloba as diversas culturas tribais da África e as tradições espirituais delas oriundas como o Vodu, o Palo, o Candomblé, a Umbanda e a Quimbanda dentre as mais populares. O termo é utilizado por mim com muito respeito, reverência e devoção.

   Há um vídeo na internet de um maledicente dizendo que a egrégora das tradições afro-descendentes é de pobre. Qualquer um que afirme isso, seja quem for, com certeza absoluta é pobre de espíritopobre de conhecimentoraso como poça d'água. Muito pelo contrário, a Cabala Crioula é de uma riqueza impressionante e os sincerosnobres em busca genuína, obtêm profundidade de alma, envergadura espiritual real, vida equilibrada, próspera e tranquila. Aqueles que infelizmente falham nisso,  estão enganando ou estão sendo enganados. Simples assim! Tudo aquilo que é verdadeiro, em verdade funciona!

6/4/2020: GOÉCIA NA QUIMBANDA

Seguindo nossa série de vlogs sobre a boa Quimbanda, o tema de hoje é: Goécia na QuimbandaA Quimbanda é uma genuína Tradição de Feitiçaria Brasileira, formada e fundamentada dentro de um caldeirão mágico no qual convergiram a tradição xamânica ameríndia (culto aos encantados da cultura tupí-guarani), a feitiçaria tradicional europeia (tradição ibérica/cipriânica/salomônica), a cultura religiosa kimbundo BaCongo, a cultura yorubá e, recentemente, a tradição do satanismo/luciferianismo gnóstico. A palavra kimbanda é traduzida como mago, curandeiro ou feiticeiro. Um kimbanda é, originalmente, um xamã africano, um homem que se comunica com espíritos da natureza (Nkisis) e dos mortos (Ngangas). Muito embora a tradição de Quimbanda no Brasil tenha se distanciado de suas raízes, o termo feiticeiro-kimbanda é utilizado para se referir a um homem que se dedica ao sacerdócio da feitiçaria e culto aos Poderosos Mortos, Exus e Pombagiras. O feiticeiro-kimbanda é um xamã brasileiro moderno, quer dizer, dos tempos atuais.

   O termo goécia é grego e traduzia-se na Antiguidade Clássica genericamente como feitiçaria. Originalmente, tratava-se de uma arte para lidar com os espíritos dos mortos que viviam no submundo e que na Quimbanda são conhecidos como Eguns, o povo do buraco. E como na Antiguidade média e tardia até a Idade Média costumava-se associar convocações de mortos as convocações de demônios, somando as perseguições cristãs contra os pagãos que perdurou por todo esse período, não tardou para o termo ser pejorativamente classificado como baixa magia, magia negra e condenado a marginalidade também por todo esse período.

   Não é difícil, ou pelo menos não deveria ser, associar a goécia grega (Antiguidade) ou salomônica (Antiguidade/Idade Média) a Quimbanda, uma vez que estas artes estão presentes e também fundamentam sua origem. A Quimbanda é a Goécia Brasileira, uma genuína arte de feitiçaria nascida de nossa terra pela expansão dos Reinos de Maioral. O Culto de Exu é um culto aos Poderosos Mortos (almas deificadas) e de entidades ancestrais diversas conectadas aos Reinos da Quimbanda e todos os espíritos que neles habitam. Isso é goécia; isso é feitiçaria; isso é um tipo de xamanismo. Quanto mais aborígene e xamânica a abordagem da Quimbanda, mais próxima de sua essência ela está. Salubrizar a Quimbanda é drenar dela suas forças.

7/4/2020: OS PODEROSOS MORTOS

Seguindo nossa série de vlogs sobre a boa Quimbanda, o tema de hoje é: Os Poderosos MortosExus e Pombagiras não são demônios da hierarquia infernal medieval e nem podem, efetivamente, serem comparados aos daimones da cultura grega. Exus e Pombagiras são Poderosos Mortos, almas deificadas de sabedoria ancestral, magos, xamãs, bruxos, feiticeiros e alquimistas poderosos que atuam auxiliando seus adeptos, os protegendo, amparando, instruindo na superação de obstáculos internos (na alma) e externos (do mundo). O que Exus e Pombagiras são para o feiticeiro-kimbanda os Chefes Secretos são para os thelemitas, os Adeptos dos Planos Internos são para os magistas da Ordem Hermética da Aurora Dourada ou o que os Mestres do Oriente da Grande Fraternidade Branca são para os teósofos. Exus e Pombagiras são mestres que inspiram a jornada dos feiticeiros-kimbanda, cujo objetivo é deificar a alma e transformar-se em um Exu ou Pombagira no momento da passagem, participando das falanges dos Reinos de Quimbanda. Assim foram os heróis e semideuses gregos, os bodhisattvas do budismo, os santos do cristianismo-católico, os Tzaddikins do misticismo judeu, os Guardiões de Avalon da mitologia britânica arturiana, os Einherjar dos nórdicos ou os Ngangas  da cultura kimbundo-bantu africana.

   O tema do vlog de hoje foi tratado com detalhes no texto que recebe o mesmo nome, Os Poderosos Mortos, disponível para download aqui. O texto ainda esclarece que as duas ferramentas fundamentais para deificação da alma na Quimbanda Brasileira são: i. O conhecimento e conversação com os Poderosos Mortos que refina as qualidades e poderes da alma, expandindo a consciência dos adeptos. ii. O sacrifício cerimonial (corte), que purifica e sutiliza a alma dos adeptos. A ciência do corte é apresentada como a ferramenta-kimbanda essencial do culto, que tanto trabalha na deificação da alma dos feiticeiros-kimbanda quanto alimenta o veículo pneumático dos Exus para atuarem efetivamente no Reino da Geração. O texto é um capítulo do livro Segredos Espirituais da Quimbanda e uma introdução ao capítulo que segue, onde o autor se debruça sobre a ciência do corte e sua ação magística e mística na alma. O livro Segredos Espirituais da Quimbanda apresentará os aspectos ocultos e iniciáticos da feitiçaria tradicional brasileira.

8/4/2020: DEIFICAÇÃO DA ALMA

Seguindo nossa série de vlogs sobre a boa Quimbanda, o tema de hoje é: Deificação da AlmaMuitos se enganam aqueles que pensam que a tradição de Quimbanda adota a visão kardecista de reencarnação como ocorre na Umbanda. Diferente disso, a tradição de Quimbanda mantém o ponto de vista da cultura kimbundo-bantu, que não vê sentido algum na reencarnação como uma sucessão cíclica de vidas. Diferente disso, a Quimbanda vê a continuação do espírito após a morte do corpo físico, podendo ele influenciar a matéria e desfrutar dela temporariamente através do fenômeno da incorporação mediúnica. Isso significa que após a morte o espírito torna-se membro de uma família espiritual, participando temporariamente da comunidade, estando incorporado em um adepto da tradição. Para tal, em vida, o espírito deve ser deificado.

   Deificação é um termo que significa divinizar ou endeusar a alma. É um conceito presente no platonismo, neoplatonismo médio, tardio e cristão. Trata-se do esforço pessoal em iluminar a alma, quer dizer, preenche-la de luz. O termo é trazido a tradição de Quimbanda para explicar o processo de transformação na alma que garante o espírito do feiticeiro-kimbanda a participar das Falanges de Exu e Pombagira no post mortem.

   Na tradição de Quimbanda o processo de deificação da alma ocorre através de 1. o conhecimento e conversação com os Poderosos Mortos e; 2. através do processo do corte ritualístico propiciatório. Esses são os mecanismos fundamentais para deificação da alma na Quimbanda. Diferente do processo de deificação da alma na teurgia neoplatônica ou no cristianismo, a deificação da alma na Quimbanda não se estrutura ao redor de códigos morais e éticos. Se existe um código de ética na Quimbanta, trata-se deste: Força & Honra. O conhecimento e conversação com os Poderosos Mortos amplia a consciência do adepto, enriquecendo-a com as virtudes da honra e da força. O neoplatonismo e o cristianismo são tradições espirituais de mão direita. A Quimbanda é uma tradição espiritual de mão esquerda. Os métodos de deificação nessas duas mãos, podemos dizer, compartilham técnicas similares de deificação da alma, no entanto, adotam cosmovisões e códigos de crença distintos.

9/4/2020: ANCESTRALIDADE DE UMBANDA E DE QUIMBANDA

Seguindo nossa série de vlogs sobre a boa Quimbanda, o tema de hoje é: Ancestralidade de Umbanda e de Quimbanda. No vlog sobre a diferença dos Exus de Umbanda e de Quimbanda (entrada de 3/4/2020), eu havia afirmado que a conexão espiritual entre um Exu e um feiticeiro-kimbanda é ancestral, em detrimento da conexão das deidades de Umbanda com seus adeptos, que não é ancestral. Mas eu não falei que existem exceções. Para entender essas exceções nós temos de ir até a África colonizada pelos portugueses antes que ele tivessem enviados escravos ao Brasil.

   Como mencionei com detalhes no texto sobre a Tradição de Quimbanda, dois tipos de escravos vieram ao Brasil: aqueles que aceitaram a colonização e catequização portuguesa/católica, e aqueles que não aceitaram o dogma cristão ou o estilo de vida português. Os mortos desses dois grupos de escravos se tornaram os primeiros ancestrais do que hoje conhecemos como as tradições de Umbanda e de Quimbanda.

    Os escravos que aceitaram a fé cristã são aqueles que trouxeram ao Brasil o sincretismo entre Orixás e Santos católicos, os mesmos que hoje constituem a ancestralidade da Umbanda e dos adeptos umbandistas. Os escravos que não aceitaram a fé cristã e se revoltaram contra o sistema, são aqueles que constituem a ancestralidade da Quimbanda, bruxos, feiticeiros e alquimistas degredados de suas nações (as feiticeiras ibéricas e escravos rebeldes africanos e indígenas).

10/4/2020: EXU DO OURO

Seguindo nossa série de vlogs sobre a boa Quimbanda, o tema de hoje é: Exu do Ouro. Como lidar com essa onda de novos Exus na tradição de Quimbanda? Essa tem sido uma questão deveras conturbada. No vlog de hoje trataremos deste assunto levantando três reflexões fundamentais: 

   1. Um Exu faz tudo o que todos os outros fazem; por que se valer de outros ou até mesmo novos Exus se temos ao nosso lado um guia e protetor pessoal, nosso Exu Tutelar, que tanto nos ajuda e está ao nosso lado, que tanto nos auxilia nas questões espirituais e da vida secular? Tudo bem que existem Exus mais especializados em uma área do que outros; no entanto, se um Exu Tutelar pode percorrer todos os Reinos e Povos de Exus e Pombagiras, por que pedir ajuda a outros Exus senão àquele que está conosco e pode nos ajudar no que precisamos?

   2. Dentre os Povos de Exus e Pombagiras existem àqueles que estão associados a farturabonança e riqueza. O Exu Chama Dinheiro está diretamente associado a todas as zonas de poder que concentram riquezas: bancos, casas de impressão de dinheiro (casa da moeda), joalherias etc. Trabalhar com Exu Chama Dinheiro, assentá-lo ou criar um ponto de força para ele, é trazer para dentro de nosso templo, nosso terreiro, nossa casa, nossa alma, toda vibração e força associados a farturabonança e riqueza. Da mesma maneira, temos Exu Pedra Negra, que está diretamente associado a zonas de poder e extração de minérios como ouro, prata e pedras preciosas. Assentá-lo ou criar para ele um ponto de força é trazer toda energia e vibração dos minérios e pedras preciosas. Então, já que temos Exus tão especializados na força do dinheiro e da prosperidade, há a necessidade de ser criar um novo Exu para isso?

   3. A reflexão 2 nos traz até a reflexão 3, a egrégora de Exu do Ouro. Uma maneira de se compreender Exu do Ouro é como uma egrégora formada de espíritos ancestrais especializados na concentração, produção e distribuição de riquezas. Temos além de Exu Chama Dinheiro e Exu Pedra NegraExu Zé Pelintra e Exu Tranca-Ruas de Embaré, também associados ao acúmulo de riqueza. Todos eles formam uma egrégora que concentra toda força de crescimento e expansão que existe nos Sete Reinos de Quimbanda. Palavras-chave dessa egrégora são:

   Beleza, abundância, prosperidade, expansão, crescimento, opulência e fartura.

11/4/2020: A SIMBIOSE ENTRE O EXU TUTELAR E O ADEPTO DE QUIMBANDA

Seguindo nossa série de vlogs sobre a boa Quimbanda, o tema de hoje é: A Simbiose entre o Exu e seu Adepto. Esse é um dos temas que as pessoas mais pedem para eu falar. A simbiose que ocorre entre um adepto de Quimbanda e seu Exu Tutelar trata-se de um processo de expansão da consciência e refinamento alquímico. No momento da iniciação dois veículos pneumáticos entram em contato efetivamente, o do Exu e o de seu adepto. A iniciação cria um vínculo permanente de ancestralidade espiritual entre o Exu e o feiticeiro-kimbanda. No início desse processo ocorre uma profunda purificação no veículo pneumático do adepto, se ajustando a presença perene do Exu Tutelar. Por isso é normal que o adepto, nas primeiras incorporações, sinta mal-estar, sudorese em excesso, ânsia de vômito ou vertigem. De igual modo, nas primeiras incorporações o Exu pode se manifestar bem trevoso e animalesco. Diferente da Umbanda que diz que nestes estados o Exu ainda está muito involuído, a Quimbanda entende que essa manifestação bruta e densa ocorre porque o Exu ainda não conseguiu utilizar adequadamente todos os aparatos psíquicos que o adepto lhe oferece: os sentidos, a memória e a cognição. Dessa maneira, o processo de simbiose exige um estreitamento de laços por parte de ambos, o Exu e seu adepto. Eles devem, com o tempo, construir uma simpatia energética que os capacite agir em harmonia sincrônica, mental, energética e fisicamente.

   O fenômeno da incorporação expande, gradativamente, a consciência do adepto. Por este motivo, o treinamento mediúnico suplanta a utilização de plantas de poder (quimiognose), cujo objetivo é o mesmo: expandir a consciência. O treinamento mediúnico é, portanto, um exercício de expansão da consciência que, com o tempo, permanece expandida. Um efeito ou produto direto da expansão da consciência é um aprofundamento da mesma. Isso significa que o adepto com o tempo apara as arestas de sua personalidade, tornando-se mais sábio, silencioso, cauteloso, paciente e corajoso, confiante em si mesmo. Medos infundados são aniquilados e gradativamente nasce das profundezas da consciência um estado de bem-aventurança interior, prazer em viver e harmonia com os Sete Reinos de Quimbanda. Este é o resultado do Conhecimento Conversação com o Exu Tutelar.

   Quando não é assim, o adepto está estreitando laços com Quiumbas, não com Exus e Pombagiras.

13/4/2020: EMOÇÕES FRÁGEIS

Seguindo nossa série de vlogs sobre a boa Quimbanda, o tema de hoje é: Emoções Frágeis. Em detrimento do último vídeo que postamos no You Tube, Jornada Espiritual de Quimbanda, achei interessante comentar aqui alguns equívocos de interpretação sobre o que divulgamos. Como pensadores dos arcanos e mistérios da tradição de magia, nós tecemos comentários sobre fundamentos de Quimbanda. Fazer este trabalho, debater a ideia destes fundamentos, não significa atacar ou mesmo condenar qualquer tradição ou pessoa. Nesse caminho, também nos colocamos a revisar algumas ideias dos primeiros autores de Quimbanda, todos eles sendo umbandistas. Não concordar com as ideias desses autores não significa difamá-los. Como pensadores e luciferianos entendemos que papel aceita tudo. Muitas das ideias umbandistas sobre a Quimbanda nestes autores já estão deveras ultrapassadas, não refletindo verdadeiramente a Quimbanda. 

   Finalmente, a questão de revelar fundamentos a não-iniciados. Em nossa tradição de Quimbanda não temos essa obrigação; aqui levamos a luz sobre os nossos fundamentos e não os guardamos apenas a iniciados. Essa é uma característica nossa. Aquilo que é nosso, assim entendemos, damos de graça ou vendemos como queremos, porque é nosso. 

17/4/2020: A BOA QUIMBANDA - FILOSOFIA, MAGIA & FUNDAMENTO

Seguindo nossa série de vlogs sobre a boa Quimbanda, o tema de hoje é: A Prática da Boa Quimbanda: Filosofia, Magia & Fundamento. Por Boa Quimbanda, entenda fundamento que funcionafundamento pensado, hermeticamente e iniciaticamente raciocinadofundamento magisticamente estruturado dentro das Leias da Magia & Feitiçaria. É assim que nós compreendemos o exercício pessoal da feitiçaria tradicional brasileira, a Boa Quimbanda Independente. No vlog de hoje nós tocamos em pontos especiais de forma bem introdutória e nós continuaremos a explora-los nos próximos vídeos com mais requinte de detalhes.

   A questão dos pontos riscados: devemos ou não usar pontos riscados ou rituais de livros? A resposta é: melhor que não! Rituais de livros, seus fundamentos e pontos riscados de Quimbanda fazem parte de uma experiência pessoal de gnose do autor com seu Espírito Tutelar. Por trás de um ritual pronto em livro ou pontos riscados, existe uma cosmovisão pessoal, baseada em princípios particulares e únicos que envolvem cultura, estilo de vida e entendimento de mundo, de metafísica, cosmogonia e cosmologia etc. Esse conteúdo, no entanto, embora seja o pano de fundo de um ritual compartilhado por um autor, não é transmitido nas páginas dos livros. É como os grimórios medievais ou os papiros gregos: blocos de notas pessoais que em verdade não ensinam os fundamentos essenciais para exercício perfeito dos ritos, feitiços e magias neles ensinados. No exercício da magia, nada é melhor do que aquilo que verdadeiramente é nosso. Através do conhecimento e conversação com o Exu Tutelar, nasce o desenvolvimento de uma feitiçaria pessoal, fruto da gnose que ocorre entre o feiticeiro-kimbanda e seu Guia Espiritual.

   Os pontos riscados norteiam a direção que o feiticeiro-kimbanda quer seguir e o objetivo que ele quer conquistar. Existem os pontos riscados que representam a manifestação do espírito, sua assinatura astral, com a qual ele se apresenta para trabalhar. Outros pontos riscados são utilizados para nortear o trabalho mágico que está sendo realizado. O feiticeiro deve conhecer a ciência dos pontos riscados, seus símbolos e locais adequados dentro dos pontos, tanto para reconhecer a presença dos espíritos quanto para saber que caminho eles escolheram para conquistar o objetivo do ritual. Conhecendo, recebendo ou produzindo seus pontos riscados pessoais, o feiticeiro-kimbanda tem mais chances de exito no exercício de sua Quimbanda.

   No caminho dessa discussão, entra a questão da iniciação e do conhecimento e conversação com os espíritos. A grande maioria das pessoas precisa passar pelo curso da iniciação onde um Exu nasce na frente de outro Exu. A partir desse momento inicia-se um profundo processo de transformação alquímica na alma do feiticeiro. Nesse amadurecimento as capacidades mediúnicas/paranormais do feiticeiro começam a se refinar e ele consegue distinguir a identidade dos espíritos que se apresentam nos seus rituais, verificando com proficiência se são àqueles que ele deseja trabalhar ou intrusos tentando atrapalhar todo o processo. Essa era uma preocupação de todos os magos e filósofos do passado: as entidades que se apresentam para trabalhar são em verdade quem dizem ser? Eu cito no vídeo o caso de Jâmblico que, em uma cerimônia teúrgica repreendeu o espírito de um gladiador tentando se passar pelo deus Apolo. Os filósofos do platonismo médio e neoplatonismo se preocuparam com  essa questão profundamente ao ponto de desenvolverem uma especializada demonologia para estudar a natureza e manifestação das deidades diversas. A questão aqui é: Quiumbas e até Eguns são capazes de ensinar magia e servirem de oráculo. O rito de iniciação na Quimbanda garante ao feiticeiro a certeza de tratar com seu Exu e Pombagira, não Quiumbas ou Eguns.

   Nós tocamos nesse assunto porque no exercício pessoal da feitiçaria tradicional brasileira, Quiumbas e Eguns costumam se passar por Exu e Pombagira. Uma experiência pessoal: conheci um suposto mestre de Quimbanda, alcoólatra, obsediado e com síndrome de perseguição, me acusar de lhe enviar demanda. Segundo ele, recebeu a informação de meu Exu tutelar. Eu não enviei a demanda! Então o meu Guia, meu Mestre e meu Encaminhador, se apresentou a esse cidadão e lhe revelou que eu enviei demanda? O nome disso é: obsessão espiritual. Trata-se de um adoentado, obsediado por Quiumbas, alcoólatra, que de diz mestre e feiticeiro curador, segundo ele mesmo, um dos maiores feiticeiros-kimbanda do Brasil. Ditado Quimbanda: Só podemos dar aquilo que temos! Vê o perigo? Até um sujeito que se diz mestre de Quimbanda Cruzada, que se diz ter mais de quarenta anos de experiência, demonstra-se completamente enganado por espíritos maliciosos. Imagina um iniciante...  

   A questão de não-iniciados: no vídeo de hoje eu também toco na questão daqueles poucos que, não sendo iniciados, se comunicam eficientemente com seus Exus e recebem deles a gnose de seu exercício pessoal de Quimbanda. Estes casos são exceções a regra. Pouquíssimos são aqueles que sem iniciação conseguem estabelecer vínculos efetivos com Exus e Pombagiras. No entanto, na grande maioria das vezes esses são taxados de possuírem banda de casa, como se pudéssemos defionir e nesse caminho restringir manifestações espirituais fidedignas. Eu cito no vídeo o caso de um consulente (de Umbanda e Candomblé) que me procurou e que por mediunidade acessou seu Exu Tutelar. Sem iniciação pelas mãos de um sacerdote, este adepto toca sua Quimbanda com os fundamentos que recebe com seu guia e, se sucesso é a prova, tudo o que ele faz dá certo. Seu Guia não quer que ninguém toque no seu assentamento ou lhe ensine outros fundamentos. Da maneira como o Guia ensina tudo dá certo. Você vai falar que ele não é um feiticeiro-kimbanda? Bom, de todo modo, se os teus fundamento não estão funcionando, me desculpe, você não tem gabarito para julgar essa situação!

   E finalmente a questão do oráculo: assim como vamos a pelo menos três médicos para termos avaliações distintas de nossa saúde, para nossa saúde espiritual devemos procurar pelo menos três oraculistas para para ver nossas questões espirituais. Como falei acima, Quiumbas e Eguns também se dignam a prestar serviço oracular. Ter a visão de três oraculistas sobre determinadas questões evita cairmos no erro da espiritualidade fantasiosa ou sermos enganados por zombeteiros diversos.

   Enfim, tratamos de muitos pontos que necessitam de aprofundamento.

18/4/2020: GOÉCIA NA QUIMBANDA

Seguindo nossa série de vlogs sobre a boa Quimbanda, o tema de hoje é, novamente: Goécia na Quimbanda. Este é um tema que produz muitas dúvidas nos meus correspondentes (alunos, amigos, seguidores etc.) e o vlog de hoje esclarece pontos importantes e essenciais.

   Ponto 1. Como disse anteriormente, não deveria ser difícil ver a goécia na Quimbanda, por muitos motivos. Primeiro porque a goécia salomônica como compreendida na feitiçaria popular européia influenciou a gênese do Culto de Exu no Brasil durante o período colonial, quando as feiticeiras ibéricas foram exiladas pelo Santo Ofício português; segundo porque goécia, originalmente, é a arte de lidar com espíritos dos mortos, justamente o que a Quimbanda é, um sistema de feitiçaria que lida com ancestrais divinizados; neste caminho, a Quimbanda trata-se de uma goécia brasileiraterceiro porque a goécia como sistema de feitiçaria segue uma fórmula mágica universal: o feiticeiro entra em contato com um espírito tutelar que o capacita a convocar e imprecar distintas criaturas espirituais, o que inclui almas de mortos e demônios. Essa formula mágica universal encontra-se na Quimbanda, equiparando seu sistema ao modus operandi das principais tradições mágicas do mundo: feitiçaria dos papiros, teurgia neoplatônica, magia salomônica tradicional, xamanismo universal etc.

   Ponto 2.  Demônios não são almas de mortos divinizados. Com o advento da cristandade, inúmeras deidades pagãs, incluindo os ancestrais divinizados de muitos cultos, tornaram-se demônios. Portanto, equiparar, cruzar ou sincretizar um Exu (ancestral divinizado) com demônios escatológicos de grimório medievais é assumir uma cosmovisão cristã. A Quimbanda não assume a cosmovisão cristã. Neste caminho, tanto demônios não são Exus quanto nomes mágicos da metalinguagem judaico-cristã não têm poder dentro da Quimbanda. Na tradição de Quimbanda os Exus e Pombagiras operam sob os auspícios do Maioral de Quimbanda, o Espírito da Natureza, não o Deus judaico-cristão. Na Quimbanda a ideia de Maioral como o Diabo amigo das feiticeiras, aquele que elas realizavam pacto e dançavam no Sabbath, está presente como um adversário de toda corrente espiritual judaico-cristã. É Maioral, como o Diabo das feiticeiras, que dá acesso as diversas deidades, não o Deus judaico-cristão. É um non sense, portanto, utilizar a metalinguagem judaico-cristã (os nomes de Deus, tetragrammaton etc.) em qualquer ritual dentro da Quimbanda para convocar qualquer entidade, incluindo demônios. Como eu esclareço no vídeo, é o Exu Tutelar quem revela e confere autoridade espiritual para conjurar qualquer deidade. É Exu quem abre linha na Quimbanda, não o Deus dos cristãos.

   Os filósofos do médio platonismo e neoplatonismo são aqueles que mais se preocuparam em estudar a natureza das criaturas espirituais, explorando a constituição de seus diversos pneumas em tratados de demonologia. Através de um cuidadoso estudo compreende-se que almas de mortos divinizados têm estrutura de pneuma diferente dos diversos daimones e, principalmente, demônios escatológicos cristãos. Por esse motivo, dentro de um fundamento lógico e baseado estritamente nos arcanos da tradição da magia, é um non sense cruzar/sincretizar Exus com demônios. É um non sense também a ideia de se convocar demônios na Quimbanda utilizando a metalinguagem e cosmovisão judaico-cristã, incluindo o triângulo da arte e os nomes tradicionais nele inscritos para irradiar força no Exu. Ei, preste atenção aqui: Exu é um ancestral divinizado cuja estrutura de pneuma é superior a um demônio. Isso significa que um Exu trata-se de uma criatura espiritual não só superior, mas muito mais poderosa. Não é o demônio que irradia mais poder para o Exu, é o Exu que domina, comanda e controla os poderes do demônio.

   O maior non sense de todos: utilizar a invocação moderna do Não-Nascido dentro da Quimbanda. Veja, essa ideia moderna do Não-Nascido foi criada por Aleister Crowley e disseminada por thelemitas. No entanto, seu padrão descaracteriza a fórmula mágica original. No Liber Samekh de Crowley, a invocação do Não-Nascido trata-se de uma invocação ao Eu Superior, que na época em que foi redigida (1920), ele acreditava ser o Sagrado Anjo Guardião. Uma interpretação equivocada de Crowley. Eu explico detalhes disso em meu livro Corrente 93. O Sagrado Anjo Guardião na fórmula mágica original da Magia de Abramelin segue o padrão original da fórmula mágica pagã, mas dentro de uma cosmovisão e metalinguagem neoplatônica-rosacriciana: um anjo do Corpo de Deus é conjurado para conferir ao mago poderes sobre os diversos demônios, herdando toda estrutura da magia tradicional salomônica. 

21/4/2020: SAGRADO ANJO GUARDIÃO NA QUIMBANDA

Seguindo nossa série de vlogs sobre a boa Quimbanda, o tema de hoje é: Sagrado Anjo Guardião na Quimbanda. Depois do último vlog, alguns feiticeiros-kimbanda me procuraram para eu tecer algumas palavras sobre as seguintes questões: 1. existem sacerdotes/feiticeiros de Quimbanda ensinando a fazer firmeza para o Sagrado Anjo Guardião ou, popularmente, Anjo da Guarda; 2.  existem sacerdotes/feiticeiros de Quimbanda utilizando a moderna invocação do Não-Nascido adaptada para goécia moderna por Aleister Crowley em 1903 e incluída e revisada para sua invocação pessoal do Sagrado Anjo Guardião em 1920. Eu tenho me debruçado sobre este tema do Sagrado Anjo Guardião pelos últimos vinte anos, buscando por sua origem na história da magia. Dessa pesquisa eu produzi muito material: vídeos no You Tube; o livro Corrente 93 que trata do assunto do Sagrado Anjo Guardião dentro do sistema e da filosofia de thelema; e o livro DAEMONIUM que trata do tema do Sagrado Anjo Guardião na cultura universal da magia.   

   A Quimbanda, como genuíno exercício de feitiçaria da Tradição Ocidental de Mistérios, faz uso de uma fórmula mágica de escopo universal, utilizada por culturas mágicas diversas como xamanismo, feitiçaria dos papiros gregos, teurgia neoplatônica, magia salomônica tradicional, o sistema da magia sagrada de Abramelin etc. Essa fórmula mágica de escopo universal pode ser definida nos termos gerais da seguinte maneira:

   1. Busca por aprendizado magístico, que constitui uma preparação para;

   2. A chegada do mestre, que ensina o segredo da magia, que constitui o conhecimento e conversação com o espírito tutelar;

   3. De posse desse segredo e em conhecimento e conversação com o espírito tutelar, executar a magia com proficiência para si mesmo e para terceiros que o procuram solicitando serviços espirituais, comandando espíritos diversos a realizarem tudo o que se deseja;

   4. Ensinar a noviços para seguirem no mesmo caminho, tornando-se mestre deles.

   Essa fórmula mágica é seguida mais ou menos assim nas mais distintas e genuínas tradições mágicas do passado e se define como a busca do espírito assistente para obter dele conhecimento e poder. A Tradição Oculta apresenta vários personagens que ilustram essa busca: Simão o Mago, São Cipriano (ou Cipriano Feiticeiro) e Fausto são exemplos genuínos. Essa fórmula mágica é apresentada ludicamente nas histórias de Salomão o Mago, Fausto e São Cipriano: todos eles se comunicaram com o diabos pessoais que tanto lhes ensinavam magia quanto lhes colocavam em contato com os diversos espíritos da natureza.

   O conhecimento e conversação com o Sagrado Anjo Guardião da magia de Abramelin, ou o contato e a proteção do Anjo da Guarda na tradição católica são revisões neoplatônicas-rosacrucianas-cristãs desta mesma fórmula mágica. E não é diferente na Quimbanda! Essa fórmula mágica está na Quimbanda na relaçãopacto e aliança que o adepto estabelece com seu Exu Tutelar. O Exu Tutelar é o espírito assistente que todos os magos e feiticeiros do passado buscavam nas suas respectivas tradições: o paredros na feitiçaria dos papiros, o daimon pessoal na teurgia neoplatônica, o Sagrado Anjo Guardião na magia de Abramelin. Todos eles agentes de magiaprotetores e guias espirituais, os encaminhadores do Destino de seus adeptos.

   A invocação do Não-Nascido é uma patética versão moderna deste segredo da Tradição Oculta. Como conhecida na magia moderna, essa invocação foi uma revisão feita por Aleister Crowley para invocação do Sagrado Anjo Guardião a partir de um ritual de exorcismo contido nos Papiros Mágicos Gregos. Na visão moderna da  magia o Sagrado Anjo Guardião trata-se de uma entidade subjetiva, compreendida como uma parte superior da consciência, o moderno Eu Superior. E muito embora o próprio Crowley tenha reconhecido esse erro no fim da vida, seus seguidores mantiveram essa interpretação equivocada, perpetuando uma terrível armadilha: o Eu Superior, ao invés do agente mágico espiritual, passou a ser considerado a verdadeira fonte de poder por trás das proezas dos magos; por este motivo os magos modernos passaram a apresentar uma magia de natureza também subjetiva, cujos resultados são traduzidos na linguagem da psicologia moderna ao invés de serem avaliados nas mudanças reais na Natureza, no fenomênico. A magia moderna se esqueceu e tem se esquivado da taumaturgia, o verdadeiro resultado que se espera de um genuíno exercício de magia. A magia opera verdadeiramente mudando a Natureza em detrimento dos desejos dos magos por conta de sua espiritualidade, quer dizer, dos espíritos ou agentes mágico-espirituais com os quais eles estabelecem pactos e alianças. É isso que as histórias de Salomão, Fausto e São Cipriano ludicamente transmitem.

   Na Quimbanda, a feitiçaria tradicional brasileira, o agente mágico-espiritual por trás dos feitos dos feiticeiros é o Exu Tutelar. Ele não se trata de um anjo de Deus, mas uma criatura espiritual que vive no Reino da Geração e está conectada ao Espírito da Natureza. Na linguagem da Quimbanda, almas divinizadas conhecidas como Exus e Pombagiras que trabalham nas Legiões de V.S. Maioral.

1/5/2020: A TRADIÇÃO DOS GRIMÓRIOS & A PRÁTICA SOLITÁRIA DA MAGIA

Uma pergunta sempre frequente que recebo é: posso ser um mago cerimonial ou praticar magia cerimonial sem ser afiliado a uma ordem? Motivado a responder essa indagação frequente, teci algumas palavras na aba de Reflexões hoje, no texto Magia Cerimonial Européia (entrada de 1/5/2020). Motivado pela mesma indagação decidi fazer o vlog de hoje acrescentando algumas reflexões que não coloquei no texto.

   Duas questões de importância vêm a tona quando tratamos da prática da magia cerimonial: a questão das entregas feitas em homenagens aos espíritos e a questão dos sacrifícios propiciatórios a eles destinados. Uma vez que o mago cerimonial conta apenas consigo mesmo, sua intrepidez e autodidatismo, como incluir essas duas práticas arcaicas da magia no exercício pessoal/individual de magia?

   Da mesma maneira que incluímos qualquer matéria! Se o mago deseja fazer um ritual sob determinada influência estelar, ele deverá ter o mínimo de conhecimento astrológico, buscando individualmente estudar astrologia. Se o mago deseja cortar ou fazer oferendas aos espíritos, seria interessante ter iniciações em tradições como a Quimbanda ou o Candomblé, que preservaram e refinaram essas técnicas arcaicas da magia. Tanto o sacrifício quanto as oferendas aparecem nos Papiros Mágicos Gregos.

   Na história da tradição dos grimórios há um hiato de pelo menos quatro séculos sobre a prática de se fazer oferendas  aos espíritos entre os manuscritos mais antigos do Tratado Mágico de Salomão (Hygromanteia) e o Grimorium Verum, um grimório tardio do Séc. XVIII. Tanto a ilustre Chave de Salomão quanto o Grimorium Verum bebem diretamente e foram inspirados no Hygromanteia. Contrario a desinformação generalizada de que a Chave de Salomão foi traduzida do original hebraico, em verdade sua construção foi inspirada no Hygromanteia, um tratado grego de magia bem anterior. Durante a queda de Constantinopla e a derrocada do Império Bizantino, inúmeros manuscritos mágicos gregos foram levados a Itália, quando Constantinopla foi saqueada em 1453. Lá estes manuscritos foram traduzidos para o latim onde as primeiras versões do Clavicula Salomonis circularam por toda Europa até as versões tardias que apareceram sob o título de Chave de Salomão. Somente por volta de 1700 é que aparecem as primeiras versões em hebraico de a Chave de Salomão.

   Oferendas aos espíritos era uma prática conhecida aos feiticeiros, magos e teurgos da Antiguidade. Os inúmeros feitiços dos Papiros Mágicos Gregos, a religião popular grega e a teurgia clássica propunham comunicação com os espíritos através de oferendas e sacrifícios. Por conta de perseguições e a acusação de idolatria, essas práticas foram banidas da tradição da magia por muitos séculos, até aparecer novamente em grimórios tardios como o Grimorium Verum.

   A magia cerimonial hoje através de seus magos praticantes tem procurado restaurar essas antigas práticas arcaicas da tradição da magia. Individualmente os magos cerimoniais têm se aproximado das tradições de Cabala Crioula para adquirirem um conhecimento adequado para inserir o exercício do corte propiciatório e a entrega de oferendas aos espíritos. Nesse caminho, os magos cerimoniais gradativamente têm restaurado a boa e antiga arte da feitiçaria.

2/5/2020: O TRATO DIÁRIO COM EXU E POMBAGIRA

Seguindo nossa série de vlogs sobre a boa Quimbanda, o tema de hoje é: o Trato Diário com Exu e Pombagira. Esse é um tema recorrente que alunos, filhos e seguidores sempre pedem para eu falar, como lidar diariamente com Exu. No vlog de hoje esclareço que não há diferença em lidar com um membro de sua família e Exu; na verdade, Exu é membro da sua família, sendo essa espiritual. Da mesma maneira que lidamos com nossos parentes, pai e mãe, marido ou esposa, filhos e filhas, também lidamos com Exu.

   Na tradição de Quimbanda, disciplinadamente os feiticeiros-kimbanda falam pela manha com Exu antes de falarem com qualquer pessoa. Trata-se de uma disciplina diária individual de alquimia interior e desenvolvimento mediúnico. Pela manha nos levantamos, purificamos o hálito e consagramos a língua com pimenta da costa, cachaça ou outra bebida destilada e sopramos sobre o assentamento de Exu. Em seguida lhe alimentamos com água de fogo, como ensinado em vlog anterior (entrada de 31/3/2020), e nos sentamos a conversar com Exu. Esse é o momento também para empreendermos práticas espirituais psiúrgicas na presença de Exu: meditações, visualizações, exercitamos o silêncio, refletimos sobre nossas ações, emoções e atitudes, ou simplesmente nos sentamos para ler na boa companhia de Exu.

   A oferenda mais comum a Exu é o padê. Da mesma maneira que preparamos um prato de comida para nossos filhos, com zelo, carinho e amor, também o fazemos ao preparar o padê de Exu. Uma pergunta: acaso se eu preparar para você um prato de macarronada com um molho suculento recheado de moedas, búzios e figas, você comerá? Claro que não! Então porque Exu comeria essas coisas? Esses fundamentos são descabidos e melancolicamente non sense; o verdadeiro, genuímo e legítimo padê de Exu não contém moedas, búzios, figas ou qualquer outro elemento que não seja comestível.

   Tratamos disso tudo no vlog!

3/5/2020: O SEGREDO DA GOÉCIA

goécia salomônica é um sistema de feitiçaria conectado a tradição salomônica medieval e opera por meio de uma fórmula mágica conhecida como Conhecimento & Conversação com o Espírito Tutelar. Como tenho demonstrado em diversos escritos, livros e vídeos, essa é uma fórmula mágica de escopo universal, presente em muitas culturas e tradições espirituais desde a aurora do homem. Dentro do que se conveniou chamar de tradição salomônica ou magia tradicional salomônica, essa fórmula mágica apareceu em O Testamento de Salomão, um texto que data dos primeiros séculos de nossa era e é considerado o inaugurador da tradição salomônica. Neste texto Salomão toma e faz do demônio Ornias um servidor mágico. Através de Ornias ele teve contato com uma legião de demônios. Essa é a estrutura da fórmula: um mago conjura um espírito da Natureza e através dele, de seus poderes e autoridade espiritual, convoca outros espíritos da Natureza para todos os fins que desejar. Na tradição da magia, obter o auxílio de um espírito assistente sempre foi um dos requisitos mágicos fundamentais na carreira magística, pois é através dele que o mago obtém acesso a outras criaturas espirituais.

   Dentro da tradição salomônica essa fórmula foi transmitida ao Tratado Mágico de Salomão, no entanto, os magos bizantinos que preservaram muitos dos arcanos mágicos perdidos da Tradição Ocidental de Mistérios, não deram muita atenção a ela, por essa motivo, quando os primeiros grimórios gregos foram traduzidos para o latim, ela manteve-se oculta como um pano de fundo em grimórios salomônicos posteriores como a Chave de Salomão e o Lemegeton. Mas a fórmula está ali, ocultasecreta e fundamental ao exercício proficiente da feitiçaria salomônica. No Lemegeton muitos dos demônios são listados com a qualidade de oferecerem bons familiares para o auxílio do mago. Infere-se por isso que a ideia do espírito tutelar manteve-se viva nos grimórios salomônicos e modernos. Em meu livro DAEMONIUM (No. 1) eu explico a técnica:

A arca de bronze é usada para tornar os demônios cativos e familiares, já o triângulo da arte serve para colocar o demônio em prontidão, uma atitude interna apropriada a servir e trabalhar sob as ordens do mago. Tecnicamente a arca deve ser utilizada antes do triângulo da arte e isso é algo que você não encontrará nos livros modernos que tratam do assunto, mas está em perfeita harmonia com a visão da feitiçaria dos grimórios. O exemplo abaixo ilustrará de forma mais efetiva:

   Imagine que a arca de bronze é um grande curral onde o fazendeiro (mago) coloca os cavalos bravos (daimones) do campo (corpo de Deus) que estavam livres na natureza. O fazendeiro vai lá no ambiente dos cavalos bravos, o campo, e os laça, levando-os a força para dentro do curral. Uma vez dentro do curral, os cavalos bravos são açoitados, amansados, adestrados, treinados e alimentados. Depois que o fazendeiro treinou, adestrou, alimentou e tornou submissos os cavalos do curral, então ele irá selecionar um dentre eles e levará para fora do curral, onde colocará nele uma cela e arreio (o triângulo da arte) e o montará, comando-o a seguir um curso adequado e apropriado aos fins do fazendeiro.

   A arca de bronze, portanto, serve para tornar os daimones [i.e. os demônios] da natureza que não possuem pactos com os homens submissos ao mago que, através do triângulo da arte, os comandará a fazerem a sua vontade. E é por isso que essa goécia ensinada na magia moderna trata-se só de psicurgia e efetivamente não funciona, é a arte dos tolos. Antes de confinar um demônio no triângulo da arte, ele deve ser preparado dentro da arca de bronze. A arca de bronze é o equivalente a lâmpada para aprisionar os djinns dos mulçumanos ou o baú (caixa preta) da feitiçaria crioula.

Mas muito embora essa fórmula mágica do espírito tutelar estivesse oculta na tradição erudita dos grimórios, ela manteve-se viva na feitiçaria popular européia, quando desenvolveu-se a ideia de  demônios como espíritos familiares. A história está repleta de feiticeiras que carregavam a marca do Diabo, a cicatriz do machucado através do qual elas alimentavam seus diabretes. Veja o texto A Herança da Feitiçaria Ibérica na Quimbanda

   Embora seja um ideia pagã, essa fórmula mágica aparece mascarada sob uma cosmovisão neoplatônica-cristã na Magia Sagrada de Abramelin, o Mago. Na magia de Abramelin o mago deve empreender uma dura disciplina para poder obter de Deus o auxílio do Sagrado Anjo Guardião. Uma vez conquistada a meta, por meio do Sagrado Anjo Guardião, seus poderes e autoridade espiritual, o mago conjura diversos demônios para todos os fins. Veja o texto A Goécia de Abramelin.

   A chave de Salomão, o verdadeiro segredo de sua magia, como disse no texto As Origens da Tradição Salomônica (disponível na aba de Artigos, entrada de 3/5/2020), é a autoridade que Deus confere ao mago sobre as criaturas espirituais da Natureza. Essa é uma ideia baseada e desenvolvida a partir do Primeiro Livro de Reis, mas como uma substituta para ideia original do espírito tutelar e do poder magístico das pedras, plantas e metais, que aparece no Tratado Mágico de Salomão. Bom, uma vez que a chave para se executar a feitiçaria goécia salomônica com proficiência é o Conhecimento e Conversação com o Espírito Tutelar (leia-se demônio pessoal), como fazê-lo? Na nota de hoje na aba de Reflexões eu disse:

Muitos praticantes de magia tradicional salomônica com foco na arte da goécia têm dificuldades em saber identificar qual o demônio tem mais afinidade consigo mesmos para obterem sucesso em sua prática. Por falta de magos competentes dispostos a ensinar, muitos praticantes são levados ao erro por selecionarem aleatoriamente demônios da goécia, observando somente as suas especialidades e não a afinidade entre o demônio e o praticante; no entanto, é exatamente isso que proporciona resultados eficazes nas evocações mágicas da goécia: a afinidade entre o mago e o demônio. Esse é um dos motivos, também, porque alguns praticantes têm resultados eficientes com alguns demônios e outros não. Esse é o segredo da goécia: conjurar um demônio que tem melhor afinidade consigo mesmo, com sua personalidade e características pessoais, não a escolha aleatória de demônios. Por meio da configuração do céu no momento de seu nascimento, é possível descobrir quais as hierarquias demoníacas (Reis, Duques, Presidentes etc.) e qual o demônio pessoal mais próximo de você. Dessa maneira, conjurando os demônios que têm mais afinidade com você, será possível obter êxito mais facilmente em um curto espaço de tempo.

É sobre esse tema o nosso vlog de hoje!

8/5/2020: INICIAÇÃO NA TRADIÇÃO DE QUIMBANDA (Parte #1)

Seguindo nossa série de vlogs sobre a boa Quimbanda, o tema de hoje é: Iniciação na Tradição de Quimbanda (Parte #1). A intenção deste primeiro vlog sobre a iniciação na tradição de Quimbanda é falar um pouco de quatro aspectos fundamentais da iniciação: i. o feitio do assentamento; ii. a marcação iniciática do corpo; iii. a mão de faca; iv. a mão de oráculo. A iniciação em uma Boa Quimbanda deve constituir o feitio do assentamento do Exu Tutelar através do qual o feiticeiro-kimbanda irá alimentar seu Exu. Uma iniciação que confere apenas ponto de força (imagens imantadas) aleija o processo de alquimia entre o Exu e seu adepto. O feitio do assentamento é uma representação fiel da zona de poder de atuação do Exu, um portal de comunicação com ele e através do qual se estabelece uma relação alquímica entre o Exu e o feiticeiro.

   A marcação iniciática no corpo estabelece uma conexão profunda entre o Exu e o adepto. Através de fissuras corporais realizadas pelo sacerdote-iniciador em locais especiais, em marmas e sandhis (para usar uma linguagem figurativa tântrica), é estabelecido uma conexão corporal e vívida entre o Exu e o adepto. O sangue que escorre dessas fissuras é entregue diretamente no assentamento do Exu, quando o Pacto com o Diabo é efetivamente realizado.

   A mão de faca é a autorização espiritual conferida ao feiticeiro-kimbanda para sacrificar/imolar animais para seu Exu Tutelar. A partir da iniciação o feiticeiro-kimbanda torna-se um sacrificador e está apto a utilizar sua Faca em sacrifícios diversos aos Exus de Quimbanda.

   A mão de oráculo é uma ferramenta importante. A partir da iniciação o feiticeiro-kimbanda recebe um oráculo através do qual ele se comunicará diretamente com  seu Exu Tutelar e demais Exus e Pombagiras da Quimbanda. A Quimbanda utiliza ossos e búzios como oráculo, mas dependendo do Tatá iniciador ou casa, pode ser conferido também cartas (cartomância) ou tarot.

   No segundo vlog sobre a iniciação na tradição de Quimbanda trataremos dos ebós de iniciação, a mesa das almas, a mesa dos Reinos de Quimbanda e o cruzamento de pemba.

9/5/2020: EXU QUE NASCE IRRADIADO POR DEMÔNIO

Seguindo nossa série de vlogs sobre a boa Quimbanda, o tema de hoje é: Exu que Nasce Irradiado por Demônio. Dando continuidade ao assunto iniciado na aba de Reflexões (entrada de 3/5/2020) onde teci um comentário, no vlog de hoje, a pedido de filhos, alunos e seguidores, decidi também tecer algumas palavras em vídeo. Nas conversas com estes filhos e alunos em grupo fechado após a produção desse vlog, nasceu também a questão da incorporação de demônios. Este é um tema delicado e de interesse também aos praticantes de magia tradicional salomônica e tradições modernas de goécia (thelêmica, luciferiana e satanista).

   A incorporação de deidades diversas é assunto de controvérsias desde a Antiguidade, um período em que o fenômeno era encarado com mais naturalidade, embora criticado por muitos religiosos e filósofos, principalmente aqueles da cultura semita. Mas foi somente após a recessão escatológica cristã/católica das reformas de Santo Agostinho que a incorporação começou a ser perseguida e condenada com mais ênfase no que ficou conhecido como possessão demoníaca. Eu estou tratando disso no texto A Herança da Feitiçaria Ibérica na Quimbanda, ainda em construção aqui no site.

   A possessão por criaturas malignas também é um fenômeno conhecido desde a Antiguidade e uma das proezas requeridas ao feiticeiro é a expulsão (ou exorcismo) dessas criaturas, os demônios. Proeza essa também requerida aos anacoretas cristãos como prova de santidade. Portanto, incorporação de deidades diversas e possessão demoníaca são questões interconectadas desde a Antiguidade na cultura mediterrânea.

   Na Tradição Ocidental de Mistérios (incluindo aqui as diversas tradições de Cabala Crioula e cultura mediterrânea), o fenômeno da incorporação era um requerimento fundamental a estrutura de cultos divinatórios. Na teurgia clássica grega do neoplatonismo médio e tardio (e a religião politeísta greco-romana), tratava-se da inspiração divina, componente central desses rituais divinatórios. O Oráculo de Delfos, por exemplo, é um culto divinatório par excellence cujo eixo central era a incorporação de deuses em sacerdotes e sacerdotisas divinamente inspirados.

   Em De Mysteriis, Jâmblico explica como o fenômeno da incorporação de deidades ocorre por meio de rituais onde se fazia uso de instrumentos musicais, canto de hinos e danças, herança pura do orfismo e ritos pitagóricos. Em meu livro DAEMONIUM (No. 1) eu destaquei a semelhança entre os rituais africanos de tradições de Cabala Crioula, a feitiçaria dos papiros, a teurgia e religião grega.

   No período colonial brasileiro, a incorporação de deidades praticada por inúmeros núcleos religiosos formados pelos escravos como os Calundus baianos e a Cabula capixaba (veja o texto A Tradição de Quimbanda), foi duramente condenada e perseguida a partir do Séc. XVIII, após as Visitações do Santo Ofício no Brasil. Luiz Mott em Feiticeiros de Angola na América Portuguesa Vítimas da Inquisição, reproduz:

A minha presença veio um preto por nome Francisco e por ele me foi dito que como verdadeiro católico e filho da Santa Madre Igreja se vinha denunciar que achando-se uma ocasião no Arraial de São Sebastião, termo desta cidade, e tendo notícia que vários negros e negras estavam fazendo batuques em uma paragem fora do arraial, e por sua curiosidade foi ver as tais danças e viu que o autor das danças era o negro Felix, [de] Cabo Verde,  e que entrou a fazer calundus por arte diabólica fazendo perder os sentidos a uma negra, Maria Angola, escrava de uma mulata, a qual caiu como morta e o tal Felix falava que as almas da Costa da Guiné eram as  que falavam dentro daquela criatura e chegando a ele o tal Felix perguntou a ele denunciante se tinha alguma moléstia no seu corpo ao que lhe respondeu que sentia umas picadas e lhe disse que aquelas picadas lhas faziam as almas da Costa, e que tornasse lá outro dia para o curar, e com efeito foi e achou as mesmas danças de calandus e Felix foi buscar umas ervas e com elas fez umas esfregações no corpo dele e lhe fez perder os sentidos e a vista dos olhos e ouvir dentro do espaço de meia hora e que se não lembra o que fez neste tempo com a tal diabrura porém nunca mais se quis achar o tal ato e se retirou abominando aquelas cousas das quais  tem se arrependido.

O fenômeno da incorporação/possessão ou inspiração divina é quem sabe a maior contribuição da Cabala Crioula a feitiçaria tradicional brasileira. Embora a incorporação/possessão tivesse sido banida da feitiçaria européia na Idade Média e Moderna, as tradições de Cabala Crioula na África não só preservaram a técnica, mas também a refinaram. Aos praticantes de magia a incorporação trata-se de uma técnica fundamental e em verdade, é a invocação levada a proficiência de seu exercício. Em outras palavras, uma invocação perfeita ocorre somente no fenômeno da incorporação. Magos que não incorporam são magos aleijados! Não se trata de ser fã de incorporação, como alguns gostam de postular, mas do entendimento de que a incorporação é o ápice de uma invocação bem sucedida.

   Respondendo aos filhos e alunos de nosso grupo, a incorporação/possessão de demônios sempre fez parte dos temas da tradição da magia. No entanto, no escopo de nossos assuntos sobre a boa Quimbanda, Exus são criaturas espirituais distintas de demônios; portanto, a incorporação/possessão de ambos também é muito distinta. Há àqueles que ainda postulam que a incorporação/possessão de demônios é semelhante a de Eguns diversos, principalmente zombeteiros e obsessores. Na minha experiência não! O aparelhamento de Eguns é muito diferente do aparelhamento de demônios. A força destrutiva de um demônio pode enlouquecer um feiticeiro/médium e a manifestação na incorporação é distinta a olhos nus. 

10/5/2020: PROTEÇÃO MÁGICO-ESPIRITUAL DE EGUNS

Seguindo nossa série de vlogs sobre a boa Quimbanda, o tema de hoje é: Proteção Mágico-Espiritual de Eguns. Eguns são almas de mortos perdidas. Uso esse termo, perdidas, no sentido de almas não deificadas. No texto A Tradição de Quimbanda eu explico:

Eguns: termo que indica diversos tipos de almas de mortos que não passaram por um processo de deificação (iluminação), tendo partido do reino da geração em total ignorância e obscurecimento espiritual. Na feitiçaria tradicional brasileira, o trabalho com Eguns constitui uma cura da ancestralidade pessoal e começa no Rito de Iniciação na tradição de Quimbanda. Em uma das etapas da iniciação, os aprendizes junto ao mestre iniciador alimentam com sacrifícios propiciatórios a mesa/altar ou cáfua dos ancestrais (Eguns) da casa e dos ancestrais familiares do iniciante. A partir desse momento o feiticeiro-kimbanda inicia um processo de conhecimento e conversação com Eguns, primeiro os ancestrais familiares, depois, com experiência, outros tipos Eguns diversos, podendo oferecer-lhes sacrifícios por meio de sua Faca de Egun. O trabalho magístico com Eguns é um dos processos mágicos mais importantes na feitiçaria tradicional brasileira, pois eles constituem a primeira linha de defesa espiritual dos feiticeiros-kimbanda.

Constitui uma etapa fundamental no ritual de iniciação na tradição de Quimbanda a cura da ancestralidade pessoal. Através de um rito de sacrifício propiciatório e alimentação de Eguns familiares e Eguns da casa onde se está iniciando, o feiticeiro-kimbanda tanto resgata quanto apazígua seus ancestrais familiares. Este é um momento também de purificação espiritual, pois Eguns diversos, obsessores e zombeteiros, são banidos ou apropriados para o trabalho magístico.

   Exus e Pombagiras comandam legiões e hordas de Eguns. Na tradição de Quimbanda os feiticeiros são treinados em convocar e se apoderar de Eguns para diversos fins: saúde, guerra/proteção, alquimia etc. Constitui um trabalho magístico genuíno, desde os primórdios da magia, comunicar-se com almas mortas para todo e qualquer fim de feitiçaria. Na Tradição Ocidental de Mistérios essa prática ficou conhecida como necromanciaNo texto A Tradição de Quimbanda eu explico:

Necromancia: Este é o nome técnico que a Tradição Oculta dá ao tráfico com espíritos dos mortos para fins de magia e divinação. O termo nigromancia é uma designação (e deturpação) moderna de necromancia e foi utilizado na Idade Média para se referir a todo tipo de arte das trevas, principalmente a convocação de demônios. Nigromancia é a combinação de duas palavras: a hebraica nigar, que significa coletar, acumular, colecionar; e a grega manteia, quer dizer, mancia como um incenso específico para convocação de demônios. O termo mancia como incenso para convocação de demônios é pouco conhecido, sendo seu significado mais usualmente conectado a divinação. Necrurgia é um termo moderno que designa o contato com os mortos para os fins únicos de magia. No entanto, o termo necromancia abrange todas estas designações e inclui o tráfico com mortos tanto para magia quanto para divinação.

No vlog de hoje tratamos deste tema e esperamos esmiuçar ele em outros textos e vídeos.

11/5/2020: O CORTE - TEURGIA NA QUIMBANDA

Seguindo nossa série de vlogs sobre a boa Quimbanda, o tema de hoje é: O Corte: Teurgia na Quimbanda. A imolação de animais em sacrifícios as deidades diversas é uma prática teúrgica conhecida desde os primórdios da humanidade. Eu explorei o tema com detalhes nos artigos Teurgia, Goécia & Quimbanda A Faca & o Corte: Teurgia na Quimbanda, disponíveis na aba de Artigos e na nota tecida na aba de Reflexões (entrada de 29/3/2020). O vlog de hoje é uma extensão desde conteúdo disponibilizado anteriormente, com foco na deificação ritualística dos animais sacrificados. O processo primeiro é esclarecido nos termos da teurgia clássica neoplatônica, estabelecendo uma ponte entre os métodos da teurgia grega e os métodos da feitiçaria tradicional brasileira.

13/5/2020: MÃO DE ORÁCULO NA QUIMBANDA

Seguindo nossa série de vlogs sobre a boa Quimbanda, o tema de hoje é: Mão de Oráculo na Quimbanda. Esse vídeo é uma extensão, não uma continuação, do vlog Iniciação na Tradição de Quimbanda #1 (entrada de 8/5/2020). Ele nasceu das indagações de alguns alunos e filhos de nossa casa.

   A mão de oráculo ou a marca do oraculista é transmitida ao iniciante no momento da iniciação. O sacerdote iniciador transfere ao iniciante a virtude do oráculo. Dependendo da casa, ao iniciante pode ser transmitido o Oráculo de Ossos, o Cauris de Exu ou outros oráculos como Èrìndílógún ou cartas como Baralho Cigano. Embora as cartas não sejam efetivamente da tradição de Cabala Crioula, há sacerdotes de Quimbanda que as usam. O Èrìndílógún é muito utilizado em casas de Quimbanda Cruzada e Quimbanda Tradicional que também adotam o Culto aos Òrìṣàs. Como falo no vídeo, a cultura se movimenta e trata-se de uma ignorância afirmar que oráculo de Quimbanda é apenas este ou aquele. No Terreiro Cova de Cipriano Feiticeiro nós transmitimos na iniciação o Cauris de Exus, utilizado para comunicação com o Exu Tutelar, atuação magística dos Exus nos Reinos de Quimbanda, descoberta do Exu Tutelar de consulentes etc. Tudo o que envolve a magia e o sacerdócio do Culto de Exu pode ser mapeado pelo Cauris de Exu. O espírito tutelar do Cauris de Exu é o Exu Tutelar do feiticeiro-kimbanda. O Èrìndílógún e o Oráculo de Ossos têm seus espíritos tutelares também; estes devem ser assentados caso o iniciante, no curso da iniciação, queira receber estes dois oráculos em nossa cada também.

   No vlog de hoje tratamos disso!

15/5/2020: JOGO DE BÚZIOS - O DOGMA DOS SETE ANOS

Seguindo nossa série de vlogs sobre a boa Quimbanda, o tema de hoje é: Jogo de Búzios: o Dogma dos Sete Anos. Essa é uma das questões deveras debatida hoje no contexto das tradições de Cabala Crioula que nasceram no Brasil (como o Candomblé) e àquelas oriundas diretamente da África (como o Culto de Ifá). No vlog de hoje esclareço que os sete anos pré-determinados para se tornar um oraculista através do jogo de búzios é um dogma criado no Brasil pelos sacerdotes e sacerdotisas do Candomblé. Algumas tradições do Culto de Ifá, como aquela oriunda de Cuba, sustentam um ano de preparo sacerdotal. Seja como for, este dogma foi criado no início dos primeiros terreiros de Candomblé como um meio de sustento das primeiras sacerdotisas e sacerdotes que, na condição de ex-escravos, necessitavam de sustento.

   Isso é completamente compreensível. Hoje, com a cesso a informação e facilitação de participação nestes cultos, temos muito material de pesquisa para sabermos de onde vem certos dogmas construídos ao longo de gerações. De qualquer foma, estes dogmas não se sustentam na Quimbanda. A boa Quimbanda, na verdade, não estabelece dogmas como estes.

   No vlog de hoje tratamos disso!

16/5/2020: CULTO AOS ANCESTRAIS FAMILIARES NA QUIMBANDA

Seguindo nossa série de vlogs sobre a boa Quimbanda, o tema de hoje é: Culto aos Ancestrais Familiares na Quimbanda. Constitui uma tarefa fundamental na construção de uma espiritualidade pé no chão a cura da ancestralidade familiar. A tradição de Quimbanda se fundamenta sobre o culto de ancestrais divinizados, as almas deificadas que reconhecemos como os Poderosos Mortos, os Exus e Pombagiras da feitiçaria tradicional brasileira.

   Em respeito a ancestralidade espiritual da tradição de Quimbanda, no Ritual de Iniciação nós os adeptos nos apresentamos diante dos Poderosos Mortos tendo respeitosamente saudado e venerado os nossos ancestrais familiares primeiro, dando início ao processo de cura ancestral, requisito para edificar com proficiência o conhecimento e a conversação com os Poderosos Mortos

   Desde o Ritual de Iniciação na Quimbanda inicia-se um processo de cura espiritual com os ancestrais familiares, os Eguns que compõem a primeira linha de frente de ataque e defesa do feiticeiro-kimbanda. Na iniciação os ancestrais familiares do iniciante são convocados e alimentados com sacrifício propiciatório. A partir daí inicia-se um profundo processo de cura na ancestralidade familiar do feiticeiro-kimbanda. As almas mortas de seus familiares médicos, soldados, professores etc., todas podem auxiliar o feiticeiro nas suas áreas de atuação enquanto vivos. Uma série de procedimentos magísticos são praticados pelo feiticeiro-kimbanda para cultuar e venerar os mortos de sua família. Muito dos problemas que temos na vida, na verdade, a maioria deles, vêm de uma espiritualidade ancestral mal resolvida. Problemas financeiros, psicológicos, emoções doentes e a mente desequilibrada, falta de tato e problemas nos relacionamentos interpessoais, podem ter sua causa em uma ancestralidade adoentada. Com a força e o poder dos Poderosos Mortos, os feiticeiros-kimbanda podem organizar e curar a ancestralidade familiar.

   Muitos chegam na Quimbanda com profundos problemas familiares. Para seguirmos com firmeza no propósito de Alquimia Negra na feitiçaria tradicional brasileira, estes problemas são tratados e sanados, criando profunda harmonia familiar.

   Uma das riquezas da Quimbanda é o Resgate de Eguns. Através de procedimentos magísticos, Eguns atormentados e obsessores zombeteiros de todos os tipos podem ser resgatados para trabalhar sob a tutela dos Poderosos Mortos. São Eguns Familiares, não prisioneiros como propõem alguns; eles se tornam parte da família espiritual do feiticeiro.

   No vlog de hoje tratamos disso!

17/5/2020: E A BRUXA CRISTÃ?

Hoje o nosso tema é sobre a Bruxa Cristã. Uma bruxa poder ser cristã? A bruxa pode ser o que ela quiser ser! Em seu livro Bruxaria Apocalíptica (Penumbra Livros, 2017), Peter Grey afirma que as bruxas sempre lutaram ou se opuseram a Igreja, defendendo a ideia de que ser bruxa a impossibilita de ser cristã, de que é um non sense ser bruxa e ao mesmo tempo cristã. Este livro de Grey é ótimo em muitos sentidos, no entanto, eu e a história da feitiçaria na Europa descordamos dessa ideia.

   Os caçadores de feiticeiras na Idade Média e Moderna, os inquisidores, foram inspirados, doutrinados e treinados a caçar as feiticeiras através dos manuais de demonologia desenvolvidos na época como o Martelo das Feiticeiras (1884) de Heinrich Kraemer e James Sprenger. É interessante notar que o Santo Ofício de Portugal, diferente dos julgamentos em outras partes da Europa, foi peculiar na sua caça as bruxas. Os inquisidores buscavam pela participação no sabá, a marca e o pacto com o Diabo. No entanto, o que eles encontraram foram feiticeiras que cruzavam o divino com o profano em suas conjurações, Deus e o Diabo convocados de mãos dadas para auxiliarem as demandas das feiticeiras. Jake Stratton-Kent em seu livro The Testament of Cyprian the Mage (Scarlet Imprint, 2014) fala sobre esse fenômeno na feitiçaria popular européia:

A maioria dos métodos e técnicas usados pelas bruxas dos tempos antigos tem pouca semelhança com aqueles usados pelas bruxas neopagãs de hoje. Muitas vezes o povo astuto praticava a observância da fé dual e os encantos, amuletos, orações e encantamentos que eles usavam invocavam Jesus, a Virgem Maria, a Trindade e a companhia dos santos. Os salmos eram usados para propósitos mágicos como feitiços e ainda estão em alguns círculos de feitiçaria tradicionais modernos. Com a chegada da nova fé do cristianismo e a supressão das antigas religiões pagãs, objetos como crucifixos, medalhões dos santos, a hóstia e a água benta foram amplamente usados pelos magos populares porque acreditavam possuir «virtude» ou energia mágica e poder de cura inerente. O simbolismo cristão era usado em rituais de magia popular envolvendo proteção psíquica, contra-magia e cura. Muitos dos antigos encantos pagãos foram cristianizados e alguns dos santos assumiram os atributos anteriores de deuses e deusas pagãos. As nascentes sagradas, anteriormente dedicadas às deusas, por exemplo, eram voltadas para a Virgem Maria ou para as mulheres, como Winefrede ou Bride. Os encantos de cura substituíram os nomes das divindades pagãs, como Woden, Loki e Thor, pelos de Deus, de Jesus e do Espírito Santo. Muitos dos grimórios [medievais] usados pelas bruxas e praticantes da magia popular também continham inevitavelmente o simbolismo judaico-cristão.

   Algumas bruxas tradicionais modernas ainda seguem a observância da fé dupla usando os salmos para propósitos mágicos, trabalhando com a companhia de santos e empregando imagens cristãs, simbolismo e liturgia, muitas vezes de maneira herética e subversiva. A bruxa neo-pagã fala de maneira que não prejudique ninguém, enquanto que a bruxa tradicional moderna – em comum com as astúcias das bruxas do passado – pode tanto curar quanto amaldiçoar quando surgir a necessidade. Aqui a magia, enquanto cristã, é indubitavelmente autêntica, e não um renascimento romântico. Práticas semelhantes podem ser encontradas no Vodu, Hoodoo, Santeria, Macumba, Ju-ju e Obeah nas Américas e na África. Um modelo católico do universo, incluindo o céu, o purgatório e o submundo, influenciou a aceitação congolesa e o uso do catolicismo em suas práticas mágicas, como Palo Mayombe. É tão útil na necromancia ocidental.

Então, discordando de Grey e dos movimentos que caluniam a prática da feitiçaria aliada a cosmovisão cristã, as bruxas têm feito este casamento desde o passado.

   Atenção aqui: este vlog e texto de apresentação não fazem apologia ao cruzamento da feitiçaria e do cristianismo, como digo no vídeo, isso é pessoal. No entanto, o vlog e seu texto de apresentação fazem apologia a liberdade individual de seguir ou praticar o que se quer do jeito que se quer!

   No vlog de hoje tratamos disso!

26/5/2020: A FEITIÇARIA CIPRIÂNICA

Seguindo nossa série de vlogs sobre a boa Quimbanda, o tema de hoje é: A Feitiçaria Cipriânica. O vídeo acompanha o texto inserido hoje no site, disponível na aba de Artigos. Como menciono no início do vlog, o artigo será revisado em breve, mudando a expressão Conhecimento & Conversação com o Sagrado Anjo Guardião para Conhecimento & Conversação com o Espírito Tutelar, que provê uma interpretação mais universal, pois o uso do termo Sagrado Anjo Guardião está diretamente associado a uma cosmovisão rosacruciana/neoplatônica/cristã. O material do vídeo acrescenta, portanto, uma noção do tema para dentro da Quimbanda.

   Em vlog anterior (entrada de 1/4/2020) eu afirmei que toda tradição de Quimbanda é cipriânica. Eu venho esclarecendo de forma bem objetiva qual é a herança cipriânica que existe na Quimbanda, muitos de seus aspectos e nuances ocultos. O elemento cipriânico mais importante na Quimbanda é o Conhecimento & Conversação com o Espírito Tutelar, quer dizer, o Exu Tutelar em conexão com o feiticeiro-kimbanda.

   No artigo inicio com uma passagem de Humberto Maggi: Cipriano deveria, em princípio, ser entendido como um guia para aquela experiência maravilhosa quando o feiticeiro finalmente alcança o conhecimento e conversação com seu espírito patrono. A história ou mito de São Cipriano espelha a busca fundamental de todos os magos e feiticeiros, um arcano de iniciação tão antigo quanto a própria história da magia, o contato com o espírito tutelar. Esse arcano de iniciação está inserido na Quimbanda, o que comprova que ela faz parte e, assim trata-se de um genuíno culto de mistérios inserido na Tradição Esotérica Ocidental.

   É sobre este tema que tratamos no vlog.

 

28/5/2020: DIVINAÇÃO, ORÁCULO & TEURGIA NA QUIMBANDA

Seguindo nossa série de vlogs sobre a boa Quimbanda, o tema de hoje é: Divinação, Oráculo & Teurgia na Quimbanda. O presente vídeo é uma extensão do tema publicado na aba de Reflexões aqui do site (entrada de 27/5/2020) com o mesmo título, como uma defesa da Quimbanda em virtude de uma visão deturpada compartilhada e disseminada em círculos ocultistas de neo-hermetismo e magia moderna (se estendendo a organizações iluministas com o a Maçonaria). Esses círculos ocultistas neo-herméticos levantam contra a Quimbanda a acusação de baixa magia e culto de aprisionamento espiritual. Isso é mentira! Isso é ignorância total acerca da Quimbanda e sua fórmula mágica de iniciação. Sendo a Quimbanda um culto iniciático de deificação (divinização) da alma da ou afiliado a legítima tradição ocidental de mistérios, como pode ela ser baixa magia?

   A tradição de Quimbanda ou feitiçaria tradicional brasileira é o resultado de uma confluência de correntes filosóficas e herdeira de uma prática mágica de escopo universal. Na Quimbanda encontramos exercícios genuínos de feitiçaria (goécia) e teurgia presentes em tradições arcanas do passado como as religiões e cultos gregos, romanos, egípcios, caldeus e africanos, bem como do xamanismo paleolítico e tribal universal. A ancestralidade espiritual da Quimbanda é composta por espíritos de antigos magos, feiticeiros, alquimistas e sacerdotes das distintas correntes mágico-culturais que alimentam a tradição: bruxas europeias, xamãs e guerreiros ameríndios, feiticeiros africanos, ciganos, sacerdotes persas, egípcios e do Oriente Médio. A Quimbanda é a mais legítima e fiel tradição de feitiçaria do Brasil.

   O vídeo de hoje e o texto de ontem (24/5/2020 na aba de Reflexões) coloca ênfase no aspecto oracular da Quimbanda! Por Oráculo (com letra maiúscula), a Quimbanda entende a mensagem divinizada trazida pela presença divina nas deidades Exu e Pombagira. Isso não é novo na tradição da magia; não é novo também na Quimbanda. O Oráculo, entendido como tal, foi o cerne de muitos cultos de mistérios do passado, altamente preocupados com a divinização da alma. O Oráculo, quer dizer, a presença total da deidade na consciência do adepto (médium), satura sua alma ao ponto de divinizá-la; por esse motivo, a tradição de Quimbanda entende que o Conhecimento & a Conversação com os Poderosos Mortos constitui o exercício fundamental de deificação da alma. É nesse sentido que anteriormente eu afirmei que o mago que não incorpora é um mago aleijado, pois a possessão daimônica constitui a prática fundamental de divinização da alma nos cultos de mistérios do passado. Desse modo, ser fã da incorporação ou possessão daimônica é ser  da deificação da alma.

   O oráculo (com letra minúscula) constitui a ferramenta (jogo) através do qual o feiticeiro se comunica com as deidades; através do jogo o feiticeiro treina e refina sua conexão com as deidades. A evolução no jogo, a conexão íntima estabelecida com ele, constitui um rico e profundo processo de iniciação. O jogo é, portanto, uma ferramenta teúrgica de comunicação oracular divinizada.

   É sobre este tema o vlog de hoje.

 

31/5/2020: O BLOQUEIO AO OFICIO SACERDOTAL DO SACRIFÍCIO

Seguindo nossa série de vlogs sobre a boa Quimbanda, o tema de hoje é: O Bloqueio ao Ofício Sacerdotal do Sacrifício. Devido a um longo processo de desconstrução, depreciação, acusação e perseguição, o ofício sacerdotal de sacrificador, antes nas tradições arcanas e cultos de mistérios do passado um posto espiritual elevado, foi pejorativamente taxado como primitivo, prática cultural animalesca e diabólica. A Igreja construiu sua teologia roubando e reinterpretando práticas pagãs primitivas, ao mesmo tempo condenando e perseguindo as culturas das quais roubavam seus mistérios. Durante séculos de expansão e colonização cultural, a mente religiosa ocidental construiu dogmas profundos contra a imolação sacrificial. A expansão disso na tradição da magia produziu magos avessos ao Corte, negando a ancestralidade espiritual dessa prática e ao mesmo tempo desenvolvendo ideias absurdas como esta: os magos que fazem sacrifícios de imolação propiciatória perderam seu contato com os «verdadeiros mistérios». Quem diz uma tolice como essa tem de pensar duas vezes antes de se dizer xamã/feiticeiro. São os magos modernos influenciados pelas ideias renascentistas e iluministas, profundamente cativos de uma cosmovisão idealista judaico-cristã, que perderam a conexão com os mistérios do passado. A feitiçaria tradicional brasileira (Quimbanda) vai à contra-mão desse processo e resgata uma herança mágica ancestral, o que faz dela e a alinha Tradição Ocidental de Mistérios.

     Desde a Antiguidade filósofos e teurgos debatiam a questão do sacrifício. A condenação do sacrifício não foi invenção cristã; os anacoretas cristão apenas tomaram para si essa discussão e produziram respostas teológicas que invalidam a imolação sacrificial. Espero poder apresentar no futuro uma discussão profunda acerca do sacrifício. Bem, o resultado na mente de muitos que se interessam pela Quimbanda, a questão do sacrifício, portanto, torna-se um empecilho.

   É sobre este tema o vlog de hoje.

 

2/6/2020: OKUTÁ & O CULTO DE EXU

Seguindo nossa série de vlogs sobre a boa Quimbanda, o tema de hoje é: Okutá & o Culto de Exu. O coração do Culto de Exu, a Quimbanda, é o Okutá, a pedra fundamental sobre a qual se edificará todo o trabalho espiritual. Como a tradição de Quimbanda recebe o influxo cultural de outras tradições como o xamanismo africano e o xamanismo ameríndio, distintas técnicas ou fundamentos foram desenvolvidos acerca do Okutá. Assim, diferentes pedras podem ser usadas como o Coração de Exu: a pedra yangí, muito importante na cultura yorubá/nagô; a pedra vulcânica ou pedras de todos os tipos na natureza,* reconhecidas como masculinas e femininas. A obtenção do Okutá constitui uma jornada espiritual de iniciação, um exercício magístico presente em muitas tradições arcanas do passado; o feitio do assentamento de Exu é a culminação dessa jornada.

   O vlog de hoje aborda a ideia do Culto de Exu fora do contexto da iniciação como um treinamento ou preparação para este rito de passagem e renascimento. Essa preparação ou culto preliminar a iniciação é feita sobre o Okutá e constitui um trabalho alquímico com Exu. 

   [*Nota]: No vídeo eu afirmo que a tradição de se buscar pedras na natureza vem mais da Quimbanda Cruzada; não é bem assim: é uma prática encontrada em muitas tradições de Quimbanda (com o a Kimbanda Malei) e outras culturas de xamanismo/feitiçaria. 

 

5/6/2020: A JORNADA DO OKUTÁ

Seguindo nossa série de vlogs sobre a boa Quimbanda, o tema de hoje é: A Jornada do Okutá. Eu sempre dou ênfase ao fato de que a tradição de Quimbanda repete as mesmas práticas arcaicas da feitiçaria encontradas nas culturas bantu e yorubá africanas, no xamanismo ameríndio (e universal, paleolítico e tribal), na tradição ibérica da magia (cipriânica popular européia) e nos cultos de mistérios da antiga tradição hermética. A riqueza cultural e espiritual dessas correntes mágico-iniciáticas fluíram e alimentaram a Quimbanda em seu primeiro e segundo momentos (veja o texto A Tradição de Quimbanda). A identidade espiritual do Brasil foi forjada a partir de uma grande confluência cultural. Filha dessa genuína identidade nacional alinhada as tradições arcanas do passado, nasceu a feitiçaria tradicional brasileira. A Quimbanda nasceu e cresceu, portanto, como o homem que resgatando a sua ancestralidade no mais recôndito e distante passado, curou a sua própria alma.

    Um exercício iniciático que a Quimbanda repete e que é encontrado nas tradições do passado é a jornada espiritual. A jornada espiritual é uma fórmula mágica que fundamenta e constrói estruturas coesas e sólidas para frutificação e o desenvolvimento de uma espiritualidade pé no chão, alinhada a sabedoria arcana ancestral. Em antigas culturas xamânicas a saída para jornada espiritual representava um rito de passagem onde o peregrino deveria retornar transformado: se saiu adolescente, ele deveria retornar homem; se saiu um profano, ele deveria retornar um iniciado; se saiu inapto a comunicar-se com espíritos, ele deveria retornar de posse de um espírito tutelar. A Jornada do Okutá é a busca para encontrar o coração do Culto de Exu, a pedra sobre a qual se erguerá todo o culto. 

 

6/6/2020: A BOA QUIMBANDA

Seguindo nossa série de vlogs sobre a boa Quimbanda, o tema de hoje é: A Boa Quimbanda. Eu sempre afirmo que não há nada de novo na Quimbanda. Ela, como um genuíno culto afiliado e participante da Tradição Ocidental de Mistérios, não inventou suas técnicas. Em uma postagem recente eu disse: A tradição de Quimbanda não inventou suas tecnologias mágicas; ela repete as mesmas técnicas de feitiçaria das tradições arcanas do passado. Herdeira genuína dessas tradições antigas, a Quimbanda funciona porque ela preservou e refinou suas técnicas. A Quimbanda é o sumo concentrado do xamanismo ameríndio e teurgia africana, da feitiçaria ibérica e dos cultos de mistérios da Antiguidade.

   As conexões que proponho entre a Quimbanda e os cultos de mistérios da Antiguidade são, na verdade, uma ponte que crio entre o passado e o presente. Primeiro para demonstrar apenas que a Quimbanda preserva e explora as mesmas técnicas de teurgia e goécia de culturas arcaicas da Tradição Oculta; segundo porque é olhando para o passado, para o legado deixado por nossos antepassados, que podemos enxergar com clareza o futuro na cura de nossa alma que ocorre no presente. Então a Quimbanda é um resgate da magia e feitiçaria de nossos ancestrais, das doutrinas que eles propuseram e dos resultados que eles conquistaram. Nossos ancestrais passaram por todos os dilemas que nós hoje estamos passando. Repetindo o exercício que eles fizeram para transcender estes dilemas de ontem e hoje, temos mais chances de seguirmos em harmonia e comunhão.

   O vlog de hoje explora essa ideia da seguinte maneira: a Boa Quimbanda trata-se do Culto de Exus e Pombagiras, sem misturas torpes como as ideias de Exu nascer irradiado por demônios ou a convocação de demônios para dar mais força a Exus. Isso é uma completa deturpação dos arcanos mágicos da Quimbanda. Aceitar ideias incongruentes como estas denigre a grandeza espiritual da Quimbanda e sua originalidade. No vídeo eu também toco no ponto repetido das Sete Linhas fantasiosas e delirantes de Quimbanda. Aceitar as Sete Linhas de Quimbanda criadas por elucubrações umbandistas da década de 1940 é aceitar a cosmovisão de Umbanda dentro da Quimbanda. Pode ter sido verdade para alguns por um tempo que a Quimbanda veio da Umbanda; no entanto, hoje já temos material de pesquisa abundante que demonstram que a espiritualidade de Quimbanda sempre foi distinta daquela que alimenta a Umbanda e que Exu é verossimilmente de Quimbanda, não de Umbanda. Agora, a questão de Exu cruzando linha na Umbanda, no Santo Daime, no Catimbó e até no Candomblé, embora isso ocorra, é tema para explorarmos em outro vlog ou reflexão aqui no site.

   A Boa Quimbanda não faz sincretismo entre Exus e demônios, não convoca demônio para irradiar Exu, tem sua cosmovisão própria e não aceita ideias umbandistas dentro do sistema como a fantasia das Sete Linhas.  

8/6/2020: MEDICINAS DA FLORESTA, MEDIUNIDADE & CONEXÃO COM O EXU TUTELAR

Seguindo nossa série de vlogs sobre a boa Quimbanda, o tema de hoje é: Medicinas da Floresta, Mediunidade & Conexão com o Exu Tutelar. Ser um médium de Quimbanda é ter a capacidade de ampliar a consciência e deixar que uma deidade, Exu ou Pombagira, isole completamente o Ego (o centro da consciência) e se aposse totalmente dela. Esse é o objetivo de uma genuína invocação: ser possuído pela deidade invocada. Para tal é necessário desenvolver essa capacidade paranormal (mediúnica), a de ampliar a consciência ao ponto de deixar um espírito penetrá-la e operar livremente nela. Este é, de fato, o mecanismo de iluminação espiritual (deificação da alma) par excellence.

   O uso de medicinas da floresta (ou plantas de poder) é eficaz para o exercício de treinamento de ampliação da consciência. Neste caminho de cura e comunhão ancestral, o trabalho das plantas de poder é expandir a consciência até que o médium tenha condições de fazê-lo por si mesmo. Embora o uso de medicinas da floresta esteja mais no contexto do xamanismo (tradicional e urbano) e não nas tradições de de cabala Crioula presentes no Brasil, para àqueles conhecedores é incontestável que o uso de plantas de poder auxilia no refinamento e aprimoramento da paranormalidade e capacidade de incorporação.

   A incorporação é a melhor forma de conhecimento e conversação com o Exu Tutelar. Ser capaz de deixar que o Exu Tutelar se aposse da consciência é receber dele a totalidade de suas virtudes, tão necessárias a deificação da alma e admissão as Falanges de V.S. o Maioral de Quimbanda.  

30/6/2020: INICIAÇÃO NA QUIMBANDA - PRIMEIRO PASSO

Seguindo nossa série de vlogs sobre a boa Quimbanda, o tema de hoje é: Iniciação na Quimbanda: Primeiro Passo. A iniciação na Quimbanda trata-se de uma afiliação espiritual a uma família de espíritos. O primeiro passo é saber se o candidato será aceito nessa família de espíritos e, se sim, qual o seu Exu e Pombagira Tutelares. Isso é feito através de uma consulta espiritual com os sacerdotes do templo ou terreiro onde se busca a iniciação. Os guias espirituais do candidato são confirmados não apenas por um sacerdote, mas pelo menos por dois em nosso terreiro.

  Este é o tema de nosso vlog.

FERNANDO DE LIGÓRIO

Fernando de Ligório é um hermetista praticante, escritor interessado em Teurgia Neoplatônica, Tradição Salomônica e dos Grimórios, Magia na Antiguidade, Cabala Crioula (Quimbanda), Feitiçaria, Bruxaria e Magia Negra (Caminho da Mão esquerda), Filosofia, Yoga, Tantra, Āyurveda e Xamanismo. Fernando de Ligório se interessa em preservar a Tradição Ocidental de Mistérios (ou Tradição Oculta da Magia) através de seus cursos, palestras, assessoria espiritual e consultas.

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